Paulo 25Outubro06-21fé07
Quarta-feira, 25 de Outubro de 2006 Queridos irmãos e irmãs!
Concluímos as nossas reflexões sobre os doze Apóstolos chamados directamente por Jesus durante a sua vida terrena. Iniciamos hoje a aproximar as figuras de outras personagens importantes da Igreja primitiva. Também elas dedicaram a sua vida ao Senhor, ao Evangelho e à Igreja. Trata-se de homens, e também de mulheres que, como escreve Lucas no Livro dos Actos, "expuseram as suas vidas pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo" (Ac 15,26).
O primeiro deles, chamado pelo próprio Senhor, pelo Ressuscitado, para ser também ele um verdadeiro Apóstolo, é sem dúvida Paulo de Tarso. Ele brilha como estrela de primeira grandeza na história da Igreja, e não só da primitiva. São João Crisóstomo exalta-o como personagem superior até a muitos anjos e arcanjos (cf. Panegirico, 7, 3). Dante Alighieri na Divina Comédia, inspirando-se na narração de Lucas feita nos Actos (cf. Ac 9,15), define-o simplesmente "vaso de eleição" (Inf. 2, 28), que significa: instrumento pré-escolhido por Deus. Outros chamaram-no o "décimo terceiro Apóstolo" e realmente ele insiste muito para ser um verdadeiro Apóstolo, tendo sido chamado pelo Ressuscitado ou até "o primeiro depois do Único". Sem dúvida, depois de Jesus, ele é o personagem das origens sobre a qual estamos mais informados. De facto, possuímos não só a narração que dele faz Lucas nos Actos dos Apóstolos, mas também um grupo de Cartas que provêm directamente da sua mão e sem intermediários nos revelam a sua personalidade e o seu pensamento. Lucas informa-nos que o seu nome originário era Saulo (cf. Ac 7,58 Ac 8,1, etc.), aliás em hebraico Saul (cf. Ac 9,14 Ac 9,17 Ac 22,7 Ac 22,13 Ac 26,14), como o rei Saul (cf. Ac 13,21), e era um judeu da diáspora, estando a cidade de Tarso situada entre a Anatólia e a Síria. Tinha ido muito cedo a Jerusalém para estudar profundamente a Lei moisaica aos pés do grande Rabi Gamaliel (cf. Ac 22,3). Tinha aprendido também uma profissão manual e áspera, era fabricante de tendas (cf. Ac 18,3), que sucessivamente lhe permitiu sustentar-se pessoalmente sem pesar sobre as Igrejas (cf. Ac 20,34 1Co 4,12 2Co 12,13-14).
Para ele foi decisivo conhecer a comunidade dos que se professavam discípulos de Jesus. Por eles tinha sabido a notícia de uma nova fé um novo "caminho", como se dizia que colocava no seu centro não tanto a Lei de Deus, quanto a pessoa de Jesus, crucificado e ressuscitado, com o qual estava relacionada a remissão dos pecados. Como judeu zeloso, ele considerava esta mensagem inaceitável, aliás escandalosa, e por isso sentiu o dever de perseguir os seguidores de Cristo também fora de Jerusalém. Foi precisamente no caminho para Damasco, no início dos anos 30, que Saulo, segundo as suas palavras, foi "alcançado por Cristo" (Ph 3,12). Enquanto Lucas narra os factos com riqueza de pormenores de como a luz do Ressuscitado o alcançou e mudou fundamentalmente toda a sua vida ele nas suas Cartas vai directamente ao essencial e fala não só da visão (cf. 1Co 9,1), mas de iluminação (cf. 2Co 4,6) e sobretudo de revelação e de vocação no encontro com o Ressuscitado (cf. Ga 1,15-16). De facto, definir-se-á explicitamente "apóstolo por vocação" (cf. Rm 1,1 1Co 1,1) ou "apóstolo por vontade de Deus" (2Co 1,1 Ep 1,1 Col 1,1), para realçar que a sua conversão não era o resultado de um desenvolvimento de pensamentos, de reflexões, mas o fruto de uma intervenção divina, de uma imprevisível graça divina. A partir daquele momento, tudo o que antes constituía para ele um valor tornou-se paradoxalmente, segundo as suas palavras, perda e lixo (cf. Ph 3,7-10). A partir daquele momento todas as suas energias foram postas ao serviço exclusivo de Jesus Cristo e do seu Evangelho.
Agora a sua existência será a de um Apóstolo desejoso de "se fazer tudo em todos" (1Co 9,22) sem reservas.
Isto constitui para nós uma lição muito importante: o mais importante é colocar no centro da própria vida Jesus Cristo, de modo que a nossa identidade se distinga essencialmente pelo encontro, pela comunhão com Cristo e com a sua Palavra. À sua luz todos os outros valores são recuperados e ao mesmo tempo purificados de eventuais impurezas. Outra lição fundamental oferecida por Paulo é o alcance universal que caracteriza o seu apostolado. Vendo a agudeza do problema do acesso dos Gentios, isto é dos pagãos, a Deus, que em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado oferece a salvação a todos os homens sem excepções, dedicou-se totalmente a dar a conhecer este Evangelho, literalmente "boa notícia", isto é, anúncio de graça destinado a reconciliar o homem com Deus, consigo mesmo e com os outros. Desde o primeiro momento ele tinha compreendido que esta era uma realidade que não dizia respeito só aos judeus ou a um certo grupo de homens, mas que tinha um valor universal e se referia a todos, porque Deus é o Deus de todos.
O ponto de partida para as suas viagens foi a Igreja de Antioquia da Síria, onde pela primeira vez o Evangelho foi anunciado aos Gregos e onde também foi cunhado o nome de "cristãos" (cf. Ac 11,20 Ac 11,26), isto é, de crentes em Cristo. Dali ele dirigiu-se primeiro para Chipre e depois várias vezes para as regiões da Ásia Menor (Pisídia, Licaónia, Galácia), depois para as da Europa (Macedónia, Grécia). Mais relevantes foram as cidades de Éfeso, Filipos, Tessalônica, Corinto, sem contudo esquecer Beréia, Atenas e Mileto.
No apostolado de Paulo não faltaram dificuldades, que ele enfrentou com coragem por amor de Cristo. Ele mesmo recorda ter agido "pelos trabalhos... pelas prisões... pelos açoites, pelos frequentes perigos de morte... três vezes fui açoitado com varas, uma vez apedrejado; três vezes naufraguei... viagens sem conta, exposto a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte dos meus concidadãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre os falsos irmãos; trabalhos e fadigas, repetidas vigílias com fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez! E além de tudo isto, a minha obsessão de cada dia: cuidado de todas as Igrejas" (2Co 11,23-28). De um trecho da Carta aos Romanos (cf. Rm 15,24 Rm 15,28) transparece o seu propósito de chegar até à Espanha, às extremidades do Ocidente, para anunciar o Evangelho em toda a parte, até aos confins da terra então conhecida. Como não admirar um homem como este? Como não agradecer ao Senhor por nos ter dado um Apóstolo desta estatura? É claro que não lhe teria sido possível enfrentar situações tão difíceis e por vezes desesperadas, se não tivesse havido uma razão de valor absoluto, perante a qual nenhum limite se podia considerar insuperável. Para Paulo, esta razão, sabemo-lo, é Jesus Cristo, do qual ele escreve: "O amor de Cristo nos impulsiona... para que, os que vivem, não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou" (2Co 5,14-15), por nós, por todos.
De facto, o Apóstolo dará o testemunho supremo do sangue sob o imperador Nero aqui em Roma, onde conservamos e veneramos os seus despojos mortais. Assim escreveu acerca dele Clemente Romano, meu predecessor nesta Sede Apostólica nos últimos anos do século I: "Por causa dos ciúmes e da discórdia Paulo foi obrigado a mostrar-nos como se obtém o prémio da paciência... Depois de ter pregado a justiça a todo o mundo, e depois de ter chegado até aos extremos confins do Ocidente, sofreu o martírio diante dos governantes; assim partiu deste mundo e chegou ao lugar sagrado, que com isso se tornou o maior modelo de perseverança" (Aos Coríntios, 5). O Senhor nos ajude a pôr em prática a exortação que nos foi deixada pelo Apóstolo nas suas Cartas: "Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo" (1Co 11,1).
Saudações
Amados irmãos e irmãs!
Saúdo com especial afecto os peregrinos de língua portuguesa aqui presentes; a todos desejo felicidades, graça e paz. Aos portugueses de Faro e de Albufeira, e ao numeroso grupo de brasileiros faço votos de que prossigam na caminhada de fé, depositando sempre a esperança em Cristo ressuscitado. Que Deus vos abençoe!
Saúdo cordialmente os peregrinos de língua francesa presentes esta manhã, em particular o grupo de peregrinos de Sion, acompanhados pelo Cardeal Henri Schwery, Bispo emérito de Sion, e a Comunidade do Pontifício Seminário Francês de Roma, que veio por ocasião do 150º aniversário da sua instalação na Via Santa Chiara. A exemplo de São Paulo, tomai Cristo por modelo: só Ele vos fará capazes de anunciar com audácia a Boa Nova da salvação!
Sinto-me feliz por saudar os numerosos peregrinos de língua inglesa aqui presentres, sobretudo os que provêm da Inglaterra, Irlanda, Nigéria, África do Sul, Tanzânia, Índia, Indonésia, Japão e dos Estados Unidos da América. Dirijo uma saudação especial aos peregrinos das Dioceses de Cheyenne e de Wheeling-Charleston, acompanhados pelos seus Bispos. Saúdo também os sacerdotes que frequentam o Instituto Teológico de Formação Permanente do Pontifício Colégio Norte-Americano. Agradeço ao Coro da Escola do Santíssimo Rosário de Gauteng, África do Sul, pelo seu canto de louvor ao Senhor. Invoco cordialmente sobre todos vós em abundância a alegria e a paz do Senhor.
Dou calorosas boas-vindas aos peregrinos e visitantes de língua alemã. O Apóstolo Paulo deixou tudo por Cristo que reconheceu como lucro autêntico. Com a ajuda de Deus, nós desejamos aceitar o convite que ele fez não só a quantos liam a sua carta, mas aos cristãos de todos os tempos. "Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo" (1Co 11,1). O encontro com os Santos aqui em Roma fortaleça a vossa fé. Desejo-vos uma agradável estadia!
Por fim, o meu pensamento dirige-se aos jovens, aos doentes e aos novos casais. Ontem a liturgia fez-nos recordar o Bispo Santo António Maria Claret, que se dedicou com grande empenho pela salvação das almas. O seu glorioso testemunho evangélico vos ampare, queridos jovens, no compromisso de fidelidade quotidiana a Cristo; vos encorage, queridos doentes, a seguir sempre Jesus no caminho da prova e do sofrimento; vos ajude, estimados novos casais, a fazer da vossa família o lugar do encontro com Deus e com os irmãos.
Quarta-feira, 8 de Novembro de 2006 Queridos irmãos e irmãs!
Na catequese precedente, há quinze dias, procurei traçar os aspectos essenciais da biografia do apóstolo Paulo. Vimos como o encontro com Cristo pelo caminho de Damasco revolucionou literalmente a sua vida. Cristo tornou-se a sua razão de ser e o motivo profundo de todo o seu trabalho apostólico. Nas suas cartas, depois do nome de Deus, que aparece mais de 500 vezes, o nome que é mencionado com mais frequência é o de Cristo (380 vezes). Por conseguinte, é importante que nos apercebamos de quanto Jesus Cristo possa incidir na vida de um homem e portanto também na nossa própria vida. Na realidade, Jesus Cristo é o ápice da história salvífica e, desta forma, o verdadeiro ponto discriminante também no diálogo com as outras religiões.
Olhando para Paulo, poderíamos formular assim a pergunta fundamental: como acontece o encontro de um ser humano com Cristo? E em que consiste a relação que dele deriva? A resposta de Paulo pode ser compreendida em dois momentos. Em primeiro lugar, Paulo ajuda-nos a compreender o valor absolutamente fundante e insubstituível da fé. Eis quanto escreve na Carta aos Romanos: "Pois estamos convencidos de que é pela fé que o homem é justificado, independentemente das obras da lei" (Rm 3,28). E também na Carta aos Gálatas: "O homem não é justificado pelas obras da Lei, mas unicamente pela fé em Jesus Cristo; por isso, também nós acreditámos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da Lei; porque pelas obras da Lei nenhuma criatura será justificada" (Ga 2,16). "Ser justificados" significa ser tornados justos, isto é, ser acolhidos pela justiça misericordiosa de Deus, e entrar em comunhão com Ele, e por conseguinte poder estabelecer uma relação muito mais autêntica com todos os nossos irmãos: e isto com base num perdão total dos nossos pecados. Pois bem, Paulo diz com muita clareza que esta condição de vida não depende das nossas eventuais boas obras, mas de uma mera graça de Deus: "Sem o merecerem, são justificados pela sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus" (Rm 3,24).
Com estas palavras São Paulo expressa o conteúdo fundamental da sua conversão, o novo rumo da sua vida que resultou do seu encontro com Cristo ressuscitado. Paulo, antes da conversão, não tinha sido um homem afastado de Deus e da sua Lei. Ao contrário, era um observante, com uma observância fiel até ao fanatismo. Mas à luz do encontro com Cristo compreendeu que com isso tinha procurado edificar-se a si mesmo, à sua própria justiça, e que com toda essa justiça tinha vivido para si mesmo. Compreendeu que era absolutamente necessária uma nova orientação da sua vida. E encontramos expressa nas suas palavras esta nova orientação: "E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim" (Ga 2,20).
Por conseguinte, Paulo já não vive para si, para a sua própria justiça. Vive de Cristo e com Cristo: entregando-se a si mesmo, não mais procurando e construindo-se a si mesmo. Esta é a nova justiça, a nova orientação que o Senhor nos deu, que a fé nos deu. Diante da cruz de Cristo, expressão extrema da sua autodoação, não há ninguém que possa vangloriar-se a si, à própria justiça feita por si e para si! Noutra carta Paulo, fazendo eco a Jeremias, expressa este pensamento escrevendo: "Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor" (1Co 1,31 = Jr 9, 22s); ou: "Quanto a mim, porém, de nada me quero gloriar, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo" (Ga 6,14).
Reflectindo sobre o significado de justificação não pelas obras mas pela fé, chegamos ao segundo aspecto que define a identidade cristã descrita por São Paulo na própria vida. Identidade cristã que se compõe precisamente por dois elementos: este não procurar-se por si, mas receber-se de Cristo e doar-se com Cristo, e desta forma participar pessoalmente na vicissitude do próprio Cristo, até se imergir n'Ele e partilhar quer a sua morte quer a sua vida. É quanto escreve Paulo na Carta aos Romanos: "fomos baptizados na sua morte... fomos sepultados com Ele na morte... estamos integrados n'Ele... Assim vós também: considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus" (Rm 6,3 Rm 6,4 Rm 6,5 Rm 6,11). Precisamente esta última expressão é sintomática: para Paulo, de facto, não é suficiente dizer que os cristãos são baptizados ou crentes; para ele é de igual modo importante dizer que eles são "em Cristo Jesus" (cf. também Rm 8,1 Rm 8,2 Rm 8,39 Rm 12,5 Rm 16,3 Rm 16,7 Rm 16,10 1Co 1,2, etc.). Outras vezes ele inverte as palavras e escreve que "Cristo está em nós/vós" (Rm 8,10 2Co 13,5) ou "em mim" (Ga 2,20). Esta mútua compenetração entre Cristo e o cristão, característica do ensinamento de Paulo, completa o seu discurso sobre a fé. A fé, de facto, mesmo unindo-nos intimamente a Cristo, realça a distinção entre nós e Ele. Mas, segundo Paulo, a vida do cristão tem também um componente que poderíamos dizer "místico", porque obriga a uma nossa identificação com Cristo e de Cristo connosco. Neste sentido, o Apóstolo chega até a qualificar os nossos sofrimentos como os "sofrimentos de Cristo em nós" (2Co 1,5), de modo que "trazemos sempre no nosso corpo a morte de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifesta no nosso corpo" (2Co 4,10).
Devemos inserir tudo isto na nossa vida quotidiana seguindo o exemplo de Paulo que viveu sempre com este grande alcance espiritual. Por um lado, a fé deve manter-nos numa atitude constante de humildade perante Deus, aliás, de adoração e de louvor em relação a ele. De facto, o que nós somos como cristãos devemo-lo unicamente a Ele e à sua graça. Dado que nada nem ninguém pode ocupar o seu lugar, é preciso portanto que não tributemos a nada nem a ninguém a homenagem que a Ele prestamos. Ídolo algum deve contaminar o nosso universo espiritual, porque neste caso, em vez de gozar da liberdade adquirida cairíamos de novo numa espécie de escravidão humilhante. Por outro lado, a nossa pertença radical a Cristo e o facto que "existimos n'Ele" deve infundir-nos uma atitude de total confiança e de imensa alegria. Para concluir, de facto, devemos exclamar com São Paulo:"SeDeusestápornós, quem pode estar contra nós?" (Rm 8,31). E a resposta é que ninguém "poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso" (Rm 8,39). Por conseguinte, a nossa vida cristã baseia-se na rocha mais estável e segura que se possa imaginar. E dela tiramos toda a nossa energia, como escreve precisamente o Apóstolo: "De tudo sou capaz naquele que me dá força" (Ph 4,13).
Enfrentemos portanto a nossa existência, com as suas alegrias e com os seus sofrimentos, amparados por estes grandes sentimentos que Paulo nos oferece. Fazendo deles experiência poderemos compreender como é verdadeiro o que o próprio Apóstolo escreve: "sei em quem acredito e estou persuadido de que Ele tem poder para guardar, até aquele dia, o bem que me foi confiado" (2Tm 1,12) do nosso encontro com Cristo Juiz, Salvador do mundo e nosso.
Saudações
Queridos irmãos e irmãs!
Saúdo cordialmente os peregrinos franceses presentes aqui esta manhã, em particular os leitores da revista "Pèlerin". Que o exemplo de Paulo vos convide a permanecer cada vez mais "em Cristo", louvando Deus, que, unicamente pela sua graça, fez de vós aquilo que sois.
Queridos irmãos e irmãs!
Sinto-me feliz por saudar os jovens provenientes de diferentes nações e pertencentes a tradições religiosas que recentemente se reuniram em Assis para comemorar o vigésimo aniversário do Encontro Inter-Religioso de Oração pela Paz desejado pelo meu Predecessor João Paulo II.
Agradeço aos líderes de várias religiões que tornaram possível a participação neste acontecimento, e ao Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso que o organizou. Queridos jovens amigos: o nosso mundo tem urgente necessidade de paz! O encontro de Assis realça o poder da oração na construção da paz. A oração genuína transforma os corações, abre-nos para o diálogo, para o entendimento e para a reconciliação, e derruba os muros levantados pela violência, pelo ódio e pela vingança. Regressai às vossas comunidades religiosas como testemunhas do "espírito de Assis", mensageiros da paz que Deus amorosamente vos concedeu, e vivei como sinais de alegria no vosso ambiente.
Dirijo calorosas boas-vindas a todos os visitantes de língua inglesa presentes nesta audiência. Seguindo o exemplo de São Paulo, fazei com que a vossa peregrinação a Roma renove a vossa fé e o vosso amor ao Senhor. Deus vos abençoe a todos!
Saúdo de coração os peregrinos de língua alemã, assim como as Associações das Fraternidades Históricas dos "Schützen". Dai testemunho uns aos outros do amor de Deus através das boas acções! A luz de Deus vos acompanhe em toda a vossa vida!
Por fim, o meu pensamento dirige-se aos jovens, aos doentes e aos recém-casados. Queridos jovens, projectai o vosso futuro em plena fidelidade ao Evangelho, segundo o ensinamento e o exemplo de Jesus. Vós, queridos doentes, oferecei o vosso sofrimento ao Senhor, para que Ele possa alargar a sua acção salvífica no mundo. E vós, queridos recém-casados, no caminho que empreendestes deixai-vos guiar sempre por uma fé viva, para crescer no fervor espiritual e no amor.
Quarta-feira, 15 de Novembro de 2006 Queridos irmãos e irmãs!
Também hoje, como nas duas catequeses precedentes, voltamos a São Paulo e ao seu pensamento. Estamos diante de um gigante não só a nível do apóstolo concreto, mas também da doutrina teológica, extraordinariamente profunda e estimulante. Depois de ter meditado na semana passada sobre o que Paulo escreveu acerca do lugar central que Jesus Cristo ocupa na nossa vida de fé, vemos hoje o que ele diz sobre o Espírito Santo e sobre a sua presença em nós, porque também aqui o Apóstolo tem algo muito importante para nos ensinar.
Conhecemos o que São Lucas nos diz do Espírito Santo nos Actos dos Apóstolos, descrevendo o evento do Pentecostes. O Espírito pentecostal traz consigo um vigoroso estímulo a assumir um compromisso da missão para testemunhar o Evangelho pelos caminhos do mundo. De facto, o Livro dos Actos narra uma série de missões realizadas pelos Apóstolos, primeiro na Samaria, depois ao longo da Palestina, e depois, em direcção à Síria. São narradas sobretudo as três grandes viagens missionárias realizadas por Paulo, como já recordei num precedente encontro de quarta-feira. Mas São Paulo, nas suas Cartas fala-nos do Espírito também sob outra perspectiva.
Ele não se detém a ilustrar apenas a dimensão dinâmica e operativa da terceira Pessoa da Santíssima Trindade, mas analisa também a presença na vida do cristão, cuja identidade é marcada por ele. Em outras palavras, Paulo reflecte sobre o Espírito expondo a sua influência não só no agir do cristão, mas também no seu ser. De facto, ele diz que o Espírito de Deus habita em nós (cf. Rm 8,9 1Co 3,16) e que "Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho" (Ga 4,6).
Portanto, para Paulo o Espírito conota-nos até às nossas profundezas pessoais mais íntimas. Em relação a isto, eis algumas das suas palavras de importante significado: "A lei do Espírito que dá a vida libertou-te, em Cristo Jesus, da lei do pecado e da morte... Vós não recebestes um Espírito que vos escravize e volte a encher-vos de medo; mas recebestes um Espírito que faz de vós filhos adoptivos. É por Ele que clamámos: Abbá, ó Pai!" (Rm 8,2 Rm 8,15), porque somos filhos, podemos chamar "Pai" a Deus. Portanto, vemos bem que o cristão, ainda antes de agir, já possui uma interioridade rica e fecunda, que lhe é concedida nos sacramentos do Baptismo e da Confirmação, uma interioridade que o estabelece num relacionamento objectivo e original de filiação em relação a Deus.
Eis a nossa grande dignidade: a de não ser apenas imagem, mas filhos de Deus. Trata-se de um convite a viver esta nossa filiação, a estarmos cada vez mais conscientes de que somos filhos adoptivos na grande família de Deus. É um convite a transformar este dom objectivo numa realidade subjectiva, determinante para o nosso pensar, para o nosso agir, para o nosso ser. Deus considera-nos seus filhos, tendo-nos elevado a uma tal dignidade, mesmo se não é igual, à do próprio Jesus, o único Filho em sentido pleno. Nele é-nos dada, ou restituída, a condição filial e a liberdade confiante em relação ao Pai.
Assim descobrimos que para o cristão o Espírito já não é apenas o "Espírito de Deus", como se diz normalmente no Antigo Testamento e se continua a repetir na linguagem cristã (cf. Gn 41,38 Ex 31,3 1Co 2,11 1Co 2,12 Ph 3,3 etc.). E também não é apenas um "Espírito Santo" entendido em sentido genérico, segundo o modo de expressar-se do Antigo Testamento (cf. Is 63,10-11 Ps 51,13), e do próprio Judaísmo nos seu escritos (Qunram, rabinismo).
De facto, pertence à especificidade da fé cristã a confissão de uma original partilha deste Espírito por parte do Senhor ressuscitado, o qual se tornou Ele mesmo "Espírito que dá vida" (1Co 15,45). Precisamente por isso São Paulo fala directamente do "Espírito de Cristo" (Rm 8,9), do "Espírito do Filho" (Ga 4,6) ou do "Espírito de Jesus Cristo" (Ph 1,19). É como se quisesse dizer que não só Deus Pai é visível no Filho (cf. Jn 14,9), mas que também o Espírito de Deus se expressa na vida e nas acções do Senhor crucificado e ressuscitado!
Paulo ensina-nos também outra coisa importante: ele diz que não existe verdadeira oração sem a presença do Espírito em nós. De facto, escreve: "O Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois não sabemos o que havemos de pedir como é verdade que não sabemos como falar com Deus! ; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. E aquele que examina os corações conhece as intenções do Espírito, porque é de acordo com Deus que o Espírito intercede pelos santos" (Rm 8,26-27). É como dizer que o Espírito Santo, isto é, o Espírito do Pai e do Filho, é como a alma da nossa alma, a parte mais secreta do nosso ser, de onde se eleva incessantemente a Deus um dístico de oração, da qual nem sequer podemos esclarecer as palavras.
De facto, o Espírito sempre activo em nós, supre às nossas carências e oferece ao Pai a nossa adoração, juntamente com as nossas aspirações mais profundas. Naturalmente isto exige um nível de maior comunhão vital com o Espírito. É um convite a ser cada vez mais sensíveis, mais atentos a esta presença do Espírito em nós, a transformá-la em oração, a ouvir esta presença e a aprender assim a rezar, a falar com o Pai como filhos no Espírito Santo.
Há também outro aspecto típico do Espírito que nos foi ensinado por São Paulo: é a sua ligação com o amor. De facto, São Paulo escreve: "A esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rm 5,5). Na minha Carta encíclica "Deus caritas est" citei uma frase muito eloquente de Santo Agostinho: "Se vês a caridade, vês a Trindade" (), e prossegui explicando: "O Espírito é aquela força que harmoniza seus corações [dos crentes] com o coração de Cristo e leva-os a amar os irmãos como Ele os amou" (ibid.). O Espírito insere-nos no próprio ritmo da vida divina, que é vida de amor, fazendo-nos pessoalmente partícipes dos relacionamentos existentes entre o Pai e o Filho. Não é sem significado que Paulo, quando elenca as várias componentes da frutificação do Espírito, coloque em primeiro lugar o amor: "O fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, etc." (cf. Ga 5,22).
E dado que por definição o amor une, isto significa antes de tudo que o Espírito é criador de comunhão no âmbito da comunidade cristã, como dizemos no início da Santa Missa com uma expressão paulina: "... a comunhão do Espírito Santo [ou seja, a que é realizada por ele] esteja com todos vós!" (2Co 13,13).Mas, por outro lado, é também verdade que o Espírito nos estimula a estabelecer relacionamentos de caridade com todos os homens. Dado que, quando amamos damos espaço ao Espírito, permitimos que se expresse em plenitude. Compreende-se assim por que Paulo coloca na mesma página da Carta aos Romanos as duas exortações: "deixai-vos inflamar pelo Espírito" e "não pagueis a ninguém o mal com o mal" (Rm 12,11 Rm 12,17).
Por fim, o Espírito segundo São Paulo é um penhor generoso que nos é dado pelo próprio Deus como antecipação e ao mesmo tempo como garantia da nossa herança futura (cf. 2Co 1,22 2Co 5,5 Ep 1,13-14). Aprendemos assim de Paulo que a acção do Espírito orienta a nossa vida para os grandes valores do amor, da alegria, da comunhão e da esperança. Compete a nós fazer deles experiência quotidiana acompanhadas pelas sugestões interiores do Espírito, ajudados no discernimento pela orientação iluminadora do Apóstolo.
Saudações
Aos peregrinos de língua portuguesa, especialmente aos grupos vindos de Portugal e do Brasil, uma saudação fraterna em Cristo Senhor! Por Ele, recebemos o Espírito que nos faz filhos de Deus e nos dá a ousadia e a felicidade de Lhe chamar: "Pai!". Sobre cada um de vós, nos vários lugares e nas horas mais diversas da vida, vela um Pai. Em seu nome, a todos abençoo.
Saúdo os peregrinos e visitantes de língua alemã, de modo especial a peregrinação do Principado de Liechtenstein, acompanhados pelo Arcebispo, D.Wolfgang Haas. A riqueza e a profundidade da vida cristã, da qual nos fala o Apóstolo Paulo, nos possa ajudar a crescer, com a força do Espírito Santo, na fé e no amor a Deus. Desejo a todos vós uma agradável estadia na Cidade Eterna!
Dou as boas-vindas aos peregrinos de língua inglesa presentes hoje aqui, incluindo os membros das "World Union of Catholic Women's Organizations" e os membros da "Jesus Youth International" da Índia. Fazei com que a vossa visita a Roma seja um tempo de júbilo e de enriquecimento espiritual. Invoco sobre todos vós a abundância das Bênçãos divinas.
Saúdo cordialmente todos os peregrinos polacos. Saúdo os jovens de Lednica acompanhados pelo Padre Jan Gora. Abençoo os vossos preparativos para o encontro dos jovens do próximo ano em honra de São Jacinto, padroeiro das missões. No espírito de São Paulo Apóstolo, invoco sobre todos os presentes, os frutos abundantes do Espírito: amor, paz, alegria e esperança. Louvado seja Jesus Cristo.
Por fim, a minha saudação dirige-se aos jovens, aos doentes, e aos recém-casados.Celebramos hoje a memória do bispo Santo Alberto Magno, que se esforçou continuamente por estabelecer a paz entre as populações do seu tempo. O seu exemplo seja estímulo para vós, queridos jovens, para serdes realizadores de justiça e artífices de reconciliação. Seja para vós, queridos doentes, encorajamento para ter confiança no Senhor, que nunca nos abandona no momento da prova. E para vós, recém-casados, sirva de estímulo para encontrar no Evangelho a alegria de acolher e servir generosamente a vida, dom incomensurável de Deus.
Quarta-feira, 22 de Novembro de 2006 Queridos irmãos e irmãs!
Completamos hoje os nossos encontros com o apóstolo Paulo, dedicando-lhe uma última reflexão. De facto, não podemos despedir-nos dele, sem considerar uma das componentes decisivas da sua actividade e um dos temas mais importantes do seu pensamento: a realidade da Igreja. Devemos antes de tudo constatar que o seu primeiro contacto com a pessoa de Jesus se realiza através do testemunho da comunidade cristã de Jerusalém. Foi um contacto conturbado. Tendo conhecido o novo grupo de crentes, ele tornou-se imediatamente um seu orgulhoso perseguidor. Ele mesmo o reconhece nas suas três Cartas: "Persegui a Igreja de Deus", escreve (1Co 15,9 Ga 1,13 Ph 3,6), quase como a apresentar este seu comportamento como o pior dos crimes.
A história mostra-nos que se alcança normalmente Jesus através da Igreja! Num certo sentido, isto verificou-se, dizíamos, também para Paulo, o qual encontrou a Igreja antes de encontrar Jesus.
Mas este contacto, no seu caso, foi contraproducente, não causou a adesão, mas uma violenta repulsa. Para Paulo, a adesão à Igreja foi propiciada por uma intervenção directa de Cristo, o qual, tendo-se-lhe revelado no caminho de Damasco, se identificou com a Igreja e lhe fez compreender que perseguir a Igreja era perseguir o Senhor. De facto, o Ressuscitado disse a Paulo, o perseguidor da Igreja: "Saulo, Saulo, porque me persegues?" (Ac 9,4). Perseguindo a Igreja, perseguia Cristo. Então Paulo converteu-se, ao mesmo tempo, a Cristo e à Igreja. Disto compreende-se depois porque a Igreja tenha estado tão presente nos pensamentos, no coração e na actividade de Paulo. Em primeiro lugar, porque ele fundou literalmente muitas Igrejas nas várias cidades onde foi para evangelizar. Quando fala da sua "solicitude por todas as Igrejas" (2Co 11,28), ele pensa nas várias comunidades cristãs suscitadas de cada vez na Galácia, na Iónia, na Macedónia e na Acaia. Algumas daquelas Igrejas também lhe deram preocupações e desgostos, como aconteceu por exemplo nas Igrejas da Galácia, que ele viu seguir "outro Evangelho" (Ga 1,6), ao que se opôs com firme determinação. Contudo ele sentia-se ligado às Comunidades por ele fundadas de maneira não fria nem burocrática, mas intensa e apaixonada. Assim, por exemplo, define os Filipenses "meus caríssimos e saudosos irmãos, minha coroa e alegria" (Ph 4,1). Outras vezes compara as várias Comunidades com uma carta de apresentação única no seu género: "A nossa carta sois vós, uma carta escrita nos nossos corações, conhecida e lida por todos os homens" (2Co 3,2). Outras vezes ainda mostra em relação a eles um verdadeiro sentimento não só de paternidade mas até de maternidade, como quando se dirige aos seus destinatários interpelando-os como "Meus filhos, por quem sinto outra vez as dores de parto, até que Cristo se forme entre vós!" (Ga 4,19 cf. também 1Co 4,14-15 1Th 2,7-8).
Nas suas Cartas Paulo ilustra-nos a sua doutrina sobre a Igreja como tal. Portanto, é muito conhecida a sua original definição da Igreja como "corpo de Cristo", que não encontramos noutros autores cristãos do I século (cf. 1Co 12,27 Ep 4,12 Ep 5,30 Col 1,24). A raiz mais profunda desta surpreendente designação da Igreja encontrámo-la no Sacramento do corpo de Cristo. Diz São Paulo: "Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo" (1Co 10,17). Na mesma Eucaristia Cristo dá-nos o seu Corpo e faz-nos seu Corpo. Neste sentido São Paulo diz aos Gálatas: "todos sois um em Cristo" (Ga 3,28). Com tudo isto Paulo faz-nos compreender que existe não só uma pertença da Igreja a Cristo, mas também uma certa forma de equiparação e de identificação da Igreja com o próprio Cristo. Portanto, é daqui que deriva a grandeza e a nobreza da Igreja, ou seja, de todos nós que a ela pertencemos por sermos membros de Cristo, quase uma extensão da sua presença pessoal no mundo. E daqui se origina, naturalmente, o nosso dever de viver realmente em conformidade com Cristo. Daqui derivam também as exortações de Paulo a propósito dos vários carismas que animam e estruturam a comunidade cristã. Todos eles reconduzem a uma única fonte, que é o Espírito do Pai e do Filho, sabendo bem que na Igreja ninguém está desprovido dele, porque, como escreve o Apóstolo, "a cada um é dada a manifestação do Espírito, para proveito comum" (1Co 12,7). Mas é importante que todos os carismas cooperem juntos na edificação da comunidade e não se tornem ao contrário motivo de dilaceração. A este propósito, Paulo pergunta rectoricamente: "Estará Cristo dividido?" (1Co 1,13). Ele sabe bem e ensina-nos que é necessário "manter a unidade do Espírito, mediante o vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, assim como a vossa vocação vos chamou a uma só esperança" (Ep 4,3-4).
Sem dúvida, realçar a exigência da unidade não significa afirmar que se deva uniformizar ou nivelar a vida eclesial segundo um único modo de agir. Noutro texto Paulo ensina a "não apagar o Espírito" (1Th 5,19), isto é, a dar generosamente espaço ao dinamismo imprevisível das manifestações carismáticas do Espírito, o qual é fonte de energia e de vitalidade sempre nova. Mas se há um critério do qual Paulo não prescinde é a mútua edificação: "que tudo se faça de modo a edificar" (1Co 14,26). Tudo deve concorrer para construir ordenadamente o tecido eclesial, não só sem estagnação, mas também sem fugas ou excepções. Depois, há outra Carta paulina que chega a apresentar a Igreja como esposa de Cristo (cf. Ep 5,21-33). Com isto retoma-se uma antiga metáfora profética, que fazia do povo de Israel a esposa do Deus da aliança (cf. Os 2,4 Os 2,21 Is 54,5-8): com isto pretende-se dizer quanto sejam íntimas as relações entre Cristo e a sua Igreja, quer no sentido de que ela é objecto do amor mais terno da parte do seu Senhor, quer também no sentido de que o amor deve ser recíproco e que, por conseguinte também nós, como membros da Igreja, devemos demonstrar fidelidade apaixonada em relação a Ele.
Definitivamente, está em jogo a relação de comunhão: a vertical entre Jesus Cristo e todos nós, e também a horizontal entre todos os que se distinguem no mundo pelo facto de "invocar o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo" (1Co 1,2). Esta é a nossa definição: nós pertencemos àqueles que invocam o nome do Senhor Jesus Cristo. Portanto compreende-se bem quanto seja desejável que se realize o que o próprio Paulo deseja ao escrever aos Coríntios: "Mas se todos começarem a profetizar e entrar ali um descrente qualquer ou simples ouvinte, há-de sentir-se tocado por todos, julgado por todos; os segredos do seu coração serão desvendados e, prostrando-se com o rosto por terra, adorará a Deus, proclamando que Deus está realmente no meio de vós" (1Co 24-25). Assim deveriam ser os nossos encontros litúrgicos. Um não cristão que entra numa assembleia nossa, no final deveria poder dizer: "Verdadeiramente Deus está convosco". Peçamos ao Senhor que sejamos assim, em comunhão com Cristo e em comunhão entre nós.
O pesar de Sua Santidade pelo assassínio de Pierre Gemayel
Foi com profunda dor que tomei conhecimento da notícia do assassínio do Deputado Pierre Gemayel, Ministro da Indústria do Governo Libanês. Ao condenar firmemente este brutal atentado, garanto a minha oração e a minha proximidade espiritual à família em luto e ao amado povo libanês. Face às forças obscuras que procuram destruir o País, convido todos os Libaneses a não se deixarem vencer pelo ódio mas a consolidar a unidade nacional, a justiça e a reconciliação, e a trabalhar juntos para construir um futuro de paz. Por fim, convido os Responsáveis dos Países que se preocupam pelo destino daquela Regiãoacontribuir para uma solução global e negociada das diversas situações de injustiça que há demasiados anos a marcam.
Quarta-feira, 6 de Dezembro 2006 Saudação aos fiéis das Dioceses do Lácio
com os seus Bispos por ocasião da visita "ad Limina"
Queridos irmãos e irmãs!
Sinto-me feliz por vos receber nesta Basílica e dirigir a cada um de vós as minhas cordiais boas-vindas. Saúdo antes de tudo os fiéis das Dioceses do Lácio, que vieram aqui com os seus Bispos por ocasião da Visita ad limina Apostolorum. Queridos amigos, encorajo-vos a aprofundar cada vez mais a vossa vida de fé, tendo bem presente as orientações emersas do recente encontro da Igreja Italiana em Verona. Uma corajosa acção evangelizadora, temos a certeza, suscitará o desejado renovamento do compromisso dos católicos na sociedade, também no Lácio. A tarefa primária da evangelização é indicar em Cristo Jesus o Salvador de cada homem. Não vos canseis de vos confiar a Ele e de o anunciar com a vossa vida em família e em cada ambiente. É isto que os homens, hoje também, esperam da Igreja, dos cristãos.
Depois, saúdo-vos a vós, fiéis do Decanato de Busto Arsizio e, ao agradecer-vos pela vossa visita, desejo que cada um de vós viva este tempo do Advento como ocasião propícia para fortalecer a fé e a adesão ao Evangelho. Além disso, o meu pensamento dirige-se a vós, representantes da paróquia da Imaculada, em Terzigno e convido-vos, na escola da Virgem Santa, vossa celeste padroeira, a amar Deus acima de todas as coisas, sempre disponíveis e prontos para cumprir a sua vontade. Por fim, saúdo-vos a vós, estudantes das escolas Pias, de Frascati e garanto-vos a minha oração para que o Redentor infunda nos vossos corações a verdadeira alegria e vos cumule dos seus dons. A todos abençoo com afecto.
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Viagem Apostólica à Turquia
Amados irmãos e irmãs
Como já é tradição depois de cada Viagem Apostólica, durante esta Audiência geral gostaria de percorrer de novo as várias etapas da peregrinação que realizei à Turquia, de terça-feira a sexta-feira da semana passada. Uma visita que, como sabeis, se apresentava não fácil sob diversos aspectos, mas que Deus acompanhou desde o início e que assim pôde realizar-se felizmente.
Portanto, como eu tinha pedido para a preparar e acompanhar com a oração, agora peço-vos que vos unais a mim na acção de graças ao Senhor pela sua realização e pela sua feliz conclusão.
Confio-lhe os frutos que dela espero que possam brotar, tanto no que se refere aos relacionamentos com os nossos irmãos ortodoxos, como ao diálogo com os muçulmanos. Em primeiro lugar, sinto o dever de renovar a cordial expressão do meu reconhecimento ao Presidente da República, ao Primeiro-Ministro e às outras Autoridades, que me receberam com tanta cortesia e garantiram as condições necessárias para que tudo pudesse realizar-se do melhor modo.
Além disso, agradeço fraternalmente aos Bispos da Igreja católica na Turquia, com os seus colaboradores, tudo o que fizeram. Dirijo um agradecimento particular ao Patriarca Ecuménico Bartolomeu I, que me recebeu na sua casa, ao Patriarca Arménio Mesrob II, ao Metropolita Sírio-Ortodoxo Mor Filüksinos e às outras Autoridades religiosas. Ao longo de toda a viagem, senti-me particularmente sustentado pelos meus venerados Predecessores, os Servos de Deus Paulo VI e João Paulo II, que realizaram uma visita memorável à Turquia, e acima de tudo pelo Beato João XXIII, que foi Representante pontifício naquele nobre país, de 1935 a 1944, deixando ali uma recordação rica de carinho e devoção.
Inspirando-me na visão que o Concílio Vaticano II apresenta da Igreja (cf. Constituição Lumen gentium LG 14-16), poderia dizer que também as viagens pastorais do Papa contribuem para realizar a sua missão, que se desenvolve "em círculos concêntricos". No círculo mais interno, o Sucessor de Pedro confirma na fé os católicos, no intermédio encontra-se com os outros cristãos e no mais externo dirige-se aos não-cristãos e a toda a humanidade. O primeiro dia da minha Visita à Turquia realizou-se no âmbito deste terceiro "círculo", o mais amplo: encontrei-me com o Primeiro-Ministro, com o Presidente da República e com o Presidente para os Assuntos Religiosos, dirigindo a este último o meu primeiro discurso; prestei homenagem ao Mausoléu do "pai da pátria" Mustafá Kemal Atatürk; e em seguida, tive a possibilidade de falar ao Corpo Diplomático na Nunciatura Apostólica de Ankara.
Esta intensa série de encontros constituiu uma parte importante da Visita, especialmente em consideração do facto de que a Turquia é um país de vastíssima maioria muçulmana, mas regulado por uma Constituição que afirma a laicidade do Estado. Portanto, é um país emblemático, em referência ao grande desafio que hoje se enfrenta a nível mundial: ou seja, por um lado, é necessário redescobrir a realidade de Deus e a relevância pública da fé religiosa e, por outro, assegurar que a expressão de tal fé seja livre, isenta de degenerações fundamentalistas, capaz de rejeitar firmemente todas as formas de violência.
Portanto, tive a ocasião propícia de renovar os meus sentimentos de estima em relação aos muçulmanos e à civilização islâmica. Ao mesmo tempo, pude insistir sobre a importância de que cristãos e muçulmanos se comprometam juntos em favor do homem, da vida, da paz e da justiça, confirmando que a distinção entre o sector civil e o religioso constitui um valor e que o Estado deve garantir ao cidadão e às comunidades religiosas, a efectiva liberdade de culto.
No âmbito do diálogo inter-religioso, a Providência Divina concedeu-me realizar, quase no final da minha viagem, um gesto inicialmente não previsto, e que se revelou muito significativo: a visita à célebre Mesquita Azul de Istambul. Detendo-me alguns minutos em recolhimento naquele lugar de oração, dirigi-me ao único Senhor do céu e da terra, Pai misericordioso de toda a humanidade. Possam todos os crentes reconhecer-se como suas criaturas e dar testemunho de verdadeira fraternidade!
O segundo dia levou-me a Éfeso e, portanto, encontrei-me rapidamente no "círculo" mais interno da viagem, em contacto directo com a Comunidade católica. Com efeito, em Éfeso, numa agradável localidade chamada"Colina do rouxinol"quedápara o mar Egeu, encontra-se o Santuário da Casa de Maria. Trata-se de uma antiga pequena capela que surgiu em redor de um casebre que, segundo uma antiquíssima tradição, o Apóstolo João mandou construir para a Virgem Maria, depois de a ter levado consigo para Éfeso.
Foi o próprio Jesus que confiou um ao outro quando, antes de morrer na cruz, tinha dito a Maria: "Mulher, eis o teu filho!", e a João: "Eis a tua mãe!" (Jn 19,26-27). As pesquisas arqueológicas demonstraram que aquele lugar é, desde tempos imemoráveis, um lugar de culto mariano, querido também aos muçulmanos, que habitualmente vão ali para para venerar Aquela a quem chamam "Meryem Ana", Mãe Maria. No jardim adjacente ao Santuário celebrei a Santa Missa para um grupo de fiéis, vindos da vizinha cidade de Izmir e de outras partes da Turquia e também do estrangeiro. Na "Casa de Maria" sentimo-nos verdadeiramente "em casa", e naquele clima de paz rezámos pela paz na Terra Santa e no mundo inteiro. Ali desejei recordar o Pe. Andrea Santoro, sacerdote romano, testemunha em terra turca do Evangelho com o seu sangue.
O "círculo" intermédio, o das relações ecuménicas, ocupou a parte central desta viagem, ocorrida por ocasião da festa de Santo André, no dia 30 de Novembro. Esta circunstância ofereceu o contexto ideal para consolidar os relacionamentos fraternos entre o Bispo de Roma, Sucessor de Pedro, e o Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Igreja fundada segundo a tradição pelo Apóstolo Santo André, irmão de Simão Pedro.
Seguindo os passos de Paulo VI, que se encontrou com o Patriarca Atenágoras, e de João Paulo II, que foi recebido pelo sucessor de Atenágoras, Dimitrios I, renovei com Sua Santidade Bartolomeu I este gesto de grande valor simbólico, para confirmar o compromisso recíproco de continuar no caminho rumo ao restabelecimento da plena comunhão entre católicos e ortodoxos. Para sancionar este firme propósito, subscrevi juntamente com o Patriarca Ecuménico uma Declaração Conjunta, que constitui uma ulterior etapa neste caminho.
Foi particularmente significativo que este acto se tenha realizado no final da solene Liturgia da festa de Santo André, à qual assisti e que se concluiu com a dupla Bênção concedida pelo Bispo de Roma e pelo Patriarca de Constantinopla, sucessores respectivamente dos Apóstolos Pedro e André. De tal modo, manifestámos que na base de todos os esforços ecuménicos há sempre a oração e a invocação perseverante do Espírito Santo. Ainda neste âmbito, em Istambul tive a alegria de visitar o Patriarca da Igreja Arménia Apostólica, Sua Beatitude Mesrob II, assim como de me encontrar com o Metropolita Sírio-Ortodoxo. Além disso, apraz-me recordar neste contexto o diálogo que tive com o Grão-Rabino da Turquia.
A minha visita terminou, precisamente antes da partida para Roma, voltando ao "círculo" mais interno, ou seja, encontrando-me com a Comunidade católica presente em todos os seus componentes na Catedral latina do Espírito Santo, em Istambul. Assistiram à esta Santa Missa também o Patriarca Ecuménico, o Patriarca Arménio, o Metropolita Sírio-Ortodoxo e os Representantes das Igrejas protestantes. Em síntese, estavam reunidos em oração todos os cristãos, na diversidade das tradições, dos ritos e das línguas. Confortados pela Palavra de Cristo, que promete aos fiéis "rios de água viva" (Jn 7,38), e pela imagem dos muitos membros unidos no único corpo (cf. 1Co 12,12-13), vivemos a experiência de um renovado Pentecostes.
Queridos irmãos e irmãs, regressei aqui ao Vaticano, com a alma repleta de gratidão a Deus e com sentimentos de sincero afecto e estima pelos habitantes da amada nação turca, pelos quais me senti acolhido e compreendido. A simpatia e a cordialidade de que me circundaram, apesar das dificuldades inevitáveis que a minha visita causou ao normal cumprimento das suas actividades quotidianas, permanecem em mim como uma recordação viva que me impele à oração. Deus omnipotente e misericordioso ajude o povo turco, os seus governantes e os representantes das várias religiões, a construírem juntos um futuro de paz, a fim de que a Turquia possa ser uma "ponte" de amizade e de colaboração fraterna entre o Ocidente e o Oriente. Além disso, oremos também para que, por intercessão de Maria Santíssima, o Espírito Santo torne fecunda esta viagem apostólica, e anime no mundo inteiro a missão da Igreja, instituída por Cristo para anunciar a todos os povos o Evangelho da verdade, da paz e do amor.
Quarta-feira, 13 de Dezembro 2006
Saudação aos fiéis das Dioceses da Calábria
e seus Bispos em visita "ad Limina"
Queridos irmãos e irmãs!
Agradeço-vos a vossa presença e sinto-me feliz por dirigir a cada um de vós as minhas cordiais boas-vindas. Saúdo antes de tudo os fiéis das Dioceses da Calábria, aqui presentes com os seus Bispos por ocasião da visita ad limina Apostolorum. Queridos amigos, a Igreja que vive na Calábria e aqui representada nas suas componentes vivas Bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e fiéis leigos desempenha um papel fundamental que deve continuar a desenvolver-se na sociedade calabresa. Refiro-me antes de tudo à sua missão evangelizadora, urgente como nunca também neste nosso tempo para enfrentar os actuais desafios culturais, sociais e religiosos. Por conseguinte, não vos canseis de haurir com coragem do Evangelho a luz e a força para promover um autêntico renascimento moral, social e económico da vossa Região. Sede testemunhas jubilosas de Cristo e incansáveis construtores do seu Reino de justiça e de amor. Por fim, expresso desde já, sentida gratidão à Calábria pelo dom da árvore de Natal, que foi colocada na Praça de São Pedro precisamente hoje. Vi-a da minha janela.
Saúdo também os numerosos estudantes e em particular os provenientes da Arquidiocese de Trani-Barletta-Biscaglie. Neste tempo do Advento, Maria acompanha-nos rumo ao encontro com Jesus, no mistério do seu Natal. A ela, que venerámos ontem com o título de Virgem de Guadalupe, Padroeira do Continente americano, confio todos vós, queridos jovens. Que o convite que ela fez em Caná aos servos "Fazei o que Ele vos disser" (Jn 2,5) vos estimule a abrir o coração à palavra de Cristo e a fazê-la frutificar na vossa vida. Abençoo-vos a todos com afecto.
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Queridos irmãos e irmãs!
Depois de ter falado longamente sobre o grande apóstolo Paulo, hoje tomamos em consideração os seus dois colaboradores mais estreitos: Timóteo e Tito. São dirigidas a eles três Cartas tradicionalmente atribuídas a Paulo, das quais duas são destinadas a Timóteo e uma a Tito.
Timóteo é um nome grego e significa "que honra Deus". Enquanto Lucas nos Actos o menciona seis vezes, Paulo nas suas cartas faz referência a ele dezassete vezes (além disso encontrámo-lo uma vez na Carta aos Hebreus). Deduz-se que aos olhos de Paulo ele gozava de grande consideração, mesmo se Lucas não considera que deva narrar tudo o que lhe diz respeito. De facto, o Apóstolo encarregou-o de missões importantes e viu nele quase um alter ego, como resulta do grande elogio que dele traça na Carta aos Filipenses: "É que não tenho ninguém com igual disposição (isópsychon), que tão sinceramente se preocupe pela vossa vida" (Ph 2,20).
Timóteo tinha nascido em Listra (cerca de 200 km a nordeste de Tarso) de mãe judia e de pai pagão (cf. Ac 16,1). O facto que a mãe tivesse contraído um matrimónio misto e não tivesse feito circuncidar o filho deixa pensar que Timóteo tenha crescido numa família não estrictamente observante, mesmo se foi dito que conhecia as Escrituras desde a infância (cf. 2Tm 3,15). Foi-nos transmitido o nome da mãe, Eunice, e também o da avó, Loide (cf. 2Tm 1,5). Quando Paulo passou por Listra no início da segunda viagem missionária, escolheu Timóteo como companheiro, porque "era muito estimado pelos irmãos de Listra e de Icóneo" (Ac 16,2), mas fê-lo circuncidar "por causa dos judeus existentes naquelas regiões" (Ac 16,3).
Juntamente com Paulo e Silas, Timóteo atravessou a Ásia Menor até Tróade, de onde passou à Macedónia. Além disso, estamos informados de que em Filipos, onde Paulo e Silas foram envolvidos na acusação de espalhar desordens públicas e foram aprisionados por se terem oposto à exploração por parte de alguns indivíduos sem escrúpulos de uma jovem mulher como maga (cf. Ac 16,16-40), Timóteo foi poupado. Depois, quando Paulo foi obrigado a prosseguir até Atenas, Timóteo alcançou-o naquela cidade e ali foi enviado à jovem Igreja de Tessalónica para ter notícias e para a confirmar na fé (cf. 1Th 3,1-2). Foi ter depois com o Apóstolo em Corinto, levando-lhe boas notícias sobre os Tessalonicenses e colaborando com ele na evangelização daquela cidade (cf. 2Co 1,19).
Reencontramos Timóteo em Éfeso durante a terceira viagem missionária de Paulo. Dali provavelmente o Apóstolo escreveu a Filemon e aos Filipenses, e nas duas cartas a Timóteo resulta co-autor (cf. Phm 1,1 Ph 1,1). De Éfeso, Paulo enviou-o à Macedónia juntamente com um certo Erasto (cf. Ac 19,22) e depois também a Corinto com o cargo de levar uma carta, na qual recomendava aos Coríntios que o acolhessem calorosamente (cf. 1Co 4,17 1Co 16,10-11).
Encontrámo-lo ainda como co-autor da Segunda Carta aos Coríntos, e quando de Corinto Paulo escreve a Carta aos Romanos une nela, juntamente com as dos demais, as saudações de Timóteo (cf. Rm 16,21). De Corinto o discípulo partiu de novo para alcançar Tróade na margem asiática do Mar Egeu e ali aguardar o Apóstolo que ia para Jerusalém na conclusão da terceira viagem missionária (cf. Ac 20,4). A partir daquele momento sobre a biografia de Timóteo as fontes antigas dão-nos apenas uma referência na Carta aos Hebreus, na qual se lê: "Sabei que o nosso irmão Timóteo foi posto em liberdade. Se vier depressa, irei ver-vos com Ele" (He 13,23). Em conclusão, podemos dizer que a figura de Timóteo sobressai como a de um pastor de grande relevo. Segundo a posterior História eclesiástica de Eusébio, Timóteo foi o primeiro Bispo de Éfeso (cf. 3, 4). Algumas das suas relíquias encontram-se desde 1239 na Itália na Catedral de Termoli no Molise, provenientes de Constantinopla.
Depois, quanto à figura de Tito, cujo nome é de origem latina, sabemos que era grego de nascença, isto é, pagão (cf. Ga 2,3). Paulo levou-o consigo a Jerusalém para o chamado Concílio apostólico, no qual foi solenemente aceite a pregação aos pagãos do Evangelho, que libertava dos condicionamentos da lei moisaica. Na Carta a ele dirigida, o Apóstolo elogia-o definindo-o "meu verdadeiro filho na fé comum" (Tt 1,4). Depois da partida de Timóteo de Corinto, Paulo enviou Tito a essa cidade com a tarefa de reconduzir aquela indócil comunidade à obediência. Tito restabeleceu a paz entre a Igreja de Corinto e o Apóstolo, que lhe escreveu nestes termos: "Deus, porém, que consola os humildes, consolou-nos com a chegada de Tito, e não só com a sua chegada mas também com a consolação que ele tinha recebido de vós.
Contou-nos ele o vosso vivo desejo, a vossa aflição, a vossa solicitude por mim... Foi por isso que ficámos consolados" (2Co 7,6-7 2Co 7,13). Tito foi enviado de novo a Corinto por Paulo que o qualifica como "meu companheiro e colaborador" (2Co 8,23) para ali organizar a conclusão das colectas em favor dos cristãos de Jerusalém (cf. 2Co 8,6). Ulteriores notícias provenientes das Cartas Pastorais qualificam-no como Bispo de Creta (cf. Tt 1,5), de onde, a convite de Paulo, alcançou o Apóstolo em Nicópoles no Éfiro (cf. Tt 3,12). Não possuímos outras informações sobre os deslocamentos seguintes de Tito e sobre a sua morte.
Para concluir, se consideramos Timóteo e Tito unitariamente nas suas duas figuras, apercebemo-nos de alguns dados significativos. O mais importante é que Paulo se serviu de colaboradores para o desempenho das suas missões. Ele permanece certamente o Apóstolo por antonomásia, fundador e pastor de muitas Igrejas. Contudo é evidente que ele não fazia tudo sozinho, mas apoiava-se em pessoas de confiança que partilhavam as suas fadigas e as suas responsabilidades. Outra observação refere-se à disponibilidade destes colaboradores. As fontes relativas a Timóteo e a Tito põem bem em realce a sua disponibilidade para assumir vários cargos, que muitas vezes consistiam em representar Paulo também em ocasiões não fáceis.
Numa palavra, eles ensinam-nos a servir o Evangelho com generosidade, sabendo que isto obriga também a um serviço à própria Igreja. Por fim, aceitemos a recomendação que o apóstolo Paulo faz a Tito na carta a ele dirigida: "desejo que tu fales com firmeza destas coisas, para que os que acreditaram em Deus, se empenhem na prática de boas obras, pois isso é bom e útil para os homens" (Tt 3,8). Mediante o nosso compromisso concreto devemos e podemos descobrir a verdade destas palavras, e precisamente neste tempo de Advento sermos nós também ricos de obras boas e assim abrir as portas do mundo a Cristo, o nosso Salvador.
Quarta-feira, 20 de Dezembro 2006 Queridos irmãos e irmãs!
"O Senhor está próximo: vinde, adoremo-lo". Com esta invocação a liturgia convida-nos, nestes últimos dias do Advento, a aproximar-nos, quase em ponta de pés, da gruta de Belém, onde se realizou o acontecimento extraordinário, que mudou o curso da história: o nascimento do Redentor.
Na Noite de Natal deter-nos-emos, mais uma vez, diante do presépio, para contemplar estupefactos o "Verbo feito carne". Sentimentos de alegria e de gratidão, como todos os anos, renovar-se-ão no nosso coração ao ouvir as melodias do Natal, que cantam em tantas línguas o mesmo extraordinário prodígio. O Criador do universo veio por amor habitar entre os homens.
Na Carta aos Filipenses, São Paulo afirma que Cristo "que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus: no entanto, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo e tornando-se igual aos homens" (cf. Ph 2,6-7). Manifestou-se de forma humana, acrescenta o Apóstolo, rebaixando-se a si mesmo. No Santo Natal reviveremos a realização deste sublime mistério de graça e de misericórdia.
Diz ainda São Paulo: "Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o Seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se encontravam sob o domínio da Lei, a fim de recebermos a adopção de Filhos" (Ga 4,4-5). Na verdade, havia muitos séculos que o povo eleito aguardava o Messias, mas imaginava-o como um chefe poderoso e vitorioso que teria libertado da opressão dos estrangeiros.
Ao contrário, o Salvador nasceu no silêncio e na pobreza mais extrema. Veio como luz que ilumina cada homem observa o Evangelista "mas o mundo não o reconheceu" (Jn 1,8 Jn 1,11). O Apóstolo acrescenta: "Mas, a quantos o receberam, aos que nele crêem, deu-lhe o poder de se tornarem filhos de Deus" (ibid., 1, 12). A luz prometida iluminou os corações de quantos perseveraram na expectativa vigilante e laboriosa.
A liturgia do Advento exorta também a nós a sermos sóbrios e vigilantes, para não nos deixarmos sobrecarregar pelo pecado e pelas preocupações excessivas do mundo. De facto, é vigiando e rezando que poderemos reconhecer e acolher o esplendor do Natal de Cristo. São Máximo de Turim, Bispo dos séculos IV-V, numa das suas homilias, afirma: "O tempo adverte-nos que o Natal de Cristo Senhor está próximo.
O mundo com as suas angústias diz a iminência de algo que o renovará, e deseja com uma expectativa impaciente que o esplendor de um sol mais resplandecente ilumine as suas trevas... Esta expectativa da criação persuade-nos também a nós a esperar o nascimento de Cristo, novo Sol" (Disc. 61a, 1-3). Portanto, a mesma criação nos leva a descobrir e a reconhecer Aquele que há-de vir.
Mas a pergunta é: a humanidade do nosso tempo espera ainda um Salvador? Tem-se a impressão de que muitos consideram Deus fora dos seus interesses. Aparentemente não precisam d'Ele; vivem como se Ele não existisse e, ainda pior, como se fosse um "obstáculo" a superar para se realizarem a si mesmos. Também entre os crentes temos a certeza há quem se deixa atrair por quimeras aliciantes e distrair por doutrinas desviantes que propõem atalhos ilusórios para obter a felicidade.
Contudo, mesmo com as suas contradições, angústias e dramas, e talvez precisamente para eles, hoje a humanidade procura um caminho de renovação, de salvação, procura um Salvador e aguarda, por vezes inconscientemente, o advento do Salvador que renova o mundo e a nossa vida, o advento de Cristo, o único verdadeiro Redentor do homem e do homem todo. Sem dúvida, falsos profetas continuam a propor uma salvação a "baixo preço", que termina sempre por gerar violentas desilusões.
Precisamente a história dos últimos cinquenta anos demonstra esta busca de um Salvador a "baixo preço" e evidencia todas as desilusões a que elas deram origem. É tarefa dos cristãos difundir, com o testemunho da vida, a verdade do Natal, que Cristo traz a cada homem e mulher de boa vontade. Nascendo na pobreza do presépio, Jesus vem oferecer a todos aquela alegria e paz, as únicas que podem colmar a expectativa do ânimo humano.
Mas como devemos preparar-nos para abrir o coração ao Senhor que vem? A atitude espiritual da expectativa vigilante e orante permanece a característica fundamental do cristão neste tempo de Advento. É a atitude que distingue os protagonistas de então: Zacarias e Isabel, os pastores, os Magos, o povo simples e humilde. Sobretudo a expectativa de Maria e de José! Eles, mais do que outrém, viveram em primeira pessoa os afãs e a trepidação pelo Menino que devia nascer.
Não é difícil imaginar como transcorreram os últimos dias, na expectativa de abraçar o recém-nascido. A sua atitude seja a nossa, queridos irmãos e irmãs! A este propósito, ouvimos a exortação do já citado São Máximo, Bispo de Turim: "Enquanto estamos para acolher o Natal do Senhor, revistamo-nos com vestes nítidas, sem mancha. Falo da veste da alma, não da do corpo. Vistamo-nos não com vestes de seda, mas com obras santas! As vestes vistosas podem cobrir os membros mas não embelezam a consciência" (ibid.).
Nascendo entre nós, que o Menino Jesus não nos encontre distraídos ou comprometidos simplesmente a embelezar com iluminações as nossas casas. Ao contrário, preparemos na nossa alma e nas nossas famílias uma habitação digna onde Ele se sinta acolhido com fé e amor.
Ajudem-nos a Virgem e São José a viver o Mistério do Natal com renovada admiração e serenidade pacífica. Com estes sentimentos desejo formular os votos mais fervorosos para um santo e feliz Natal a todos vós, aqui presentes, e aos vossos familiares, com uma recordação particular para quantos estão em dificuldade ou sofrem no corpo e no espírito. Bom Natal a todos vós!
Saudações
Amados Irmãos e Irmãs
Saúdo com particular afeto os visitantes e ouvintes de língua portuguesa. Faço votos que esta vossa visita a Roma vos encoraje a participar ativamente da vida da Igreja, e vos convido a acolher, no próximo Natal, o Filho de Deus feito homem, que se fez pobre para que nos tornássemos ricos pela Sua pobreza. Que o Senhor abençoe vossas famílias e comunidades e, de modo especial, os que sofrem no corpo e no espírito. Feliz Natal e um Ano Novo repleto de alegrias!
Na alegria da próxima solenidade do Nascimento de Cristo saúdo todos os peregrinos dos países de língua alemã. Jesus Cristo vem ao mundo para que nos tornemos filhos de Deus. Preparemos ao Menino Divino uma morada de amor e de fé no nosso coração e na nossa família. Desejo a vós e aos vossos queridos um Santo Natal e a paz do Filho de Deus recém-nascido!
Desejo saudar por fim, os jovens, os doentes e os jovens casais. Queridos amigos, agradeço-vos a vossa participação neste encontro. Daqui a alguns dias será Natal e imagino que nas vossas casas estais a preparar o presépio, que constitui uma representação muito sugestiva da Natividade. Aupicio que um elemento tão importante, não só da nossa espiritualidade, mas também da nossa cultura e da arte, continue a ser um simples e eloquente modo para recordar Aquele que veio "habitar entre nós".
Quarta-feira, 27 de Dezembro 2006 Queridos irmãos e irmãs!
O encontro de hoje realiza-se no clima do Natal repleto de profunda alegria pelo nascimento do Salvador. Celebrámos há pouco, anteontem, este mistério, cujo eco se expande na liturgia de todos estes dias. É um mistério de luz que os homens de todas as épocas podem reviver na fé. Ressoam nos nossos corações as palavras do Evangelista João, do qual precisamente hoje celebramos a festa: "Et Verbum caro factum est E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco" (Jn 1,14).
Portanto, no Natal Deus veio habitar entre nós; veio por nós, para permanecer connosco. Uma pergunta atravessa estes dois mil anos de história cristã: "Mas por que o fez, por que se fez homem?".
Ajuda-nos a responder a esta pergunta o cântico que os anjos entoaram sobre a gruta de Belém: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado" (Lc 2,14). O cântico da noite de Natal, entoado no Glória, já faz parte da liturgia como os outros três cânticos do Novo Testamento, que se referem ao nascimento e à infância de Jesus: o Benedictur, o Magnificat e o Nunc dimittis.Enquanto estes últimos estão inseridos respectivamente nas Laudes matutinas, na oração da tarde das Vésperas, e na nocturna das Completas, o Glória encontrou a sua colocação precisamente na Santa Missa.
Às palavras dos anjos, desde o segundo século foram acrescentadas algumas aclamações: "Nós te louvamos, te bendizemos, te adoramos, te glorificamos, te damos graças pela tua imensa glória"; e mais tarde, outras invocações: "Senhor Deus, Cordeiro de Deus, Filho do Pai, que tiras o pecado do mundo...", até formular um suave hino de louvor que foi cantado pela primeira vez na Missa de Natal e depois em todos os dias de festa. Inserido no início da Celebração eucarística, o Glória ressalta a continuidade existente entre o nascimento e a morte de Cristo, entre o Natal e a Páscoa, aspectos inseparáveis do único e mesmo mistério de salvação.
O Evangelho narra que a multidão angélica cantava: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado". Os anjos anunciam aos pastores que o nascimento de Jesus "é" glória para Deus nas alturas; e "é" paz na terra aos homens do seu agrado.
Portanto, oportunamente é costume colocar sobre a gruta estas palavras angélicas como explicação do mistério do Natal, que se realizou no presépio. A palavra "glória" (doxa) indica o esplendor de Deus que suscita o louvor agradecido das criaturas. São Paulo dirá: "o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo" (2Co 4,6). "Paz" (eirene) sintetiza a plenitude dos dons messiânicos, isto é, a salvação que, como anota sempre o Apóstolo, se identifica com o próprio Cristo: "Com efeito, Ele é a nossa paz" (Ep 2,14). Por fim, encontra-se a referência aos "homens do seu agrado". "Seu agrado" (eudokia), na linguagem comum faz pensar na "boa vontade" dos homens, mas estas palavras indicam ao contrário o "querer bem" de Deus em relação aos homens, que não conhece limites. E eis então a mensagem do Natal: com o nascimento de Jesus, Deus manifestou a sua benevolência por todos.
Voltemos à pergunta: "Por que Deus se fez homem?". Santo Ireneu escreve: "O Verbo fez-se dispensador da glória do Pai para utilidade dos homens... Glória de Deus é o homem que vive vivens homo e a sua vida consiste na visão de Deus" (Adv. Haer. IV, 20, 5.7). A glória de Deus manifesta-se, portanto, na salvação do homem, que Deus tanto amou "que lhe entregou como afirma o evangelista João o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crer não pereça mas tenha a vida eterna" (Jn 3,16). Portanto, é o amor a razão derradeira da encarnação de Cristo. Em relação a isto é eloquente a reflexão do teólogo H. U. von Balthasar, o qual escreveu: Deus "não é, em primeiro lugar, poder absoluto, mas amor absoluto cuja soberania não se manifesta em ter para si o que pertence, mas no seu abandono" (Mysterium paschale I, 4). O Deus que contemplamos no presépio é Deus-Amor.
A este ponto o anúncio dos anjos ressoa para nós também como um convite: "seja" [dada] glória a Deus nas alturas, "seja" paz na terra aos homens do seu agrado. O único modo para glorificar a Deus e construir a paz no mundo consiste no humilde e confiante acolhimento do dom do Natal: o amor. O canto dos anjos então pode tornar-se uma oração a ser repetida com frequência, não só neste tempo de Natal. Um hino de louvor a Deus nas alturas e uma fervorosa invocação de paz na terra, que se traduza num compromisso concreto em construí-la com a nossa vida. É este o compromisso que o Natal nos confia.
Quarta-feira, 3 de Janeiro 2007 Queridos irmãos e irmãs!
Obrigado pelo vosso afecto. Desejo Bom Ano a todos vós! Esta primeira Audiência geral do novo ano ainda se realiza no clima de Natal, numa atmosfera que nos convida à alegria pelo nascimento do Redentor. Ao vir ao mundo, Jesus distribuiu com abundância entre os homens dons de bondade, de misericórdia e de amor. Quase interpretando os sentimentos dos homens de todos os tempos, o apóstolo João observa: "Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus" (1Jn 3,1). Quem se detém a meditar diante do Filho de Deus que jaz inerme no presépio não pode deixar de se sentir surpreendido por este acontecimento humanamente incrível; não pode não partilhar a admiração e o abandono humilde da Virgem Maria, que Deus escolheu como Mãe do Redentor precisamente pela sua humildade. No Menino de Belém cada homem descobre que é gratuitamente amado por Deus; na luz do Natal manifesta-se a cada um de nós a bondade infinita de Deus. Em Jesus Pai celeste inaugurou uma nova relação connosco; tornou-nos "filhos no mesmo Filho". É precisamente sobre esta realidade que, durante estes dias, São João nos convida a meditar com a riqueza e a profundidade da sua palavra, da qual ouvimos um trecho.
O Apóstolo predilecto do Senhor ressalta que nós "somos realmente" (1Jn 3,1) filhos: não somos apenas criaturas, mas filhos; deste modo Deus está próximo de nós; desta forma atrai-nos para si no momento da sua encarnação, no seu fazer-se um de nós. Por conseguinte pertencemos verdadeiramente à família que tem Deus como Pai, porque Jesus, o Filho Unigénito, veio armar a sua tenda no meio de nós, a tenda da sua carne, para reunir todos os povos numa única família, família de Deus, pertencente realmente ao Ser divino, unidos num só povo, numa só família. Veio para nos revelar o verdadeiro rosto do Pai. E se nós agora usamos a palavra de Deus, já não se trata de uma realidade conhecida apenas de longe. Nós conhecemos o rosto de Deus: é o do Filho, que veio para tornar mais próximas de nós, da terra, as realidades celestes. Anota São João: "É nisto que está o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou" (1Jn 4,10). No Natal ressoa no mundo inteiro o anúncio simples e perturbador: "Deus ama-nos".
"Nós amamos diz São João porque Ele nos amou primeiro" (1Jn 4,19). Este mistério está-nos confiado para que, experimentando o amor divino, vivamos propensos para as realidades do céu. E isto, digamos, é também a prática destes dias: viver realmente propensos para Deus, procurando antes de tudo o Reino e a sua justiça, na certeza de que o resto, tudo o mais nos será dado por acréscimo (cf. Mt 6,33). A crescer nesta consciência ajuda-nos o clima espiritual do tempo do Natal.
A alegria do Natal não nos faz esquecer o mistério do mal (mysterium iniquitatis), o poder das trevas que tenta obscurecer o esplendor da luz divina: e, infelizmente, conhecemos todos os dias este poder das trevas. No prólogo do seu Evangelho, várias vezes proclamado nestes dias, o evangelista João escreve: "A luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam" (Jn 1,5). É o drama da recusa de Cristo que, como no passado, se manifesta e se expressa, infelizmente, também hoje de tantas formas diversas. Talvez mais súbdulas e perigosas sejam as formas de recusa de Deus na era contemporânea: da total rejeição à indiferença, do ateísmo cientista à apresentação de um Jesus considerado modernizado e pós-modernizado. Um Jesus homem, limitado de modos diversos a um simples homem do seu tempo, privado da sua divindade; ou então um Jesus tão idealizado que parece a personagem de uma fábula.
Mas Jesus, o verdadeiro Jesus da história, é o verdadeiro Deus e verdadeiro Homem e não se cansa de propor o seu Evangelho a todos, sabendo que é "sinal de contradição para que sejam revelados os pensamentos de muitos corações", como profetizou o velho Simeão (cf. Lc 2,32-33).
Na realidade, só o Menino que jaz no presépio possui o verdadeiro segredo da vida. Por isso pede para ser acolhido, que se lhe conceda um espaço em nós, nos nossos corações, nas nossas casas, nas nossas cidades e nas nossas sociedades. Ressoam no coração e na mente as palavras do prólogo de João: "A quantos o receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus" (Jn 1,12). Procuremos estar entre quantos o recebem. Diante dele não se pode permanecer indiferente. Também nós, queridos amigos, devemos tomar continuamente posição.
Qual será então a nossa resposta? Com que atitude o acolhemos? Vêm em nossa ajuda a simplicidade dos pastores e a busca dos Magos que, através da estrela, perscrutam os sinais de Deus; servem-nos de exemplo a docilidade de Maria e a sábia prudência de José. Os mais de dois mil anos de história cristã estão cheios de exemplos de homens e mulheres, de jovens e adultos, de crianças e idosos que acreditaram no Mistério do Natal, abriram os braços ao Emanuel tornando-se com a sua vida faróis de luz e de esperança. O amor que Jesus, nascendo em Belém, trouxe ao mundo, liga a si quantos o acolhem numa relação duradoura de amizade e de fraternidade. São João da Cruz afirma: "Deus, ao dar-nos tudo, isto é, o seu Filho, n'Ele disse tudo. Fixa o olhar unicamente n'Ele... e encontrarás também mais de quanto pedes e desejas" (Subida ao monte Carmelo, Livro I, Ep. 22, 4-5).
Queridos irmãos e irmãs, no início deste novo ano reavivemos em nós o compromisso de abrir a Cristo a mente e o coração, manifestando-lhe sinceramente a vontade de viver como seus verdadeiros amigos. Assim tornar-nos-emos colaboradores do seu projecto de salvação e testemunhas daquela alegria que Ele nos doa para que a difundamos em abundância à nossa volta.
Ajude-nos Maria a abrir o coração ao Emanuel, que assumiu a nossa pobre e frágil carne para partilhar juntamente connosco o cansativo caminho da vida terrena. Contudo, em companhia de Jesus, neste caminho de alegria. Vamos juntamente com Jesus, caminhemos com Ele, e assim o ano novo será um ano feliz e bom.
Saudações
Saúdo os peregrinos e visitantes de língua inglesa, incluindo as peregrinações provenientes de Singapura e da América do Norte, de modo especial os seminaristas de Saint Meinrad School of Theology. Dou especiais boas-vindas ao grupo proveniente do Colégio Americano de Louvain, que vieram celebrar o 150º aniversário da sua fundação. Que a paz do Rei recém-nascido encha os vossos corações, fazendo de vós suas testemunhas no mundo, que Deus vos abençoe abundantemente ao longo de 2007.
Saúdo com alegria todos os peregrinos e visitantes de língua alemã. No seu Filho Deus deu-nos tudo. Percorramos juntamente com ele este ano deixando que a sua amizade e orientação guiem a nossa vida! Desejo a todos vós bom Ano Novo e boa permanência na cidade de Roma.
Na jubilosa atmosfera de Natal, saúdo cordialmente todos os Polacos aqui presentes. Com a minha oração abraço o Novo Ano, pedindo a Deus que seja um tempo de salvação para a Igreja e para o mundo. Maria, Mãe de Deus, nos ensine a abrir os corações a Jesus, a unir-nos a Ele e a amá-lo todos os dias sempre mais. Neste Novo Ano abençoo-vos de coração, assim como a todos os vossos familiares.
Dirijo cordiais boas-vindas aos peregrinos de língua italiana. Em particular, saúdo as Capitulares da União Santa Catarina de Sena das Missionárias da Escola, que celebram nestes dias o seu capítulo geral. Queridas irmãs, o mistério da Encarnação, que meditámos neste tempo litúrgico, vos conduza a uma fidelidade cada vez mais sólida à vossa missão na Igreja.
Por fim, dirijo-me aos jovens, aos doentes e aos novos casais. A vós, queridos jovens, desejo que saibais considerar cada dia como um precioso dom de Deus. O novo ano traga a vós, queridos doentes, conforto e alívio no corpo e no espírito. E vós, queridos novos casais, imitando a Sagrada Família de Nazaré, esforçai-vos por construir todos os dias uma autêntica comunhão de amor.
Paulo 25Outubro06-21fé07