Apóstolos 17Maio-22Out06 4

4



Quarta-feira, 20 de Setembro de 2006

Viagem Apostólica à Baviera

Queridos irmãos e irmãs!

Gostaria hoje de voltar com o pensamento aos vários momentos da viagem pastoral que o Senhor me concedeu realizar, na semana passada, na Baviera. Ao partilhar convosco as emoções e os sentimentos vividos ao visitar de novo os lugares que me são queridos, sinto antes de tudo a necessidade de agradecer a Deus por ter tornado possível esta segunda visita à Alemanha e pela primeira vez à Baviera, minha terra de origem. Estou sinceramente grato também a quantos Pastores, sacerdotes, agentes pastorais, autoridades públicas, organizadores, forças da ordem e voluntários trabalharam com dedicação e paciência para que todos os acontecimentos se desenvolvessem no melhor dos modos. Como disse na chegada ao aeroporto de München, no sábado 9 de Setembro, a finalidade da minha viagem era, na recordação de quantos contribuíram para formar a minha personalidade, reafirmar e confirmar, como Sucessor do apóstolo Pedro, os vínculos estreitos que unem a Sé de Roma com a Igreja na Alemanha. Portanto, a Viagem não foi um simples "regresso" ao passado, mas também uma ocasião providencial para olhar com esperança para o futuro. "Quem acredita nunca está sozinho": O tema da visita queria ser um convite a reflectir sobre a pertença de cada baptizado à única Igreja de Cristo, no interior da qual nunca se está a sós, mas em constante comunhão com Deus e com todos os irmãos.

A primeira etapa foi a cidade de München, chamada "a Metrópole com o coração" (Weltstadt mit Hertz). No seu centro histórico encontra-se a Marienplatz, a praça de Maria, na qual se eleva a "Mariensäule". A Coluna de Nossa Senhora, que tem no cimo a imagem da Virgem Maria, em bronze dourado. Quis iniciar a minha permanência bávara com a homenagem à Padroeira da Baviera, que para mim tem um valor altamente significativo: ali, naquela praça diante daquele imagem mariana, fui acolhido há cerca de trinta anos como Arcebispo e iniciei a minha missão episcopal com uma oração a Maria; voltei lá no final do meu mandato, antes de partir para Roma.

Agora eu quis deter-me mais uma vez aos pés da Mariensäule para implorar a intercessão e a bênção da Mãe de Deus não só para a cidade de München e para a Baviera, mas para toda a Igreja e para o mundo inteiro. No dia seguinte, domingo, celebrei a Eucaristia na esplanada da "Neue Messe" (Feira Nova) de München, entre os fiéis provenientes em grande número de várias partes: com base no trecho evangélico do dia, recordei a todos que existe uma "debilidade de ouvido" em relação a Deus da qual sofremos sobretudo hoje. É tarefa nossa, dos cristãos, num mundo secularizado, proclamar e testemunhar a todos a mensagem de esperança que a fé nos oferece: em Jesus crucificado, Deus, Pai misericordioso, chama-nos a ser seus filhos e a superar qualquer forma de ódio e de violência, a fim de contribuir para o triunfo definitivo do amor.

"Fortalece-nos na fé": foi o tema do encontro da tarde de domingo com as crianças da primeira comunhão e com as suas jovens famílias, com os catequistas, os demais agentes pastorais e quantos cooperam na evangelização da diocese de München. Celebrámos juntos as Vésperas na histórica Catedral, conhecida como "Catedral de Nossa Senhora", onde se encontram conservadas as relíquias de São Beno, padroeiro da Cidade, e onde em 1977 fui ordenado Bispo. Recordei aos pequeninos e aos adultos que Deus não está distante de nós, num lugar inalcançável do universo; ao contrário, em Jesus, Ele aproximou-se de nós para estabelecer com cada um uma relação de amizade. Cada comunidade crista, e em particular a paróquia, graças ao compromisso constante de cada um dos seus membros, está chamada a tornar-se uma grande família, capaz de proceder unida pelo caminho da vida verdadeira.

A segunda-feira, 11 de Setembro, foi em grande parte ocupada pela visita a Altötting, na diocese de Passau. Esta pequena cidade é conhecida como "Hertz Beyerns" (coração da Baviera), e nela está conservada "Nossa Senhora Negra", venerada na Gnadenkapelle (Capela das Graças), meta de numerosos peregrinos provenientes da Alemanha e das nações da Europa central. Nas proximidades encontra-se o convento capuchinho de Santa Ana, onde viveu São Konrad Birndorfer, canonizado pelo meu venerado predecessor, o Papa Pio XI, no ano de 1934. Com os numerosos fiéis presentes na Santa Missa, celebrada na praça diante do Santuário, reflectimos juntos sobre o papel de Maria na obra da salvação, para aprender dela a bondade serviçal, a humildade e a aceitação generosa da vontade divina. Maria conduz-nos para Jesus: esta verdade tornou-se ainda mais visível, no final do sacrifício Divino, da devota procissão na qual, levando connosco a imagem de Nossa Senhora, fomos à nova capela da Adoração eucarística (Anbetungskapelle), inaugurada para a ocasião. O dia foi encerrado com as solenes Vésperas marianas na Basílica de Santa Ana de Altötting, na presença de religiosos e seminaristas da Baviera juntamente com os membros da Obra das Vocações.

No dia seguinte, terça-feira, em Regensburg, diocese erigida por São Bonifácio em 739 e que tem como padroeiro o Bispo São Wolfgang, foram realizados três encontros importantes. De manhã, a Santa Missa no Islinger Feld, durante a qual, retomando o tema da visita pastoral "Quem acredita nunca está sozinho", reflectimos sobre o conteúdo do Símbolo da fé. Deus, que é Pai, deseja reunir, mediante Jesus Cristo, toda a humanidade numa única família, a Igreja. Por isso, quem acredita nunca está sozinho; quem crê não deve temer de terminar num beco sem saída.

Depois, à tarde, estive na Catedral de Regensburg, conhecida também pelo seu coro de vozes brancas, os "Domspatzen" (passarinhos da Catedral), que se orgulha pelos seus mil anos de actividade e que durante trinta anos foi dirigido pelo meu irmão Georg. Ali foi realizada a celebração ecuménica das Vésperas, na qual participaram numerosos representantes de várias Igrejas e Comunidades eclesiais na Baviera e os membros da Comissão ecuménica da Conferência Episcopal Alemã. Foi uma ocasião providencial para rezar juntos, para que se apresse a plena unidade entre todos os discípulos de Cristo e para reafirmar o dever de proclamar a nossa fé em Jesus Cristo sem atenuações, mas de maneira integral e clara, e sobretudo para o nosso comportamento de amor sincero.

Uma experiência particularmente bela naquele dia foi para mim poder pronunciar um discurso perante um grande auditório de professores e de estudantes da Universidade de Regensburg, onde durante muitos anos fui professor. Pude encontrar-me com alegria mais uma vez com o mundo universitário que, durante um longo período da minha vida, foi a minha pátria espiritual. Como tema tinha escolhido a questão da relação entre fé e razão. Para introduzir o auditório na dramaticidade e na actualidade do tema, citei algumas palavras de um diálogo cristão-islâmico do século XIV, com as quais o interlocutor cristão o imperador bizantino Manuel II Paleólogo de maneira para nós incompreensivelmente brusca apresentou ao interlocutor islâmico o problema da relação entre religião e violência. Esta citação, infelizmente, pude prestar-se a ser equivocada. Mas, ao leitor atento do meu texto, é claro que eu não pretendi de modo algum fazer minhas as palavras negativas pronunciadas pelo imperador medieval neste diálogo e que o seu conteúdo polémico não expressava a minha convicção pessoal. A minha intenção era muito diferente: partindo de quanto Manuel II diz sucessivamente de modo positivo, com uma palavra muito bela, sobre a racionalidade que deve guiar na transmissão da fé, eu quis explicar que não é a religião e a violência que caminham juntas, mas sim, religião e razão. O tema da minha conferência respondendo à missão da Universidade foi portanto a relação entre fé e razão: pretendia convidar ao diálogo da fé cristã com o mundo moderno e ao diálogo de todas as culturas e religiões. Espero que nas diversas ocasiões da minha visita por exemplo, quando em München frisei como é importante respeitar aquilo que para os outros é sacro tenha sobressaído com clareza o profundo respeito que sinto pelas grandes religiões e, sobretudo, pelos muçulmanos, que "adoram o único Deus" e com os quais estamos comprometidos a "defender e promover juntos, para todos os homens, a justiça social, os valores morais, a paz e a liberdade" (Nostra Aetate NAE 3). Por conseguinte, tenho esperança em que, depois das reacções do primeiro momento, as minhas palavras na Universidade de Regensburg possam constituir um estímulo e um encorajamento para um diálogo positivo, também autocrítico, quer entre as religiões quer entre a razão moderna e a fé dos cristãos.

Na manhã do dia seguinte, 13 de Setembro, na "Alte Kapelle" (Capela Antiga) de Regensburg, na qual se encontra conservada uma imagem milagrosa de Maria, pintada segundo a tradição local pelo evangelista Lucas, presidi a uma breve liturgia para a bênção do novo órgão. Inspirando-me na estrutura deste instrumento musical formado por muitos tubos de dimensões diferentes, mas todos bem harmonizados entre si, recordei aos presentes a necessidade de que os vários ministérios, dons e carismas activos na Comunidade eclesial convirjam todos, sob a guia do Espírito Santo, para formar a única harmonia do louvor a Deus e ao amor pelos irmãos.

Na quinta-feira, 14 de Setembro, a cidade de Freising constituiu a última etapa. Sinto-me particularmente ligado a ela porque fui ordenado sacerdote precisamente na sua catedral, dedicada a Maria Santíssima e a São Corbiniano, o evangelizador da Baviera. E precisamente na Catedral foi realizada a última parte em programa, o encontro com os sacerdotes e com os diáconos permanentes. Ao reviver as emoções da minha Ordenação sacerdotal, recordei aos presentes o dever de colaborar com o Senhor para suscitar novas vocações ao serviço da "messe" que também hoje é "grande", e exortei-os a cultivar a vida interior como prioridade pastoral, para não perder o contacto com Cristo, fonte de alegria no labor quotidiano do ministério.

Na cerimónia de despedida, ao agradecer mais uma vez a quantos colaboraram para a realização da visita, recordei de novo a sua finalidade principal: repropor aos meus concidadãos as verdades eternas do Evangelho e confirmar os crentes na adesão a Cristo, Filho de Deus encarnado, morto e ressuscitado por nós. Ajude-nos Maria, Mãe da Igreja, a abrir o coração e a mente Àquele que é "o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jn 14,16). Por isto rezei e para isto convido todos vós, amados irmãos e irmãs, a continuar a rezar, agradecendo-vos cordialmente pelo afecto com que me acompanhais no meu ministério pastoral quotidiano. Obrigado a todos vós.











Quarta-feira, 27 de Setembro de 2006

Tomé

Queridos irmãos e irmãs!

Prosseguindo os nossos encontros com os doze Apóstolos escolhidos directamente por Jesus, hoje dedicamos a nossa atenção a Tomé. Sempre presente nas quatro listas contempladas pelo Novo Testamento, ele, nos primeiros três Evangelhos, é colocado ao lado de Mateus (cf. Mt 10,3 Mc 3,18 Lc 6,15), enquanto nos Actos está próximo de Filipe (cf. Ac 1,13). O seu nome deriva de uma raiz hebraica, ta'am, que significa "junto", "gémeo". De facto, o Evangelho chama-o várias vezes com o sobrenome de "Dídimo" (cf. Jn 11,16 Jn 20,24 Jn 21,2), que em grego significa precisamente "gémeo". Não é claro o porquê deste apelativo.

Sobretudo o Quarto Evangelho oferece-nos informações que reproduzem alguns traços significativos da sua personalidade. O primeiro refere-se à exortação, que ele fez aos outros Apóstolos, quando Jesus, num momento crítico da sua vida, decidiu ir a Betânia para ressuscitar Lázaro, aproximando-se assim perigosamente de Jerusalém (cf. Mc 10,32). Naquela ocasião Tomé disse aos seus condiscípulos: "Vamos nós também, para morrermos com Ele" (Jn 11,16).

Esta sua determinação em seguir o Mestre é deveras exemplar e oferece-nos um precioso ensinamento: revela a disponibilidade total a aderir a Jesus, até identificar o próprio destino com o d'Ele e querer partilhar com Ele a prova suprema da morte. De facto, o mais importante é nunca separar-se de Jesus. Por outro lado, quando os Evangelhos usam o verbo "seguir" é para significar que para onde Ele se dirige, para lá deve ir também o seu discípulo. Deste modo, a vida cristã define-se como uma vida com Jesus Cristo, uma vida a ser transcorrida juntamente com Ele. São Paulo escreve algo semelhante, quando tranquiliza os cristãos de Corinto com estas palavras: "estais no nosso coração para a vida e para a morte" (2Co 7,3). O que se verifica entre o Apóstolo e os seus cristãos deve, obviamente, valer antes de tudo para a relação entre os cristãos e o próprio Jesus: morrer juntos, viver juntos, estar no seu coração como Ele está no nosso.

Uma segunda intervenção de Tomé está registada na Última Ceia. Naquela ocasião Jesus, predizendo a sua partida iminente, anuncia que vai preparar um lugar para os discípulos para que também eles estejam onde Ele estiver; e esclarece: "E, para onde Eu vou, vós sabeis o caminho" (Jn 14,4). É então que Tomé intervém e diz: "Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?" (Jn 14,5). Na realidade, com esta expressão ele coloca-se a um nível de compreensão bastante baixo; mas estas suas palavras fornecem a Jesus a ocasião para pronunciar a célebre definição: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jn 14,6). Portanto, Tomé é o primeiro a quem é feita esta revelação, mas ela é válida também para todos nós e para sempre. Todas as vezes que ouvimos ou lemos estas palavras, podemos colocar-nos com o pensamento ao lado de Tomé e imaginar que o Senhor fala também connosco como falou com ele.

Ao mesmo tempo, a sua pergunta confere também a nós o direito, por assim dizer, de pedir explicações a Jesus. Com frequência nós não o compreendemos. Temos a coragem para dizer: não te compreendo, Senhor, ouve-me, ajuda-me a compreender. Desta forma, com esta franqueza que é o verdadeiro modo de rezar, de falar com Jesus, exprimimos a insuficiência da nossa capacidade de compreender, ao mesmo tempo colocamo-nos na atitude confiante de quem espera luz e força de quem é capaz de as doar.

Depois, muito conhecida e até proverbial é a cena de Tomé incrédulo, que aconteceu oito dias depois da Páscoa. Num primeiro momento, ele não tinha acreditado em Jesus que apareceu na sua ausência, e dissera: "Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito, não acredito" (Jn 20,25). No fundo, destas palavras sobressai a convicção de que Jesus já é reconhecível não tanto pelo rosto quanto pelas chagas. Tomé considera que os sinais qualificadores da identidade de Jesus são agora sobretudo as chagas, nas quais se revela até que ponto Ele nos amou. Nisto o Apóstolo não se engana. Como sabemos, oito dias depois Jesus aparece no meio dos seus discípulos, e desta vez Tomé está presente. E Jesus interpela-o: "Põe teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende tua mão e põe-na no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!" (Jn 20,27). Tomé reage com a profissão de fé mais maravilhosa de todo o Novo Testamento: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jn 20,28). A este propósito, Santo Agostinho comenta: Tomé via e tocava o homem, mas confessava a sua fé em Deus, que não via nem tocava. Mas o que via e tocava levava-o a crer naquilo de que até àquele momento tinha duvidado" (In Iohann. 121, 5). O evangelista prossegue com uma última palavra de Jesus a Tomé: "Porque me viste, acreditaste. Felizes os que, sem terem visto, crerão" (cf. Jn 20,29). Esta frase também se pode conjugar no presente; "Bem-aventurados os que crêem sem terem visto".

Contudo, aqui Jesus enuncia um princípio fundamental para os cristãos que virão depois de Tomé, portanto para todos nós. É interessante observar como o grande teólogo medieval Tomás de Aquino, compara com esta fórmula de bem-aventurança aquela aparentemente oposta citada por Lucas: "Felizes os olhos que vêem o que estais a ver" (Lc 10,23). Mas o Aquinate comenta: "Merece muito mais quem crê sem ver do que quem crê porque vê" (In Johann. XX lectio VI 2566). De facto, a Carta aos Hebreus, recordando toda a série dos antigos Patriarcas bíblicos, que acreditaram em Deus sem ver o cumprimento das suas promessas, define a fé como "fundamento das coisas que se esperam e comprovação das que não se vêem" (He 11,1). O caso do Apóstolo Tomé é importante para nós pelo menos por três motivos: primeiro, porque nos conforta nas nossas inseguranças; segundo porque nos demonstra que qualquer dúvida pode levar a um êxito luminoso além de qualquer incerteza; e por fim, porque as palavras dirigidas a ele por Jesus nos recordam o verdadeiro sentido da fé madura e nos encorajam a prosseguir, apesar das dificuldades, pelo nosso caminho de adesão a Ele.

Uma última anotação sobre Tomé é-nos conservada no Quarto Evangelho, que o apresenta como testemunha do Ressuscitado no momento seguinte à pesca milagrosa no Lago de Tiberíades (cf. Jn 21,2). Naquela ocasião ele é mencionado inclusivamente logo depois de Simão Pedro: sinal evidente da grande importância de que gozava no âmbito das primeiras comunidades cristãs. Com efeito, em seu nome foram escritos depois os Actos e o Evangelho de Tomé, ambos apócrifos mas contudo importantes para o estudo das origens cristãs. Por fim recordamos que segundo uma antiga tradição, Tomé evangelizou primeiro a Síria e a Pérsia (assim refere já Orígenes, citado por Eusébio de Cesareia, Hist. eccl. 3, 1) depois foi até à Índia ocidental (cf. Actos de Tomé 1-2 e 17ss.), de onde enfim alcançou também a Índia meridional. Nesta perspectiva missionária terminamos a nossa reflexão, expressando votos de que o exemplo de Tomé corrobore cada vez mais a nossa fé em Jesus Cristo, nosso Senhor e nosso Deus.

Saudações

Amados Irmãos e Irmãs!

Prosseguindo estes nossos encontros, narrando a vida dos Doze Apóstolos, dedicamos nossa Catequese de hoje ao apóstolo Tomé. Pela sua determinação em seguir o Mestre e à luz dos seus ensinamentos, Tomé evangelizou o Oriente Médio e a Índia. Que o seu exemplo nos ajude a reforçar sempre mais a nossa fé em Jesus Cristo, nosso Senhor e nosso Deus.
Saúdo os peregrinos de língua portuguesa aqui presentes, nomeadamente os brasileiros de Patos de Minas, Santo André, Marília e Fortaleza. Que Deus vos de paz e alegria em união com Maria Santíssima, Mãe do Redentor.

Como de costume, o meu pensamento dirige-se por fim aos jovens, aos doentes e aos novos casais. O exemplo de caridade de São Vicente de Paulo, cuja memória se celebra hoje, vos estimule, queridos jovens, a concretizar os projectos do vosso futuro num serviço ao próximo jubiloso e abnegado; vos ajude, queridos doentes, a enfrentar o sofrimento como vocação particular de amor, e vos solicite, queridos novos casais, a construir uma família sempre aberta ao dom da vida e aos pobres.









Quarta-feira, 4 de Outubro de 2006

Bartolomeu

Queridos irmãos e irmãs!

Na série dos Apóstolos chamados por Jesus durante a sua vida terrena, hoje quem atrai a nossa atenção é o apóstolo Bartolomeu. Nos antigos elencos dos Doze ele é sempre colocado antes de Mateus, enquanto varia o nome daquele que o precede e que pode ser Filipe (cf. Mt 10,3 Mc 3,18 Lc 6,14) ou Tomé (cf. Ac 1,13). O seu nome é claramente um patronímico, porque é formulado com uma referência explícita ao nome do pai. De facto, trata-se de um nome provavelmente com uma marca aramaica, Bar Talmay, que significa precisamente "filho de Talmay".

Não temos notícias de relevo acerca de Bartolomeu; com efeito, o seu nome recorre sempre e apenas no âmbito dos elencos dos Doze acima citados e, por conseguinte, nunca está no centro de narração alguma. Mas, tradicionalmente ele é identificado com Natanael: um nome que significa "Deus deu". Este Natanael provinha de Caná (cf. Jn 21,2), e portanto é possível que tenha sido testemunha do grande "sinal" realizado por Jesus naquele lugar (cf. Jn 2,1-11). A identificação das duas personagens provavelmente é motivada pelo facto que este Natanael, no episódio de vocação narrada pelo Evangelho de João, é colocado ao lado de Filipe, isto é, no lugar que Bartolomeu ocupa nos elencos dos Apóstolos narrados pelos outros Evangelhos. Filipe tinha comunicado a este Natanael que encontrara "aquele sobre quem escreveram Moisés, na Lei, e os profetas: Jesus, filho de José de Nazaré" (Jn 1,45). Como sabemos, Natanael atribuiu-lhe um preconceito bastante pesado: "De Nazaré pode vir alguma coisa boa?" (Jn 1,46a). Esta espécie de contestação é, à sua maneira, importante para nós. De facto, ela mostra-nos que segundo as expectativas judaicas, o Messias não podia provir de uma aldeia tanto obscura como era precisamente Nazaré (veja também Jn 7,42). Mas, ao mesmo tempo realça a liberdade de Deus, que surpreende as nossas expectativas fazendo-se encontrar precisamente onde não o esperávamos. Por outro lado, sabemos que Jesus na realidade não era exclusivamente "de Nazaré", pois tinha nascido em Belém (cf. Mt 2,1 Lc 2,4) e que por fim provinha do céu, do Pai que está no céu.

Outra reflexão sugere-nos a vicissitude de Natanael: na nossa relação com Jesus não devemos contentar-nos unicamente com as palavras. Filipe, na sua resposta, faz um convite significativo: "Vem e verás!" (Jn 1,46). O nosso conhecimento de Jesus precisa sobretudo de uma experiência viva: o testemunho de outrem é certamente importante, porque normalmente toda a nossa vida cristã começa com o anúncio que chega até nós por obra de uma ou de várias testemunhas. Mas depois devemos ser nós próprios a deixar-nos envolver pessoalmente numa relação íntima e profunda com Jesus; de maneira análoga os Samaritanos, depois de terem ouvido o testemunho da sua concidadã que Jesus tinha encontrado ao lado do poço de Jacob, quiseram falar directamente com Ele e, depois deste colóquio, disseram à mulher: "Já não é pelas tuas palavras que acreditamos, nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo" (Jn 4,42).

Voltando ao cenário de vocação, o evangelista refere-nos que, quando Jesus vê Natanael aproximar-se exclama: "Aqui está um verdadeiro Israelita, em quem não há fingimento" (Jn 1,47). Trata-se de um elogio que recorda o texto de um Salmo: "Feliz o homem a quem Iahweh não atribui iniquidade" (Ps 32,2), mas que suscita a curiosidade de Natanael, o qual responde com admiração: "Como me conheces?" (Jn 1,48). A resposta de Jesus não é imediatamente compreensível. Ele diz: "Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas sob a figueira" (Jn 1,48). Não sabemos o que aconteceu sob esta figueira. É evidente que se trata de um momento decisivo na vida de Natanael. Ele sente-se comovido com estas palavras de Jesus, sente-se compreendido e compreende: este homem sabe tudo de mim, Ele sabe e conhece o caminho da vida, a este homem posso realmente confiar-me. E assim responde com uma confissão de fé límpida e bela, dizendo: "Rabi, tu és o filho de Deus, tu és o Rei de Israel" (Jn 1,49). Nela é dado um primeiro e importante passo no percurso de adesão a Jesus. As palavras de Natanael ressaltam um aspecto duplo e complementar da identidade de Jesus: Ele é reconhecido quer na sua relação especial com Deus Pai, do qual é Filho unigénito, quer na relação com o povo de Israel, do qual é proclamado rei, qualificação própria do Messias esperado. Nunca devemos perder de vista nenhuma destas duas componentes, porque se proclamamos apenas a dimensão celeste de Jesus, corremos o risco de o transformar num ser sublime e evanescente, e se ao contrário reconhecemos apenas a sua colocação concreta na história, acabamos por descuidar a dimensão divina que propriamente o qualifica.

Da sucessiva actividade apostólica de Bartolomeu-Natanael não temos notícias claras. Segundo uma informação referida pelo historiador Eusébio do século IV, um certo Panteno teria encontrado até na Índia os sinais de uma presença de Bartolomeu (cf. Hist. eccl., V 10, 3). Na tradição posterior, a partir da Idade Média, impôs-se a narração da sua morte por esfolamento, que se tornou muito popular. Pense-se na conhecidíssima cena do Juízo Universal na Capela Sistina, na qual Michelangelo pintou São Bartolomeu que segura com a mão esquerda a sua pele, sobre a qual o artista deixou o seu auto-retrato. As suas relíquias são veneradas aqui em Roma na Igreja a ele dedicada na Ilha Tiberina, aonde teriam sido levadas pelo Imperador alemão Otão III no ano de 983. Para concluir, podemos dizer que a figura de São Bartolomeu, mesmo sendo escassas as informações acerca dele, permanece contudo diante de nós para nos dizer que a adesão a Jesus pode ser vivida e testemunhada também sem cumprir obras sensacionais. Extraordinário é e permanece o próprio Jesus, ao qual cada um de nós está chamado a consagrar a própria vida e a própria morte.

Saudações

Dirijo uma saudação particular de boas-vindas aos peregrinos do Brasil e de Portugal, nomeadamente aos grupos lisboetas de Carnide e dos Anjos, com votos de que esta romagem fortaleça a vossa adesão a Jesus Cristo e o desejo de O fazer amar na própria casa e na sociedade. O Pai do Céu derrame os seus dons sobre vós e vossas famílias, que de coração abençoo.

Saúdo cordialmente os peregrinos franceses aqui presentes esta manhã. Que a figura do Apóstolo Bartolomeu vos convide, na vossa vida quotidiana, a testemunhar Cristo, que vos chama a consagrar-lhe toda a vossa existência!

Saúdo de coração os peregrinos e visitantes dos países de língua alemã, presentes nesta audiência, e os que nos seguem através da Rádio e da Televisão. Dirijo uma calorosa saudação à Delegação oficial da Gemeinde Aschau, cuja escola frequentei, e o grupo de peregrinos católicos de Ermländischen com o seu Visitador. Saúdo também o grupo "Brücke-Krücke" de Bonn que desde há 25 anos se ocupa de jovens, também portadores de deficiência. Alegro-me de igual modo pela visita da Landesjagdverbandes Bayern com os seus numerosos tocadores de corno. Que a vossa proximidade à natureza esteja ao serviço da maravilhosa criação de Deus. Saúdo todos os outros grupos de peregrinos e convido-vos a seguir o Apóstolo Bartolomeu. Na vossa vida procurai sempre o encontro pessoal com o Senhor. Que o Senhor vos conceda a sua graça e a sua Bênção!

Saúdo cordialmente todos os Polacos aqui presentes. De modo particular, os peregrinos da diocese de Siedlce. Viestes aqui com o vosso Bispo para agradecer de novo a Deus por ocasião do décimo aniversário da beatificação dos mártires de Podlasie, feita por João Paulo II. Estes mártires dão-nos o exemplo particular do seu grande amor pela Igreja e pelo Papa. Eles sejam para todos um exemplo de fé consciente e madura. Louvado seja Jesus Cristo!

Saúdo com afecto os fiéis aqui presentes, especialmente os estudantes do Liceu franciscano de Esztergom. Pedindo a intercessão de São Francisco de Assis, do qual recordamos hoje a memória litúrgica, concedo de bom grado a todos vós a Bênção Apostólica.

Por fim saúdo os jovens, os doentes e os novos casais. O exemplo luminoso de São Francisco de Assis, do qual celebramos hoje a festa, vos solicite queridos jovens, a projectar o vosso futuro em plena fidelidade ao Evangelho. Ajude-vos, queridos doentes, a enfrentar o sofrimento com coragem, encontrando em Cristo crucificado luz e conforto. Conduza-vos, queridos novos casais, a um amor exemplar cada vez mais generoso.







Quarta-feira, 11 de Outubro de 2006

Simão o Cananeu e Judas Tadeu

Queridos irmãos e irmãs!

Hoje tomamos em consideração dois dos doze Apóstolos: Simão o Cananeu e Judas Tadeu (que não se deve confundir com Judas Iscariotes). Consideramo-los juntos, não só porque nas listas dos Doze são sempre mencionados um ao lado do outro (cf. Mt 10,4 Mc 3,18 Lc 6,15 Ac 1,13), mas também porque as notícias que a eles se referem não são muitas, excepto o facto que o Cânon neotestamentário conserva uma carta atribuída a Judas Tadeu.

Simão recebe um epíteto que varia nas quatro listas: Mateus qualifica-o como "cananeu", Lucas define-o "zelote". Na realidade, as duas qualificações equivalem-se, porque significam a mesma coisa: na língua hebraica, de facto, o verbo qanà' significa "ser zeloso", "dedicado" e pode referir-se quer a Deus, porque é zeloso do povo por ele escolhido (cf. Ex 20,5), quer a homens que são zelosos no serviço a Deus único com dedicação total, como Elias (cf. 1R 19,10). Portanto, é possível que este Simão, se não pertencia exactamente ao movimento nacionalista dos Zelotes, tivesse pelo menos como característica um fervoroso zelo pela identidade judaica, por conseguinte, por Deus, pelo seu povo e pela Lei divina. Sendo assim, Simão coloca-se no antípoda de Mateus, que ao contrário, sendo publicano, provinha de uma actividade considerada totalmente impura.

Sinal evidente que Jesus chama os seus discípulos e colaboradores das camadas sociais e religiosas mais diversas, sem exclusão alguma. Ele interessa-se pelas pessoas, não pelas categorias sociais ou pelas actividades! E o mais belo é que no grupo dos seus seguidores, todos, mesmo se diversos, coexistiam, superando as inimagináveis dificuldades: de facto, era o próprio Jesus o motivo de coesão, no qual todos se reencontravam unidos. Isto constitui claramente uma lição para nós, com frequência propensos a realçar as diferenças e talvez as contraposições, esquecendo que em Jesus Cristo nos é dada a força para superar os nossos conflitos. Tenhamos também presente que o grupo dos Doze é a prefiguração da Igreja, na qual devem ter espaço todos os carismas, os povos, as raças, todas as qualidades humanas, que encontram a sua composição e a sua unidade na comunhão com Jesus.

No que se refere depois a Judas Tadeu, ele é chamado assim pela tradição, unindo ao mesmo tempo dois nomes diferentes: de facto, enquanto Mateus e Marcos o chamam simplesmente "Tadeu" (Mt 10,3 Mc 3,18), Lucas chama-o "Judas de Tiago" (Lc 6,16 Ac 1,13). O sobrenome Tadeu tem uma derivação incerta e é explicado ou como proveniente do aramaico taddà', que significa "peito" e, por conseguinte, significaria "magnânimo", ou como abreviação de um nome grego como "Teodoro, Teódoto". Dele são transmitidas poucas coisas. Só João assinala um seu pedido feito a Jesus durante a Última Ceia. Diz Tadeu ao Senhor: "Senhor, como aconteceu que te deves manifestar a nós e não ao mundo?". É uma pergunta de grande actualidade, que também nós fazemos ao Senhor: porque o Ressuscitado não se manifestou em toda a sua glória aos seus adversários para mostrar que o vencedor é Deus? Por que se manifestou só aos Discípulos? A resposta de Jesus é misteriosa e profunda. O Senhor diz: "Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada" (Jn 14,22-23). Isto significa que o Ressuscitado deve ser visto, sentido também com o coração, de modo que Deus possa habitar em nós. O Senhor não se mostra como uma coisa. Ele quer entrar na nossa vida e por isso a sua manifestação é uma manifestação que exige e pressupõe o coração aberto. Só assim vemos o Ressuscitado.

Foi atribuída a Judas Tadeu a paternidade de uma das Cartas do Novo Testamento, que são chamadas "católicas" porque não se destinam a uma determinada Igreja local, mas a um círculo muito amplo de destinatários. De facto, ele dirige-se "aos eleitos amados por Deus Pai e guardados para Jesus Cristo" (v. 1). A preocupação central deste escrito é advertir os cristãos de todos os que, com o pretexto da graça de Deus, desculpam a própria devassidão e para desviar outros irmãos com ensinamentos inaceitáveis, introduzindo divisões dentro da Igreja "deixando-se levar pelo seu delírio" (v. 8), assim define Judas estas suas doutrinas e ideias especiais. Ele compara-os inclusivamente aos anjos caídos, e com palavras fortes diz que "seguiram pelo caminho de Caim" (v. 11). Além disso classifica-os sem reticências como "nuvens sem água que os ventos levam; árvores de outono sem fruto, duas vezes mortas, desarraigadas; ondas furiosas do mar que repelem a espuma da sua torpeza; estrelas errantes condenadas à negrura das trevas eternas" (vv. 12-13).

Talvez hoje nós já não estejamos habituados a usar uma linguagem tão polémica, que contudo nos diz uma coisa importante. No meio de todas as tentações que existem, com todas as correntes da vida moderna, devemos conservar a identidade da nossa fé. Certamente, o caminho da indulgência e do diálogo, que o Concílio Vaticano II felizmente empreendeu, deve ser sem dúvida prosseguida com uma constância firme. Mas este caminho do diálogo, tão necessário, não deve fazer esquecer o dever de reconsiderar e de evidenciar sempre com igual força as linhas-mestras e irrenunciáveis da nossa identidade cristã. Por outro lado, é necessário ter bem presente que esta nossa identidade exige força, clareza e coragem face às contradições do mundo em que vivemos. Por isso o texto epistolar prossegue assim: "Mas vós, caríssimos, fala a todos nós mantende-vos no amor de Deus, esperando que a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo vos conceda a vida eterna. Tratai com misericórdia aqueles que vacilam..." (vv. 20-22). A Carta conclui-se com estas bonitas palavras: "Àquele que é poderoso para vos livrar das quedas e vos apresentar diante da sua glória, imaculados e cheios de alegria, ao Deus único, nosso Salvador, por meio de Jesus Cristo, Senhor nosso, seja dada glória, a majestade, a soberania e o poder, antes de todos os tempos, agora e por todos os séculos, Amém" (vv. 24-25).

Vê-se bem que o autor destas frases vive plenamente a própria fé, à qual pertencem realidades grandes como a integridade moral e a alegria, a confiança e por fim o louvor, sendo motivado em tudo apenas pela bondade do nosso único Deus e pela misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, tanto Simão o Cananeu, como Judas Tadeu nos ajudam a redescobrir sempre de novo e a viver incansavelmente a beleza da fé cristã, sabendo dar um testemunho dela forte e ao mesmo tempo sereno.
***


Saudações

Saúdo com especial afecto os peregrinos de língua portuguesa, especialmente o grupo de portugueses da Paróquia de Queluz e os numerosos visitantes brasileiros de Curitiba e de Cordeirópolis. Sejam bem-vindos. A vossa passagem por Roma seja abençoada por Deus e por Maria Santíssima, Rainha do Santíssimo Rosário. Com a minha Bênção Apostólica.

Sinto-me feliz por vos receber, queridos peregrinos de língua francesa. Saúdo particularmente as Irmãs de Jesus-Maria e os coroinhas da Haute-Ajoie, na Suíça. Ao pôr-vos no seguimento dos Apóstolos, sede atentos a redescobrir e a viver sempre mais intensamente a beleza da fé cristã e a testemunhá-la com convicção e serenidade. Que Deus vos abençoe!

Queridos irmãos e irmãs!

Dou cordiais boas-vindas aos grupos de peregrinos e visitantes de língua inglesa presentes hoje nesta audiência, especialmente as Irmãs Missionárias da Imaculada. Rezo para que a vossa estadia em Roma renove a vossa fé e para que o Senhor vos fortaleça na vossa identidade Cristã, seguindo o exemplo dos Apóstolos Simão e Judas. Deus vos abençoe a todos!

Saúdo os polacos aqui presentes. O Senhor Jesus disse a Judas: "Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra, e o meu Pai o amará e Nós viremos a ele e nele faremos morada" (Jn 14,23). A visita aos túmulos dos Apóstolos vos cumule do amor de Cristo, pelo qual eles deram a vida. Que Deus vos abençoe.

Saúdo cordialmente os peregrinos croatas, particularmente os fiéis da paróquia de Santo António de Zagrábia, os empregados da Agência Nacional Croata para o Turismo e o grupo de Vinkovci. Repletos da paz e do amor de Deus, sede a alegria para quantos encontrardes no caminho da vida. Louvados sejam Jesus e Maria!

Por fim, dirijo-me aos jovens, aos doentes, e aos novos casais. Hoje a liturgia recorda o beato João XXIII, meu venerado Predecessor, que serviu com exemplar dedicação Cristo e a Igreja, empenhando-se com solicitude constante pela salvação das almas. A sua protecção vos ampare, queridos jovens, no esforço de fidelidade quotidiana a Cristo; encoraje vós, queridos doentes, a não perder a confiança no momento da prova e do sofrimento; e vos ajude a vós, estimados novos casais, a fazer da vossa família uma escola de crescimento no amor de Deus e dos irmãos.









Quarta-feira, 18 de Outubro de 2006

Judas Iscariotes e Matias

Queridos irmãos e irmãs!

Terminando hoje de percorrer a galeria de retratos dos Apóstolos chamados directamente por Jesus durante a sua vida terrena, não podemos omitir de mencionar aquele que é sempre nomeado por último nas listas dos Doze: Judas Iscariotes. A ele queremos associar a pessoa que depois é eleita para o substituir, Matias.

Já o simples nome de Judas suscita entre os cristãos uma reacção instintiva de reprovação e de condenação. O significado do apelativo "Iscariotes" é controverso: a explicação mais seguida compreende esta palavra como "homem de Queriot" referindo-se à sua aldeia de origem, situada nas vizinhanças de Hebron e mencionada duas vezes na Sagrada Escritura (cf. Jos 15,25 Am 2,2).

Outros interpretam-no como variação da palavra "sicário", como se aludisse a um guerrilheiro armado com um punhal que em latim se chama sica. Por fim, há quem veja no sobrenome a simples transcrição de uma raiz hebraico-aramaica que significa: "aquele que estava para o entregar". Esta designação encontra-se duas vezes no IV Evangelho, ou seja, depois de uma confissão de fé de Pedro (cf. Jn 6,71) e depois durante a unção de Betânia (cf. Jn 12,4). Outras passagens mostram que a traição estava a ser realizada, dizendo: "aquele que o traía"; assim, durante a Última Ceia, depois do anúncio da traição (cf. Mt 26,25) e depois no momento do aprisionamento de Jesus (cf. Mt 26,46 Mt 26,48 Jn 18,2 Jn 18,5). Ao contrário, as listas dos Doze recordam a traição como uma coisa já efectuada: "Judas Iscariotes, o que o traiu", assim diz Marcos (Mc 3,19); Mateus (Mt 10,4) e Lucas (Lc 6,16) usam fórmulas equivalentes. A traição como tal aconteceu em dois momentos: antes de tudo no planeamento, quando Judas se põe de acordo com os inimigos de Jesus por trinta moedas de prata (cf. Mt 26,14-16), e depois na execução com o beijo dado ao Mestre no Getsémani (cf. Mt 26,46-50). Contudo, os evangelistas insistem sobre a qualidade de apóstolo, que competia a Judas para todos os efeitos: ele é repetidamente chamado "um dos Doze" (Mt 26,14 Mt 26,47 Mc 14,10 Mc 14,20 Jn 6,71) ou "do número dos Doze" (Lc 22,3). Aliás, por duas vezes Jesus, dirigindo-se aos Apóstolos e falando precisamente dele, indica-o como "um de vós" (Mt 26,21 Mc 14,18 Jn 6,70 Jn 13,21). E Pedro dirá de Judas que "era do nosso número e tinha recebido o nosso mesmo ministério" (Ac 1,17).

Trata-se portanto de uma figura pertencente ao grupo dos que Jesus tinha escolhido como companheiros e colaboradores íntimos. Isto suscita duas perguntas na tentativa de dar uma explicação aos acontecimentos que se verificaram. A primeira consiste em perguntar como aconteceu que Jesus tenha escolhido este homem e nele tenha confiado. Apesar de Judas ser de facto o ecónomo do grupo (cf. Jn 12,6b Jn 13,29a), na realidade é qualificado também como "ladrão" (Jn 12,6). Permanece o mistério da escolha, também porque Jesus pronuncia um juízo muito severo sobre ele: "ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue" (Mt 26,24).

Torna-se ainda mais denso o mistério acerca do seu destino eterno, sabendo que Judas "se arrependeu e restituiu as trinta moedas de prata aos sumos sacerdotes e aos idosos, dizendo: "Pequei, entregando sangue inocente"" (Mt 27,3-4). Mesmo se em seguida ele se afastou para se ir enforcar (cf. Mt 27,5), não compete a nós julgar o seu gesto, substituindo-nos a Deus infinitamente misericordioso e justo.

Uma segunda pergunta refere-se ao motivo do comportamento de Judas: porque traíu Jesus? A questão é objecto de várias hipóteses. Alguns recorrem ao factor da sua avidez de dinheiro; outros dão uma explicação de ordem messiânica: Judas teria ficado desiludido ao ver que Jesus não inseria no seu programa a libertação político-militar do seu próprio País. Na realidade os textos evangélicos insistem sobre outro aspecto: João diz expressamente que "tendo já o diabo metido no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que O entregasse" (Jn 13,2); analogamente escreve Lucas: "Entrou satanás em Judas, chamado Iscariotes que era do número dos Doze" (Lc 22,3).

Desta forma, vai-se além das motivações históricas e explica-se a vicissitude com base na responsabilidade pessoal de Judas, o qual cedeu miseravelmente a uma tentação do maligno. A traição de Judas permanece, contudo, um mistério. Jesus tratou-o como um amigo (cf. Mt 26,50), mas, nos seus convites a segui-lo pelo caminho das bem-aventuranças, não forçava as vontades nem as preservava das tentações de satanás, respeitando a liberdade humana.

De facto, as possibilidades de perversão do coração humano são verdadeiramente muitas. O único modo de as evitar consiste em não cultivar uma visão das coisas apenas individualista, autónoma, mas ao contrário em colocar-se sempre de novo da parte de Jesus, assumindo o seu ponto de vista. Devemos procurar, dia após dia, estar em plena comunhão com Ele. Recordemo-nos de que também Pedro se queria opor a ele e ao que o esperava em Jerusalém, mas recebeu uma forte reprovação: "Tu não aprecias as coisas de Deus, mas só as dos homens" (Mc 8,32-33)!

Pedro, depois da sua queda, arrependeu-se e encontrou perdão e graça. Também Judas se arrependeu, mas o seu arrependimento degenerou em desespero e assim tornou-se autodestruição. Para nós isto é um convite a ter sempre presente quanto diz São Bento no final do fundamental capítulo V da sua "Regra": "Nunca desesperar da misericórdia divina".

Na realidade Deus "é maior que o nosso coração", como diz São João (1Jn 3,20).Por conseguinte, tenhamos presente duas coisas. A primeira: Jesus respeita a nossa liberdade. A segunda: Jesus espera a nossa disponibilidade para o arrependimento e para a conversão; é rico de misericórdia e de perdão. Afinal, quando pensamos no papel negativo desempenhado por Judas devemos inseri-lo na condução superior dos acontecimentos por parte de Deus. A sua traição levou à morte de Jesus, o qual transformou este tremendo suplício em espaço de amor salvífico e em entrega de si ao Pai (cf. Ga 2,20 Ep 5,2 Ep 5,25).

O Verbo "trair" deriva de uma palavra grega que significa "entregar". Por vezes o seu sujeito é inclusivamente Deus em pessoa: foi ele que por amor "entregou" Jesus por todos nós (cf. Rm 8,32). No seu misterioso projecto salvífico, Deus assume o gesto imperdoável de Judas como ocasião da doação total do Filho para a redenção do mundo.

Em conclusão, queremos recordar também aquele que depois da Páscoa foi eleito no lugar do traidor. Na Igreja de Jerusalém a comunidade propôs dois para serem sorteados: "José, de apelido Barsabas, chamado justo, e Matias" (Ac 1,23). Foi precisamente este o pré-escolhido, de modo que "foi associado aos onze Apóstolos" (Ac 1,26). Dele nada mais sabemos, a não ser que também tinha sido testemunha de toda a vicissitude terrena de Jesus (cf. Ac 1,21-22), permanecendo-lhe fiel até ao fim. À grandeza desta sua fidelidade acrescenta-se depois a chamada divina a ocupar o lugar de Judas, como para compensar a sua traição. Tiramos disto mais uma lição: mesmo se na Igreja não faltam cristãos indignos e traidores, compete a cada um de nós equilibrar o mal que eles praticam com o nosso testemunho transparente a Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador.

Saudações

Saúdo o grupo de visitantes do Brasil e demais peregrinos de língua portuguesa, a quem agradeço a presença e quanto a mesma significa de confissão de fé e amor a Jesus Cristo vivo na sua Igreja. Que Deus vos guarde e abençoe!

Acolho com alegria os peregrinos de língua francesa, em particular os peregrinos da Diocese de Limoges, acompanhados pelo seu Bispo, D. Christophe Dufur, assim como os membros do capítulo dos Irmãos do Sagrado Coração e o seu novo superior-geral. Que a vossa peregrinação a Roma vos fortaleça na alegria de serdes discípulos e testemunhas de Cristo ressuscitado!

Dou as boas-vindas aos peregrinos de língua inglesa que aqui se encontram, especialmente às Irmãs da Providência que vieram para a canonização da Madre Théodore Guérin. Saúdo também os peregrinos provenientes da África, da Ásia, da Grã-Bretanha e da Irlanda, da Escandinávia e dos Estados Unidos da América. Que Deus vos abençoe, assim como às vossas famílias.

Saúdo de coração todos os visitantes de língua alemã, de modo especial o grupo da escola "Kardinal-von-Galen" de Münster. Obrigado pela vossa presença e pelo vosso vigoroso testemunho. Na escola de Jesus aprendemos a verdadeira liberdade do coração. Deixai entrar no vosso coração a chamada de Deus. O Espírito Santo vos acompanhe nos vossos caminhos!

Saúdo cordialmente todos os peregrinos polacos. Celebra-se esta semana o aniversário da eleição para a Sé de Pedro do meu amado predecessor, João Paulo II. Desejo a vós aqui presentes, e a toda a comunidade cristã, que o testemunho da vida e o rico magistério pastoral do venerado Servo de Deus dêem frutos com actos de amor e de fé. Deus vos abençoe.

Por fim, dirijo-me aos jovens, aos doentes, e aos novos casais. Olhando para o exemplo resplandecente de São Lucas evangelista, convido-vos, queridos jovens, a serdes corajosos anunciadores de Cristo, Palavra de salvação "que não passa"; exorto-vos a vós, queridos doentes, a enfrentar os sofrimentos com espírito de fé e esperança cristã; e desejo a vós, estimados novos casais, que obtenhais sempre do Senhor crucificado e ressuscitado o amor divino que torna firme e fecunda a vossa união.

Tomei conhecimento com profundo pesar da notícia do desastre que ocorreu ontem de manhã no Metropolitano de Roma. Neste momento de dor, estou particularmente próximo de quantos foram atingidos pelo trágico acontecimento; desejo expressar-lhes sentimentos de conforto e de afecto, garantindo uma recordação especial na oração.







Apóstolos 17Maio-22Out06 4