O fato
moral
Por Jacques Leclercq
Os
preceitos morais são distintos dos preceitos sociais e dos religiosos, embora
os três estejam relacionados. Neste artigo – o primeiro capítulo do seu livro As
grandes linhas da filosofia moral –, o Autor define com clareza o que é
propriamente moral, sem deixar de afirmar que na personalidade equilibrada a
religião, a moral e as normas de convivência estão plenamente harmonizadas.
Quando se quer refletir
sobre a moral, pode-se partir de pontos de vista muito diversos. Escolheremos
partir da moral considerada como fato.
Não quer dizer que a
moral não seja uma teoria, uma regra e uma verdade. Sendo, porém, regra e
verdade, é a moral, ao mesmo tempo, um fato e fato humano, neste sentido: é um fato
que os homens admitem uma verdade moral. Entre os fatos humanos, existe um
que é chamado moral, do mesmo modo que fato é a física, como também as
matemáticas, a Filosofia e a religião. Fora da questão de saber se tal ou tal
moral é verdadeira, ou de saber qual é a verdade moral ou a verdadeira regra
moral, impõe-se-nos um fato: os homens admitem uma regra moral, crêem nela, e
pouco importa que nela tenham refletido ou não. O fato moral, isto é, o fato de
crer numa regra moral, é um fato humano. Onde quer que encontremos homens,
achamo-los de posse duma moral, isto é, crendo numa moral.
Parecem decisivas, a
este respeito, as pesquisas da etnologia contemporânea. Encontra-se o fenômeno
moral até entre os povos mais primitivos. Podem-se precisar os elementos
essenciais tais quais se apresentam à primeira vista? O fenômeno moral é,
essencialmente, fato que encerra aprovação ou censura. Certos atos despertam
sentimento de aprovação, de estima, até de entusiasmo, enquanto outros excitam
a reprovação, o desprezo, a indignação. Em regra geral, só se aplica o
sentimento moral aos atos humanos, e está ele ligado à intencionalidade do
ato, ficando, embora, sob certos aspectos, independente dela no sentido que a
moralidade, ou o caráter moral do ato, depende do fato de ser este feito por um
agente livre, que obra voluntariamente com uma intenção, mas que, ao mesmo
tempo, o valor moral não depende da livre vontade deste agente. Tem o ato um
valor moral em si,
independente da livre vontade do agente, embora, ao mesmo tempo, seu caráter de
moralidade venha do fato de ser seu autor um agente livre. Tudo isso, que é
assaz complicado, dá lugar, nas morais primitivas, a não poucas confusões e
suscita, ainda, problemas delicados nas morais refletidas, construídas
racionalmente.
Ao sentimento de estima
e de censura, característico do fenômeno moral, corresponde o sentimento dum
constrangimento interior, que leva o homem ao respeito da lei moral, sem,
contudo, determiná-lo do mesmo modo que as causas físicas. Este constrangimento
interior não determina necessariamente o ato, mas traz consigo um sentimento de
satisfação ou um sentimento penoso, conforme se obedece ou não a ele.
IMPERATIVOS
MORAL, SOCIAL E RELIGIOSO
Manifesta-se, pois, a
moral por um imperativo que se exprime em preceitos; este imperativo é
acompanhado dum constrangimento interior; devo fazer isto, devo evitar aquilo;
sofro uma pressão interior que me inclina a conformar minha ação com o
preceito. Em outras palavras, a moral é, essencialmente, normativa.
Mas não é só a moral
que se manifesta por imperativo, preceitos, constrangimento interior. Sofre o
homem muitos outros constrangimentos, e vários deles se manifestam por sinais
que se assemelham, singularmente, ao da moral. Tais são, por exemplo, os
constrangimentos sociais e religiosos. O homem está sujeito a preceitos sociais
e preceitos religiosos, como está sujeito a preceitos morais. Preceitos sociais
e religiosos também se lhe apresentam como verdades e regras imperativas e,
como a moral, é a regra social e religiosa um fato, ao mesmo tempo que uma
verdade. Para compreender o que é a moral, é preciso distingui-Ia dos outros
fatos que se manifestam de maneira análoga.
O preceito social é
imposto pelo meio social: impõe certas atitudes a quem quer ser aceito em
determinado meio social. Podem-se tomar como exemplo as regras de polidez: é
preciso cumprimentar de tal modo, empregar tal fórmula de saudação, começar e
terminar uma carta de tal maneira. O preceito religioso é imposto pela
divindade: é a regra de nossas relações com ela. Devemos dobrar-nos a ele na
medida em que desejamos ter boas relações com Deus ou com os deuses.
O preceito moral é
de outra natureza; não corresponde nem a uma pressão social, nem a uma pressão
divina. Pode estar de acordo com uma obrigação social ou religiosa, como o
veremos; mas, em si, distingue-se delas. O preceito moral corresponde às
exigências da vida boa ou da vida correta, da vida que realiza o pleno
desenvolvimento humano. Enquanto o preceito social atinge o homem nas suas
relações com seus semelhantes, e o preceito religioso, em suas relações com
Deus, aplica-se o preceito moral ao homem tomado em si mesmo, sem levar em
conta nada mais que ele.
Cada um destes
preceitos se impõe a título diferente, mas traduz-se em fatos de consciência
que, muitas vezes, se assemelham, a ponto de gerar confusões.
Um homem comete uma
falta moral; mentiu ou roubou, tem disso profundo desgosto, persegue-o o
pensamento de sua falta, tudo daria para não ter cometido essa falta, desejaria
apagá-la por um ato reparador. Não ousa mais aparecer diante daqueles que foram
testemunhas ou vitimas de sua falta: tem a impressão de que todos conhecem sua
perfídia e a condenam.
Outro comete uma falta
contra o código das convenções sociais [...]. Sente-se ridículo, cora de
vergonha, experimenta violento dissabor; o tormento de sua humilhação não o
deixa durante todo o serão e persegue-o até em casa; [...] quereria apagar o
seu fiasco por um ato reparador; tem impressão que toda gente escarnece dele.
São tão semelhantes os
dois estados de espírito que é difícil encontrar neles diferenças: a mesma
perturbação, o mesmo dissabor, a mesma humilhação, o mesmo desejo de reparação,
a mesma impressão de estar sendo condenado pelos que o cercam. No entanto, o
primeiro pecou contra a moral, o segundo, contra as convenções sociais apenas;
e um e outro tem consciência do caráter de sua falta. Sabe o segundo que não há
nenhuma falta moral em seu ato; o primeiro nem sonha em identificar sua falta
com sua repercussão social.
O mesmo acontece com as
faltas religiosas, embora seja mais difícil dar aqui um exemplo, em nossa
sociedade impregnada de espírito cristão, porque o Cristianismo, como teremos
ocasião de ver, aproximou a moral da religião a ponto de não se conceber a
separação duma doutra, a não ser por uma deformação do senso religioso. Não
insistiremos, pois, na distinção entre o moral e o religioso.
Mostra-se, ao
contrário, bastante nítida a distinção, na diferença dos constrangimentos. O
constrangimento moral exprime-se pela consciência dum extravio pessoal; o
constrangimento social, pelo receio de ser desconsiderado aos olhos dos homens;
o constrangimento religioso, pelo temor de desagradar à divindade.
A diferença dos estados
de consciência correspondentes a cada um destes imperativos provém do fato de
aí se encontrar o homem em relação com realidades diferentes. Esses estados de
consciência encontram-se mais ou menos desenvolvidos conforme estejam as
realidades correspondentes mais ou menos no primeiro plano da consciência.
Pode-se, assim, falar dum senso moral, de um senso social e de um
senso religioso que consistem numa sensibilidade ou facilidade de percepção
mais ou menos aguda, com respeito a cada um dos três grupos de imperativos. Em
muitos, confundem-se os três imperativos de modo quase inextricável; em outros,
pelo contrário, um desses imperativos toma a dianteira aos demais e, às vezes,
é o único a desenvolver-se.
Há certos homens
dotados de senso moral muito refinado, mas desprovidos de senso religioso e de
senso social. Mostram-se muito ciosos de retidão, de pureza; evitam com cuidado
tudo que os poderia desconsiderar a seus próprios olhos; a menor mancha na
integridade de sua pessoa é, a seus olhos, a pior das degradações. O imperativo
moral é, para eles, o imperativo categórico, o absoluto, e aceitariam todos os
inconvenientes e até todos os sofrimentos antes que aviltar-se por uma falta.
Pelo contrário,
parece-lhes sem importância o domínio das convenções sociais. Pode acontecer
que esses homens não creiam em nada e não experimentem nenhuma necessidade
religiosa. É desses homens que se diz, às vezes, que são naturalmente morais ou
naturalmente virtuosos. O bem moral é, para eles, o primeiro e, às vezes, o
único valor; a mancha moral, o único mal.
Outros, pelo contrário,
têm muito desenvolvido o senso social, e carecem de senso moral. Para eles a
única regra de vida é seguir os costumes do meio; o argumento supremo é “toda
gente faz assim” ou “ninguém faz isso”. Não lhes passa pela mente opor as
exigências de sua consciência ao costume existente.
Outros, enfim, têm
certo senso religioso e carecem de senso moral. Pode isto parecer surpreendente
na sociedade cristã, mas encontra-se muitas vezes entre maus cristãos.
Encontram-se cristãos que não experimentam nenhuma repugnância espontânea, nem
pelo furto, nem pelo adultério, nem pela mentira, mas que têm muito medo do
inferno. Procuram então preservar-se do inferno ou até agradar a Deus, por
meios religiosos não-morais, procurando, por exemplo, ganhar indulgências ou
mandando celebrar missas, ou praticando eles mesmos exercícios de piedade,
pecando embora por outro lado e não tendo nenhum desejo de renunciar ao pecado.
Procuram, pois, uns, o
bem da reta consciência, outros, o bem de serem benquistos dos homens, os
últimos, o bem de agradarem a Deus, cada um, porém, considerando apenas o ponto
de vista que lhe aparece como um absoluto.
No comum da vida, os
três imperativos se acham, às mais das vezes, misturados, e muitos seriam
incapazes de dizer a qual deles obedecem. Aliás, em muitos casos, os
imperativos concordam entre si e confirmam-se mutuamente. A concordância dos
imperativos é o sinal de formação equilibrada.
A regra moral, em sua
parte mais visível, provém da sociedade ou da religião; a religião vem também,
de certa maneira, da sociedade; por outro lado, moral e religião confirmam
muitas vezes os preceitos sociais. Torna-se então difícil determinar se se
obedece ao preceito em razão de seu caráter social, moral ou religioso. A
diferença de natureza destes preceitos é fácil de estabelecer em teoria, mas
difícil de se perceber na prática.
Vê-se isso na educação.
Impõe-se à criança o respeito a um conjunto de preceitos, entre os quais uns
têm caráter moral, outros, caráter meramente social. É pouco mais ou menos a
distinção entre o que é “mal” e o que “não é conveniente”. Mas uns e outros lhe
são inculcados do mesmo modo; dir-lhe-ão, por exemplo, que é “muito feio”
mentir e também que pôr os dedos no nariz é “muito feio”. No entanto, um é mal,
porque ofende à regra moral; o outro opõe-se apenas aos costumes sociais. Ou,
então, dir-lhe-ão duma e doutra coisa: “não podes fazer isso”. Vê-se assim a
criança carregada com uma porção de imperativos entre os quais não nota
diferença, e que lhe vêm todos da mesma autoridade que se exprime do mesmo modo.
Também não é de admirar
não seja muito comum a distinção clara entre o imperativo moral e o social. A
maior parte dos homens fica toda a vida na confusão. Experimenta-se a mesma
espécie de sentimentos de estima ou de desprezo para com o homem virtuoso e o
homem bem educado, ou para com o homem corrupto e o homem mal educado. As
coisas “que não se devem fazer” são tanto de ordem moral como de ordem social,
e a repugnância que se tem em muitos meios por quem cospe no chão ou quem usa
de palavras grosseiras é da mesma natureza que a em que incorre quem mente ou
rouba.
Aliás, é tanto mais
fácil a confusão, porquanto o moral e o social ordenam, muitas vezes, os mesmos
atos, e o moral se exprime pelo social, isto é, pela vida social é que se
recebe o imperativo moral, por meio dos pais, dos mestres, dos superiores. O
imperativo social ordena atos morais: o respeito dos filhos para com os pais, o
respeito aos mais velhos, o respeito pelos bens alheios. O ladrão viola um
imperativo tanto social quanto moral. O moral, por sua vez, ordena atos
sociais, atos de asseio, de reserva no comer e beber, como os que acabamos de
ver. Dum ponto de vista mais geral, pode-se mesmo dizer que o moral manda
respeitar as condições gerais da vida social, e que muitos preceitos sociais,
puramente sociais, se tomados em si, prendem-se contudo à moral por algum
caráter geral. Tais são os preceitos de polidez, convencionais em si mesmos,
contudo expressões do dever de deferência para com o semelhante ou superior, e
as regras de conveniência, ligadas a uma idéia geral de recato que exclui que
se entregue ostensivamente a suas necessidades físicas.
Compreende-se, nestas
condições, que seja difícil fazer a distinção entre os pontos de vista e que
muitos não o consigam.
É a mesma a situação,
no que diz respeito às relações do moral e do religioso. Todas as religiões
superiores ordenam o respeito da moral, e se a religião é verdadeira, a moral
ordena a prática religiosa. Por outro lado, aí também se junta o social,
porquanto, numa sociedade religiosa, o meio social impõe o respeito da
religião. Pode ser que se vá à igreja ou por desejo de honrar a Deus, ou porque
toda gente vai e se perderia a consideração, se lá não fosse.
No que concerne à moral
e à religião, é muitas vezes difícil de dizer se o cristão é casto, sóbrio,
leal, por convicção religiosa ou por preocupação moral. A religião ordena essas
atitudes, a moral também, mas por motivos diferentes. Entro a maioria dos
homens, os motivos se confundem; e, em determinado número, transparece no
primeiro plano a preocupação religiosa, moral ou social; manifesta-se, por
exemplo, pelos motivos que invocam em favor de determinada atitude. Dirá um pai
de família: “quero que meu filho vá à missa: sempre se foi à missa em minha
família”; ou manifestará diante dum divórcio certo sentimento de humilhação,
pelo fato de que o divorciado irá ficar afastado da sociedade. Outro, pelo
contrário, dirá: “pouco me importa o que irão dizer, mas, é-me insuportável o
pensamento de que irá perder a alma”; outro ainda: “há nisso uma diminuição de
si mesmo, um aviltamento que não se pode aceitar”.
A experiência da
confusão e interdependência do moral, do social e do religioso realiza-se de
modo particularmente completo na Igreja Católica, a qual constitui, por isso,
privilegiado posto de observação.
Com efeito, não só a
religião cristã ordena o respeito da moral como o meio por excelência, e até o
único meio de agradar a Deus; mas também as Igrejas, em geral, e a Igreja
Católica, em particular, impõem prescrições de caráter social, que se prendem,
é verdade, à moral e à religião enquanto meios de observá-las, mas que, por
outro lado, têm caráter puramente social, porquanto o motivo, por que se impõe
ao respeito dos fiéis tal ou tal prescrição concreta, encontra-se unicamente no
mandamento da autoridade social da Igreja.
Se impõe a Igreja aos
fiéis a assistência à missa aos domingos e a abstinência de carne nas
sextas-feiras, é certamente em aplicação da lei moral e religiosa que obriga à
oração e à penitência. Mas a lei moral e religiosa como tal não obriga a essas
práticas. É enquanto autoridade social que julga a Igreja dever concretizar a
obrigação moral num ato mínimo que se deve exigir de todos; e esta obrigação de
obediência é uma obrigação social, que tira da disciplina social seu caráter
obrigatório e perde-o, quando a disciplina social não mais o impõe.
Ora, a maior parte dos
católicos confunde aqui o moral, o social e o religioso. Bons cristãos,
desejosos de cumprir inteiramente seu dever, fazem consistir seu fervor
religioso em fazer abstinência nas sextas-feiras, mesmo se a Igreja os dispensa
disso, mas nem sequer pensam em fazer uma penitência voluntária ou espontânea;
ou então se mostram mais exigentes que a Igreja, quanto à missa aos domingos,
mas nunca assistem missa em dia de semana. Dão valor moral à regra social e
esquecem o ponto de vista moral propriamente dito. Atribuem caráter moral ao
fato de fazer abstinência na sexta-feira e não em outro dia, quando esta
especificação de dia é propriamente social, e perdem completamente de vista o
preceito moral da penitência, muito mais importante, e obrigatório em qualquer
tempo, preceito que pode ser cumprido de muitas maneiras, e que não se
identifica e ainda menos se limita ao preceito da abstinência na sexta-feira.
Têm os moralistas
contemporâneos estudado muito o caráter específico do fenômeno moral e da
distinção do moral com relação aos outros estados de consciência. Suas
reflexões têm-se principalmente desenvolvido sob o império das preocupações
fenomenológicas que pretendem encontrar uma apreensão direta do real na análise
dos estados de consciência. A distinção entre o moral, o religioso e o estético
ocupa lugar importante, entre outras, na Filosofia alemã1. Teremos
ocasião de falar disso mais adiante. Por enquanto contentemo-nos com as
distinções acima, que nos permitem fazer uma idéia do que encerra de particular
o fenômeno moral.
(1)
Ver, por exemplo, filósofos como Max Scheler e Nicolai Hartman na Alemanha;
como Edgard de Bruynf, na Bélgica.
A maioria dos filósofos
atuais estuda a questão de um ponto de vista diferente do que acabamos de ver.
Analisa os estados de consciência, procura ver em que se diferenciam uns dos
outros, e se esta diferenciação implica uma diferenciação dos objetos. Seu
ponto de partida é o estado de consciência. Pelo contrário, no que acabamos de
ler, a diferença se refere à diferença dos objetos de que se tem consciência, à
fonte do moral, do social e do religioso. O moral se diferencia do social e do
religioso, não por verificar o homem em si um estado psíquico diferente, mas
por ter consciência de estar diante de outra realidade. Não se pode analisar e
compreender o estado de consciência sem levar em conta o real de que se toma
consciência. Verdade que, num e noutro caso, se parte sempre da consciência. De
onde mais se poderia partir? Só se pode partir dum objeto conhecido, e não se
pode considerar o objeto conhecido a não ser enquanto conhecido. Difere contudo
o ponto de vista, segundo se considera o objeto enquanto se o conhece ou o ato
de conhecimento pelo qual se conhece. Um, por intermédio do ato de
conhecimento, nos coloca diretamente em face dum objetivo que concebemos como
independente de nosso conhecimento, embora não o possamos conhecer senão
enquanto conhecido; o outro pára no fenômeno de conhecimento e na análise
deste.
OBJETO,
ORIGEM, CONDIÇÕES DO IMPERATIVO MORAL
Tentemos precisar a
noção de moral, limitando-nos a uma análise do conteúdo imediato da consciência
comum, do fenômeno moral tal qual se encontra no homem ordinário, desprovido de
formação científica. A vantagem deste ponto de vista provém do fato de ser a
consciência mal polida do simples mais espontânea que a consciência elaborada
do requintado.
Primeiramente mostra a
análise que acabamos de fazer das diversas formas de imperativos que o
imperativo moral se caracteriza pela sua gratuidade, no sentido que se impõe a
nós, sem consideração de pessoas.
Trata-se da gratuidade
com respeito ao imperativo social. Impõe-se este em consideração dos outros
homens: quando nos encontramos sós, em geral deixamos de dar atenção às normas
da urbanidade. Quanto ao imperativo religioso, impõe-se em consideração à
divindade. O preceito moral impõe-se por si mesmo; corresponde ao sentido da
retidão da vida, da honestidade da ação. Não tem o homem que consultar senão a
si mesmo, sem outra consideração que ele próprio, para que o preceito moral se
imponha a seu espírito.
Afirma-se o imperativo
moral de modo particular em oposição com o desejo de felicidade, quando o homem
tem a impressão que a busca duma satisfação trará para ele uma diminuição.
Gostaria de fazer tal coisa, mas não posso. Exprime-se o imperativo de diversas
formas: isto fica bem ou não fica bem; devo, posso, não posso.
Por outro lado, o
objeto deste imperativo fica extremamente vago para a maioria dos homens. Cada
um conhece dele uma fórmula geral que mais comumente se expressa pela regra:
“deve-se fazer o bem e evitar o mal”, ou ainda: “o bem é o que se deve ou se
pode fazer; o mal é o que se deve evitar”. Quando porém se quer precisar em que
consiste o bem e o mal, a maior parte não é capaz de responder, a não ser por
meio de exemplo; dir-se-á: “O bem é, por exemplo, não matar, não furtar, não
cometer adultério”. Via exemplificativa e também via negativa. Dizem as pessoas
simples: “Sou um homem honesto: não faço nada de mal”.
E entre estes preceitos
encontram-se alguns bastante gerais, admitidos por todos os povos. Encontram-se
porém diferenças de opinião, quando se quer determinar a regra com mais
precisão. Todos os povos admitem que não se deve matar e todos admitem também
que se pode matar em certos casos, mas não estão de acordo a respeito de suas
aplicações. Estas diferenças fazem surgir, desde o princípio, certos problemas
de moral. Mas encontra-se por toda parte a regra universal: deve-se fazer o
bem; deve-se evitar o mal; o bem torna digno de estima; o mal torna
desprezível.
Donde provém o
imperativo moral?
Parece, à primeira
vista, que vem do meio social. Sabemos dever fazer ou evitar tal coisa, porque
no-lo disseram. E contudo tem-se a impressão de que o preceito moral se impõe
por si mesmo. Pode ser que eu saiba que não devo matar, porque mo disseram;
tenho contudo consciência de que não é por mo terem dito que não posso fazer,
mas que mo disseram porque não o posso fazer.
Mais, se a criança
recebe docilmente os preceitos dos que têm autoridade sobre ela, e se acontece
mais ou menos o mesmo com os simples, que crêem na sabedoria dos que os
ensinam, o desenvolvimento do senso moral leva muitas vezes a entrar em
conflito com o meio social. A influência social, portanto, é apenas a ocasião
de tomar consciência do imperativo moral. De si, o imperativo impõe-se por si
mesmo ao espírito. É por isso que o senso moral é essencialmente fonte de
independência. O homem moral tem tendência ao individualismo, a viver por si
mesmo, a opor as exigências de sua consciência às exigências de fora. Leva-nos
o senso moral a encontrar em nós mesmos o principio diretor de nossa ação. O
homem plenamente moral prefere ser posto à margem da sociedade, aceita todas as
penas, até mesmo a morte, antes que pôr-se em desacordo com a própria
consciência.
Que se deve entender
aqui por consciência? A consciência moral é a visão das condições de retidão de
vida ou integridade da ação, e julgamento de nossos atos conforme essa visão. O
primeiro bem para o homem moral é o não degradar-se, é agir conforme sua
dignidade de homem. Seu ser é antes de tudo sua dignidade de homem. A vida
perde o valor, se for preciso pagá-la com o sacrifício de seu ser.
Isto nos introduz nas
condições da moral.
Como vimos, ela só se
aplica aos homens, porque se reconhece nos homens um principio de ação estranho
aos animais e às coisas. Supõe o ato moral esta autonomia interior que vem do
espírito e que torna um ser responsável. Responsável quer dizer que responde
por seus atos, ou que os atos são, em última análise, imputáveis ao sujeito
que os pratica. Só se realiza essa autonomia no ser dotado de reflexão, capaz
de vontade refletida.
Como não se reconhece
tal caráter à atividade animal ou à ação dos seres inanimados, não se lhes
atribui responsabilidade, e são eles julgados estranhos à ordem moral. Ou às
vezes se supõe, por trás da ação do animal ou da coisa, um espírito que age
intencionalmente. A pedra que cai é atirada por um espírito. Em todo caso, só
há moral, se houver intencionalidade. A intencionalidade acarreta
liberdade, responsabilidade.
O domínio moral é
portanto aquele onde se exerce a atividade dos seres livres. Estes merecem
elogio ou censura, conforme o caráter de sua ação. A noção de responsabilidade
traz consigo a exigência da sanção.
A sanção consiste em
ter o ato conseqüências proporcionadas a seu valor. Quando um ser livre age,
julga-se inadmissível que seu ato não tenha conseqüências, e que estas não estejam
em relação com o valor moral do ato. Uma boa ação deve trazer vantagem e uma
ação má, desvantagem, ou, segundo a linguagem popular, recompensa ou castigo.
Aqui também o acordo é universal: testemunham-no todas as literaturas do mundo;
na imaginação popular, o bom deve ser recompensado e o mau punido
Sobre a natureza, da
sanção, não chega a haver acordo. Cada qual imagina a sanção conforme suas
convicções filosóficas ou religiosas e segundo suas aspirações próprias. Para
uns, a sanção está nos bens desta terra, como a saúde e a riqueza; para outros,
no testemunho da boa consciência, para outros ainda, na consideração ou
desprezo público; numa recompensa eterna. Diverge-se na determinação da sanção,
mas todos concordam que deve haver uma.
No
entanto, a experiência não manifesta a sanção. Reage então o senso moral, pelo
escândalo. A felicidade dos maus e a desgraça dos justos é o grande escândalo
da terra, escândalo permanente, contra o qual se têm revoltado os homens de
todos os tempos. O senso moral manifesta-se então pela indignação, que é a
recusa em aceitar o fato.
Jacques Leclercq
(1891-1971). Foi professor de Sociologia da Universidade de Lovaina,
Bélgica. Entre as suas obras sobre o Direito Natural, está publicada em
português a obra A família; entre as espiritualidade cristã, A vocação do
cristão, Valores cristãos e Diálogo do homem e de Deus.
Fonte: “As grandes linhas da filosofia moral”, São Paulo, s/d,
págs. 3-14.
Link: www.quadrante.com.br