Giuditta (SAV) 1





Livro de Judite


I - ANTECEDENTES DP ASSÉDIO DE BETÚLIA (1-6)

O poder de Nabucodonosor

1 1 Arfaxad, rei dos medos, submetera ao seu império um grande número de nações. Ele edificou uma fortaleza de pedras polidas, à qual deu o nome de Ecbátana.
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Cercou-a de muralhas de setenta côvados de altura e trinta de largura, e pôs-lhe torres de cem côvados de altura.
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Estas eram de forma quadrada, e seus lados estendiam-se por um espaço de vinte pés. As portas tinham uma altura proporcionada à das torres.
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Ele gloriava-se do poder invencível do seu exército e da imponência de seus carros.
5
Ora, no décimo segundo ano de seu reinado, Nabucodonosor, que reinava sobre os assírios em Nínive, a grande cidade, fez guerra a Arfaxad, e venceu-o
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na grande planície chamada Ragau. Aliaram-se-lhe todos os habitantes das regiões vizinhas do Tigre, do Eufrates e do Jadason, na planície de Erioc, rei dos eliceus.
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Então engrandeceu-se o reino de Nabucodonosor e seu coração encheu-se de orgulho. Mandou emissários a todos os habitantes da Cilícia, de Damasco, do Líbano,
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aos povos do Carmelo e de Cedar, aos galileus, na grande planície de Esdrelon,
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aos habitantes de Samaria e aos povos de além do Jordão até Jerusalém, a toda a terra de Gessém e até aos confins da Etiópia.
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A todos esses povos enviou Nabucodonosor emissários,
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mas todos protestaram unanimemente e os despediram de mãos vazias, chegando até a expulsá-los com desprezo.
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À vista disso, encheu-se de cólera o rei Nabucodonosor contra todos esses povos, e jurou pelo seu trono e pelo seu reino que havia de tomar vingança de todos eles.


2 1 No décimo terceiro ano do rei Nabucodonosor, no vigésimo segundo dia do primeiro mês, foi tomada na casa de Nabucodonosor, rei dos assírios, a decisão de que ele se vingaria.
2
Convocou todos os anciãos, todos os seus chefes e guerreiros, e teve com eles um conselho secreto, no qual
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revelou-lhes o seu desígnio de submeter toda a terra ao seu império.
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Tendo a sua proposta agradado à assembléia, o rei Nabucodonosor ordenou a Holofernes, marechal do seu exército,
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dizendo: Vai contra todos os reinos do ocidente, principalmente contra aqueles que desprezaram a minha ordem.
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Ferirás a todos sem consideração alguma e me sujeitarás todas as fortalezas.

Campanha de Holofernes

7 Holofernes convocou os generais e oficiais do exército assírio e contou os efetivos da expedição, conforme a ordem do rei: havia cento e vinte mil soldados de infantaria e doze mil frecheiros a cavalo.
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Mandou adiante do seu exército uma multidão de camelos com provisões abundantes para as tropas, e inumeráveis rebanhos de bois e de cordeiros.
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Ordenou que em toda a Síria se preparasse trigo para quando ele passasse.
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Levou também grande quantidade de ouro e de prata do tesouro real.
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Pôs-se a caminho com todo o exército, com os carros, os cavaleiros e os frecheiros, que se espalharam pela terra como gafanhotos.
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Atravessou as fronteiras da Assíria e chegou às grandes montanhas de Ange, que ficam ao norte da Cilícia. Penetrou em todos os seus fortes e apoderou-se de todos os seus bens.
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Tomou de assalto a célebre cidade de Melitene, e saqueou todos os filhos de Társis e os filhos de Ismael, que habitavam defronte do deserto, ao sul da terra de Celon.
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Passando o Eufrates pela segunda vez, penetrou na Mesopotâmia e arrasou todas as fortalezas do país, desde a torrente de Caboras até o mar.
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Em seguida, apossou-se de todas as regiões (que marginam o Eufrates), desde a Cilícia até a terra de Jafet, que se estende para o sul.
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Levou consigo todos os madianitas, saqueou todas as suas riquezas e passou ao fio da espada todos os que lhe opunham resistência.
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Depois desceu às planícies de Damasco no tempo da colheita, queimou todas as colheitas e cortou todas as árvores e as vinhas.
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Tornou-se, assim, objeto de terror para todos os habitantes da terra.


3 1 Então os reis e os príncipes de todas as cidades e de todas as províncias, da Síria, da Mesopotâmia, da Síria de Sobal, da Líbia e da Cilícia, enviaram seus delegados a Holofernes para lhe dizerem:
2
Cessa a tua indignação contra nós; é melhor que vivamos servindo o grande rei Nabucodonosor, e submetendo-nos a ti, do que morrermos, depois de havermos sofrido, além da nossa perda, os males da escravidão.
3
Eis aí todas as nossas cidades, todas as nossas possessões, todas as nossas montanhas e colinas, nossos campos, nosso gado, nossos rebanhos de cordeiros e de cabras, nossos cavalos e nossos camelos, todos os nossos bens e nossas famílias.
4
Tudo o que nos pertence depende de ora em diante de ti.
5
Somos teus escravos, nós e nossos filhos.
6
Vem a nós como um senhor pacífico e emprega os nossos serviços como te parecer melhor.
7
Holofernes desceu então das montanhas com suas poderosas forças de cavalaria e apoderou-se de todas as cidades e de todos os habitantes do país.
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Levou de todas as cidades, para suas tropas auxiliares, homens valentes e escolhidos para a guerra.
9
Era tão grande o terror daquelas províncias, que os principais e os magistrados de todas as cidades saíam com o povo ao seu encontro,
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e o acolhiam com coroas e archotes, dançando ao som dos tamborins e das flautas.
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Mas não conseguiram apesar disso abrandar a ferocidade daquele coração.
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Ele destruiu as suas cidades, e cortou os seus troncos sagrados.
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Pois Nabucodonosor havia-lhe ordenado que exterminasse todos os deuses da terra, para que só ele fosse chamado deus por todas as nações que lhe conquistasse o poder de Holofernes.
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Ele, atravessando a Síria de Sobal, toda a Apaméia e toda a Mesopotâmia, chegou aos idumeus, na terra de Gabaa.
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Depois de haver conquistado suas cidades, fez ali uma parada de trinta dias, durante os quais juntou todas as forças de seu exército.

Os judeus preparam-se para a guerra

4 1 Ouvindo isso, os israelitas de Judá ficaram muito alarmados com a aproximação (de Holofernes).
2
O medo e o terror apoderaram-se deles, temendo que ele fizesse a Jerusalém e ao templo do Senhor o mesmo que ele fizera às outras cidades e aos seus templos.
3
Mandaram mensageiros por toda a Samaria e seus arredores até Jericó, e ocuparam todos os cumes dos montes.
4
Cercaram de muros todas as suas cidades e armazenaram trigo para poderem sustentar o combate.
5
De seu lado, o sumo sacerdote Eliacim escreveu a todos os que habitavam defronte de Esdrelon, que está fronteira à grande planície vizinha de Dotain, e a todos os das terras pelas quais havia passagens,
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pedindo-lhes que ocupassem as vertentes montanhosas que davam acesso a Jerusalém, e que pusessem guarnições nos desfiladeiros por onde se pudesse passar.
7
Os israelitas executaram todas as ordens de Eliacim, sacerdote do Senhor.
8
Todo o povo orou fervorosamente ao Senhor; humilharam suas almas com jejuns e orações, eles e suas mulheres.
9
Os sacerdotes vestiram-se de cilício, as crianças prostraram-se diante do templo do Senhor, e cobriu-se o altar do Senhor com um cilício.
10
Unidos de coração e de alma, clamaram ao Senhor que não entregasse seus filhos à rapina do vencedor, suas mulheres à devassidão, suas cidades ao extermínio, seu templo à profanação, e não permitisse que eles próprios se tornassem o opróbrio das nações pagãs.
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Eliacim, sumo sacerdote do Senhor, percorreu então todo o país de Israel e falou ao povo
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nestes termos: Estai certos de que o Senhor vos ouvirá, se perseverardes jejuando e orando em sua presença.
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Lembrai-vos de Moisés, servo do Senhor: Amalec, que confiava em sua força, em seu poder, em seu exército, em seus escudos, em seus carros e cavaleiros, foi derrotado por ele, não com a força das armas, mas com o poder da santa oração.
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Isso mesmo acontecerá a todos os inimigos de Israel, se perseverardes na obra que começastes.
15
Com tais exortações, os israelitas puseram-se a orar diante do Senhor;
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mesmo aqueles que ofereciam holocaustos ao Senhor, faziam-no revestidos de sacos e com a cabeça coberta de cinzas.
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E todos rogavam a Deus, de todo o seu coração, que visitasse o seu povo de Israel.

Aquior elogia Israel

5 1 Holofernes, marechal do exército assírio, foi avisado de que os israelitas se dispunham à resistência e que haviam bloqueado as passagens dos montes.
2
Explodiu então a sua cólera, e, cheio de furor, convocou os príncipes de Moab e os generais dos amonitas e disse-lhes:
3
Dizei-me quem é esse povo que ocupa as montanhas; quais as suas cidades, a sua força, o seu número; qual o poder e o efetivo de seu exército, quem é o seu chefe,
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e por que motivo foi ele o único dentre todos os povos do oriente que nos desprezou, recusando-se a sair ao nosso encontro para receber-nos pacificamente.
5
Aquior, chefe dos amonitas, respondeu-lhe: Meu senhor, se te dignas ouvir-me, dir-te-ei a verdade acerca desse povo que habita nos montes, e nenhuma mentira sairá de minha boca.
6
Esse povo é da raça dos caldeus;
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habitaram primeiramente na Mesopotâmia, porque recusavam seguir os deuses de seus pais que estavam na Caldéia.
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Abandonaram os ritos de seus ancestrais que honravam múltiplas divindades,
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e passaram a adorar o Deus único do céu, o qual lhes ordenou que saíssem daquele país e fossem estabelecer-se na terra de Canaã. Depois disso sobreveio a toda a terra uma grande fome, e desceram ao Egito onde, durante quatrocentos anos, multiplicaram-se de tal forma que se tornaram uma multidão inumerável.
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Oprimidos pelo rei do Egito, e obrigados a trabalhar na fabricação de tijolos e de argamassa para a construção de suas cidades, clamaram ao seu Senhor, e este feriu toda a terra do Egito com vários flagelos.
11
A praga cessou, quando os egípcios os expulsaram de sua terra; mas quiseram retomá-los para sujeitá-los de novo à escravidão.
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Eles fugiram. O Deus do céu abriu-lhes o mar de tal modo que as águas tornaram-se de cada lado sólidas como um muro, e eles atravessaram a pé enxuto pelo fundo do mar.
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Entretanto, vindo em sua perseguição o inumerável exército dos egípcios, foi de tal maneira envolvido pelas águas que não escapou um sequer que pudesse contar à posteridade o acontecimento.
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Ao sair do mar Vermelho, ocuparam os desertos do monte Sinai, onde nunca homem algum pôde habitar, nem um ser humano se fixar.
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Ali, tornaram-se-lhes doces e potáveis as fontes amargas, e por espaço de quarenta anos receberam um alimento vindo do céu.
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Por toda parte onde entraram sem arco e sem flecha, sem escudos e sem espada, Deus combateu por eles e venceu.
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Ninguém jamais pôde insultar esse povo, a não ser quando ele se afastou do culto do Senhor, seu Deus.
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Mas sempre que, ao lado de seu Deus, eles adoravam um outro, logo eram entregues à pilhagem, à espada e à vergonha.
19
E todas as vezes que se arrependiam de ter abandonado o culto do seu Deus, o Deus do céu dava-lhes força para resistir.
20
Finalmente, derrotaram os reis cananeus, jebuseus, fereseus, hiteus, heveus, amorreus e todos os valentes de Hesebon, e tomaram posse de suas terras e de suas cidades.
21
Enquanto não pecavam na presença de seu Deus, eram bem sucedidos, porque o seu Deus odeia a iniqüidade.
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Há alguns anos, com efeito, tendo-se afastado da via em que Deus lhes ordenara caminhar, foram derrotados nos combates contra várias nações, e muitos dentre eles levados para o cativeiro.
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Mas converteram-se de novo ao Senhor, seu Deus, e depois dessa dispersão acham-se reunidos desde há pouco: retomaram a posse de suas montanhas e de Jerusalém onde está seu santuário.
24
Agora, pois, meu senhor, informa-te se esse povo cometeu alguma iniqüidade na presença de seu Deus, e então subamos e o ataquemos, porque o seu Deus os entregará nas tuas mãos, e ficarão sujeitos ao teu poder.
25
Mas se esse povo não está manchado de nenhuma ofensa para com o seu Deus, não o poderemos enfrentar, porque o seu Deus o defenderá e seremos o opróbrio de toda a terra.
26
Calando-se Aquior, todos os grandes de Holofernes se indignaram e queriam matá-lo.
27
E diziam entre si: Quem é esse homem que pretende que os israelitas possam resistir ao rei Nabucodonosor e ao seu exército, sendo eles homens sem armas, sem força e ignorantes da estratégia?
28
Para mostrarmos a Aquior que ele nos engana, vamos às montanhas, e, quando tivermos capturado seus príncipes, passá-lo-emos com eles ao fio da espada.
29
É preciso que toda a nação saiba que Nabucodonosor é o deus da terra, e que não há outro fora dele.

Aquior banido por Holofernes

6 1 A estas palavras, Holofernes encolerizou-se e disse a Aquior:
2
Já que nos predisseste que a nação de Israel será defendida por seu Deus, vou mostrar-te que não há outro deus fora de Nabucodonosor:
3
quando os tivermos ferido a todos como a um só homem, perecerás tu também com eles pela espada dos assírios, e todo o Israel desaparecerá contigo.
4
Assim aprenderás que Nabucodonosor é o Senhor de toda a terra. A espada de meus soldados entrar-te-á pelos flancos e cairás transpassado no meio dos feridos de Israel; não respirarás mais, senão para ser exterminado com eles.
5
Se crês na verdade de tua profecia, não desanimes; muda a palidez de tua face, se pensas que minhas palavras não se podem realizar.
6
E para que saibas que terás a mesma sorte que eles, serás desde já associado a esse povo, a fim de sofreres com eles os golpes de minha vingança, quando minha espada infligir-lhes o castigo que merecem.
7
Então Holofernes ordenou aos seus homens que prendessem Aquior e o levassem a Betúlia para entregá-lo nas mãos dos israelitas.
8
Os escravos de Holofernes tomaram-no e se foram através da planície. Ao se aproximarem dos montes, porém, saíram contra eles os atiradores de funda,
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e eles desviaram-se para os lados da montanha, onde ataram Aquior a uma árvore pelas mãos e pés. Abandonaram-no ali amarrado, e voltaram para o seu senhor.
10
Ora, os israelitas que desciam de Betúlia encontraram-no e, soltando-o, levaram-no para a cidade. Puseram-no no meio do povo e perguntaram-lhe o motivo por que os assírios o deixaram amarrado.
11
(Naquele tempo, Betúlia era governada por Ozias, filho de Mica, da tribo de Simeão, e por Carmi, também chamado Gotoniel).
12
E, estando no meio dos anciãos e em presença de todo o povo, Aquior contou tudo o que tinha respondido quando Holofernes o interrogara, e como a gente de Holofernes quis matá-lo por ter ele falado assim;
13
e como Holofernes, encolerizado, ordenara que ele fosse por esse motivo entregue aos israelitas, a fim de que, após a vitória sobre eles, ele fizesse perecer também Aquior com diversos suplícios, porque ele dissera que o Deus do céu era o defensor de Israel.
14
Após essa narração de Aquior, todo o povo se prostrou com o rosto por terra em adoração diante do Senhor, e todos, unidos de coração, oraram ao Senhor com gemidos e prantos:
15
Senhor, disseram eles, Deus do céu e da terra, vede o seu orgulho e olhai para a nossa humilhação. Lançai os vossos olhos sobre os vossos fiéis; mostrai que não abandonais aqueles que confiam em vós, mas que humilhais os que presumem de si mesmos e se gloriam do seu poder.
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Acabada a lamentação, e terminada a prece do povo, que durou um dia todo, encorajaram Aquior, dizendo:
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O Deus de nossos pais, cujo poder proclamaste, conceder-te-á a recompensa de veres tu a ruína deles.
18
Quando o Senhor nosso Deus tiver livrado os seus servos, que ele esteja também contigo no meio de nós, a fim de que vivas, tu e os teus, conosco, como for do teu agrado.
19
Então Ozias, despedida a assembléia, recebeu Aquior em sua casa e ofereceu-lhe uma grande ceia.
20
E foram convidados a ela todos os anciãos, (pois já) tinha terminado o jejum, e comeram juntos alegremente.
21
Depois foi convocado todo o povo e oraram durante toda a noite no lugar onde estavam reunidos, pedindo socorro ao Deus de Israel.

II - VITÓRIA DO POVO JUDEU (7-16)

Cerco de Betúlia

7 1 No dia seguinte, Holofernes ordenou às suas tropas que tomassem de assalto Betúlia.
2
Havia cento e vinte mil soldados de infantaria e vinte e dois mil cavaleiros, além dos homens de armas que tinha aprisionado e dos jovens que havia levado das províncias e das cidades.
3
Prepararam-se todos para combater contra os israelitas e partiram pela encosta da montanha até o cume que olha para Dotain, desde o lugar chamado Belma até Quelmon, que está fronteiro a Esdrelon.
4
Quando os israelitas viram aquela multidão, prostraram-se por terra e cobriram de cinzas as suas cabeças, orando em comum ao Deus de Israel para que fizesse misericórdia ao seu povo.
5
Tomando então as suas armas de guerra, postaram-se nos lugares em que caminhos estreitos conduziam às passagens entre os montes, e ali montaram guarda noite e dia.
6
Entretanto, ao fazer uma ronda pelos arredores, Holofernes descobriu ao sul da cidade a fonte que a abastecia por meio de um aqueduto, e mandou cortá-lo.
7
Havia, entretanto, não longe dos muros, algumas fontes aonde iam furtivamente os sitiados buscar água, mais para aliviar um pouco a sede que para beber.
8
Então os amonitas e os moabitas foram dizer a Holofernes: Os israelitas não confiam nem nas lanças nem nas flechas, mas são defendidos pelas montanhas e sua verdadeira força são as colinas escarpadas.
9
Para que possas vencê-los sem combate, põe guardas às fontes, para não buscarem água ali, e os matareis sem golpes de espada. Ou, pelo menos, esgotados pela sede, entregarão a cidade, a qual, por estar situada nas montanhas, julgavam inexpugnável.
10
Esta sugestão agradou a Holofernes e aos seus oficiais, e ele mandou que cada fonte fosse vigiada por um contingente de cem homens.
11
Passados vinte dias de guarda, secaram-se as fontes e os poços de Betúlia, e os habitantes que recebiam quotidianamente a sua medida de água não a tiveram mais nem sequer para um dia.
12
Então, reuniram-se todos os homens, mulheres, jovens e crianças ao redor de Ozias, e disseram-lhe a uma voz:
13
Deus seja juiz entre nós e ti, pois, recusando negociar a paz com os assírios, atraíste a desgraça sobre nós; e por isso entregou-nos Deus nas suas mãos.
14
Também por isso não há quem nos socorra, estando nós aos seus olhos esgotados pela sede.
15
Agora, pois, reúne todos os que estão na cidade e entreguemo-nos espontaneamente aos homens de Holofernes.
16
É melhor que bendigamos a Deus no cativeiro, vivos, do que morrer vergonhosamente diante de todos os homens, vendo morrer sob os nossos olhos nossas mulheres e nossos filhos.
17
O céu e a terra nos são testemunhas, assim como o Deus de nossos pais que toma vingança de nossos pecados: entrega sem demora a cidade ao exército de Holofernes, para que o fio da espada abrevie o nosso fim, retardado pelo ardor da sede!
18
Tendo eles assim falado, levantou-se um grande pranto e gritos lancinantes na assembléia, e a sua voz elevou-se para Deus durante várias horas:
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Pecamos, diziam eles, nós e nossos pais, cometemos a injustiça e a iniqüidade.
20
Vós, que sois bom, tende piedade de nós, ou então que vossos castigos tomem vingança de nossas iniqüidades; mas não entregueis os que vos invocam a um povo que vos não conhece,
21
para que se não diga entre os pagãos: Onde está o seu Deus?
22
Fatigados enfim de gritar e de chorar, eles se calaram.
23
Ozias levantou-se então banhado em lágrimas: Coragem, meus irmãos! - disse ele.- Esperemos (ainda) cinco dias a misericórdia do Senhor.
24
Talvez se aplaque a sua cólera e dê glória ao seu nome.
25
Entretanto, se depois de cinco dias não nos chegar socorro algum, faremos o que propusestes.

Intervenção de Judite

8 1 Ora, tudo isso chegou aos ouvidos de Judite, viúva, filha de Merari, filho de Idox, filho de José, filho de Ozias, filho de Elai, filho de Jamnor, filho de Gedeão, filho de Rafaim, filho de Aquitob, filho de Melquias, filho de Enã, filho de Natanias, filho de Salatiel, filho de Simeão, filho de Rubem.


2 Seu marido chamava-se Manassés, e morrera no tempo da colheita da cevada,
3
ferido de insolação quando fiscalizava os ceifadores que ligavam os feixes no campo; ele morrera em Betúlia, sua cidade, e fora enterrado com seus pais.
4
Judite ficara viúva havia três anos e meio.
5
Ela tinha feito no andar superior de sua casa um quarto reservado para si, no qual se conservava retirada com suas criadas.
6
Trazia um cilício sobre os rins e jejuava todos os dias, exceto nos sábados, nas luas novas e nas festas do povo israelita.
7
Era extremamente bela, e seu marido tinha-lhe deixado grandes riquezas, numerosos criados e domínios cheios de rebanhos de bois e de ovelhas.
8
Era muito estimada por todos porque tinha grande temor a Deus; não havia ninguém que falasse mal a seu respeito.


9 Sabendo, pois, que Ozias tinha prometido entregar a cidade dentro de cinco dias, mandou alguém chamar os anciãos Cabri e Carmi,
10
e estes vieram ter com ela. Ela disse-lhes: Como é possível que Ozias tenha consentido em entregar a cidade aos assírios dentro de cinco dias, se não nos chegar socorro?
11
Quem sois vós para provocar o Senhor?
12
Não é esse o meio de atrair a sua misericórdia, mas antes o de excitar a sua cólera e acender o seu furor
13
Vós impusestes ao Senhor um prazo para exercer a sua misericórdia e fixastes-lhe um dia ao vosso arbítrio!
14
Mas o Senhor é paciente; façamos, pois, penitência por isso e peçamos-lhe perdão com lágrimas nos olhos,
15
pois Deus não ameaça como os homens e não se deixa arrastar como eles à violência da cólera.
16
Humilhemo-nos diante dele e prestemos-lhe nosso culto com espírito de humildade.
17
Roguemos ao Senhor com lágrimas que nos conceda a sua misericórdia como lhe aprouver, para que, assim como se perturbou o nosso coração com o orgulho de nossos inimigos, do mesmo modo encontremos glória em nossa humilhação.
18
Nós não imitamos os pecados de nossos pais, abandonando Deus para adorar divindades estranhas.
19
Por esse crime foram entregues à espada, à pilhagem e ao desprezo de seus inimigos; nós, porém, não admitimos outro Deus fora dele.
20
Esperamos com humildade a sua consolação e ele vingará o nosso sangue dos males que nos causam nossos inimigos. Ele humilhará toda nação que se levantar contra nós; o Senhor nosso Deus cobri-las-á de vergonha.
21
Agora, meus Irmãos, já que sois os anciãos do povo de Deus, e que sua vida depende de vós, reanimai os seus corações com vossas palavras, para que eles se lembrem de que nossos pais foram tentados a fim de que se verificasse se eles serviam verdadeiramente ao seu Deus.
22
Que eles se lembrem de como nosso pai Abraão foi provado e de como passou por múltiplas tribulações para se tornar o amigo de Deus.
23
Assim Isaac, assim Jacó, assim Moisés, e todos os que agradaram a Deus permaneceram fiéis apesar das muitas tribulações.
24
Aqueles, porém, que não aceitaram essas provações no temor ao Senhor e se impacientaram, murmurando contra ele,
25
foram feridos pelo Exterminador e pereceram pelas serpentes.
26
Por isso não nos irritemos por causa do que sofremos.
27
Consideremos que esses tormentos são menos graves que nossos pecados, e que esses flagelos com que o Senhor nos castiga, como escravos, foram-nos mandados para a nossa emenda, e não para a nossa perdição.
28
Ozias e os anciãos responderam-lhe: Tudo o que disseste é verdade; nada há repreensível nas tuas palavras.
29
Roga, pois, a Deus por nós, porque és uma mulher santa e piedosa.
30
Judite respondeu-lhes: Se reconheceis que o que eu vos disse vem de Deus,
31
examinai se vem igualmente dele o que eu resolvi fazer, e orai para que Deus me ajude a realizar o meu desígnio.
32
Ficai esta noite à porta, e eu sairei com minha criada. Orai então para que, como vós o dissestes, o Senhor olhe para o seu povo de Israel dentro de cinco dias.
33
Mas não quero que procureis saber o que eu vou fazer; enquanto eu mesma não voltar para vos avisar, não se faça outra coisa que rogar por mim ao Senhor nosso Deus.
34
Ozias, o príncipe de Judá, respondeu-lhe: Vai em paz, e que o Senhor te ajude a tomar a vingança de nossos inimigos. E retiraram-se.

Oração de Judite

9 1 Tendo eles partido, Judite entrou em seu oratório, pôs o seu cilício, cobriu a cabeça com cinzas e, prostrando-se diante do Senhor, orou dizendo:
2
Senhor, Deus de meu pai Simeão, que lhe destes a espada para se vingar dos estrangeiros que, arrastados pela paixão, violaram uma virgem, descobrindo-lhe vergonhosamente a nudez;
3
que entregastes suas mulheres à rapina, suas filhas ao cativeiro, e todos os seus despojos em partilha aos vossos servos que ardiam de zelo ao vosso serviço, vinde, eu vos peço, ó Senhor meu Deus, e socorrei esta viúva.
4
Vós dispusestes os acontecimentos do passado, determinastes que uns sucedessem a outros, e nada aconteceu sem que vós o quisésseis.
5
Todos os vossos caminhos são previamente escolhidos, e os vossos juízos são marcados por vossa providência.
6
Olhai agora para o acampamento dos assírios, como vos dignastes outrora olhar para o dos egípcios, quando corriam armados atrás dos vossos servos, fiando-se nos seus carros, nos. seus cavaleiros e na multidão dos seus combatentes.
7
Bastou um vosso olhar sobre o seu acampamento para paralisá-los nas trevas.
8
O abismo reteve os seus pés, e as águas submergiram-nos.
9
Senhor, que o mesmo aconteça a estes que confiam no seu número, nos seus carros, nos seus dardos, nos seus escudos, nas suas flechas, e que são orgulhosos de suas lanças.
10
Eles ignoram que vós sóis o nosso Deus, vós que desde todo o tempo sabeis deter as guerras, e que vosso nome é o Senhor.
11
Levantai o vosso braço como nos tempos antigos e quebrai o seu. poder com a vossa força; caia diante de vossa cólera o poder daqueles que prometeram a si próprios violar o vosso santuário, profanar o tabernáculo de vosso nome e derrubar com um golpe de espada os cornos de vosso altar.
12
Fazei, Senhor, que o orgulho desse homem seja cortado com sua própria espada;
13
seja ele preso no laço de seus olhos fixos em mim; e feri-o com as doces palavras de meus lábios.
14
Dai firmeza ao meu coração para o desprezar, e coragem para o abater.
15
Isso será para o vosso nome uma glória digna de memória, tendo-o derrubado a mão de uma mulher.
16
Não é na multidão, Senhor, que está o vosso poder, nem vos comprazeis na força dos cavalos; os soberbos nunca vos agradaram, mas sempre vos foram aceitas as preces dos mansos e humildes.
17
Deus do céu, criador das águas e senhor de toda a criação, ouvi uma pobre suplicante que só confia em vossa misericórdia.
18
Lembrai-vos, Senhor, de vossa promessa; inspirai as palavras de minha boca e dai firmeza à resolução de meu coração, para que a vossa casa vos permaneça (para sempre) consagrada e que todos os povos reconheçam que só vós sois Deus e que não há outro fora de vós.

Judite na tenda de Holofernes

10 1 Quando acabou de orar ao Senhor, levantou-se do lugar onde estava prostrada diante do Senhor.
2
Chamou a sua criada, desceu à sua casa, tirou o cilício e despiu suas vestes de viúva.
3
Lavou-se, ungiu-se de mirra preciosa, arranjou o cabelo e pôs um diadema. Vestiu-se como para uma festa, calçou as sandálias, pôs os braceletes, o colar, os brincos, os anéis e todos os seus enfeites.
4
O Senhor aumentou-lhe a beleza, porque tudo aquilo procedia, não de uma paixão má, mas de sua virtude; por isso o Senhor deu-lhe uma tal formosura, que apareceu aos olhos de todos com um encanto incomparável.
5
Fez que sua criada levasse um odre de vinho, uma garrafa de óleo, grãos torrados, figos secos, pão e queijo, e partiu.
6
Chegando à porta da cidade, encontraram Ozias e os anciãos que as esperavam.
7
Vendo-a, ficaram cheios de admiração diante de sua beleza.
8
Sem lhe perguntar coisa alguma deixaram-na passar e disseram-lhe: Que o Deus de nossos pais te dê a sua graça e fortifique a resolução de teu coração, para que sejas a glória de Jerusalém e o teu nome figure no número dos santos e dos justos.
9
Os que ali estavam disseram a uma só voz: Assim seja! Assim seja!
10
E Judite passou a porta com sua criada, orando ao Senhor.
11
Ao raiar do dia, quando ela descia pela montanha, eis que a encontrou uma patrulha dos assírios e a deteve: De onde vens?, perguntaram-lhe, e aonde vais?
12
Ela respondeu: Sou uma israelita; fugi do meio deles porque vi que eles vos hão de ser entregues como presa, e porque vos desprezaram não querendo render-se espontaneamente a vós para encontrar graça diante de vossos olhos.
13
Por isso pensei comigo mesma: Irei apresentar-me ao príncipe Holofernes para revelar-lhe seus segredos e indicar-lhe um caminho por onde poderá tomar, sem perder um homem sequer do seu exército.
14
Ouvindo estas palavras, os homens olhavam-na de frente com os olhos deslumbrados de admiração pela sua grande beleza.
15
E disseram-lhe: Salvaste a tua vida, porque resolveste descer para o nosso senhor. Podes estar certa de seres bem tratada quando lhe fores apresentada, e tu lhe hás de ganhar o coração.
16
Levaram-na à tenda de Holofernes, declarando quem era.
17
Mal havia ela entrado, Holofernes ficou cativo de seus olhos.
18
Seus oficiais disseram-lhe: Quem poderia desprezar os hebreus que têm tão belas mulheres? Não são elas uma razão suficiente de lhes fazermos guerra?
19
Judite viu Holofernes sentado sob um baldaquino de púrpura, bordado de ouro, com esmeraldas e pedras preciosas:
20
Ela levantou os olhos para o seu rosto e inclinou-se profundamente diante dele até o solo. Os servos de Holofernes levantaram-na por ordem do seu senhor.


11 1 Então Holofernes disse-lhe: Tranqüiliza-te! Não temas em teu coração, pois nunca fiz mal algum a quem estivesse pronto a servir o rei Nabucodonosor.
2
Se teu povo não me tivesse desprezado, eu não teria levantado a minha lança contra ele.
3
Mas dize-me, agora, por que os deixaste e vieste para o meio de nós?
4
Judite respondeu-lhe: Ouve as palavras de tua serva, porque se seguires as palavras que te vou dizer, o Senhor chegará aos seus fins por ti.
5
Juro-o por Nabucodonosor, rei da terra, e por seu poder que está nas tuas mãos para castigo daqueles que se desviam, porque não somente contribuis para que os homens o sirvam, mas até os animais do campo lhe obedecem.
6
A sabedoria de teu espírito é, com efeito, célebre em todas as nações, todo o mundo sabe que és o único bom e poderoso em seu reino, e tua administração é louvada em todas as províncias.
7
O que disse Aquior não é um segredo e ninguém ignora o que ordenaste que lhe fosse feito.
8
Porque é manifesto que nosso Deus está de tal forma ofendido pelos pecados do povo, que lhe mandou dizer por meio de seus profetas, que o entregaria por causa de seus pecados.
9
E como os israelitas sabem que ofenderam o seu Deus, tu te tornaste um objeto de terror.
10
Além disso, a fome aperta-os e pela falta de água estão já como mortos.
11
Chegam até a matar os seus animais para beberem o seu sangue.
12
E mesmo as primícias consagradas ao Senhor, seu Deus, que o Senhor lhes proibiu tocar - trigo, vinho e azeite - eles pensam empregá-las, e querem assim comer aquilo que não lhes é permitido nem tocar com as mãos. Procedendo assim, é certo que serão entregues à ruína.
13
E eu, tua serva, que sei de tudo isto, fugi do meio deles, e o Senhor mandou-me a ti para dizer-te estas coisas.
14
Porque tua serva teme a Deus, mesmo junto de ti, e ela sairá do acampamento para orar a Deus.
15
Ele me dirá quando vai puni-los pelos seus pecados, e eu to virei dizer. Levar-te-ei então até o coração de Jerusalém, e encontrarás todo o povo de Israel como um rebanho de ovelhas sem pastor, e não haverá sequer um cão para ladrar contra ti.
16
Isto me foi dito pela providência divina;
17
e como Deus está irritado contra eles, fui enviada para to anunciar.
18
Holofernes e seus servos alegraram-se com este discurso, e admiraram a sabedoria de Judite, dizendo uns aos outros:
19
Não há sobre a terra mulher semelhante a esta no valor, na beleza e na sabedoria de suas palavras.
20
Holofernes disse-lhe: Deus fez muito bem em te mandar antes do povo, a fim de que possas entregá-lo nas nossas mãos.
21
Teu plano é bom: se teu Deus fizer isto por mim, ele será também o meu Deus, e tu serás grande na casa de Nabucodonosor, e o teu nome será célebre em toda a terra.


Giuditta (SAV) 1