Salmos 27Abril05-15fev06
Quarta-feira, 27 de Abril de 2005
Caríssimos Irmãos e Irmãs!
Sinto-me feliz por vos receber e dirijo uma cordial saudação a quantos estão aqui presentes, assim como aos que nos seguem mediante a rádio e a televisão. Como já expressei no meu primeiro encontro com os Senhores Cardeais, precisamente na quarta-feira da semana passada na Capela Sistina, experimento no ânimo sentimentos entre si contrastantes nestes dias de início do meu ministério petrino: admiração e gratidão em relação a Deus que surpreendeu antes de tudo a mim mesmo, chamando-me a suceder ao apóstolo Pedro; trepidação interior perante a grandeza da tarefa e das responsabilidades que me foram confiadas. Contudo dá-me serenidade e alegria a certeza da ajuda de Deus, da sua Mãe Santíssima, a Virgem Maria, e dos santos Padroeiros; é para mim de apoio também a proximidade espiritual de todo o Povo de Deus ao qual, como no domingo passado tive a ocasião de repetir, continuo a pedir que me acompanheis com a oração insistente.
Depois da piedosa partida do meu venerado predecessor João Paulo II, recomeçam hoje as tradicionais Audiências gerais da quarta-feira. Voltamos assim à normalidade. Neste primeiro encontro gostaria antes de tudo de falar sobre o nome que escolhi ao tornar-me Bispo de Roma e Pastor universal da Igreja. Quis chamar-me Bento XVI para me relacionar idealmente com o venerado Pontífice Bento XV, que guiou a Igreja num período atormentado devido ao primeiro conflito mundial. Ele foi um profeta corajoso e autêntico de paz e comprometeu-se com coragem infatigável primeiro para evitar o drama da guerra e depois para limitar as consequências nefastas. Nas suas pegadas desejo colocar o meu ministério ao serviço da reconciliação e da harmonia entre os homens e os povos, profundamente convencido de que o grande bem da paz é antes de tudo dom de Deus, dom frágil e precioso que deve ser invocado, tutelado e construído dia após dia com o contributo de todos.
Além disso, o nome Bento recorda também a extraordinária figura do grande "Patriarca do monaquismo ocidental", São Bento de Núrsia, co-padroeiro da Europa juntamente com os santos Cirilo e Metódio e as mulheres santas, Brígida da Suécia, Catarina de Sena e Edith Stein. A expansão progressiva da Ordem beneditina por ele fundada exerceu uma influência enorme na difusão do cristianismo em todo o Continente. Por isso, São Bento é muito venerado também na Alemanha e, em particular, na Baviera, a minha terra de origem; constitui um ponto de referência fundamental para a unidade da Europa e uma forte chamada às irrenunciáveis raízes cristãs da sua cultura e da sua civilização.
Deste Pai do Monaquismo ocidental conhecemos a recomendação deixada aos monges na sua Regra: "Nada anteponham absolutamente a Cristo" (Regra 72, 11; cf. 4, 21). No início do meu serviço como Sucessor de Pedro peço a São Bento que nos ajude a manter firme a centralidade de Cristo na nossa existência. Que ele esteja sempre no primeiro lugar nos nossos pensamentos e em cada uma das nossas actividades!
O meu pensamento volta com afecto ao venerado predecessor João Paulo II, ao qual somos devedores de uma extraordinária herança espiritual. "As nossas comunidades cristãs escreveu na Carta Apostólica Novo millennio ineunte devem tornar-se autênticas escolas de oração, onde o encontro com Cristo não se exprima apenas em pedidos de ajuda, mas também em acção de graças, louvor, adoração, contemplação, escuta, fervor e afectos, até se chegar a um coração verdadeiramente apaixonado", como foi João Paulo II (33). Ele mesmo procurou realizar estas indicações dedicando as catequeses da quarta-feira dos últimos tempos ao comentário dos Salmos das Laudes e das Vésperas. Como ele fez no início do seu pontificado, quando quis prosseguir as reflexões iniciadas pelo seu Predecessor sobre as virtudes cristãs (cf. Insegnamenti di Giovanni Paolo II, I [1978], PP 60-63), assim também eu pretendo repropor nos próximos encontros semanais o comentário por ele preparado sobre a segunda parte dos Salmos e Cânticos que compõem as vésperas. Por conseguinte, na próxima quarta-feira retomarei precisamente de onde se tinham interrompido as suas catequeses, na Audiência geral de 26 de Janeiro passado.
Queridos amigos, obrigado de novo pela vossa visita, obrigado pelo afecto com que me circundais. São sentimentos que retribuo cordialmente com uma especial bênção, que concedo a vós aqui presentes, aos vossos familiares e a todas as pessoas queridas.
Saudações
Queridos Irmãos e Irmãs!
Saúdo cordialmente os peregrinos francófonos, sobretudo do Gabão e os jovens da escola de Courset, da capelania de Nossa Senhora de Vauvert, da Córsega, e de Nantes. Concedo a todos a Bênção apostólica.
Queridos Irmãos e Irmãs!
Dou especiais boas-vindas aos peregrinos de língua inglesa aqui presentes, provenientes da Inglaterra, Gales, Irlanda, Finlândia, Noruega, Suécia, Austrália, Vietname, Índia, Paquistão, Singapura e dos Estados Unidos da América. Obrigado pelo afecto que me menifestastes. Invoco sobre todos vós a alegria e a paz de Jesus Cristo nosso Senhor!
Amados Irmãos e Irmãs!
Saúdo cordialmente os peregrinos e visitantes de língua alemã. Obrigado, queridos amigos, pelas vossas orações e dedicação, com que seguis o meu serviço. Concedo de coração a todos vós e às vossas famílias e amigos a minha Bênção.
Amados Irmãos e Irmãs!
Saúdo agora os peregrinos espanhóis e o grupo de estudantes do Instituto católico "La Paz" de Querétar (México), bem como os demais fiéis vindos da Espanha e da América Latina, e quantos nos seguem através da rádio e da televisão. Queridos amigos: obrigado pelo vosso afecto; abençoo-vos a todos vós, às vossas famílias e pessoas queridas.
Saúdo os fiéis de língua polaca. Agradeço-vos a vossa bondade e orações. Abençoo-vos de coração.
Dirijo cordiais boas-vindas aos peregrinos de língua italiana. Em particular, saúdo os fiéis da Arquidiocese de Espoleto-Núrsia, acompanhados pelo seu Pastor, D. Riccardo Fontana, os Seminaristas de Bérgamo, e os estudantes do Liceu "Cairoli" de Vigevano. A todos convido a prosseguir o compromisso de adesão a Cristo, testemunhando o Evangelho em todos os âmbitos da sociedade.
Por fim, o meu pensamento dirige-se aos jovens, aos doentes e aos novos casais. O Senhor ressuscitado encha com o seu amor o coração de cada um de vós, queridos jovens, para que estejais prontos a segui-lo com entusiasmo; ampare a vós, queridos doentes, para que aceiteis com serenidade o peso do sofrimento, e vos guie a vós, amados novos casais, para que façais crescer a vossa família na santidade.
Concluamos o nosso encontro, cantando a oração do Pai Nosso.
Quarta-feira, 4 de Maio de 2005
Salmo 120 das Vésperas da sexta-feira da 2ª semana
Caríssimos Irmãos e Irmãs!
1. Como já anunciei na quarta-feira passada, decidi retomar nas catequeses o comentário aos Salmos e Cânticos que compõem as Vésperas, usando os textos predispostos pelo meu querido predecessor, o Papa João Paulo II.
Iniciamos hoje com o Salmo 120. Este Salmo faz parte da colecção dos "cânticos das subidas", ou seja da peregrinação rumo ao encontro com o Senhor no templo de Sião. É um salmo de confiança porque nele ressoa seis vezes o verbo hebraico shamar, "guardar, proteger". Deus, cujo nome é invocado repetidamente, elege como o "guarda" sempre acordado, atento e solícito, a "sentinela" que vigia sobre o seu povo para o tutelar de qualquer risco e perigo.
O cântico abre-se com um olhar do orante dirigido para o alto, "para os montes", isto é, para as colinas sobre as quais se eleva Jerusalém: de lá vem a ajuda, porque sobre eles habita o Senhor no seu templo (cf. vv. 1-2). Contudo os "montes" podem evocar também os lugares onde surgem os santuários idolátricos, as chamadas "alturas", muitas vezes condenadas pelo Antigo Testamento (cf. 1R 3,2 2R 18,4). Neste caso haveria um contraste: enquanto o peregrino progride em direcção a Sião, os seus olhos caem sobre os templos pagãos, que constituem uma grande tentação para ele. Mas a sua fé é inabalável e a sua certeza é uma só: "O meu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra" (Ps 120,2). Também na peregrinação da nossa vida existem coisas semelhantes. Vemos alturas que se abrem e se apresentam como uma promessa de vida: a riqueza, o poder, o prestígio, a vida confortável. Alturas que são tentações, porque se apresentam realmente como a promessa da vida. Mas nós, na nossa fé vemos que não é verdade e que estas alturas não são a vida. A verdadeira vida, a verdadeira ajuda vem do Senhor. E o nosso olhar dirige-se portanto para a altura verdadeira, para o verdadeiro monte: Cristo".
2. Esta confiança é ilustrada no Salmo através da imagem do guarda e da sentinela, que vigiam e protegem. É feita alusão também ao pé que não vacila (cf. v. 3) no caminho da vida e talvez ao pastor que na pausa nocturna vigia sobre o seu rebanho sem adormecer nem dormitar (cf. v. 4). O pastor divino não conhece repouso na obra de tutela do seu povo, de todos nós.
Depois, surge no Salmo outro símbolo, o da "sombra", que supõe a retomada da viagem durante o dia ensolarado (cf. v. 5). O pensamento corre para a histórica marcha no deserto do Sinai, onde o Senhor caminha diante de Israel "durante o dia, numa coluna de nuvem para os conduzir na estrada" (Ex 13,21). No Saltério reza-se assim com frequência: "Protege-me à sombra das tuas asas..." (Ps 16,8 cf. Sl Ps 90,1). Há aqui também um aspecto realístico da nossa vida. Com frequência a nossa vida move-se sob um sol desumano. O Senhor é a sombra que nos protege, que nos ajuda.
3. Depois da vigília e da sombra, eis o terceiro símbolo, o do Senhor que "está à direita" do seu fiel (cf. Sl Ps 120,5). Esta é a posição do defensor quer militar quer processual: é a certeza de não ser abandonados no tempo das provações, do assalto do mal, da perseguição. A este ponto o Salmista volta à ideia da viagem durante um dia quente no qual Deus nos protege do sol escaldante.
Mas depois do dia vem a noite. Na antiguidade considerava-se que também os raios lunares fossem nocivos, causa de febre, ou de cegueira, ou até de loucura; por isso, o Senhor também nos protege durante a noite (cf. v. 6), nas noites da nossa vida.
O Salmo chega agora ao final com uma declaração sintética de confiança: Deus guardar-nos-á com amor em cada momento, tutelando a nossa vida de qualquer mal (cf. v. 7). Todas as nossas actividades, resumidas nos dois verbos extremos de "sair" e "entrar", está sempre sob o olhar vigilante do Senhor. Ele protege cada um dos nossos actos e todo o nosso tempo, "agora e para sempre" (v. 8).
4. Desejamos agora, no final, comentar esta última declaração de confiança com um testemunho espiritual da antiga tradição cristã. De facto, no Epistolário de Barsanufio de Gaza (falecido a meados do século VI), um asceta de grande fama, interpelado por monges, eclesiásticos e leigos devido à sabedoria do seu discernimento, encontramos citado várias vezes o versículo do Salmo: "O Senhor protege-te de todo o mal e vela pela tua vida". Com este Salmo, com este versículo Barsanufio pretendia confortar quantos lhe manifestavam as próprias fadigas, as provas da vida, os perigos e as desgraças.
Certa vez Barsanufio, tendo-lhe sido pedido por um monge que rezasse por ele e pelos seus companheiros, respondeu do seguinte modo, incluindo nos seus votos a citação deste versículo: "Diletos filhos meus, abraço-vos no Senhor, suplicando-o que vos proteja de qualquer mal e que vos conceda, como a Job a resignação, como a José a graça, como a Moisés a humildade, como a Josué, filho de Nun, o valor nos combates, como aos Juízes o perdão dos pensamentos, como aos reis David e Salomão a subjugação dos inimigos, e como aos Israelitas, a fertilidade da terra...
Conceda-vos a remissão dos vossos pecados com a cura do corpo como ao paralítico. Vos salve das ondas como a Pedro e vos poupe às tribulações como a Paulo e aos outros Apóstolos.
Proteja-vos da todo o mal, como seus verdadeiros filhos e vos conceda o que o vosso coração pede, para benefício da alma e do corpo no seu nome. Amém" (BARSANUFIO e GAZA, Epistulário, 194: Colecção de textos Patrísticos, XCIII, Roma 1991, págs. 235.236).
Saudações
Saúdo cordialmente os peregrinos franceses, em particular as paróquias da Trindade, de São Leão, e de Santa Joana de Chantal, de Paris, assim como os grupos de jovens presentes. Possa a vossa peregrinação a Roma fazer-vos sentir a presença amorosa de Deus, mediante a qual ele ampara a sua Igreja e a guia com amor!
Saúdo com prazer os estudantes da Faculdade de Direito Canónico da Universidade de São Paulo em Otawa, no Canadá. Dou calorosas boas-vindas a todos os peregrinos e visitantes de língua inglesa presentes nesta Audiência, incluindo as peregrinações da Inglaterra, Irlanda, Austrália, Canadá e dos Estados Unidos. Invoco cordialmente sobre vós e sobre as vossas famílias as bênçãos, a alegria e a paz de Deus.
Saúdo muito cordialmente os peregrinos dos países de língua alemã aqui presentes. Desejo saudar também os pais, os amigos e os parentes da Guarda Suíça, que vieram a Roma para o Juramento dos novos recrutas, assim como uma Delegação da Dieta da Baviera. Que o Senhor vos ampare. Podemos confiar-nos à guia benévola de Deus em qualquer momento da nossa vida. A sua bênção vos acompanhe! Desejo-vos uma boa permanência na "Cidade Eterna"!
Saúdo cordialmente os peregrinos da Espanha e da América Latina, especialmente os do Seminário Menor de Santiago de Compostela, os do Colégio de São João Bosco de Alcalá, os da paróquia da Divina Misericórdia do Panamá e os que vieram do México. O Senhor vos proteja de todo o mal e vos conceda tudo o que o vosso coração pede, para o bem da alma e do corpo.
Saúdo os peregrinos polacos aqui presentes. Confio-vos a Maria, Rainha da Polónia. Abençoo-vos a todos de coração.
Saúdo os peregrinos da Lituânia!
Caríssimos, Deus renove a vossa esperança e conceda a todos a graça de crescer no seu amor.
Abençoo-vos a vós e às vossas famílias com afecto.
Por fim, desejo dirigir-me, como de costume, aos jovens, aos doentes e aos novos casais.
Neste mês de Maio dedicado de modo especial à Mãe do Senhor, convido-vos a vós, queridos jovens a pôr-vos na escola de Maria para aprender a amar e a seguir Cristo acima de tudo. Nossa Senhora vos ajude a vós, queridos doentes, a olhar com fé para o mistério do sofrimento e a compreender o valor salvífico de cada coração. Confio-vos a vós, queridos novos casais, à protecção materna da Virgem Santa, para que possais viver na vossa família o clima de oração e de amor da casa de Nazaré.
Quarta-feira, 11 de Maio de 2005 Queridos Irmãos e Irmãs!
1. Breve e solene, incisivo e grandioso na sua tonalidade, é o Cântico que agora ouvimos e assim fizemos nosso elevando-o como hino de louvor ao "Senhor Deus Omnipotente" (Ap 15,3). Este é um dos numerosos textos orantes inseridos no Apocalipse, o último livro da Sagrada Escritura, livro de julgamento, de salvação e sobretudo de esperança.
De facto, a história não está nas mãos de poderes obscuros, deixada ao caso ou unicamente às opções humanas. Contra o desencadear-se de energias malévolas que vemos, contra a irrupção veemente de satanás, contra o surgir de tantos flagelos e males, eleva-se o Senhor, árbitro supremo da vicissitude histórica. Ele condu-la sabiamente para o alvorecer dos novos céus e da nova terra, cantados na parte final do livro sob a imagem da nova Jerusalém (cf. Ap Ap 21,22).
Quem entoa este Cântico que agora queremos meditar são os justos da história, os vencedores da Besta satânica, os que através da derrota aparente do martírio são na realidade os verdadeiros construtores do mundo novo, com Deus artífice supremo.
2. Eles iniciam exaltando as "obras grandes e maravilhosas" e os "caminhos justos e verdadeiros" do Senhor (cf. v. 3). A linguagem usada neste Cântico é característica do êxodo de Israel da escravidão egípcia. O primeiro cântico de Moisés pronunciado depois da passagem do mar Vermelho celebra o Senhor "temível de glória, fazendo maravilhas" (Ex 15,11). O segundo cântico referido pelo Deuteronómio no final da vida do grande legislador recorda que "perfeitas são as suas obras. Todos os seus caminhos são justiça" (Dt 32,4).
Por conseguinte, pretende-se reafirmar que Deus não é indiferente às vicissitudes humanas, mas penetra nelas realizando os seus "caminhos", isto é, os seus projectos e as suas "obras" eficazes.
3. Segundo o nosso hino, esta intervenção divina tem uma finalidade bem clara: ser um sinal que convida todos os povos da terra à conversão. Por conseguinte, o hino convida todos nós sempre de novo à conversão. As nações devem aprender a "ler" na história uma mensagem de Deus. A aventura da humanidade não é confundida e sem significado, nem está destinada sem apelo à prevaricação dos prepotentes e dos perversos.
Existe a possibilidade de reconhecer o agir divino escondido na história. Também o Concílio Ecuménico Vaticano II, na Constituição pastoral Gaudium et spes, convida o crente a perscrutar, à luz do Evangelho, os sinais dos tempos para encontrar neles a manifestação do próprio agir de Deus (cf. nn. 4 e 11). Esta atitude de fé leva o homem a reconhecer o poder de Deus que age na história, e a abrir-se assim ao temor do nome do Senhor. Na linguagem bíblica, de facto, este "temor" de Deus não é receio, não coincide com o medo, é algo totalmente diferente: é o reconhecimento do mistério da transcendência divina. Por isso ele está na base da fé e entrelaça-se com o amor. Diz a Sagrada Escritura no Deuteronómio: "O Senhor, teu Deus, exige de ti que o temas para seguires todos os seus caminhos, com todo o teu coração e com toda a tua alma" (cf. Dt Dt 10,12). E Santo Hilário, Bispo do século IV, disse: "Todo o nosso temor está no amor".
Nesta linha, no nosso breve hino, tirado do Apocalipse, unem-se temor e glorificação de Deus. O hino diz: "Senhor, quem não reverenciará o teu nome?" (15, 4). Graças ao temor do Senhor não se tem medo do mal que se desencadeia na história e retoma-se com vigor o caminho da vida.
Precisamente graças ao temor de Deus não temos receio do mundo nem de todos estes problemas, não temos medo dos homens, porque Deus é mais forte. O Papa João XXIII disse certa vez: "Quem crê não treme, porque, temendo Deus que é bom, não sente receio nem do mundo nem do futuro". E o profeta Isaías diz assim: "Fortalecei as mãos débeis, robustecei os joelhos vacilantes. Dizei aos que têm o coração pusilânime: "Tomai ânimo, não temais!"" (Is 35,3-4).
4. O hino termina com a previsão de uma procissão universal de povos que se apresentarão diante do Senhor da história, revelado através dos seus "justos juízos" (cf. Ap Ap 15,4). Eles prostar-se-ão em adoração. E o único Senhor e Salvador parece repetir-lhes as palavras pronunciadas na última noite da sua vida terrena, quando disse aos seus Apóstolos: "Tende confiança; eu já venci o mundo!" (Jn 16,33).
Queremos concluir a nossa breve reflexão sobre o cântico do "Cordeiro vitorioso" (cf. Ap Ap 15,3), entoado pelos justos do Apocalipse, com um antigo hino do lucernário, ou seja, da oração vespertina, já conhecido de São Basílio de Cesareia. Este hino diz: "Tendo chegado o pôr do sol, ao ver a luz da noite, cantamos ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo de Deus. És digno de ser cantado em cada momento com vozes santas, Filho de Deus, tu que dás a vida. Por isso o mundo te glorifica" (S. Pricoco-M Simonetti, A oração dos cristãos, Milão 2000, pág. 97).
Obrigado!
Saudações
Saúdo com afeto os peregrinos de língua portuguesa, especialmente alguns visitantes brasileiros. A todos convido para que se preparem à Festividade de Pentecostes, evocando as luzes do Espírito Santo a fim de caminhar com otimismo e fé nas batalhas da vida, até ao encontro com o Senhor no seu Reino. Com a minha Bênção Apostólica.
Sinto-me feliz em acolher os peregrinos francófonos presentes esta manhã, sobretudo os jovens do Lar de Caridade, de Châteauneuf-de-Galaure e os jovens do Colégio de Tampon, da Ilha da Reunião. Possa a vossa estadia em Roma confirmar a vossa fé e fazer de vós testemunhas do Evangelho! Confio-vos à Bem-Aventurada Virgem Maria.
Em nome de Cristo, saúdo os peregrinos e visitantes presentes nesta Audiência, incluindo os peregrinos da Inglaterra, Irlanda e dos Estados Unidos da América. Dou-vos calorosas boas-vindas a Roma, a cidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, e rezo para que o tempo que passardes aqui seja fonte de revigoramento espiritual. Sobre vós e sobre todos os vossos entes queridos invoco do Senhor bênçãos, alegria e paz.
Saúdo de coração os peregrinos e visitantes de língua alemã, de modo especial aos numerosos jovens! Daqui a poucos dias celebraremos a Festa de Pentecostes, a vinda do Espírito Santo sobre a comunidade orante da Igreja. Que o Espírito Criador encha os vossos corações com a luz do seu amor. A paz de Cristo vos acompanhe sempre! Desejo a todos vós boa estadia em Roma!
Queridos peregrinos de língua espanhola!
Saúdo o grupo do Lar das crianças que desejam sorrir, de Porto Rico, as jovens do México que completam quinze anos, assim como os demais grupos de peregrinos da Espanha e da América Latina.
Convido-vos a todos a viver como enviados por Cristo ao mundo, com a força do Espírito Santo.
Dirijo cordiais boas-vindas aos peregrinos de língua italiana. Em particular saúdo os Padres "Giuseppini del Murialdo" e os participantes no encontro promovido pelo Movimento dos Focolares. Saúdo também os fiéis de Ísquia, acompanhados pelo seu Pastor, D. Filippo Strofaldi, os Seminaristas do estúdio teológico interdiocesano das dioceses de Cúneo, Fossano, Mondovì e Saluzzo, assim como os representantes da Guarda de Finanças, provenientes de Áquila e a delegação do Corpo nacional do Socorro Alpino de Trentino. Encorajo todos a trabalhar, nos respectivos âmbitos de compromissos eclesiais e civis, para a construção de uma civilização inspirada nos valores cristãos.
Por fim, dirijo-me a vós jovens, a vós, doentes e a vós novos casais. Depois de amanhã celebra-se a memória litúrgica da Bem-Aventurada Virgem Maria de Fátima. Caríssimos, exorto-vos a dirigir-vos incessantemente e com confiança a Nossa Senhora, recomendando-lhe todas as vossas necessidades.
Quarta-feira, 18 de Maio de 2005 Caríssimos irmãos e irmãs!
1. Ressoou agora na sua simplicidade e beleza o Salmo 112, verdadeiro pórtico de entrada para uma pequena recolha de Salmos que vai do 112 ao 117, convencionalmente chamada "o Hallel egípcio". É o aleluia, isto é o cântico de louvor, que exalta a libertação da escravidão do faraó e a alegria de Israel em servir o Senhor em liberdade na terra prometida (cf. Sl Ps 113).
Não foi por acaso que a tradição hebraica tinha relacionado esta série de salmos com a liturgia pascal. A celebração deste acontecimento, segundo as suas dimensões histórico-sociais e sobretudo espirituais, era sentida como sinal da libertação do mal na multiplicidade das suas manifestações.
O Salmo 112 é um breve hino que no original hebraico consta apenas de cerca de sessenta palavras, todas permeadas de sentimentos de confiança, louvor e alegria.
2. A primeira estrofe (cf. Sl Ps 112,1-3) exalta "o nome do Senhor" que como se sabe na linguagem bíblica indica a própria pessoa de Deus, a sua presença viva e activa na história humana.
Por três vezes, com apaixonada insistência, ressoa "o nome do Senhor" no centro da oração de adoração. Todo o ser e todo o tempo "desde o surgir do sol até ao seu ocaso", diz o Salmista (v. 3) está envolvido numa única acção de graças. É como se um respiro incessante subisse da terra para o céu para exaltar o Senhor, Criador do cosmos e Rei da história.
3. Precisamente através deste movimento para o alto, o Salmo conduz-nos ao mistério divino. A segunda parte (cf. vv. 4-6) celebra, de facto, a transcendência do Senhor, descrita com imagens verticais que superam o simples horizonte humano. Proclama-se: o Senhor é "excelso", "está sentado no alto", e ninguém é como ele; até para olhar para o céu se deve "inclinar", porque "a sua majestade está acima dos céus" (v. 4).
4. O olhar divino dirige-se sobre toda a realidade, sobre os seres terrenos e sobre os celestes. Contudo os seus olhos não são altivos nem afastados, como os de um insensível imperador. O Senhor diz o Salmista "inclina-se para observar" (v. 6).
Passa-se desta forma ao último movimento do Salmo (cf. vv. 7-9), que desloca a atenção das alturas celestes ao nosso horizonte terreno. O Senhor abaixa-se com solicitude em relação à nossa pequenez e indigência que nos estimularia a retirar-nos receosos. Ele dirige directamente o seu olhar amoroso e o seu compromisso eficaz para os últimos e os miseráveis do mundo: "Ele levanta do pó o indigente e tira o pobre da miséria" (v. 7).
Por conseguinte, Deus inclina-se sobre os necessitados e os que sofrem para os confortar. E esta palavra encontra a sua última densidade, o seu último realismo no momento em que Deus se inclina até ao ponto de se encarnar, de se tornar um de nós, e precisamente um dos pobres do mundo. Ao pobre ele confere a maior honra, a de "os fazer sentar entre os grandes"; sim, "entre os grandes do seu povo" (v. 8). À mulher sozinha e estéril, humilhada pela antiga sociedade como se fosse um ramo seco e inútil, Deus dá a honra e a grande alegria de ter muitos filhos (cf. v. 9). Por isso, o Salmista louva um Deus muito diferente de nós na sua grandeza, mas ao mesmo tempo muito próximo das suas criaturas que sofrem.
É fácil intuir nestes versículos finais do Salmo 112 a prefiguração das palavras de Maria no Magnificat, o cântico das opções de Deus que "olha para a humilde condição da sua serva". Mais radical que o nosso Salmo, Maria proclama que Deus "derruba os poderosos dos tronos e exalta os humildes (cf. Lc Lc 1,48 Lc Lc 1,52 cf. Sl Ps 112,6-8).
5. Um "Hino vespertino" muito antigo conservado nas chamadas Constituições dos Apóstolos (VII, 48), retoma e desenvolve o início jubiloso do nosso Salmo. Gostaria de recordar aqui, no final da minha reflexão, para realçar a releitura "cristã" que a comunidade dos primeiros tempos fazia dos Salmos. "Louvai, crianças, ao Senhor, / Louvai o nome do Senhor. / A ti louvamos, a ti cantamos, a ti bendizemos/ pela tua glória imensa. /Senhor rei, / Pai de Cristo cordeiro imaculado, / que tira o pecado do mundo. / A ti convém o louvor, / a ti o hino, a ti a glória, / a Deus Pai por meio do Filho no Espírito Santo / por toda a eternidade. Amém" (S. Pricoco M. Simonetti, A oração dos cristãos, Milão 2000, pág. 97).
Antes de nos introduzirmos numa breve interpretação do Salmo agora cantado, desejo recordar que hoje é o aniversário do nosso amado Papa João Paulo II. Teria completado 85 anos e temos a certeza que do Alto nos vê e está connosco. Nesta ocasião desejamos dizer ao Senhor um grande obrigado pelo dom deste Papa e dizer obrigado ao próprio Papa por tudo o que fez e sofreu.
Salmo 112 (113)
Aleluia!
Louvai, servos do Senhor
louvai o nome do Senhor.
Bendito seja o nome do Senhor,
agora e para sempre.
Desde o nascer ao pôr do sol,
seja louvado o nome do Senhor.
O Senhor reina sobre todas as nações,
a sua majestade está acima dos céus...
Ele levanta do pó o indigente
e tira o pobre da miséria...
Ele dá família à mulher estéril
e faz dela a mãe feliz de muitos filhos!
Aleluia!".
Saudações
Amados peregrinos de língua portuguesa, sede bem-vindos! A todos saúdo com grande afecto e alegria, de modo especial a quantos vieram de Angola e do Brasil com o desejo de encontrar o Sucessor de Pedro. Desça a minha bênção sobre vós, vossas famílias e comunidades ao serviço do menor, dos mais pequeninos e necessitados.
É com alegria que dou as boas-vindas aos peregrinos e visitantes da Alemanha, Áustria, Suíça, Luxemburgo e da Holanda. Saúdo o Coro da Catedral de Klagenfurt e a Orquestra Filarmónica de Ausburgo. Que toda a vossa vida seja uma glorificação a Deus! O Senhor está connosco sempre e em toda a parte. O seu Espírito nos guie e nos oriente. A todos os estudantes que aqui se encontram hoje, desejo um sereno Pentecostes!
Hoje teria sido o aniversário de João Paulo II, o inesquecível Pontífice que está no coração de todos. Desejo aos polacos aqui presentes todo o bem no Senhor. Deus vos abençoe.
Saúdo com afecto os peregrinos russos, que vieram aqui com o seu Arcebispo D. Tadeus Kondrusiewicz. Concedo a vós e à vossa amada pátria uma especial Bênção Apostólica.
Dirijo uma saudação cordial a todos os peregrinos de língua italiana. Em particular, aos sacerdotes da Arquidiocese de Trento, aos Monges formadores dos Mosteiros Trapistas, e à delegação da Peregrinação militar italiana a Lourdes, guiada pelo Ordinário militar, D. Angelo Bagnasco.
Realiza-se hoje nos Abruzos um acto muito significativo, ao qual me uno espiritualmente. É intitulado um cume do Gran Sasso da Itália ao inesquecível Papa João Paulo II, que amou e visitou várias vezes estas maravilhosas montanhas. Saúdo e agradeço aos promotores desta louvável iniciativa e desejo que quantos se detiverem junto deste cimo sejam estimulados a elevar o espírito a Deus, cuja bondade resplandece na beleza da Criação.
Por fim, dirijo-me aos jovens, e são tantos, como se vê aos doentes e aos novos casais, exortando todos a aprofundar a prática piedosa do santo Rosário, sobretudo neste mês de Maio dedicado à Mãe de Deus.
O Rosário é oração evangélica, que nos ajuda a compreender melhor os mistérios fundamentais da história da salvação.
Concluimos o nosso encontro, cantando a oração do Pater noster.
Quarta-feira, 25 de Maio de 2005 1. O Salmo 115, com o qual agora rezamos, foi sempre usado pela tradição cristã, a partir de São Paulo que, citando o seu início na tradução grega dos Setenta, escreve do seguinte modo aos cristãos de Corinto: "Animados do mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: Acreditei e por isso falei, também nós acreditamos e por isso falamos" (2Co 4,10).
O Apóstolo sente-se em sintonia espiritual com o Salmista na confiança serena e no testemunho sincero, apesar dos sofrimentos e debilidades humanas. Escrevendo aos Romanos, Paulo retomará o v. 2 do Salmo e realçará um contraste entre o Deus fiel e o homem incoerente: "Fique claro que Deus é verdadeiro, mesmo que todo o homem seja falso" (Rm 3,4).
A tradição cristã leu, rezou e interpretou o texto em diversos contextos e surge assim toda a riqueza e profundidade da Palavra de Deus, que abre novas dimensões e situações.
No início foi lido sobretudo um texto do martírio, mas depois, na paz da Igreja tornou-se cada vez mais um texto eucarístico, devido à palavra do "cálice da salvação".
Na realidade, Cristo é o primeiro mártir. Deu a sua vida num contexto de ódio e falsidade, mas transformou esta paixão e assim também este contexto na Eucaristia: numa festa de agradecimento. A Eucaristia é agradecimento: "elevarei o cálice da salvação".
2. O Salmo 115 no original hebraico constitui uma única composição com o Salmo precedente, o 114. Ambos são um agradecimento unitário, dirigido ao Senhor que liberta do pesadelo da morte.
No nosso texto sobressai a memória de um passado angustiante: o orante manteve alta a chama da fé, também quando nos seus lábios surgia a amargura do desespero e da infelicidade (cf. Sl Ps 115,10). De facto, em volta eleva-se uma espécie de barreira gélida de ódio e de engano, porque o próximo se manifestava falso e infiel (cf. v. 11). Mas a súplica transforma-se agora em gratidão, porque o Senhor permaneceu fiel neste contexto de infelicidade, elevou o seu fiel do vórtice obscuro da mentira (cf. v. 12). E assim este Salmo é sempre para nós um texto de esperança, porque também em situações difíceis o Senhor não nos abandona, e por isso devemos manter alta a chama da fé.
Por isso, o orante dispõe-se a oferecer um sacrifício de agradecimento, no qual se beberá o cálice ritual, o cálice da oferenda sagrada que é sinal de reconhecimento pela libertação (cf. v. 13) e encontra o seu último cumprimento no cálice do Senhor. É por conseguinte a Liturgia a sede privilegiada na qual elevar o louvor agradecido a Deus salvador.
3. De facto é feita explícita menção, além do rito sacrifical, também à assembleia de "todo o povo", diante da qual o orante cumpre a promessa e testemunha a própria fé (cf. v. 14). Será nesta circunstância que ele tornará público o seu agradecimento, sabendo bem que, também quando a morte incumbe, o Senhor se inclina sobre ele com amor. Deus não permanece indiferente ao drama da sua criatura, mas rompe as suas cadeias (cf. v. 16).
O orante salvo da morte sente-se "servo" do Senhor, "filho da sua escrava" (Ibidem), uma bonita expressão oriental para indicar quem nasceu na mesma casa do Senhor. O Salmista professa humildemente e com alegria a sua pertença à casa de Deus, à família das criaturas unidas a ele no amor e na fidelidade.
4. O Salmo, sempre através das palavras do orante, termina evocando de novo o rito de agradecimento que será celebrado na moldura do templo (cf. vv. 17-19). A sua oração colocar-se-á desta forma num âmbito comunitário. A sua vicissitude pessoal é narrada para que seja para todos um estímulo a crer e a amar o Senhor. Por isso, no fundo podemos entrever todo o povo de Deus enquanto agradece ao Senhor da vida, o qual não abandona o justo no seio obscuro do sofrimento e da morte, mas o guia à esperança e à vida.
5. Concluimos a nossa reflexão confiando-nos às palavras de São Basílio Magno que, na Homilia sobre o Salmo 115, comenta do seguinte modo a pergunta e a resposta presentes no Salmo:
"Que darei ao Senhor por quanto me concedeu? Levantarei o cálice da salvação. O Salmista compreendeu os numerosos dons recebidos de Deus: do não ser foi levado ao ser, foi depois plasmado da terra e dotado de razão... distinguiu a economia da salvação a favor do género humano, reconhecendo que o Senhor se entregou a si mesmo em redenção no lugar de todos nós; e permanece incerto, procurando entre todas as coisas que lhe pertencem, qual o dom que possa ser digno do Senhor. Que darei ao Senhor? Sacrifícios, não, nem holocaustos... mas toda a minha vida. Por isso diz: Levantarei o cálice da salvação, chamando cálice ao sofrimento no combate espiritual, resistir ao pecado até à morte. De resto, o que o nosso Salvador ensinou no Evangelho: Pai, se é possível, afasta de mim este cálice; e de novo aos discípulos: podeis beber o cálice que Eu vou beber?, referindo-se claramente à morte que aceitava pela salvação do mundo" (PG XXX, 109), transformando assim o mundo do pecado num mundo redimido, num mundo de agradecimento pela vida que o Senhor nos concedeu.
Salmo 116 (114-115)
Eu tinha confiança, mesmo quando disse:
"A minha aflição é muito grande!"
Na minha perturbação, eu dizia:
"Todo o homem é mentiroso!"
Como retribuirei ao Senhor
todos os seus benefícios para comigo?
Elevarei o cálice da salvação,
invocando o nome do Senhor.
Cumprirei as minhas promessas feitas ao Senhor.
na presença de todo o seu povo,
nos átrios da casa do Senhor,
no meio de ti, Jerusalém!
Aleluia!
Saudações
Prezados amigos de língua portuguesa!
Desejo saudar com afeto a todos os peregrinos que aqui se encontram, ou me escutam através do rádio ou da televisão e, de modo especial, aos visitantes provindos de diversas partes do Brasil. Faço votos de que esta viagem a Roma vos seja propiciadora de um enriquecimento cultural e espiritual, e que possais reverenciar a memória do Apóstolo Pedro. Com a minha Bênção Apostólica.
Dou calorosas boas-vindas aos peregrinos e visitantes dos países de língua alemã!
Desejo saudar também as Irmãs do Divino Salvador, que celebram o seu Jubileu de Prata de Profissão religiosa, assim como os peregrinos pertencentes à união da ex-Guarda Suíça. Deus é fiel. Levai sempre o seu nome nos vossos lábios e no vosso coração! Desejo a todos vós uma feliz e abençoada permanência e que experimenteis as Bênçãos de Deus.
Quarta-feira, 1 de Junho de 2005 1. Em cada celebração dominical das Vésperas a liturgia repropõe-nos o breve mas denso hino cristológico da Carta aos Filipenses (cf. 2, 6-11). Trata-se do hino que agora ressoou, o qual consideramos na sua primeira parte (cf. vv. 6-8), onde se delineia o paradoxal "despojamento" do Verbo divino, que depõe a sua glória e assume a condição humana.
Cristo encarnado e humilhado na morte mais infame, a na crucifixão, é colocado como modelo vital para o cristão. De facto, ele como se afirma no contexto deve ter "os mesmos sentimentos, que estão em Cristo Jesus" (v. 5), sentimentos de humildade e de doação, de desapego e de generosidade.
2. Certamente, ele possui a natureza divina com todas as suas prerrogativas. Mas esta realidade transcendente não é interpretada nem vivida com o objectivo do poder, da grandeza, do domínio.
Cristo não usa o seu ser igual a Deus, a sua dignidade gloriosa e o seu poder como instrumento de triunfo, sinal de distância, expressão de esmagadora supremacia (cf. v. 6). Aliás, ele "despojou-se", esvaziou-se a si mesmo, imergindo-se sem reservas na miserável e frágil condição humana. A "forma" (morphe) divina esconde-se em Cristo sob a "forma" (morphe) humana, isto é, sob a nossa realidade marcada pelo sofrimento, pela pobreza, pelo limite e pela morte (cf. v. 7).
Não se trata portanto de um simples revestimento, de uma aparência mutável, como se pensava que acontecia às divindades da cultura greco-romana: a de Cristo é a realidade divina numa experiência autenticamente humana. Deus não se apresenta apenas como homem, mas faz-se verdadeiramente homem, torna-se em concreto "Deus-connosco", que não se contenta com olhar para nós do trono da sua glória com um olhar benigno, mas imerge-se pessoalmente na história humana, tornando-se "carne", ou seja, realidade frágil, condicionada pelo tempo e pelo espaço (cf. Jo Jn 1,14).
3. Esta partilha radical da condição humana, excluindo o pecado (cf. Hb He 4,15), conduz Jesus até àquela fronteira que é o sinal da nossa finitude e caducidade, a morte. Mas ela não é fruto de um mecanismo obscuro ou de uma fatalidade cega: ela nasce da sua livre opção de obediência ao desígnio de salvação do Pai (cf. Fl Ph 2,8).
O Apóstolo acrescenta que a morte que Jesus enfrenta é a morte de cruz, a mais degradante, querendo desta forma ser verdadeiramente irmão de cada homem e de cada mulher, também dos que são obrigados a um fim atroz e ignominioso.
Mas precisamente na sua paixão e morte Cristo testemunha a sua adesão livre e consciente aos desígnios do Pai, como se lê na Carta aos Hebreus: "Apesar de ser Filho de Deus, aprendeu a obediência por aquilo que sofreu" (He 5,8).
Detenhamo-nos aqui na nossa reflexão sobre a primeira parte do hino cristológico, concentrado sobre a encarnação e sobre a paixão redentora. Teremos ocasião a seguir de aprofundar o itinerário sucessivo, o pascal, que conduz da cruz à glória. Parece-me que o elemento fundamental desta primeira parte do hino é o convite a entrar nos sentimentos de Jesus. Entrar nos sentimentos de Jesus significa não considerar o poder, a riqueza, o prestígio como os valores supremos da nossa vida, porque não correspondem à sede mais profunda do nosso espírito, mas abrir o nosso coração ao Outro, carregar com o Outro o peso da nossa vida e abrir-nos ao Pai dos Céus com sentido de obediência e confiança, sabendo que só na obediência ao Pai seremos livres. Entrar nos sentimentos de Jesus: este seria o exercício quotidiano para viver como cristãos.
4. Concluímos a nossa reflexão com uma grande testemunha da tradição oriental, Teodoreto, que foi Bispo de Ciro, na Síria, no século V: "A encarnação do nosso Salvador representa o mais alto cumprimento da solicitude divina pelos homens. De facto, nem o céu nem a terra, nem o mar nem o ar, nem o sol nem a lua, nem os astros nem todo o universo visível e invisível, criado unicamente pela palavra, ou melhor, trazido à luz pela sua palavra de acordo com a sua vontade, indicam a sua bondade infinita como o facto de que o Filho unigénito de Deus, aquele que subsistia na natureza de Deus (cf. Fl Ph 2,6), reflexo da sua glória, marca da sua substância (cf. Hb He 1,3), que era no princípio, era junto de Deus e era Deus, através do qual todas as coisas foram criadas (cf. Jo Jn 1,1-3), depois de ter assumido a condição de servo, apareceu em forma de homem, e devido à sua figura humana foi considerado como homem, foi visto na terra, relacionou-se com os homens, carregou as nossas enfermidades e assumiu sobre si as nossas doenças" (Discursos sobre a Providência Divina, 10: Colecção de textos patrísticos, LXXV, Roma 1988, PP 250-251).
Teodoreto de Ciro continua a sua reflexão, realçando precisamente o vínculo estreito evidenciado pelo hino da Carta aos Filipenses entre a encarnação de Jesus e a redenção dos homens. "O Criador trabalhou com sabedoria e justiça pela nossa salvação. Pois não quis servir-se apenas do seu poder para nos conceder o dom da liberdade nem armar apenas a misericórdia contra quem subjugou o género humano, para que ele não acusasse a misericórdia de injustiça, mas encontrou um caminho cheio de amor pelos homens e ao mesmo tempo adornado de justiça. De facto ele, depois de ter unido em si a natureza do homem já vencida, orienta-a para a luta e predispõe-na para reparar a derrota, para dispersar aquele que outrora tinha iniquamente conquistado a vitória, para se libertar da tirania de quem a tinha cruelmente feito escravo e para recuperar a liberdade primitiva" (Ibidem, PP 251-252).
Saudações
A minha saudação a todos os peregrinos de língua portuguesa, com uma bênção particular para os sacerdotes do Colégio Pio Brasileiro em Roma: na vossa formação, cultivai aquele "sentire cum Ecclesia" que fará de vós humildes e fiéis servidores da Verdade, pastores segundo o Coração de Deus.
Saúdo de coração os peregrinos da Alemanha, da Áustria e da Suíça, assim como todos os visitantes de língua alemã. Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é nosso Senhor e Irmão. O seu sacrifício na Cruz redimiu-nos. A verdadeira grandeza demonstra-se na disponibilidade para o serviço. Rezemos todos os dias a Jesus para que nos conceda este espírito!
Desejo a todos vós um tempo de repouso e de renovação espiritual. Deus vos abençoe!
Saúdo cordialmente os peregrinos francófonos, em particular os jovens do colégio de Saint-Exupéry, de Epinal. Que a vossa peregrinação a Roma vos enraíze cada vez mais na intimidade com Cristo, morto e ressuscitado para que tenhais a vida em abundância!
Dou especiais boas-vindas aos peregrinos de língua inglesa presentes hoje aqui, assim como aos grupos provenientes da Inglaterra, Irlanda, Suécia, Japão e dos Estados Unidos da América. Obrigado pelo afecto que me manifestais. Sobre vós, invoco a paz e a alegria de nosso Senhor Jesus Cristo!
Saúdo cordialmente todos os Polacos aqui presentes. Iniciamos o mês dedicado à oração do Sagrado Coração de Jesus. Esta oração faça crescer a fé, a esperança e a caridade nas vossas famílias. O Sagrado Coração de Jesus vos abençoe.
Queridos Irmãos e Irmãs!
Vejo como a fé e o amor pelo Sucessor de Pedro na Itália são fortes! Obrigado pela vossa presença, pelo vosso afecto e pela vossa fé!
Dirijo um pensamento cordial aos peregrinos de língua italiana. Em particular saúdo os fiéis da Arquidiocese de Cagliari, acompanhados pelo seu Pastor, D. Giuseppe Mani, assim como os representantes da Associação de Escutismo Católico Italiano. Queridos amigos, ao agradecer-vos esta vossa visita, desejo a todos que vos comprometais generosamente no testemunho de Cristo e do seu Evangelho.
Saúdo por fim os jovens, os doentes e os novos casais. Iniciamos precisamente hoje o mês de Junho, dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. Detenhamo-nos com frequência a contemplar este mistério profundo do Amor divino.
Vós, queridos jovens, aprendei na escola do Coração de Cristo a assumir com seriedade as responsabilidades que vos esperam. Vós, amados doentes, encontrai nesta fonte infinita de misericórdia a coragem e a paciência para cumprir a vontade de Deus em todas as situações. E vós, queridos novos casais, permanecei fiéis ao amor de Deus e testemunhai-o com o vosso amor conjugal.
Quarta-feira, 8 de Junho de 2005 Queridos Irmãos e Irmãs!
1. Hoje sentimos o vento forte. Na Sagrada Escritura o vento é símbolo do Espírito Santo. Esperemos que o Espírito nos ilumine agora na meditação do Salmo 110 que acabámos de ouvir. Neste Salmo encontra-se um hino de louvor e acção de graças pelos numerosos benefícios que definem Deus nos seus atributos e na sua obra de salvação: fala-se de "piedade", de "ternura", de "justiça", de "poder", de "verdade", de "rectidão", de "fidelidade, de "aliança", de "obras", de "prodígios", até de "alimentos" que ela doa e, no fim, do seu "nome" glorioso, isto é, da sua pessoa. Por conseguinte, a oração é contemplação do mistério de Deus e das maravilhas que Ele realiza na história da salvação.
2. O Salmo abre-se com o verbo de agradecimento que se eleva não só do coração do orante, mas também de toda a assembleia litúrgica (cf. v. 1). O objecto desta oração, que inclui também o rito do agradecimento, é expresso com a palavra "obras" (cf. vv. 2.3.6.7). Elas indicam as intervenções salvíficas do Senhor, manifestação da sua "justiça" (cf. v. 3), palavra que na linguagem bíblica indica antes de tudo o amor que gera salvação.
Portanto, o coração do Salmo transforma-se num hino da aliança (cf. vv. 4-9), aquele vínculo íntimo que une Deus com o seu povo e que inclui uma série de atitudes e de gestos. Fala-se assim de "piedade e ternura" (cf. v. 4), em continuidade com a grande proclamação do Sinai: "Senhor! Senhor! Deus misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e de fidelidade" (Ex 34,6).
A "piedade" é a graça divina que envolve e transfigura o fiel, enquanto a "ternura" é expressa no original hebraico com uma palavra característica que remete para as "vísceras" maternas do Senhor, ainda mais misericordioso do que as de uma mãe (cf. Is Is 49,15).
3. Este vínculo de amor abrange o dom fundamental do alimento e, por conseguinte, da vida (cf. Sl Ps 110,5) que, na releitura cristã, se identificará com a Eucaristia, como diz São Jerónimo: "Como alimento deu o pão que desceu do céu: se dele somos dignos, alimentemo-nos dele!" (Breviarium in Psalmos, 110: PL XXVI, 1238-1239).
Há depois o dom da terra, "a herança das nações" (Ps 110,6), que alude à grande vicissitude do Êxodo, quando o Senhor se revela como o Deus da libertação. Portanto, devemos procurar a síntese do corpo central deste cântico no tema do pacto especial entre o Senhor e o seu povo, como afirma de maneira clara o v. 9: "Estabeleceu com ele uma aliança para sempre".
4. O Salmo 110 é selado com a palavra da contemplação do rosto divino, da pessoa do Senhor, expressa através do seu "nome" santo e transcendente. Citando depois uma expressão sapiencial (cf. Pr Pr 1,7 Pr 9,10 Pr 15,33), o Salmista convida cada fiel a cultivar o "temor do Senhor" (Ps 110,10), início da verdadeira sabedoria. Esta expressão não quer significar o medo e o terror, mas o respeito sério e sincero, que é fruto do amor, a adesão genuína e laboriosa ao Deus libertador. E, se a primeira palavra do cântico tinha sido de agradecimento, a última é de louvor: assim como a justiça salvífica do Senhor "dura para sempre" (v. 3), também a gratidão do orante não conhece pausas, ressoa na oração "sem fim" (v. 10). Para resumir, o Salmo convida-nos a descobrir as numerosas coisas boas que o Senhor nos oferece todos os dias. Nós vemos mais facilmente os aspectos negativos da nossa vida. O Salmo convida-nos a ver também as coisas positivas, os numerosos dons que recebemos, e assim encontrar a gratidão, porque só um coração grato pode celebrar dignamente a grande liturgia da gratidão, a Eucaristia.
5. Como conclusão da nossa reflexão desejaríamos meditar com a tradição eclesial dos primeiros séculos cristãos o versículo final com a sua célebre declaração reiterada noutra parte da Bíblia (cf. Pr Pr 1,7): "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria" (Ps 110,10).
O escritor cristão Barsanúfio de Gaza (activo na primeira metade do século VI) comentava-o assim: "O que é o princípio de sabedoria, a não ser abster-se de tudo o que Deus repudia? E de que forma pode abster-se, a não ser evitando fazer seja o que for sem ter pedido conselho, ou com não dizer nada do que não se deve dizer e, além disso, considerando-se a si mesmo insensato, estulto, desprezível e nada do todo?" (Epistolário, 234: Colecção de textos patrísticos, XCIII, Roma 1991, PP 265-266).
João Cassiano (que viveu entre os séculos IV e V), preferia contudo esclarecer que "há muita diferença entre o amor, ao qual nada falta e que constitui o tesouro da sabedoria e da ciência, e o amor imperfeito, denominado "início da sabedoria"; este, contendo em si a ideia do castigo, é excluído do coração dos perfeitos devido ao advento da plenitude de amor" (Conferências aos monges, 2, 11, 13; Colecção de textos patrísticos, CLVI, Roma 2000, p. 29). Assim, no caminho da nossa vida rumo a Cristo, o temor servil que se verifica no início, é substituído por um temor perfeito que é amor, dom do Espírito Santo.
Saudações
Caríssimos amigos de língua portuguesa!
Saúdo os peregrinos aqui presentes, de modo especial os visitantes procedentes do Brasil. Faço votos de que tenham uma feliz estadia na Cidade Eterna, e que este encontro com o Sucessor de Pedro reforce os seus propósitos de unidade e de comunhão na única fé em Cristo Jesus. A todos, peço a Deus que vos abençoe e vos proteja!
Sinto-me feliz por acolher os peregrinos francófonos presentes aqui esta manhã, sobretudo um grupo de peregrinos do Gabão. Cristo, que chama todos os seus discípulos a crescer na santidade, vos permita responder generosamente à sua chamada! Concedo a todos, de coração, a Bênção Apostólica.
Dou especiais boas-vindas aos peregrinos de língua inglesa presentes hoje aqui, incluindo os grupos da Inglaterra, Escócia, Austrália e dos Estados Unidos da América. Obrigado pelo afecto que me manifestastes. Invoco sobre todos vós a paz e a alegria de Jesus Cristo Nosso Senhor!
Dou de coração as boas-vindas a todos os peregrinos e visitantes de língua alemã. Dirijo uma saudação afectuosa aos participantes na Reunião final do "Comentário da Carta Constitucional Europeia de Colónia". Devemos louvar e agradecer todos os dias a Deus os seus benefícios! Respondei à bondade do Senhor com as vossas palavras e acções. A paz de Deus vos guie pelos vossos caminhos.
Saúdo os peregrinos de língua espanhola, em particular os membros da Instituição Teresiana: sede sempre "a obra boa" na Igreja e para o mundo. Também aos demais peregrinos da Espanha, Panamá, Porto Rico, República Dominicana, El Salvador, Peru, Venezuela e México. Convido todos a apreciar a ternura infinita de Deus, para nunca vos sentirdes sozinhos ou desamparados.
Muito obrigado pela vossa atenção.
Saúdo os peregrinos polacos aqui presentes. Agradeço-vos a vossa benevolência e as vossas orações. Peço que a memória de João Paulo II suscite em vós o desejo de apoiar espiritualmente o seu Sucessor. Deus vos abençoe assim como aos vossos entes queridos.
Por fim dirijo um pensamento especial aos jovens, aos doentes e aos novos casais.
Queridos jovens, a riqueza do Coração de Cristo e a ternura do Coração de Maria vos amparem sempre. Vos ajudem a vós, queridos doentes, a confiar-vos com abandono generoso nas mãos da Providência divina; e vos encorajem a vós, queridos novos casais, a viver a vossa união familiar com compreensão paciente e dedicação recíproca.
Deus vos abençoe a todos!
Salmos 27Abril05-15fev06