
Paulo 25Outubro06-21fé07
Quarta-feira, 7 de Fevereiro 2007
Antes da Audiência geral, realizada na Sala Paulo VI, Bento XVI encontrou-se na Basílica de São Pedro com os fiéis das Dioceses da Lombardia por ocasião da visita "ad Limina" dos Bispos daquela Região italiana, proferindo estas palavras:
Queridos irmãos e irmãs das Dioceses Lombardas!
Saúdo antes de tudo a vós, queridos Irmãos no Episcopado, que viestes a Roma para a Visita ad limina Apostolorum. Convosco saúdo os fiéis que vos acompanham neste momento significativo de intensa comunhão com o Sucessor de Pedro. A Igreja que vive na Lombardia, e está aqui representada em todos os seus componentes, tem um papel importante para continuar a desempenhar na sociedade lombarda: anunciar e testemunhar o Evangelho em todos os âmbitos, especialmente onde emergem as características negativas de uma cultura consumista e hedonista, do secularismo e do individualismo, onde se registam antigas e novas formas de pobreza com sinais preocupantes do mal-estar juvenil e fenómenos de violência e de criminalidade. Se as Instituições e as várias agências educativas parecem por vezes atravessar momentos de dificuldade, não faltam contudo, grandes recursos ideais e morais no vosso povo, rico de nobres tradições familiares e religiosas. No diálogo convosco, queridos Irmãos no Episcopado, constatei como a Igreja na Lombardia é realmente uma Igreja viva, rica do dinamismo de fé e também de espírito missionário, capaz e decidida a transmitir a chama da fé às gerações vindouras e ao mundo do nosso tempo. Estou-vos agradecido por este dinamismo de fé, que vive precisamente nas Dioceses da Lombardia.
É vasto o vosso campo de acção. Trata-se, por um lado, de defender e promover a cultura da vida humana e da legalidade, por outro é necessária uma conversão pessoal e comunitária a Cristo cada vez mais coerente. De facto, para crescer na fidelidade ao homem, criado à imagem e semelhança do Criador, é preciso imergir-se mais intimamente com coerência no mistério de Cristo e difundir a sua mensagem de salvação. Devemos fazer o possível para conhecer sempre melhor a figura de Jesus, para ter dele um conhecimento não só "de segunda mão", mas um conhecimento através do encontro na oração, na liturgia, no amor ao próximo. É um compromisso certamente difícil, mas são confortadoras as palavras do Senhor: "E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos" (Mt 28,20). O Senhor está connosco também hoje, amanhã, até ao fim dos tempos!
Portanto, intensifique-se o vosso testemunho evangélico para que em cada ambiente os cristãos, guiados pelo Espírito Santo que habita na Igreja e nos corações dos fiéis como num templo (cf. 1Co 3,16-17), sejam sinais vivos da esperança sobrenatural. O nosso tempo, com tantas angústias e problemas, tem necessidade de esperança. E a nossa esperança vem precisamente da promessa do Senhor e da sua presença. Encorajo-vos, queridos Bispos, a guiar o activo povo lombardo por este caminho, contando em qualquer situação com a indefectível assistência divina. Prossigamos com a ajuda do Senhor nesta direcção!
* * *
Os cônjuges Priscila e Áquila
Queridos irmãos e irmãs!
Dando um novo passo nesta espécie de galeria de retratos das primeiras testemunhas da fé cristã, que iniciámos há algumas semanas, tomamos hoje em consideração um casal de esposos. Trata-se dos cônjuges Priscila e Áquila, que se colocam na órbita dos numerosos colaboradores que gravitam em volta do apóstolo Paulo, dos quais já falei brevemente na quarta-feira passada. Com base nas notícias que possuímos, este casal desempenhou um papel muito activo no tempo das origens pós-pascais da Igreja.
Os nomes Áquila e Priscila são latinos, mas este homem e esta mulher são de origem hebraica. Pelo menos Áquila provinha geograficamente da diáspora da Anatólia setentrional, diante do mar Negro na actual Turquia enquanto Priscila, cujo nome se encontra por vezes abreviado em Prisca, era provavelmente uma judia proveniente de Roma (cf. Ac 18,2). Contudo, foi de Roma que eles partiram para Corinto, onde Paulo se encontrou com eles no início dos anos 50; lá associou-se a eles porque, como narra Lucas, exerciam a mesma profissão de fabricantes de tendas ou toldos para uso doméstico, e foi acolhido até na sua casa (cf, Ac 18,3). O motivo da sua ida a Corinto tinha sido a decisão do imperador Cláudio de expulsar de Roma os Judeus residentes na Cidade.
O historiador romano Suetónio diz-nos sobre este acontecimento que tinha expulso os Judeus porque "provocavam tumultos por causa de um certo Cresto" (cf. Vita dei dodici Cesari, Claudio", 25). Vê-se que não conhecia bem o nome em vez de Cristo escreve "Cresto" e tinha apenas uma ideia muito vaga de quanto tinha acontecido. Contudo, haviam discórdias no interior da comunidade judaica sobre a questão se Jesus era o Cristo. E estes problemas eram para o imperador o motivo para simplesmente expulsar de Roma todos os Judeus. Disto se deduz que o casal tinha abraçado a fé cristã já em Roma nos anos 40, e agora tinham encontrado em Paulo alguém que não só partilhava com eles esta fé que Jesus é o Cristo mas que também era apóstolo, chamado pessoalmente pelo Senhor Ressuscitado. Por conseguinte, o primeiro encontro dá-se em Corinto, onde o recebem em casa e trabalham juntos na fabricação de tendas.
Num segundo momento, eles transferem-se para a Ásia Menor, para Éfeso. Ali tiveram uma parte determinante em completar a formação cristã do judeu alexandrino Apolo, do qual falámos na quarta-feira passada. Dado que ele conhecia apenas superficialmente a fé cristã, "Priscila e Áquila, que o tinham ouvido, tomaram-no consigo e expuseram-lhe, com mais clareza, o Caminho do Senhor" (Ac 18,26). Quando de Éfeso o Apóstolo Paulo escreve a sua Primeira Carta aos Coríntios, junta explicitamente às suas saudações também as de "Áquila e Prisca, com a comunidade que se reúne na sua casa" (1Co 16,19). Assim chegamos ao conhecimento do papel importantíssimo que este casal desempenha no âmbito da Igreja primitiva: isto é, o de receber na própria casa o grupo dos cristãos locais, quando eles se reuniam para ouvir a Palavra de Deus e para celebrar a Eucaristia. É precisamente aquele tipo de reunião que em grego se chama "ekklesìa" a palavra latina é "ecclesia", a italiana "chiesa" que significa convocação, assembleia, reunião.
Portanto, na casa de Áquila e Priscila reúne-se a Igreja, a convocação de Cristo, que celebra os Mistérios sagrados. E assim podemos ver o nascimento precisamente da realidade da Igreja nas casas dos crentes. De facto, os cristãos até finais do século III não tinham lugares próprios de culto: foram estas, num primeiro tempo, as sinagogas judaicas, até quando a originária simbiose entre Antigo e Novo Testamento se dissolveu e a Igreja das Nações foi obrigada a dar-se uma própria identidade, sempre profundamente enraizada no Antigo Testamento. Depois desta "ruptura", os cristãos reunem-se nas casas, tornam-se assim "Igreja". E por fim, no século III, surgem verdadeiros e próprios edifícios de culto cristão. Mas na primeira metade do século I e no século II, as casas dos cristãos tornam-se verdadeira e própria "igreja". Como disse, lêem juntos as Sagradas Escrituras e celebram a Eucaristia. Acontecia assim, por exemplo, em Corinto, onde Paulo menciona "Gaio, que me recebe como hóspede, assim como a toda a igreja" (Rm 16,23), ou em Laodiceia, onde a comunidade re reunia na casa de uma certa Ninfa (cf. Col 4,15), ou em Colossos, onde o encontro se realizava em casa de um certo Arquipo (cf. Phm 1,2).
Tendo sucessivamente regressado a Roma, Áquila e Priscila continuaram a desempenhar esta preciosíssima função também na capital do Império. De facto, Paulo escrevendo aos Romanos, envia esta saudação: "Saudai Priscila e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus, pessoas que, pela minha vida, expuseram a sua cabeça. Não sou apenas eu a estar-lhes agradecido, mas todas as igrejas dos gentios. Saudai também a igreja que se reúne em casa deles" (Rm 16,3-5). Que extraordinário elogio do casal nestas palavras! E quem a faz é precisamente o Apóstolo Paulo. Ele reconhece explicitamente neles dois verdadeiros colaboradores do seu apostolado. A referência ao facto de ter arriscado a vida por ele deve relacionar-se provavelmente com intervenções em seu favor durante algum seu aprisionamento, talvez em Éfeso (cf. Ac 19,23 1Co 15,32 2Co 1,8-9). E que à própria gratidão Paulo associe até a de todas as Igrejas das Nações, mesmo considerando a expressão talvez bastante hiperbólica, deixa intuir como é vasto o seu raio de acção e, contudo, a sua influência em benefício do Evangelho.
A tradição hagiográfica posterior conferiu um realce muito particular a Priscila, mesmo se permanece o problema de uma sua identificação com outra Priscila mártir. Contudo, aqui em Roma temos quer uma igreja dedicada a Santa Prisca no Aventino quer as Catacumbas de Priscila na via Salária. Deste modo perpetua-se a memória de uma mulher, que certamente foi uma pessoa activa e de muito valor na história do cristianismo romano. Uma coisa é certa: juntamente com a gratidão daquelas primeiras Igrejas, das quais fala São Paulo, deve juntar-se também a nossa, porque graças à fé e ao compromisso apostólico dos fiéis leigos, de famílias, esposos como Priscila e Áquila o cristianismo chegou à nossa geração. Podia crescer não só graças aos Apóstolos que o anunciavam. Para se radicar na terra do povo, para se desenvolver vivamente, era necessário o compromisso destas famílias, destes esposos, destas comunidades cristãs, de fiéis leigos que ofereceram o "húmus" ao crescimento da fé. E sempre, só assim a Igreja cresce. Em particular, este casal demonstra como é importante a acção dos casais cristãos. Quando eles são amparados pela fé e por uma forte espiritualidade, torna-se natural um seu compromisso pela Igreja e na Igreja. A comunhão quotidiana da sua vida prolonga-se e de certa forma sublima-se na assunção de uma responsabilidade comum em favor do Corpo místico de Cristo, mesmo que fosse de uma pequena parte dele. Assim era na minha geração e assim será com frequência.
Do seu exemplo podemos tirar outra lição que não devemos descuidar: cada casa pode transformar-se numa pequena igreja. Não só no sentido de que nela deve reinar o típico amor cristão feito de altruísmo e de solicitude recíproca, mas ainda mais no sentido de que toda a vida familiar, com base na fé, está chamada a girar em volta da única senhoria de Jesus Cristo. Não é ocasionalmente que na Carta aos Efésios Paulo compara a relação matrimonial com a comunhão esponsal que existe entre Cristo e a Igreja (cf. Ep 5,25-33). Aliás, poderíamos considerar que o Apóstolo modele indirectamente a vida da Igreja inteira sobre a da família. E a Igreja, na realidade, é a família de Deus. Por isso honramos Áquila e Priscila como modelos de uma vida conjugal responsavelmente comprometida ao serviço de toda a comunidade cristã. E encontramos neles o modelo da Igreja, família de Deus para todos os tempos.
Quarta-feira, 14 de Fevereiro 2007
Discurso aos Bispos da Região das Marcas (Itália) durante a Audiência Geral
Queridos irmãos e irmãs
das Dioceses das Marcas!
Saúdo-vos com afecto, começando pelos Bispos reunidos em Roma para a visita ad limina Apostolorum. Dirijo uma deferente saudação às Autoridades civis que não quiseram faltar a este encontro significativo. Saúdo com um grato pensamento os sacerdotes, os seminaristas, as pessoas consagradas, os agentes pastorais e todos vós, membros do Povo de Deus que vive na Região das Marcas.
No actual clima de pluralismo cultural e religioso, damo-nos conta de que a mensagem de Jesus não é conhecida por todos. Por isso, cada cristão está chamado a um renovado e corajoso compromisso de anúncio e testemunho do Evangelho.
Queridos Irmãos no Episcopado, continuai a dedicar todos os esforças para que a formação cristã de base seja feita tanto nas cidades como nos centros menores; para que todas as categorias de fiéis sejam preparadas para receber com fruto os Sacramentos, alimento indispensável para o crescimento na fé; para que com a prática dos Sacramentos não se descuide uma instrução religiosa sólida que resista sem se debilitar aos difundidos desafios e solicitações de uma sociedade amplamente secularizada. Olhemos para o futuro com esperança e trabalhemos com confiança apaixonada na vinha do Senhor!
A Virgem Mãe de Deus e da Igreja guie e proteja os vossos esforços e os vossos projectos pastorais. Dirijamo-nos agora a ela com a oração, que preparei em vista do encontro dos jovens, programado em Loreto no próximo mês de Setembro:
Maria, Mãe do sim,
tu escutaste Jesus
e conheces o timbre da sua voz
e o palpitar do seu coração.
Estrela da manhã, fala-nos dele
e conta-nos o teu percurso
para o seguires no caminho da fé.
Maria, que em Nazaré
habitaste com Jesus,
imprime na nossa vida
os teus sentimentos,
a tua docilidade,
o teu silêncio que escuta
e faz florescer a Palavra
em opções de verdadeira liberdade.
Maria, fala-nos de Jesus,
para que o vigor da nossa fé
brilhe nos nossos olhos e anime
o coração de quem nos encontra,
como tu fizeste, visitando Isabel
que na sua velhice
rejubilou contigo pelo dom da vida.
Maria, Virgem do Magnificat,
ajuda-nos a levar a alegria
ao mundo e, como em Caná,
estimula cada jovem,
comprometido no serviço aos irmãos,
a fazer só o que Jesus disser.
Maria, dirige o teu olhar
para a Ágora dos jovens,
para que seja o terreno fecundo
da Igreja italiana.
Pede para que Jesus, morto
e ressuscitado, renasça em nós
e nos transforme numa noite
plena de luz, plena d'Ele.
Maria, Nossa Senhora de Loreto,
porta do céu,
ajuda-nos a elevar para o alto o olhar.
Queremos ver Jesus. Falar com Ele.
Anunciar a todos o Seu amor.
* * *
As mulheres ao serviço do Evangelho
Amados irmãos e irmãs
Hoje chegámos ao fim do nosso percurso entre as testemunhas do cristianismo nascente, que os escritos neotestamentários mencionam. E usamos a última etapa deste primeiro percurso para dedicar a nossa atenção às diversas figuras femininas que tiveram um papel efectivo e precioso na difusão do Evangelho. O seu testemunho não pode ser esquecido, de acordo com o que o próprio Jesus pôde dizer da mulher que lhe ungiu a cabeça pouco antes da Paixão: "Em verdade vos digo: em qualquer parte do mundo onde este Evangelho for anunciado, há-de também narrar-se, em sua memória, o que ela acaba de fazer" (Mt 26,13 Mc 14,9). O Senhor quer que estas testemunhas do Evangelho, estas figuras que deram uma contribuição a fim de que aumentasse a fé nele, sejam conhecidas e a sua memória seja viva na Igreja. Podemos historicamente distinguir o papel das mulheres no Cristianismo primitivo, durante a vida terrena de Jesus e durante as vicissitudes da primeira geração cristã.
Jesus certamente, sabemo-lo, escolheu entre os seus discípulos doze homens como Pais do novo Israel, escolheu-os para "estarem com Ele e para os enviar a pregar" (Mc 3,14). Este facto é evidente mas, além dos Doze, colunas da Igreja, pais do novo Povo de Deus, são escolhidas no número dos discípulos também muitas mulheres. Apenas brevemente posso mencionar aquelas que se encontram no caminho do próprio Jesus, a começar pela profetisa Ana (cf. Lc 2,36-38), até à Samaritana (cf. Jn 4,1-39), à mulher sírio-fenícia (cf. Mc 7,24-30), à hemorroíssa (cf. Mt 9,20-22) e à pecadora perdoada (cf. Lc 7,36-50). Não me refiro sequer às protagonistas de algumas parábolas eficazes, por exemplo a uma dona de casa que amassa o pão (cf. Mt 13,33), à mulher que perde a dracma (cf. Lc 15,8-10), à viúva que importuna o juiz (cf. Lc 18,1-8). Mais significativas para o nosso assunto são aquelas mulheres que desenvolveram um papel activo no contexto da missão de Jesus. Em primeiro lugar, o pensamento dirige-se naturalmente à Virgem Maria que, com a sua fé e a sua obra materna, colaborou de modo único para a nossa Redenção, tanto que Isabel pôde proclamá-la "bendita és tu entre as mulheres" (Lc 1,42), acrescentando: "Feliz de ti que acreditaste" (Lc 1,45). Tornando-se discípula do Filho, Maria manifestou em Caná a confiança total nele (cf. Jn 2,5) e seguiu-o até aos pés da Cruz, onde recebeu dele uma missão materna para todos os seus discípulos de todos os tempos, representados por João (cf. Jn 19,25-27).
Há depois várias mulheres, que a diversos títulos gravitam em volta da figura de Jesus, com funções de responsabilidade. São exemplo eloquente disto as mulheres que seguiam Jesus para o assistir com os seus bens e das quais Lucas nos transmite alguns nomes: Maria de Magdala, Joana, Susana e "muitas outras" (cf. Lc 8,2-3). Depois, os Evangelhos informam-nos que as mulheres, diversamente dos Doze, não abandonaram Jesus na hora da Paixão (cf. Mt 27,56 Mt 27,61 Mc 15,40). Entre elas, sobressai em particular Madalena, que não só presenciou a Paixão, mas foi também a primeira testemunha e anunciadora do Ressuscitado (cf. Jn 20,1 Jn 20,11-18). Precisamente a Maria de Magdala S. Tomás de Aquino reserva a singular qualificação de "apóstola dos apóstolos" (apostolorum apostola), dedicando-lhe este bonito comentário: "Como uma mulher tinha anunciado ao primeiro homem palavras de morte, assim uma mulher foi a primeira a anunciar aos apóstolos palavras de vida" da sensibilidade humana que levam o homem a fruir da verdade com a totalidade do seu ser, "espírito, alma e corpo". Isto é importante: a fé não é só pensamento, mas refere-se a todo o nosso ser. Dado que Deus se fez homem em carne e osso, entrando no mundo sensível, nós em todas as dimensões do nosso ser temos que procurar e encontrar Deus. Assim a realidade de Deus, mediante a fé, penetra no nosso ser transformando-o. Por isso Rabano Mauro concentrou a sua atenção sobretudo na Liturgia, como síntese de todas as dimensões da nossa percepção da realidade. Esta intuição de Rabano Mauro torna-o extraordinariamente actual. Dele permaneceram inclusive os famosos "Carmina", propostos para ser utilizados principalmente nas celebrações litúrgicas. Com efeito, dado que Rabano era acima de tudo um monge, era totalmente evidente o seu interesse pela celebração litúrgica. Porém, ele não se dedicava à arte poética como fim em si mesma, mas subordinava a arte e qualquer outro tipo de saber ao aprofundamento da Palavra de Deus. Por isso, com compromisso e rigor extremos, procurou introduzir os seus contemporâneos, mas em primeiro lugar os ministros (bispos, presbíteros e diáconos), na compreensão do significado profundamente teológico e espiritual de todos os elementos da celebração litúrgica.
Assim, tentou compreender e propor aos outros os significados teológicos escondidos nos ritos, inspirando-se na Bíblia e na tradição dos Padres. Não hesitava em declarar, por honestidade mas também para dar maior importância às suas explicações, as fontes patrísticas às quais devia o seu saber. Todavia, servia-se das mesmas com liberdade e discernimento atento, dando continuidade ao desenvolvimento do pensamento patrístico. Por exemplo, no final da "Epistola prima", dirigida a um "corepiscopo" da diocese de Mainz, depois de ter respondido aos pedidos de esclarecimento a respeito do comportamento que se devia ter no exercício da responsabilidade pastoral, prossegue: "Escrevemos-te tudo isto do modo como o deduzimos das Sagradas Escrituras e dos cânones dos Padres. Tu porém, santíssimo homem, toma as tuas decisões como melhor te parecer, caso por caso, procurando moderar a tua avaliação de forma a garantir em tudo a discrição, porque esta é a mãe de todas as virtudes" (Epistulae, I, PL 112, ). Assim, vê-se a continuidade da fé cristã, que tem os seus primórdios na Palavra de Deus; porém, ela é sempre viva, desenvolve-se e exprime-se de modos novos, sempre em coerência com todaa construção, com todo o edifício da fé.
Dado que uma parte integrante da celebração litúrgica é a Palavra de Deus, a ela se dedicou Rabano Mauro com o máximo empenhamento durante toda a sua existência. Ofereceu explicações exegéticas apropriadas praticamente para todos os livros bíblicos do Antigo e do Novo Testamento com uma intenção claramente pastoral, que justificava com palavras como estas: "Escrevi estas coisas... resumindo explicações e propostas de muitos outros para oferecer um serviço ao leitor pobre que não pode ter à disposição muitos livros, mas também para ajudar aqueles que em muitas coisas não conseguem entrar em profundidade na compreensão dos significados descobertos pelos Padres" (Commentariorum in Matthaeum praefatio, PL 107, ). Com efeito, quando comentava os textos bíblicos, hauria a mãos-cheias dos Padres antigos, com especial predilecção por Jerónimo, Ambrósio, Agostinho e Gregório Magno.
Depois, a acentuada sensibilidade pastoral levou-o a enfrentar sobretudo um dos problemas mais sentidos pelos fiéis e pelos ministros sagrados do seu tempo: o da Penitência. Efectivamente, foi compilador de "Penintenciários" — assim eram chamados — nos quais, segundo a sensibilidade dessa época, eram enumerados pecados e penas correspondentes, utilizando na medida do possível motivações tiradas da Bíblia, das decisões dos Concílios e das Decretais dos Papas. De tais textos serviram-se inclusive os "Carolíngios" na sua tentativa de reforma da Igreja e da sociedade. A esta mesma intenção pastoral correspondiam obras como "De disciplina ecclesiastica" e "De institutione clericorum", nos quais, inspirando-se principalmente em Agostinho, Rabano explicava aos simples e ao clero da sua diocese os rudimentos fundamentais da fé cristã: tratava-se de uma espécie de pequenos catecismos.
Gostaria de concluir a apresentação deste grande "homem de Igreja", citando algumas das suas palavras em que se reflectem a sua convicção de base: "Quem é negligente na contemplação ("qui vacare Deo negligit"), priva-se sozinho da visão da luz de Deus; além disso, quem se deixa surpreender de modo indiscreto pelas preocupações e permite que os seus pensamentos sejam alterados pelo tumulto das coisas do mundo, condena-se à absoluta impossibilidade de penetrar os segredos do Deus invisível" (Lib. I, PL 112, Col 1263). Penso que Rabano Mauro dirige estas palavras também a nós, hoje: nas horas de trabalho, com os seus ritmos frenéticos, e nos períodos de férias, temos que reservar momentos para Deus, abrir-lhe a nossa vida, dirigindo-lhe um pensamento, uma reflexão, uma breve oração e principalmente não podemos esquecer que o domingo é o dia do Senhor, o dia da liturgia, para vislumbrar na beleza das nossas igrejas, da música sacra e da Palavra de Deus, a própria beleza de Deus, deixando-O entrar no nosso ser. Somente assim a nossa vida se tornará grande, verdadeira.
Saudação
Com amizade saúdo os diversos grupos do Brasil e demais peregrinos de língua portuguesa, com votos de que alcanceis aquilo que aqui vos trouxe de tão longe: parar junto das memórias dos Apóstolos e dos Mártires, meditando sobre o fim glorioso do seu combate por Cristo e receber a investidura do mesmo Espírito para idênticas batalhas em prol do triunfo do Evangelho no seio da família e da sociedade. Sobre cada um de vós e seus familiares, desça a minha Bênção.
Praça de São Pedro
Quarta-feira, 10 de Junho de 2009
Queridos irmãos e irmãs!
Hoje gostaria de falar de um notável pensador do Ocidente cristão: João Escoto Erígena, cujas origens porém são pouco claras. Provinha certamente da Irlanda, onde nasceu no início de 800, mas não sabemos quando deixou a sua Ilha para atravessar a Mancha e assim começar a fazer parte plenamente daquele mundo cultural que estava a renascerem volta dos Carolíngios, e em particular de Carlos, o Calvo, na França do século IX. Assim como não se conhece a data certa do seu nascimento, também ignoramos o ano da sua morte que, segundo os estudiosos, deveria contudo colocar-se por volta do ano 870.
João Escoto Erígena possuía uma cultura patrística, quer grega quer latina, de primeira mão: de facto, conhecia directamente os escritos dos Padres latinos e gregos. Conhecia bem, entre outras, as obras de Agostinho, de Ambrósio, de Gregório Magno, grandes Padres do Ocidente cristão, mas também conhecia bem o pensamento de Orígenes, de Gregório de Nissa, de João Crisóstomo e de outros Padres cristãos do Oriente não menos grandes. Era um homem excepcional, naquele tempo que dominava também a língua grega. Demonstrou uma atenção muito particular por São Máximo, o Confessor e, sobretudo, por Dionísio, o Areopagita. Sob este pseudónimo esconde-se um escritor eclesiástico do século v, da Síria, mas toda a Idade Média e também João Escoto Erígena, estava convencida de que este autor fosse idêntico a um discípulo directo de São Paulo, do qual se fala nos Actos dos Apóstolos (Ac 17,34). Escoto Erígena, convencido desta apostolicidade dos escritos de Dionísio, qualificava-o "autor divino" por excelência; os seus escritos foram por isso uma fonte eminente do seu pensamento. João Escoto traduziu as suas obras em latim. Os grandes teólogos medievais, como São Boaventura, conheceram as obras de Dionísio através desta tradução. Dedicou-se toda a vida a aprofundar e a desenvolver o seu pensamento, haurindo destes escritos, a ponto que ainda hoje às vezes pode ser difícil distinguir onde estamos diante do pensamento de Escoto Erígena e onde, ao contrário, de mais não faz do que repropor o pensamento do Pseudodionísio.
Na realidade, o trabalho teológico de João Escoto não teve muita sorte. Não só o final da era carolíngia fez esquecer as suas obras; também uma censura por parte da Autoridade eclesiástica lançou uma sombra sobre a sua figura. Na realidade, João Escoto representa um platonismo radical, que por vezes parece aproximar-se de uma visão panteísta, mesmo se as suas intenções pessoais subjectivas foram sempre ortodoxas. De João Escoto Erígena chegaram até nós algumas obras, entre as quais merecem ser recordadas, em particular, o tratado "Sobre a divisão da natureza" e as "Exposições sobre a hierarquia celeste de São Dionísio". Nestas obras ele desenvolve estimulantes reflexões teológicas e espirituais, que poderiam sugerir interessantes aprofundamentos também aos teólogos contemporâneos. Refiro-me, por exemplo, a quanto escreve sobre o dever de exercer um discernimento apropriado sobre o que é apresentado como auctoritas vera, ou sobre o compromisso de continuar a procurar a verdade enquanto não se alcançar uma certa experiência na adoração silenciosa de Deus.
O nosso autor diz: "Salus nostra ex fide inchoat: a nossa salvação começa com a fé". Isto é, não podemos falar de Deus partindo das nossas invenções, mas de quanto Deus diz de si mesmo nas Sagradas Escrituras. Contudo, dado que Deus diz unicamente a verdade, Escoto Erígena está convencido de que a autoridade e a razão nunca podem estar em contraste uma com a outra; está convencido de que a verdadeira religião e a verdadeira filosofia coincidem. Nesta perspectiva escreve: "Qualquer tipo de autoridade que não for confirmada por uma verdadeira razão deveria ser considerada frágil... De facto, não é verdadeira autoridade, a não ser a que coincide com a verdade descoberta em virtude da razão, mesmo que se trate de uma autoridade recomendada e transmitida para utilidade das gerações vindouras pelos santos Padres" (I, PL, 122, ). Por conseguinte, ele admoesta: "Autoridade alguma te atemorize ou te distraia de quanto te faz compreender a persuasão obtida graças a uma recta contemplação racional. De facto, a autêntica autoridade nunca contradiz a recta razão, nem esta poderá jamais contradizer uma verdadeira autoridade. Uma e outra provêm sem dúvida alguma da mesma fonte, que é a sabedoria divina"(I, PL 122, Col 511). Vemos aqui uma corajosa afirmação do valor da razão, fundada sobre a certeza de que a autoridade verdadeira é ponderada, porque Deus é a razão criadora.
A própria Escritura não evita, segundo Erígena, a necessidade de ser abordada utilizando o mesmo critério de discernimento. De facto, a Escritura – afirma o teólogo irlandês repropondo uma reflexão já presente em João Crisóstomo – mesmo provindo de Deus, não teria sido necessária se o homem não tivesse pecado. Portanto, deve-se deduzir que a Escritura foi dada por Deus com uma intenção pedagógica e por condescendência, para que o homem pudesse recordar tudo o que lhe tinha sido impresso no coração desde o momento da sua criação, "à imagem e semelhança de Deus" (cf. Gn 1,26) e que a queda original lhe tinha feito esquecer. Erígena escreve nas Expositiones: "O homem não foi criado para a Escritura, da qual não teria necessidade se não tivesse pecado, mas ao contrário, a Escritura – embebida de doutrina e de símbolos – foi dada ao homem. Graças a ela, de facto, a nossa natureza racional pode ser introduzida nos segredos da autêntica contemplação pura de Deus" (II, PL 122, ). A palavra da Sagrada Escritura purifica a nossa razão um pouco cega e ajuda-nos a voltar à recordação do que nós, enquanto imagem de Deus, trazemos no nosso coração, infelizmente vulnerado pelo pecado.
Isto origina algumas consequências hermenêuticas, sobre o modo de interpretar a Escritura, que podem indicar ainda hoje o caminho justo para uma correcta leitura da Sagrada Escritura. De facto, trata-se de descobrir o sentido escondido no texto sagrado e isto supõe uma particular prática interior, graças à qual a razão se abre ao caminho seguro rumo à verdade. Esta prática consiste em cultivar uma disponibilidade constante à conversão. De facto, para chegar a uma visão profunda do texto é necessário progredir simultaneamente na conversão do coração e na análise conceptual da página bíblica quer ela seja de carácter cósmico, histórico ou doutrinal. De facto, só graças à constante purificação quer do olhar do coração quer do olhar da mente se pode conquistar a exacta compreensão.
Este caminho inacessível, exigente e entusiasmante, feito de contínuas conquistas e relativizações do saber humano, conduz a criatura inteligente ao limiar do Mistério divino, onde todas as noções acusam a própria debilidade e incapacidade e por isso impõem, com a simples força livre e doce da verdade, que se vá sempre além de tudo o que é continuamente adquirido. O reconhecimento adorante e silencioso do Mistério, que acaba na comunhão unificante, revela-se por isso como o único caminho de uma relação com a verdade que seja ao mesmo tempo a mais íntima possível e a mais escrupulosamente respeitadora da alteridade. João Escoto – utilizando também aqui um vocabulário querido à tradição cristã de língua grega chamou a esta experiência para a qual tendemos, "theosis" ou divinização, com afirmações tão audaciosas que foi possível suspeitá-lo de panteísmo heterodoxo. Permanece contudo forte a emoção face a textos como o seguinte, no qual – recorrendo à antiga metáfora da fusão do ferro – escreve: "Portanto, como todo o ferro tornado ardente se derreteu a ponto de parecer haver apenas fogo mas permanecendo contudo distintas as substâncias de um e de outro, assim se deve aceitar que depois do fim deste mundo toda a natureza, quer a corpórea quer a incorpórea
Paulo 25Outubro06-21fé07