Igreja 22fev-Maio06
Quarta-feira, 22 de Fevereiro 2006 Queridos irmãos e irmãs
A Liturgia latina celebra hoje a festa da Cátedra de São Pedro. Trata-se de uma tradição muito antiga, testemunhada em Roma desde o século IV, com a qual se dá graças a Deus pela missão confiada ao Apóstolo Pedro e aos seus sucessores. Literalmente, a "cátedra" é a sede fixa do Bispo, posto na igreja matriz de uma Diocese, que por isso é chamada "catedral", e constitui o símbolo da autoridade do Bispo e, em particular, do seu "magistério", ou seja, do ensinamento evangélico que ele, enquanto sucessor dos Apóstolos, é chamado a conservar e a transmitir à Comunidade cristã. Quando o Bispo toma posse da Igreja particular que lhe foi confiada, ele, com a mitra e o báculo, senta-se na cátedra. Como mestre e pastor, daquela sede ele orientará o caminho dos fiéis, na fé, na esperança e na caridade.
Portanto, qual foi a "cátedra" de São Pedro? Escolhido por Cristo como "rocha" sobre a qual edificar a Igreja (cf. Mt 16,18), ele começou o seu ministério em Jerusalém, depois da Ascensão do Senhor e do Pentecostes. A primeira "sede" da Igreja foi o Cenáculo, e provavelmente naquela sala onde também Maria, a Mãe de Jesus, rezou juntamente com os discípulos para que fosse reservado um lugar especial a Simão Pedro. Em seguida, a sé de Pedro tornou-se Antioquia, cidade situada à margem do rio Oronte, na Síria, hoje na Turquia, naquela época terceira metrópole do império romano, depois de Roma e de Alexandria do Egipto. Daquela cidade, evangelizada por Barnabé e Paulo, onde "os discípulos receberam, pela primeira vez, o nome de "cristãos"" (Ac 11,26), onde, portanto, nasceu para nós o nome de cristãos, Pedro foi o primeiro Bispo, a tal ponto que o Martirológio Romano, antes da reforma do calendário, previa também uma celebração específica da Cátedra de Pedro em Antioquia. Dali, a Providência conduziu Pedro até Roma. Portanto, temos o caminho de Jerusalém, Igreja nascente, em Antioquia, primeiro centro da Igreja acolhida pelos pagãos e ainda unida com a Igreja proveniente dos Judeus. Depois Pedro dirigiu-se para Roma, centro do Império, símbolo do "Orbis" a "Urbs" que expressa o "Orbis" a terra onde ele terminou com o martírio a sua corrida ao serviço do Evangelho. Por isso a sede de Roma, que tinha recebido a maior honra, acolheu também o ónus confiado por Cristo a Pedro, de se colocar ao serviço de todas as Igrejas particulares, para a edificação e a unidade de todo o Povo de Deus.
A sede de Roma, depois destas migrações de São Pedro, torna-se assim reconhecida como a do sucessor de Pedro, e a "cátedra" do seu Bispo representou a do Apóstolo encarregado por Cristo, de apascentar todo o seu rebanho. Testemunham-no os mais antigos Padres da Igreja, como por exemplo Santo Ireneu, Bispo de Lião, proveniente porém da Ásia Menor, que no seu tratado Contra as heresias descreve a Igreja de Roma como "a maior e a mais antiga, conhecida por todos; ...fundada e constituída em Roma pelos dois gloriosíssimos Apóstolos Pedro e Paulo"; e acrescenta: "Com esta Igreja, pela sua exímia superioridade, deve conciliar-se a Igreja universal, ou seja, os fiéis que estão em toda a parte (III, 3, 2-3). Tertuliano, um pouco mais tarde, por sua vez, afirma: "Como é feliz esta Igreja de Roma! Foram os próprios Apóstolos que derramaram nela, com o próprio sangue, toda a doutrina" (A prescrição dos hereges, 36). Portanto, a cátedra do Bispo de Roma representa não apenas o seu serviço à comunidade romana, mas a sua missão de guia de todo o Povo de Deus.
Celebrar a "Cátedra" de Pedro, como fazemos hoje, significa, portanto, atribuir-lhe um forte significado espiritual e recolhecer-lhe um sinal privilegiado do amor de Deus, Pastor bom e eterno, que quer reunir toda a sua Igreja e orientá-la no caminho da salvação. Entre os numerosos testemunhos dos Padres, apraz-me evocar o de São Jerónimo, tirado de uma das suas epístolas escritas ao Bispo de Roma, particularmente interessante porque faz referência explícita precisamente à "cátedra" de Pedro, apresentando-a como segura meta de verdade e de paz. Assim escreve Jerónimo: "Decidi consultar a cátedra de Pedro, onde se encontra aquela fé que a boca de um Apóstolo exaltou; agora venho pedir um alimento para a minha alma ali, onde outrora recebi a veste de Cristo. Não busco outro primado, a não ser o de Cristo; por isso, ponho-me em comunhão com a tua bem-aventurança, ou seja, com a cátedra de Pedro. Sei que sobre esta pedra está edificada a Igreja" (Cartas I, 15, 1-2).
Amados irmãos e irmãs, na abside da Basílica de São Pedro, como sabeis, encontra-se o monumento à Cátedra do Apóstolo, obra adulta de Bernini, realizada em forma de um grande trono de bronze, sustentado pelas imagens de quatro Doutores da Igreja, dois do Ocidente, Santo Agostinho e Santo Ambrósio, e dois do Oriente, São João Crisóstomo e Santo Atanásio. Convido-vos a deter-vos diante desta obra sugestiva, que hoje é possível admirar decorada com numerosas velas, e rezar de maneira particular pelo ministério que Deus me confiou. Elevando o olhar ao vitral de alabastro que se abre precisamente acima da Cátedra, invocai o Espírito Santo a fim de que sustente sempre com a sua luz e a sua força o meu serviço quotidiano a toda a Igreja. Por isto, bem como pela vossa atenção devota, agradeço-vos de coração.
Saudações
Caríssimos irmãos de língua portuguesa, a Igreja celebra hoje, com muita alegria, a festividade da Cátedra de Pedro. Cristo, o bom Pastor, quer reunir em torno a ela as suas ovelhas, inclusive as que não são ainda do mesmo aprisco, dando-lhes segurança e paz para prosseguir em direção ao seu Reino. Saúdo com especial afeto a todos os peregrinos presentes, especialmente os brasileiros do Santuário de Nossa Senhora Aparecida de Porto Alegre, recém vindos da Terra Santa, e a todos vos peço que rezem pelo Papa, na sua missão de levar adiante a Barca de Pedro. Que Deus vos abençoe!
É-me grato saudar-vos, peregrinos francófonos. Saúdo em particular a Comissão Federal do Entreprise du Crédit Mutuel, os numerosos jovens presentes hoje de manhã, nomeadamente os da Diocese de Sens-Auxerre, acompanhados do Arcebispo, D. Yves Patenôtre, e os do Decanado de Baziège, de Villeurbanne e de Montbrison. Que a vossa permanência em Roma vos ajude a confirmar em vós a fé da Igreja, que nos foi transmitida pelos Apóstolos.
Dou as calorosas boas-vindas aos peregrinos anglófonos, presentes nesta Audiência. Em particular, saúdo os membros da Comissão Síria Pro Oriente, e também os membros do Parlamento Britânico. Hoje, convido todos vós a visitar o monumento à "Cátedra" de Pedro, particularmente adornada, na Basílica. Ali, peço-vos que rezeis ao Espírito Santo a fim de que me ilumine no meu serviço à Igreja. Obrigado e Deus abençoe todos vós!
Saúdo cordialmente os visitantes vindos da Espanha e da América Latina, de modo especial os peregrinos da Paróquia de Matamorosa (Santander), o Colégio de São José Trabalhador, de Hospitalet (Barcelona) e o grupo da Universidade "Cardenal Herrera", de Moncada (Valença), assim como os peregrinos do Chile. Obrigado de coração pelas vossas preces e pela vossa atenção.
Enfim, dirijo o meu pensamento aos doentes e aos novos casais. Vós, queridos doentes, oferecei ao Senhor os vossos momentos de provação, para que se abram as portas dos corações ao anúncio do Evangelho. E vós, dilectos novos casais, sede sempre testemunhas do amor de Cristo, que vos chamou a realizar um projecto de vida comum.
Encerremos este encontro, entoando o Pai-Nosso.
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Aos peregrinos e estudantes reunidos na Basílica de São Pedro, o Santo Padre dirigiu-lhes as seguintes palavras:
Prezados amigos
Desejo dirigir as cordiais boas-vindas a todos vós, presentes na Basílica, cuja abside hoje está particularmente decorada e iluminada, por ocasião da festa da Cátedra do Apóstolo Pedro.
Saúdo-vos, em particular, a vós estudantes e professores do Colégio de São Francisco, de Lodi, que comemorais o quarto centenário da vossa Escola, fundada pelos Padres Barnabitas; assim como vós, caros alunos e docentes do Instituto de Maria Imaculada, de Roma.
A festa de hoje, convidando-nos a contemplar a Cátedra de São Pedro, estimula-nos a nutrir a vida pessoal e comunitária daquela fé fundamentada sobre o testemunho de Pedro e dos outros Apóstolos. Imitando o seu exemplo, também vós, queridos amigos, podereis ser testemunhas de Cristo na Igreja e no mundo.
Concluamos este encontro, recitando juntos o Pai-Nosso.
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A festa da Cátedra de São Pedro é dia particularmente apropriado para anunciar que no próximo dia 24 de Março terei um Consistório, no qual nomearei os novos Membros do Colégio Cardinalício. Este anúncio coloca-se de maneira oportuna na festa da Cátedra porque os Cardeais têm a tarefa de apoiar e auxiliar o Sucessor de Pedro no cumprimento do ofício apostólico que lhe foi confiado ao serviço da Igreja. Não sem razão, nos antigos documentos eclesiásticos, os Papas qualificavam o Colégio Cardinalício como "pars corporis nostri" (cf. F. X. Wernz, Ius Decretalium, II, n. 459). De facto, os Cardeais constituem em redor do Papa uma espécie de Senado, do qual ele se serve no desempenho das tarefas conexas com o seu ministério de "princípio e fundamento perpétuo e visível da unidade da fé e da comunhão" (cf. Lumen gentium LG 18).
Com a criação dos novos Purpurados, portanto, pretendo integrar o número de 120 Membros Eleitores do Colégio Cardinalício, fixado pelo Papa Paulo VI, de venerada memória (cf. AAS 65, 1973, pág. 163). Eis os nomes dos novos Cardeais:
1. D. WILLIAM JOSEPH LEVADA, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé;
2. D. FRANC RODÉ, C.M., Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica;
3. D. AGOSTINO VALLINI, Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica;
4. D. JORGE LIBERATO UROSA SAVINO, Arcebispo de Caracas (Venezuela);
5. D. GAUDENCIO B. ROSALES, Arcebispo de Manila (Filipinas);
6. D. JEAN-PIERRE RICARD, Arcebispo de Bordéus (França);
7. D. ANTONIO CAÑIZARES LLOVERA, Arcebispo de Toledo (Espanha);
8. D. NICOLAS CHEONG JIN-SUK, Arcebispo de Seul (Coreia);
9. D. SEAN PATRICK O'MALLEY, O.F.M. Cap., Arcebispo de Boston (E.U.A.);
10. D. STANISLAW DZIWISZ, Arcebispo de Cracóvia (Polónia);
11. D. CARLO CAFFARRA, Arcebispo de Bolonha (Itália);
12. D. JOSEPH ZEN ZE-KIUN, S.D.B., Bispo de Hong-Kong (China Continental).
Além disso, decidi elevar à dignidade cardinalícia três eclesiásticos de idade superior aos 80 anos, em consideração aos serviços por eles prestados à Igreja com exemplar fidelidade e admirável dedicação.
São eles:
1. D. ANDREA CORDERO LANZA DI MONTEZEMOLO, Arcipreste da Basílica de São Paulo fora dos Muros;
2. D. PETER POREKU DERY, Arcebispo Emérito de Tamale (Gana); e
3. PE. ALBERT VANHOYE, S.I., que foi benemérito Reitor do Pontifício Instituto Bíblico e Secretário da Pontifícia Comissão Bíblica.Um grande exegeta.
No grupo dos novos Purpurados espelha-se bem a universalidade da Igreja: com efeito, eles provêm de várias partes do mundo e desenvolvem encargos diversos ao serviço do Povo de Deus. Por eles, convido-vos a elevar a Deus uma particular oração ao Senhor, a fim de que lhes conceda as graças necessárias para desempenhar com generosidade a sua missão.
Como disse no início, no próximo 24 de Março terei o anunciado Consistório e no dia seguinte, 25 de Março, Solenidade da Anunciação do Senhor, terei a alegria de presidir a uma solene Concelebração com os novos Cardeais. Para esta circunstância convidarei também todos os Membros do Colégio Cardinalício, com os quais tenho em mente realizar uma reunião de reflexão e de oração no dia precedente, 23 de Março.
Concluamos agora com o canto do Pater noster.
Quarta-feira, 1° de Março de 2006 A Quaresma: um itinerário de reflexão e de intensa oração
Amados irmãos e irmãs
Começa hoje, com a Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, o itinerário quaresmal de quarenta dias, que nos conduzirá ao Tríduo pascal, memória da paixão, morte e ressurreição do Senhor, cerne do mistério da nossa salvação. Este é um tempo favorável, em que a Igreja convida os cristãos a tomar consciência mais viva da obra redentora de Cristo e a viver com maior profundidade o próprio Baptismo. Com efeito, neste período litúrgico o Povo de Deus, desde os primórdios, alimenta-se abundantemente da Palavra de Deus para se fortalecer na fé, percorrendo toda a história da criação e da redenção.
Na sua duração de quarenta dias, a Quaresma possui uma indubitável força evocadora. De facto, ela tenciona recordar alguns acontecimentos que cadenciaram a vida e a história do antigo Israel, voltando a propor-nos também a nós o seu valor paradigmático: pensemos, por exemplo, nos quarenta dias do dilúvio universal, que terminaram com o pacto de aliança estabelecido por Deus com Noé, e assim com a humanidade, e nos quarenta dias de permanência de Moisés no Monte Sinai, aos quais se seguiu o dom das tábuas da Lei. O período quaresmal quer convidar-nos sobretudo a reviver com Jesus os quarenta dias por Ele transcorridos no deserto, rezando e jejuando, antes de empreender a sua missão pública. Hoje, também nós fazemos um caminho de reflexão e de oração com todos os cristãos do mundo, para nos dirigirmos espiritualmente ao Calvário, meditando os mistérios centrais da fé. Assim, preparar-nos-emos para experimentar, depois do mistério da Cruz, a alegria da Páscoa da Ressurreição.
Realiza-se hoje, em todas as comunidades paroquiais, um gesto austero e simbólico: a imposição das cinzas, e este rito é acompanhado por duas fórmulas significativas, que constituem um apelo urgente a reconhecermo-nos pecadores e a voltarmos para Deus. A primeira fórmula diz: "Lembra-te que és pó e em pó te hás-de tornar" (cf. Gn 3,19). Estas palavras, tiradas do livro do Génesis, evocam a condição humana posta sob o sinal da caducidade e do limite, e tencionam levar-nos a depositar de novo toda a esperança somente em Deus. A segunda fórmula inspira-se nas palavras pronunciadas por Jesus no início do seu ministério itinerante: "Convertei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1,15). Trata-se de um convite a lançar, como fundamento da renovação pessoal e comunitária, a adesão firme e confiante ao Evangelho. A vida do cristão é vida de fé, alicerçada na Palavra de Deus e por ela alimentada. Nas provações da vida e em cada tentação, o segredo da vitória consiste em ouvir a Palavra de verdade e em rejeitar com determinação a mentira e o mal. Este é o programa verdadeiro e central do tempo da Quaresma: ouvir a palavra de verdade, viver, dizer e cumprir a verdade, rejeitando a mentira que envenena a humanidade e constitui a porta de todos os males. Portanto, nestes quarenta dias é urgente voltar a ouvir o Evangelho, a palavra do Senhor, palavra de verdade, para que em cada cristão, em cada um de nós, se revigore a consciência da verdade que lhe foi oferecida, que nos foi dada, a fim de que ele a viva e dela se torne testemunha. A Quaresma impele-nos a isto, a deixarmos que a nossa vida seja imbuída pela Palavra de Deus e assim a conhecermos a verdade fundamental: quem somos, de onde vimos, aonde devemos ir, qual é o caminho a empreender na vida. E assim o período da Quaresma oferece-nos um percurso ascético e litúrgico que, enquanto nos ajuda a abrir os olhos para a nossa debilidade, nos faz abrir o coração ao amor misericordioso de Cristo.
O caminho quaresmal, aproximando-nos de Deus, permite-nos ver com olhos novos os irmãos e as suas necessidades. Quem começa a ver Deus, a contemplar o rosto de Cristo, vê com outros olhos também o irmão, descobre o irmão, o seu bem, o seu mal e as suas necessidades. Por isso a Quaresma, como escuta da verdade, é um momento favorável para se converter ao amor, porque a verdade profunda, a verdade de Deus, é ao mesmo tempo amor. Convertendo-nos à verdade de Deus, devemos necessariamente converter-nos ao amor. Um amor que saiba tornar própria a atitude de compaixão e de misericórdia do Senhor, como desejei recordar na Mensagem para a Quaresma, que tem como tema as seguintes palavras evangélicas: "Jesus, ao ver as multidões, encheu-se de compaixão por elas" (Mt 9,36). Consciente da própria missão no mundo, a Igreja não cessa de proclamar o amor misericordioso de Cristo, que continua a dirigir o olhar comovido aos homens e aos povos de todos os tempos. "À vista dos tremendos desafios da pobreza de grande parte da humanidade escrevi na citada Mensagem quaresmal a indiferença e o encerramento no próprio egoísmo apresentam-se em contraste intolerável com o "olhar" de Cristo. O jejum e a esmola, juntamente com a oração, que a Igreja propõe de modo especial no período da Quaresma, são uma ocasião propícia para nos conformarmos àquele "olhar"" (Ed. port. de L'Osservatore Romano de 4 de Fevereiro de 2006, pág. 7), ao olhar de Cristo, e vermo-nos a nós mesmos, a humanidade e os outros com este seu olhar. Com este espírito, entramos no clima austero e orante da Quaresma, que é precisamente um clima de amor ao irmão.
Sejam dias de reflexão e de intensa oração, em que nos deixemos orientar pela Palavra de Deus, que a liturgia nos propõe abudantemente. Além disso, a Quaresma seja um tempo de jejum, de penitência e de vigilância sobre nós mesmos, persuadidos de que a luta contra o pecado nunca termina, porque a tentação é realidade de todos os dias e a fragilidade e a ilusão são experiências de todos. Enfim, através da esmola e dos gestos de bem ao próximo, a Quaresma seja ocasião de partilha sincera dos dons recebidos com os irmãos e de atenção às necessidades dos mais pobres e abandonados. Que neste itinerário penitencial nos acompanhe Maria, a Mãe do Redentor, que é Mestra de escuta e de adesão fiel a Deus. A Virgem Santíssima nos ajude a chegar, purificados e renovados na mente e no espírito, à celebração do grande mistério da Páscoa de Cristo. Com estes sentimentos, formulo a todos vós os votos de uma boa e fecunda Quaresma.
Saudação
Queridos peregrinos de língua portuguesa, saúdo cordialmente a todos, a começar pelo grupo paroquial da Luz de Tavira e pelo Colégio da Rainha Santa Isabel, de Coimbra, com votos de uma boa e frutuosa Quaresma para vós, vossas famílias e comunidades cristãs. A Virgem Maria modelo de escuta atenta e adesão fiel à vontade de Deus vos tome pela mão e vos acompanhe durante os próximos quarenta dias, que servem para vos transformar no Senhor ressuscitado. Obrigado pela visita! Ide com Deus.
Por fim, dirijo a minha saudação aos jovens, aos doentes e aos novos casais. O tempo quaresmal, que hoje começamos, conduza todos a um conhecimento mais íntimo de Cristo, para que possais, nas diversas situações em que vos encontrais, ter os Seus sentimentos e fazer tudo em comunhão com Ele.
Quarta-feira, 15 de Março de 2006 Amados irmãos,
Queridos irmãos e irmãs!
Depois das catequeses sobre os Salmos e sobre os Cânticos das Laudes e das Vésperas, gostaria de dedicar os próximos encontros de quarta-feira ao mistério da relação entre Cristo e a Igreja, considerando-o a partir da experiência dos Apóstolos, à luz da tarefa que lhes foi confiada. A Igreja foi constituída sobre o fundamento dos Apóstolos como comunidade de fé, de esperança e de caridade. Através dos Apóstolos, remontamos ao próprio Cristo. A Igreja começou a construir-se quando alguns pescadores da Galileia encontraram Jesus, deixaram-se conquistar pelo seu olhar, pela sua voz, pelo seu convite caloroso e forte: "Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens" (Mc 1,17 Mt 4,19). O meu amado Predecessor João Paulo II propôs à Igreja, no início do terceiro milénio, que contemplasse o rosto de Cristo (cf. Novo millennio ineunte, NM 16ss.). Seguindo também eu a mesma direcção, na catequese a que hoje dou início, gostaria de realçar como precisamente a luz daquele Rosto se reflecte sobre o rosto da Igreja (cf. Lumen gentium LG 1), apesar dos limites e das sombras da nossa humanidade frágil e pecadora. Depois de Maria, reflexo puro da luz de Cristo, são os Apóstolos, com a sua palavra e com o seu testemunho, que nos ensinam a verdade de Cristo. Contudo, a sua missão não está isolada, mas insere-se num mistério de comunhão, que envolve todo o Povo de Deus e realiza-se por etapas, da Antiga à Nova Aliança.
Em relação a isto deve dizer-se que será mal compreendida a mensagem de Jesus, se a separarmos do contexto da fé e da esperança do povo eleito: como João Baptista, seu imediato precursor, Jesus dirige-se em primeiro lugar a Israel (cf. Mt 15,24), para ali fazer a "colheita" no tempo escatológico juntamente com ele. Assim como a de João, também a pregação de Jesus é ao mesmo tempo chamada de graça e sinal de contradição e de juízo para todo o povo de Deus. Por conseguinte, desde o primeiro momento da sua actividade salvífica Jesus de Nazaré procura reunir o Povo de Deus. Mesmo sendo sempre a sua pregação um apelo à conversão pessoal, ele na realidade tem continuamente por objectivo a constituição do Povo de Deus que veio reunir e salvar. Portanto, torna-se unilateral e sem fundamento a interpretação individualista do anúncio que Cristo faz do Reino, assim resumida por Adolf von Harnack nas suas lições sobre A essência do cristianismo: "O reino de Deus vem, porque vem em homens individualmente, encontra acesso à sua alma e eles recebem-no. O reino de Deus é o senhorio de Deus, certamente, mas é o senhorio do Deus santo em cada um dos corações" (Lição Terceira, 100s). Na realidade, este individualismo da teologia liberal é uma acentuação tipicamente moderna: na perspectiva da tradição bíblica e no horizonte do hebraísmo, nos quais a obra de Jesus se situa mesmo com toda a sua novidade, é evidente que toda a missão do Filho feito homem tem uma finalidade humanitária. Ele veio precisamente para convocar a humanidade dispersa, veio para reunir e unir o povo de Deus.
Um sinal evidente da intenção do Nazareno de reunir a comunidade da aliança, para manifestar nela o cumprimento das promessas feitas aos Pais, que falam sempre de convocação, de unificação, de unidade, é a instituição dos Doze. Ouvimos o Evangelho sobre esta instituição dos Doze. Leio mais uma vez a parte central: "Jesus subiu depois a um monte, chamou os que Ele queria e foram ter com Ele. Estabeleceu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar, com o poder de expulsar demónios. Estabeleceu estes doze..." (Mc 3,13-16 cf. Mt 10,1-4 Lc 6,12-16). No lugar da revelação, "o monte", Jesus com uma iniciativa que manifesta absoluta autoconsciência e determinação, constitui os Doze para que sejam com Ele testemunhas e anunciadores do acontecimento do Reino de Deus. Sobre a historicidade desta chamada não existem dúvidas, não só devido à antiguidade e à multiplicidade dos testemunhos, mas também pelo simples motivo que nela se encontra o nome de Judas, o apóstolo traidor, apesar das dificuldades que esta presença podia causar à comunidade nascente. O número Doze, que evidentemente evoca as doze tribos de Israel, já revela o significado de acção profético-simbólica implícito na iniciativa de fundar novamente o povo santo. Tendo terminado há tempo o sistema das doze tribos, a esperança de Israel estava depositada na sua reconstituição como sinal da vinda do tempo escatológico (pensemos na conclusão do livro de Ezequiel: Ez 37,15-19 Ez 39,23-29 Ez 40-48). Ao escolher os Doze, introduzindo-os numa comunhão de anúncio do Reino em palavras e acções (cf. Mc 6,7-13 Mt 10,5-8 Lc 6,13), Jesus pretende dizer que chegou o tempo definitivo no qual se constitui um novo povo de Deus, o povo das doze tribos, que agora se torna um povo universal, a sua Igreja.
Com a sua própria existência os Doze chamados de proveniências diferentes tornam-se um apelo para Israel inteiro para que se converta e se deixe reunir na nova aliança, pleno e perfeito cumprimento da antiga. Ter-lhes confiado na Última Ceia, antes da sua Paixão, a tarefa de celebrar o seu memorial, mostra como Jesus quisesse transmitir a toda a comunidade na pessoa dos seus chefes o mandato de serem, na história, sinal e instrumento da reunião escatológica, com ele iniciada. Num certo sentido podemos dizer que precisamente a Última Ceia é o acto da fundação da Igreja, porque Ele se oferece a si mesmo e cria desta forma uma nova comunidade, uma comunidade unida na comunhão com Ele. Sob esta luz, compreende-se como o Ressuscitado lhes confere com a efusão do Espírito o poder de perdoar os pecados (cf. Jn 20,23). Os doze Apóstolos são, desta forma, o sinal mais evidente da vontade de Jesus em relação à existência e à missão da sua Igreja, a garantia de que entre Cristo e a Igreja não existe contraposição alguma: são inseparáveis, não obstante os pecados dos homens que pertencem à Igreja. Portanto, é totalmente inconciliável com a intenção de Cristo uma propaganda que estava na moda há alguns anos: "Jesus sim, Igreja não". A escolha deste Jesus individualista é um Jesus fruto da fantasia. Não podemos ter Jesus sem a realidade que Ele criou e na qual se comunica. Entre o Filho de Deus feito homem e a sua Igreja existe uma profunda, inseparável e misteriosa continuidade, em virtude da qual Cristo está presente hoje no seu povo. Ele é sempre nosso contemporâneo, é sempre contemporâneonaIgreja construída sobre o fundamento dos Apóstolos, está vivo na sucessão dos Apóstolos. E esta sua presença na comunidade, na qual Ele mesmo se oferece sempre a nós, é o motivo da nossa alegria.Sim,Cristo está connosco, o Reino de Deus vem.
Saudação
Amados irmãos, nossa catequese de hoje exprime a vontade de Jesus Cristo sobre a Igreja e a escolha dos Doze Apóstolos. Chamando-os nominalmente o Senhor os leva à comunhão de vida, e os destina a anunciar o Reino de Deus até o fim dos tempos. Nesta misteriosa e indestrutível unidade reside a força com a qual Cristo faz-se presente entre o seu povo e, em particular, entre os Apóstolos e seus sucessores.
Saúdo com especial afeto os peregrinos de língua portuguesa, de modo particular o grupo de portugueses da Atouguia, e os brasileiros de distintas procedências: a todos peço que rezem para que o Espírito Santo reforce a unidade do Povo de Deus em torno aos seus Pastores. E que Deus vos abençoe!
Quarta-feira, 22 de Março de 2006 Queridos irmãos e irmãs!
A Carta aos Efésios apresenta-nos a Igreja como uma construção edificada "sobre o alicerce dos Apóstolos e dos profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus" (Ep 2,20). No Apocalipse o papel dos Apóstolos, e mais especificamente dos Doze, é esclarecido na perspectiva escatológica da Jerusalém celeste, apresentada como uma cidade cujos muros "tinham doze alicerces, nos quais estavam gravados doze nomes, os nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro" (Ap 21,14). Os Evangelhos concordam em referir que a vocação dos Apóstolos marcou os primeiros passos do ministério de Jesus, depois do baptismo recebido do Baptista nas águas do Jordão.
Segundo a narração de Marcos (Mc 1,16-29) e de Mateus (Mt 4,18-22), o cenário da vocação dos primeiros Apóstolos é o lago da Galileia. Jesus acabara de iniciar a pregação do Reino de Deus, quando o seu olhar se pousou sobre dois pares de irmãos: Simão e André, Tiago e João. São pregadores, empenhados no seu trabalho quotidiano. Lançam as redes, consertam-nas. Mas outra pesca os aguarda. Jesus chama-os com decisão e eles seguem-no imediatamente: agora serão "pescadores de homens" (cf. Mc 1,17 Mt 4,19). Lucas, ainda que siga a mesma tradição, faz uma narração mais elaborada (Lc 5,1-11). Ele mostra o caminho de fé dos primeiros discípulos, esclarecendo que o convite para o seguimento lhes chega depois de terem ouvido a primeira pregação de Jesus e experimentam os primeiros sinais prodigiosos por ele realizados. Em particular, a pesca milagrosa constitui o contexto imediato e oferece o símbolo da missão de pescadores de homens, que lhes foi confiada. O destino destes "chamados", de agora para o futuro, estará intimamente ligado ao de Jesus. O apóstolo é um enviado mas, ainda antes, um "perito" em Jesus.
Precisamente este é o aspecto realçado pelo evangelista João desde o primeiro encontro de Jesus com os futuros Apóstolos. Aqui o cenário é diferente. A presença dos futuros discípulos, provenientes também eles, como Jesus, da Galileia para viver a experiência do baptismo administrado por João, esclarece o seu mundo espiritual. Eram homens na expectativa do Reino de Deus, desejosos de conhecer o Messias, cuja vinda estava anunciada como iminente.
Para eles, é suficiente a orientação de João Baptista que indica em Jesus o Cordeiro de Deus (cf. Jn 1,36), para que surja neles o desejo de um encontro pessoal com o Mestre. As frases do diálogo de Jesus com os primeiros dois futuros Apóstolos são muito expressivas. À pergunta: "Que procurais?", eles respondem com outra pergunta: "Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?". A resposta de Jesus é um convite: "Vinde e vereis" (cf. Jn 1,38-39). Vinde para poder ver. A aventura dos Apóstolos começa assim, como um encontro de pessoas que se abrem reciprocamente. Começa para os discípulos um conhecimento directo do Mestre. Vêem onde mora e começam a conhecê-lo. De facto, eles não deverão ser anunciadores de uma ideia, mas testemunhas de uma pessoa. Antes de serem enviados a evangelizar, deverão "estar" com Jesus (cf. Mc 3,14), estabelecendo com ele um relacionamento pessoal. Sobre esta base, a evangelização não será mais do que um anúncio daquilo que foi experimentado e um convite a entrar no mistério da comunhão com Cristo (cf. 1Jn 13).
A quem serão enviados os Apóstolos? No Evangelho parece que Jesus limita a sua missão unicamente a Israel: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 15,24). De modo análogo parece que ele circunscreve a missão confiada aos Doze: "Jesus enviou estes Doze, depois de lhes ter dado as seguintes instruções: "Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel"" (Mt 10, 5s.). Uma certa crítica moderna de inspiração racionalista tinha visto nestas expressões a falta de uma consciência universalista do Nazareno. Na realidade, elas devem ser compreendidas à luz da sua relação especial com Israel, comunidade da aliança, em continuidade com a história da salvação. Segundo a expectativa messiânica as promessas divinas, imediatamente dirigidas a Israel, ter-se-iam concretizado quando o próprio Deus, através do seu Eleito, reunisse o seu povo, como faz um pastor com o rebanho: "Eu virei em socorro das minhas ovelhas, para que elas não mais sejam saqueadas... Estabelecerei sobre elas um único pastor, que as apascentará, o meu servo David; será ele que as levará a pastar e lhes servirá de pastor. Eu, o Senhor, serei o seu Deus, e o meu servo David será um príncipe no meio delas" (Ez 34,22-24). Jesus é o pastor escatológico, que reúne as ovelhas perdidas da casa de Israel e vai à procura delas, porque as conhece e ama (cf. Lc 15,4-7 Mt 18,12-14; cf. também a figura do bom pastor em Jn 10,11ss.). Através desta "reunião" o Reino de Deus é anunciado a todas as nações: "Manifestarei a minha glória entre as nações, e todas me verão executar a minha justiça e aplicar a minha mão sobre eles" (Ez 39,21). E Jesus segue precisamente este caminho profético. O primeiro passo é a "reunião" do povo de Israel, para que assim todas as nações, chamadas a reunirem-se na comunhão com o Senhor, possam ver e crer.
Assim os Doze, chamados a participar na mesma missão de Jesus, cooperam com o Pastor dos últimos tempos, indo também eles, em primeiro lugar, até às ovelhas perdidas da casa de Israel, isto é, dirigindo-se ao povo da promessa, cuja reunião é o sinal de salvação para todos os povos, o início da universalização da Aliança. Longe de contradizer a abertura universalista da acção messiânica do Nazareno, a inicial limitação a Israel da sua missão e da dos Doze torna-se assim o seu sinal profético mais eficaz. Depois da paixão e da ressurreição de Cristo este sinal será esclarecido: o carácter universal da missão dos Apóstolos tornar-se-á mais explícito. Cristo enviará os Apóstolos "a todo o mundo" (Mc 16,15), a "todas as nações" (Mt 28,19); Lc 24, 47), "até aos extremos confins da terra" (Ac 1,8). E esta missão continua. Continua sempre o mandato do Senhor de reunir os povos na unidade do seu amor. Esta é a nossa esperança e este é também o nosso mandato: contribuir para esta universalidade, para esta verdadeira unidade na riqueza das culturas, em comunhão com o nosso verdadeiro Senhor Jesus Cristo.
Apelo do Papa pela luta contra a tuberculose
Celebra-se depois de amanhã, 24 de Março, a Jornada mundial, promovida pelas Nações Unidas, da luta contra a tuberculose. Desejo um renovado compromisso a nível global, para que sejam postos à disposição os recursos necessários para curar os doentes desta patologia que, evidentemente, está associada à pobreza. Encorajo as iniciativas de assistência e de solidariedade para com estes doentes, que precisam de ser ajudados a viver a sua condição com dignidade.
Igreja 22fev-Maio06