Bento XVI Discursos 2005

Considerar a teologia uma questão particular do teólogo significa menosprezar a sua própria natureza. Somente no interior da comunidade eclesial, na comunhão com os legítimos Pastores da Igreja, tem sentido o trabalho que, evidentemente, exige a competência científica, mas também e não em menor medida, o espírito de fé e a humildade de quem sabe que o Deus vivo e verdadeiro, objecto da sua reflexão, ultrapassa infinitamente as capacidades humanas. Só com a oração e a contemplação é possível adquirir o sentido de Deus e a docilidade à acção do Espírito Santo, que tornarão a investigação teológica fecunda, para o bem de toda a Igreja e, diria, da humanidade.

Aqui, poder-se-ia objectar: mas uma teologia assim definida ainda é ciência e está em sintonia com a nossa razão e a sua liberdade? Sim, a racionalidade, a índole científica e o pensamento sobre a comunhão da Igreja não apenas não se excluem, mas caminham juntos. O Espírito Santo introduz a Igreja na plenitude da verdade (cf. Jn 16,13), a Igreja está ao serviço da verdade e a sua guia é educação para a verdade.

Enquanto formulo votos a fim de que os vossos dias de estudo sejam animados pela comunhão fraterna na busca da Verdade que a Igreja deseja anunciar a todos os homens, suplico a Maria Santíssima, Sede da Sabedoria, que oriente os vossos passos no júbilo e na esperança cristã. Com estes sentimentos, enquanto renovo a todos vós a expressão da minha estima e da minha confiança, concedo-vos do íntimo do coração a Bênção Apostólica.





AO SEGUNDO GRUPO DE BISPOS


DA POLÓNIA EM VISITA


«AD LIMINA APOSTOLORUM»


Sábado, 3 de Dezembro de 2005



Estimados Irmãos
no ministério episcopal

Dou as minhas cordiais boas-vindas a todos vós. É-me grato poder receber o segundo grupo de Bispos polacos, aqui reunidos para a visita ad limina Apostolorum.

1. A nova evangelização

Durante a sua primeira peregrinação à Polónia, João Paulo II disse: "Da cruz em Nowa Huta começou a nova evangelização: a evangelização do segundo milénio. Esta Igreja testemunha-o e confirma-o. Ela nasceu de uma fé viva e consciente e é necessário que continue a servir a fé. A evangelização do novo milénio deve referir-se à doutrina do Concílio Vaticano II. Como ensina este Concílio, deve ser uma obra comum dos Bispos, dos sacerdotes, dos religiosos e dos leigos, obra dos pais e dos filhos" (9 de Junho de 1979).

Este foi, se não o primeiro, uma das primeiras intervenções sobre o tema da nova evangelização. Falou do segundo milénio, mas não há dúvida de que já estava a pensar no terceiro. Foi sob a sua guia que entrámos neste novo milénio do cristianismo, tomando consciência da actualidade constante da sua exortação a uma nova evangelização. Com estas breves palavras, definia a sua finalidade: despertar uma fé "viva, consciente e responsável". Sucessivamente, afirmou que isto devia ser uma obra comum dos Bispos, dos sacerdotes, dos religiosos e dos leigos.

Hoje gostaria, juntamente convosco, queridos Irmãos, de reflectir sobre este tema. Bem sabemos que o primeiro responsável pela obra da evangelização é o Bispo, sobre cujos ombros estão colocados os tria munera: profético, sacerdotal e pastoral. No seu livro: "Levantai-vos, vamos!", especialmente nos capítulos "Pastor", "Conheço as minhas ovelhas" e "A administração dos sacramentos", João Paulo II, referindo-se à sua experiência pessoal, traçou o projecto do caminho do ministério episcopal, para que desse frutos de bem-aventurança. Não é necessário citar agora as passagens das suas reflexões. Todos nós podemos recorrer ao património que ele nos legou e haurir abundantemente do seu testemunho. Constitua para nós modelo e estímulo o seu sentido de responsabilidade pela Igreja e pelos fiéis, confiados à solicitude do Bispo.

2. Os presbíteros diocesanos

Os primeiros colaboradores do Bispo, no cumprimento das suas tarefas são os presbíteros; eles, antes que todos os outros, deveriam ser os destinatários da solicitude do Bispo. João Paulo II "escreveu: "Com o estilo de vida que lhe é próprio, o Bispo demonstra que "o modelo de Cristo" não está superado e que, também hoje permanece sempre actual. Pode-se dizer que uma diocese reflecte o modo de ser do seu Bispo, cujas virtudes a castidade, a prática da pobreza, o espírito de oração, a simplicidade e a sensibilidade de consciência num certo sentido, estão inscritos no coração dos sacerdotes. Eles, por sua vez, transmitem tais valores aos fiéis a eles confiados, e é assim que os jovens são induzidos a dar uma resposta generosa à chamada por parte de Cristo" (Ibid., pág. 101).

O exemplo do Bispo é extremamente importante: aqui não se trata apenas de um estilo de vida irrepreensível, mas também da solicitude cuidadosa a fim de que as virtudes cristãs, sobre as quais João Paulo II escreveu, penetrem profundamente na alma dos sacerdotes da sua diocese. Por isso, o Bispo deveria prestar particular atenção à qualidade da formação seminarística. É necessário ter presente não somente a preparação intelectual dos futuros sacerdotes, em vista das suas tarefas vindouras, mas também a sua formação espiritual e emotiva. Durante o Sínodo de 1991, os Bispos manifestaram o desejo de poder contar com mais padres espirituais nos seminários, e que fossem bem preparados para desempenhar a tarefa exigente de formar o espírito e verificar a disponibilidade afectiva dos seminaristas, para assumir as funções presbiterais. Vale a pena voltar a reflectir sobre tal exigência. Recentemente, publicou-se o documento da Congregação para a Educação Católica sobre a admissão dos candidatos às Ordens sacras. Prezados Irmãos, peço-vos que coloqueis em prática as indicações contidas em tal documento.

É importante que o processo de formação intelectual não se conclua com o seminário. É necessária uma formação sacerdotal constante. Bem sei que nas dioceses polacas se atribui uma grande importância a isto. Organizam-se cursos, dias de retiro, exercícios espirituais e outros encontros, durante os quais os presbíteros podem compartilhar os seus problemas e os seus êxitos pastorais, confirmando-se uns aos outros na fé e no entusiasmo ministerial. Peço-vos que deis continuidade a esta prática.

Por sua vez, como Pastor, o Bispo é chamado a circundar os seus sacerdotes de atenção paternal. Deveriam organizar os seus compromissos de maneira a dedicar tempo aos presbíteros, para os ouvir atentamente e para os ajudar nos momentos de dificuldade. Em caso de crise vocacional, à qual os sacerdotes podem estar sujeitos, o Bispo deveria fazer o possível para os ajudar e para lhes restituir o impulso original e o amor a Cristo e à Igreja. O amor paterno não deve faltar, nem mesmo quando é necessária uma admoestação.

Dou graças a Deus porque Ele continua a conceder à Polónia a graça de numerosas vocações. De modo particular, dilectos Irmãos, a região meridional que vós representais é rica sob este aspecto. Tendo presentes as enormes necessidades da Igreja universal, peço-vos que encorajeis os vossos presbíteros a empreender o serviço missionário, ou então o compromisso pastoral nos países onde há escassez de sacerdotes. Parece que hoje esta é uma tarefa particular e, num certo sentido, até um dever da Igreja que está na Polónia. No entanto, quando enviais os sacerdotes para o estrangeiro, especialmente para as missões, recordai-vos de lhes assegurar a assistência espiritual e uma ajuda material suficiente.

3. As Ordens religiosas

João Paulo II escreveu: "As Ordens religiosas nunca tornaram difícil a minha vida. Tive bons relacionamentos com todas, reconhecendo nelas uma grande ajuda para a missão do Bispo. Penso também naquelas grandes reservas de energias espirituais, que são as Ordens contemplativas" (Levantai-vos, vamos!, pág. 95).

A diversidade dos carismas e dos serviços realizados pelos religiosos e pelas religiosas, ou então os membros dos institutos laicais de vida consagrada, representa uma grande riqueza da Igreja. O Bispo pode e deve encorajá-los a inserir-se no programa diocesano de evangelização e a assumir as tarefas pastorais em conformidade com o seu carisma, em colaboração com os sacerdotes e com as comunidades laicais. As famílias religiosas e os consagrados individualmente, embora juridicamente estejam sujeitos aos seus superiores, "no concernente à cura de almas, ao exercício público do culto divino e às demais obras de apostolado... estão sujeitos ao poder dos Bispos", como menciona o Código de Direito Canónico (cân. CIC 678 1). Além disso, o Código convida os Bispos diocesanos e os Superiores religiosos a proceder na "programação das obras de apostolado dos religiosos... de comum acordo" (cân. CIC 678 3).

Irmãos, encorajo-vos a circundar de cuidado as comunidades religiosas femininas, que se encontram nas vossas dioceses. As religiosas que assumem diversos serviços na Igreja merecem o máximo respeito, e o seu trabalho deve ser reconhecido e oportunamente valorizado. Elas não devem ser privadas de uma adequada assistência espiritual, nem da possibilidade de se desenvolverem intelectualmente e de crescerem na própria fé.

De modo particular, recomendo-vos que tenhais a peito a sorte das Ordens contemplativas. A sua presença na diocese, a sua oração e as suas renúncias sirvam sempre para vós de sustento e de ajuda. Por vossa vez, procurai ir ao encontro das suas necessidades, também materiais.
Infelizmente, nos últimos anos tem-se observado uma diminuição de vocações religiosas, de maneira especial as femininas. Portanto é necessário, juntamente com os responsáveis superiores religiosos, reflectir sobre as causas destas condições e pensar de que forma podem ser despertadas e fomentadas novas vocações.

4. Os leigos

Na reflexão acerca do papel dos leigos na obra de evangelização introduzem-nos as palavras do meu grande Predecessor: "Os leigos podem cumprir a sua vocação no mundo e alcançar a santidade, não só comprometendo-se concretamente em benefício dos pobres e dos necessitados, mas também animando com espírito cristão a sociedade mediante o cumprimento dos seus deveres profissionais e o testemunho de uma vida familiar exemplar" (Levantai-vos, vamos!, pág. 91).

Numa época em que como escreveu João Paulo II "a cultura europeia dá a impressão de uma "apostasia silenciosa" da parte do homem saciado, que vive como se Deus não existisse" (Ecclesia in Europa, 9), a Igreja não cessa de anunciar ao mundo que Jesus Cristo é a sua esperança. Nesta obra, o papel dos leigos é insubstituível. O seu testemunho da fé é particularmente eloquente e eficaz, porque se verifica na vida de cada dia e nos âmbitos em que um sacerdote acede com dificuldade.

Uma das principais finalidades dos leigos é a renovação moral da sociedade, que não pode ser superficial, parcial e imediata. Ela deveria caracterizar-se por uma profunda transformação no ethos dos homens, ou seja, pela aceitação de uma hierarquia de valores oportuna, em conformidade com a qual se hão-de formar as atitudes.

A tarefa específica dos leigos é a participação na vida pública e política. Na Exortação Apostólica Christifideles laici, João Paulo II recordou que "todos e cada um têm o direito e o dever de participar na política" (CL 42). A Igreja não se identifica com qualquer partido ou comunidade política, nem com um sistema político; pelo contrário, ela recorda sempre que os leigos comprometidos na vida política devem oferecer um testemunho corajoso e visível dos valores cristãos, que devem ser confirmados e defendidos quando são ameaçados. Fá-lo-ão publicamente, tanto nos debates de índole política como no âmbito dos mass media. Uma das tarefas mais importantes, derivante do processo de integração europeia, é a corajosa solicitude na conservação da identidade católica e nacional dos polacos. O diálogo promovido pelos leigos católicos, a nível de questões políticas, demonstrar-se-á eficaz e servirá o bem comum, quando na sua base houver: o amor pela verdade, o espírito de serviço e a solidariedade no compromisso a favor do bem comum. Queridos Irmãos, exorto-vos a animar este serviço dos leigos, no respeito por uma justa autonomia da política.

Enumerei somente algumas formas de compromisso dos leigos na obra de evangelização. As outras, como a pastoral familiar, a pastoral para os jovens ou a actividade caritativa, serão o tema de uma ulterior reflexão, durante o encontro com o terceiro grupo de Bispos polacos. Agora, formulo-vos bons votos a fim de que uma colaboração harmoniosa de todos os estados de vida na Igreja, sob a vossa orientação iluminada, produza frutos de transformação do mundo, no espírito do Evangelho de Cristo.

Confioovossoministérioepiscopal a Nossa Senhora e abençoo-vos a todos afectuosamente.

Louvado seja Jesus Cristo!





AOS PARTICIPANTES NO ENCONTRO


DE PRESIDENTES DAS COMISSÕES EPISCOPAIS


PARA A FAMÍLIA E A VIDA DA AMÉRICA LATINA


Sábado, 3 de Dezembro de 2005



Queridos Irmãos no Episcopado!

1. Apraz-me receber-vos por ocasião do III Encontro dos Presidentes das Comissões Episcopais para a Família e a Vida da América Latina. Desejo expressar a minha gratidão pelas palavras que me expressou o Senhor Cardeal Alfonso López Trujillo, Presidente do Pontifício Conselho para a Família. Sou testemunha, juntamente com toda a Igreja, da solicitude com que o Papa João Paulo II se dedicou a este tema tão importante. Por meu lado, assumo esta mesma preocupação que afecta em grande medida o futuro da Igreja e dos povos, dado que, como afirmava o meu Predecessor na Exortação Apostólica Familiaris consortio, "o futuro da humanidade passa pela família! É pois indispensável e urgente que cada homem de boa vontade se empenhe em salvar e promover os valores e as exigências da família". E acrescentava: "Compete ainda aos cristãos a tarefa de anunciar com alegria e convicção a "boa nova" acerca da família, que tem necessidade absoluta de ouvir e de compreender sempre mais profundamente as palavras autênticas que lhe revelam a sua identidade, os seus recursos interiores, a importância da sua missão na Cidade dos homens e na de Deus" (FC 86). A mencionada Exortação, juntamente com a Carta às Famílias Gratissimam sane e a Encíclica Evangelium vitae constituem um luminoso tríptico que deve inspirar a vossa tarefa de Pastores.

2. Quero agradecer de modo especial a vossa solicitude pastoral com a intenção de salvaguardar os valores fundamentais do matrimónio e da família, ameaçados pelo fenómeno actual da secularização que impede que a consciência social descubra adequadamente a identidade e missão da instituição familiar, e ultimamente pela pressão de leis injustas que desconhecem os direitos fundamentais da mesma.

Perante esta situação, contemplo com prazer como cresce e se consolida o labor das Igrejas particulares em favor desta instituição humana, que afunda as suas raízes no desígnio amoroso de Deus e representa o modelo insubstituível para o bem comum da humanidade. São muitíssimos os lares que dão uma resposta generosa ao Senhor e, além disso, abundam as experiências pastorais, sinal de uma nova vitalidade, nas quais, através de uma maior preparação para o matrimónio, se fortalece a identidade da família.

3. O vosso dever de Pastores é apresentar em toda a sua riqueza o valor extraordinário do matrimónio que, como instituição natural, é "património da humanidade". Por outro lado, a sua elevação à altíssima dignidade de sacramento deve ser contemplada com gratidão e admiração, como expressei recentemente ao afirmar que "a sacramentalidade que o matrimónio assume em Cristo significa portanto que o dom da criação foi elevado à graça de redenção. A graça de Cristo não se acrescenta de fora à natureza do homem, não lhe faz violência, mas liberta-a e restaura-a, precisamente ao elevá-la acima dos seus próprios limites" (Discurso na Cerimónia de Abertura da Assembleia Eclesial da Diocese de Roma, 6 de Junho de 2005).

4. O amor e a entrega total dos esposos, com as suas notas peculiares de exclusividade, fidelidade, permanência no tempo e a abertura à vida, está na base dessa comunidade de vida e amor que é o matrimónio (cf. GS 48). Hoje é preciso anunciar com renovado entusiasmo que o evangelho da família é um caminho de realização humana e espiritual, com a certeza de que o Senhor está sempre presente com a sua graça. Este anúncio muitas vezes é desfigurado por falsas concepções do matrimónio e da família que não respeitam o projecto originário de Deus. Neste sentido, houve quem chegou a propor novas formas de matrimónio, algumas delas desconhecidas nas culturas dos povos, nas quais se altera a sua natureza específica.

Também no âmbito da vida estão a surgir novas orientações que põem em questão este direito fundamental. Como consequência, facilita-se a eliminação do embrião ou o seu uso arbitrário em nome do progresso da ciência que, não reconhecendo os seus próprios limites e não aceitando os princípios morais que permitem salvaguardar a dignidade da pessoa, se converte numa ameaça para o próprio ser humano, reduzindo-o a um objecto ou a um mero instrumento. Quando se chega a estes níveis a própria sociedade ressente-se e abalam-se os seus fundamentos com todos os tipos de riscos.

5. Na América Latina, como noutras partes, os filhos têm o direito de nascer e crescer no seio de uma família fundada no matrimónio, onde os pais sejam os primeiros educadores da fé dos seus filhos, e estes possam alcançar a sua plena maturidade humana e espiritual. Verdadeiramente, os filhos são a maior riqueza e o bem mais precioso da família. Por isso é necessário ajudar todas as pessoas a tomar consciência do mal intrínseco do crime do aborto que, ao atentar contra a vida humana no seu início, é também uma agressão contra a própria sociedade. Por isso, os políticos e legisladores, enquanto servidores do bem social, têm o dever de defender o direito fundamental à vida, fruto do amor de Deus.

6. Não há dúvida de que para a acção pastoral, numa matéria tão delicada e complexa, na qual intervêm diversas disciplinas e se tratam questões tão fundamentais, requer-se uma cuidadosa preparação dos Agentes pastorais nas Dioceses. Assim, os sacerdotes, como colaboradores imediatos dos Bispos, devem poder receber uma sólida preparação neste campo, que lhes permita enfrentar com competência e convicção a problemática suscitada no seu trabalho pastoral. No que diz respeito aos leigos, sobretudo aos que dedicam as suas energias a este serviço das famílias, eles necessitam também de uma válida e elevada formação que os ajude a testemunhar a grandeza e o valor permanente do matrimónio na sociedade actual.

7. Queridos Irmãos: como bem sabeis, está próximo o V Encontro Mundial das Famílias, em Valência, Espanha, e que terá como tema: A transmissão da fé na família. A este respeito, desejo expressar a minha cordial saudação ao Arcebispo daquela cidade, D. Agustín García-Gasco, o qual participa neste Encontro e que, com o Pontifício Conselho para a Família, está a realizar a difícil tarefa da sua preparação. Estimulo-vos a todos para que numerosas delegações das Conferências Episcopais, Dioceses e Movimentos da América Latina, possam participar num acontecimento importante como esse. Por meu lado, apoio decididamente a celebração deste Encontro e coloco-o sobre a protecção da Sagrada Família.

Concedo de coração a vós, queridos Pastores, e a todas as famílias da América Latina a minha Bênção Apostólica.

SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO


DA BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA


ORAÇÃO DO PAPA BENTO XVI


8 de Dezembro de 2005

Vim neste dia dedicado a Maria, pela primeira vez como Sucessor de Pedro, aos pés da imagem da Imaculada aqui, na Praça de Espanha, percorrendo idealmente a peregrinação tantas vezes feita pelos meus Predecessores. Sinto que me acompanham a devoção e o afecto da Igreja que vive nesta cidade de Roma e no mundo inteiro. Trago comigo as preocupações e as esperanças da humanidade deste nosso tempo, e venho colocá-las aos pés da celeste Mãe do Redentor.


Neste dia singular, que recorda o quadragésimo aniversário do encerramento do Concílio Vaticano II, volto com o pensamento ao dia 8 de Dezembro de 1965 quando, precisamente no final da homilia da Celebração eucarística na Praça de São Pedro, o Servo de Deus Paulo VI dirigiu o seu pensamento a Nossa Senhora "a Mãe de Deus e nossa Mãe espiritual... a criatura na qual a imagem de Deus se reflecte com nitidez absoluta, sem perturbação alguma, como acontece ao contrário com cada criatura humana". O Papa depois perguntava: "Não é, porventura, fixando o nosso olhar nesta Mãe e Rainha, espelho nítido e sagrado da infinita Beleza, que pode... começar o nosso trabalho pós-conciliar? Não se torna para nós esta beleza de Maria Imaculada um modelo inspirador? Uma esperança confortadora?". E concluía: "Nós pensamos isto para nós e para vós; esta é a nossa saudação mais nobre e, queira Deus, a mais válida!" (Insegnamenti di Paolo VI, III 1965, p. 746). Paulo VI proclamou Maria "Mãe da Igreja", e a ela confiou para o futuro a fecunda aplicação das decisões conciliares.

Recordando os numerosos acontecimentos que marcaram os quarenta anos transcorridos, como não reviver hoje os vários momentos que distinguiram o caminho da Igreja neste período? Nossa Senhora amparou durante estes quatro decénios os Pastores e, em primeiro lugar, os Sucessores de Pedro no seu exigente ministério ao serviço do Evangelho; guiou a Igreja para a fiel compreensão e aplicação dos documentos conciliares. Por isso, fazendo-me voz de toda a Comunidade eclesial, gostaria de agradecer à Virgem Santíssima e dirigir-me a ela com os mesmos sentimentos que animaram os Padres conciliares, os quais dedicaram precisamente a Maria o último capítulo da Constituição dogmática Lumen gentium, realçando a indescritível relação que une a Virgem à Igreja.

Sim, desejamos agradecer-te, Virgem Mãe de Deus e nossa Mãe amadíssima, pela tua intercessão em favor da Igreja. Tu, que ao aceitar sem hesitações a vontade divina, te consagraste com todas as tuas forças à pessoa e à obra do teu Filho, ensinando-nos a guardar no coração e a meditar em silêncio, como tufizeste,osmistérios da vida de Cristo.

Tu, que fostes até ao Calvário, sempre profundamente unida ao teu Filho, que na cruz te deu como mãe ao discípulo João, faz com que também nós te sintamos sempre próxima a cada passo da nossa existência, sobretudo nos momentos de sombras e de provações.

Tu, que no Pentecostes, juntamente com os Apóstolos em oração, imploraste o dom do Espírito Santo para a Igreja nascente, ajuda-nos a perseverar no seguimento fiel de Cristo. A ti dirigimos com confiança o olhar, em "sinal de esperança certa e de conforto, enquanto não vier o dia do Senhor" (LG 68).

A ti, Maria, invocam com oração insistente os fiéis de todas as partes do mundo para que, glorificada no céu entre os anjos e os santos, intercedas por nós junto do teu Filho "enquanto todas as famílias dos povos, quer as que se distinguem pelo nome cristão, quer as que ainda ignoram o seu Salvador, em paz e concórdia estejam felizmente reunidas num só povo de Deus, para glória da santíssima e indivisível Trindade" (LG 69).

Amém!



AOS MEMBROS DA DELEGAÇÃO


DO CONSELHO METODISTA MUNDIAL


Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2005



Prezado Bispo Mbang
Queridos irmãos em Cristo

É com grande alegria que vos dou as boas-vindas, representantes do Conselho Metodista Mundial, enquanto vos agradeço a vossa visita. Estou profundamente agradecido pela presença e apoio orante dos representantes metodistas no funeral do Papa João Paulo II e na celebração que assinalou a inauguração do meu Pontificado.

Há quarenta anos, nesta semana, o Papa Paulo VI dirigiu-se aos observadores ecuménicos no encerramento do Concílio Vaticano II. Durante este encontro, ele manifestou a esperança de que as diferenças entre os cristãos pudessem ser resolvidas "lenta, gradual, leal e generosamente".

Agora, temos o dever de reflectir sobre as relações amistosas entre católicos e metodistas, e sobre o diálogo paciente e perseverante em que estamos comprometidos. Com efeito, hoje temos muito a agradecer.

Desde 1967, o nosso diálogo abordou temas teológicos prioritários, como: a revelação e a fé, a tradição e a autoridade do ensinamento na Igreja. Nestes esforços, enfrentaram-se com sinceridade as diferentes áreas de diferença. Eles têm demonstrado também um considerável nível de convergência e são dignos de reflexão e de estudo. O nosso diálogo e os numerosos modos de os católicos e metodistas aprenderem a conhecer-se uns aos outros permitiram-nos reconhecer em conjunto alguns daqueles "tesouros cristãos de grande valor". Em várias ocasiões, este reconhecimento tornou-nos capazes de falar em uníssono, ao abordarmos questões sociais e éticas num mundo cada vez mais secularizado.

Senti-me encorajado pela iniciativa que há-de levar as Igrejas-membro do Conselho Metodista Mundial a associarem-se à Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada pela Igreja Católica e pela Federação Luterana Mundial em 1999. Se o Conselho Metodista Mundial viesse a expressar a sua intenção de se associar à mencionada Declaração Conjunta, haveria de contribuir para a purificação e a reconciliação a que aspiramos ardentemente, e constituiria um passo significativo rumo à finalidade estabelecida da plena unidade na fé.

Estimados amigos, sob a guia do Espírito Santo e conscientes da grandiosa e infalível Misericórdia de Deus no mundo inteiro, procuremos fomentar o compromisso recíproco na Palavra de Deus, no testemunho e na oração comum. Enquanto preparamos nos nossos corações e nas nossas mentes para acolher o Senhor neste período de Advento, invoco as abundantes bênçãos de Deus sobre todos vós e sobre os metodistas no mundo inteiro.



AOS RELIGIOSOS, ÀS RELIGIOSAS,


AOS MEMBROS DE INSTITUTOS SECULARES


E DE SOCIEDADES DE VIDA APOSTÓLICA


DA DIOCESE DE ROMA


Sábado, 10 de Dezembro de 2005


Senhor Cardeal
Venerados Irmãos
no Episcopado e no Presbiterado
Queridos irmãos e irmãs!

É para mim uma grande alegria encontrar-me convosco hoje no clima espiritual do Advento, enquanto nos preparamos para o Santo Natal. Saúdo com afecto cada um de vós, religiosos e religiosas, membros de Institutos seculares e de novas formas de vida consagrada, presentes na Diocese de Roma, onde desempenhais um serviço muito apreciado, inserindo-vos bem nas várias realidades sociais e pastorais. Muito obrigado por este vosso sacrifício. Dirijo um pensamento particular a quantos vivem nos mosteiros de vida contemplativa e que estão unidos a nós espiritualmente, assim como às pessoas de vida consagrada provenientes da África, da América Latina e da Ásia, que estudam em Roma ou transcorrem aqui um período da sua existência, participando bastante activamente na missão da Igreja que está na Cidade.

Dirijo uma saudação fraterna ao Cardeal Camillo Ruini, ao qual agradeço as palavras que me dirigiu em nome de todos vós. Desde sempre os consagrados e as consagradas constituem uma presença preciosa na Igreja de Roma, também porque oferecem um testemunho peculiar da unidade e da universalidade do Povo de Deus. Agradeço-vos pelo trabalho que desempenhais na vinha do Senhor, pelo compromisso que assumis ao enfrentar os desafios que a cultura hodierna apresenta à evangelização numa metrópole, como a nossa, que é cosmopolita.

O complexo contexto social e cultural da nossa Cidade na qual vos encontrais a agir exige de vós, além de uma constante atenção às problemáticas locais, uma fidelidade corajosa ao carisma que vos distingue. De facto, desde as origens, a vida consagrada caracterizou-se pela sua sede de Deus: quaerere Deum. Por conseguinte, o vosso anseio primário e supremo seja testemunhar que Deus deve ser ouvido e amado com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças, antes de qualquer outra pessoa e coisa. Esta primazia de Deus, precisamente no nosso tempo no qual há grande ausência de Deus, é muitíssimo importante. Não tenhais medo de vos apresentar também visivelmente, como pessoas consagradas, e procurai manifestar de todas as formas a vossa pertença a Cristo, o tesouro escondido pelo qual deixastes tudo. Fazei vosso o conhecido mote programático de s. Bento: "Nada seja anteposto ao amor de Cristo".

Sem dúvida são numerosos os desafios e as dificuldades que encontrais hoje, estando comprometidos em várias frentes. Nas vossas residências e nas obras apostólicas estais bem inseridos nos programas da Diocese colaborando como disse o Cardeal Ruini nos vários ramos da acção pastoral, graças também à ligação que os órgãos de representação da vida consagrada fazem, como a Conferência Italiana dos Superiores Maiores e a União das Superioras Maiores da Itália, o Grupo Institutos Seculares e o Ordo Virginum. Prossegui por este caminho fortalecendo a vossa fidelidade aos compromissos assumidos, ao carisma de cada um dos vossos Institutos e às orientações da Igreja local. Vós sabeis que esta fidelidade é possível quando somos fiéis às pequenas, mas insubstituíveis, fidelidades quotidianas: antes de tudo, fidelidade à oração e à escuta da Palavra de Deus; fidelidade ao serviço dos homens e das mulheres do nosso tempo, segundo o próprio carisma; fidelidade ao ensinamento da Igreja, a partir do ensinamento sobre a vida consagrada; fidelidade aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia, que nos amparam nas situações difíceis da vida, dia após dia.

Depois, a vida comunitária é parte constitutiva da vossa missão. Comprometendo-vos a realizar comunidades fraternas, demonstrais que, graças ao Evangelho, também os relacionamentos humanos podem mudar, que o amor não é uma utopia, mas, ao contrário, é o segredo para construir um mundo mais fraterno. O livro dos Actos dos Apóstolos, depois da descrição da fraternidade realizada na comunidade dos cristãos, realça, quase como consequência lógica, que a "a palavra de Deus ia-se espalhando cada vez mais; o número dos discípulos aumentava consideravelmente" (Ac 6,7). A difusão da Palavra é a bênção que o Dono da messe dá à comunidade que leva a sério o seu compromisso por fazer crescer a caridade na fraternidade.
Queridos irmãos e irmãs, a Igreja tem necessidade do vosso testemunho, precisa de uma vida consagrada que enfrente com coragem e criatividade os desafios do tempo presente. Face ao progredir do hedonismo, é-vos pedido o testemunho corajoso da castidade, como expressão de um coração que conhece a beleza e o preço do amor de Deus. Face à sede de dinheiro, hoje amplamente dominante, a vossa vida sóbria e pronta para o serviço dos mais necessitados recorda que Deus é a riqueza verdadeira que não perece. Face ao individualismo e ao relativismo, que induzem as pessoas a serem a única normativa de si mesmas, a vossa vida fraterna, capaz de se deixar coordenar e, portanto, capaz de obediência, confirma que vós pondes em Deus a vossa realização. Como deixar de desejar que a cultura dos conselhos evangélicos, que é a cultura das Bem-aventuranças, cresça na Igreja, para apoiar a vida e o testemunho do povo cristão?

O Decreto conciliar Perfectae caritatis, do qual este ano comemoramos o quadragésimo aniversário de promulgação, afirma que as pessoas consagradas "dão testemunho diante de todos os cristãos daquele admirável consórcio estabelecido por Deus e que se há-de manifestar plenamente na vida futura, pelo qual a Igreja tem a Cristo por seu único esposo" (PC 12). A pessoa consagrada vive no seu tempo, mas o seu coração está projectado para além do tempo e testemunha ao homem contemporâneo, com frequência absorvido pelas coisas do mundo, que o seu verdadeiro destino é o próprio Deus.

Obrigado, amados irmãos e irmãs, pelo serviço que prestais ao Evangelho, pelo vosso amor aos pobres e aos sofredores, pelo vosso esforço no campo da educação e da cultura, pela incessante oração que se eleva dos mosteiros, pela multiforme actividade que desempenhais. A Virgem Santa, modelo de vida consagrada, vos acompanhe e vos ampare para que possais ser para todos "sinal profético" do reino dos céus. Garanto-vos a minha recordação na oração e abençoo-vos a todos de coração.



Bento XVI Discursos 2005