Bento XVI Discursos 2006


AOS PARTICIPANTES NO CONGRESSO PROMOVIDO


PELO PARTIDO POPULAR EUROPEU


Quinta-feira, 30 de Março de 2006



Ilustres Parlamentares
Senhoras e Senhores!

Sinto-me feliz em receber-vos por ocasião dos Dias de Estudo sobre a Europa organizados pelo vosso grupo parlamentar. Os Pontífices Romanos prestaram sempre uma especial atenção a este Continente. Por conseguinte, a audiência de hoje é oportuna e insere-se numa longa série de encontros entre os meus predecessores e os movimentos políticos de inspiração cristã. Agradeço ao Deputado Pöttering as palavras que me dirigiu em vosso nome e manifesto-lhe, assim como a todos vós, as minhas cordiais saudações.

Actualmente a Europa deve enfrentar questões complexas de grande importância, como o crescimento e o desenvolvimento da integração europeia, a definição cada vez mais completa da política de proximidade no seio da União e o debate do seu modelo social. Para alcançar estes objectivos, será importante inspirar-se, com fidelidade criativa, na herança cristã que contribuiu de modo particular para forjar a identidade deste continente. Valorizando as suas raízes cristãs, a Europa será capaz de oferecer uma orientação segura às opções dos seus cidadãos e das suas populações, fortalecendo a sua consciência de pertencer a uma civilização comum, e alimentará o compromisso de todos para enfrentar os desafios do presente para o bem e para um futuro melhor.

Portanto, aprecio o reconhecimento, da parte do vosso grupo, da herança cristã da Europa que oferece orientações éticas preciosas para a busca de um modelo social que satisfaça adequadamente as exigências de uma economia já globalizada e responda às mudanças demográficas, garantindo crescimento e progresso, tutela da família, iguais oportunidades na instrução dos jovens e solicitude pelos pobres.

Além disso, o vosso apoio à herança cristã pode contribuir de modo significativo para derrubar aquela cultura tão difundida na Europa que limita na esfera privada e subjectiva a manifestação das próprias convicções religiosas. As políticas elaboradas partindo desta base não só implicam o repúdio do papel público do cristianismo, mas, mais em geral, excluem o compromisso com a tradição religiosa da Europa, que é tão clara apesar das suas variedades confessionais, ameaçando desta forma a própria democracia, cujo vigor depende dos valores que promove (cf. Evangelium vitae EV 70). A partir do momento que esta tradição, precisamente no que podemos definir a sua união polifónica, transmite valores que são fundamentais para o bem da sociedade, a União Europeia só pode receber um enriquecimento do compromisso com ela. Seria um sinal de imaturidade, ou até de debilidade, optar por se opor a ela ou por ignorá-la, em vez de dialogar com ela. Neste contexto, é necessário reconhecer que uma certa intransigência secular demonstra ser inimiga da tolerância e de uma visão sadia da sociedade. Portanto, sinto-me feliz pelo facto de o tratado constitucional da União Europeia prever uma relação estruturada e permanente com as comunidades religiosas, reconhecendo-lhes a sua identidade e o seu contributo específico.

Sobretudo, tenho esperança de que a realização eficaz e correcta deste relacionamento comece agora, com a cooperação de todos os movimentos políticos independentemente das suas orientações. É preciso não esquecer que, quando as Igrejas ou comunidades eclesiais intervêm no debate público, manifestando dúvidas ou recordando certos princípios, com isso constitui uma forma de intolerância ou uma interferência porque tais intervenções são unicamente destinadas a iluminar as consciências, permitindo que elas se movam livre e responsavelmente segundo as exigências autênticas de justiça, mesmo quando isso pudesse entrar em conflito com situações de poder e com interesses pessoais.

No que se refere à Igreja Católica, o interesse principal das suas intervenções no campo público é a tutela e a promoção da dignidade da pessoa e, por conseguinte, ela chama conscientemente a uma particular atenção aos princípios que não são negociáveis. Entre eles, hoje emergem os seguintes:

tutela da vida em todas as suas fases, desde o primeiro momento da concepção até à morte natural;
reconhecimento e promoção da estrutura natural da família, como união entre um homem e uma mulher baseada no matrimónio, e a sua defesa das tentativas de a tornar juridicamente equivalente a formas de uniões que, na realidade, a danificam e contribuem para a sua desestabilização, obscurecendo o seu carácter particular e o seu papel social insubstituível;
tutela do direito dos pais de educar os próprios filhos.

Estes princípios não são verdades de fé mesmo se recebem ulterior luz e confirmação da fé. Eles estão inscritos na natureza humana e, portanto, são comuns a toda a humanidade. A acção da Igreja de os promover não assume, por conseguinte, um carácter confessional, mas dirige-se a todas as pessoas, prescindindo da sua filiação religiosa. Ao contrário, esta acção é tanto mais necessária quanto mais estes princípios forem negados ou mal compreendidos porque isto constitui uma ofensa contra a verdade da pessoa humana, uma grave ferida infligida à própria justiça.

Queridos amigos, ao exortar-vos a ser testemunhas críveis e coerentes destas verdades fundamentais através da vossa actividade política e mais basilarmente através do vosso compromisso de levar uma vida autêntica e coerente, invoco sobre vós e sobre a vossa obra a permanente assistência de Deus, em cujo nome concedo a minha Bênção Apostólica a vós e a quantos vos acompanham.

PALAVRAS DO PAPA BENTO XVI

NO FINAL DA PROJECÇÃO DO FILME

"KAROL, UM PAPA QUE PERMANECEU HOMEM"


Quinta-feira, 30 de Março de 2006

Senhores Cardeais

Queridos Irmãos
no Episcopado e no Presbiterado
Ilustres Senhores e Senhoras!

Enquanto permanecem fixas na mente e no coração as imagens desta interessante reproposição do Pontificado de João Paulo II, dirijo o meu cordial pensamento a quantos contribuíram para a realização do filme, cujo título significativo é "Karol, um Papa que permaneceu homem". Esta tarde vivemos as emoções sentidas em Maio do ano passado, quando, pouco tempo depois da morte do amado Pontífice, assistimos, nesta mesma sala, à projecção da primeira parte do filme.

Estou grato ao cineasta e cenógrafo Giacomo Battiato, e aos seus colaboradores, que com sábia mestria nos repropuseram os momentos centrais do ministério apostólico do meu venerado Predecessor; um profundo obrigado àquele que, no papel de protagonista, tornou o seu rosto vivo, o actor Piotr Adamczyk, assim como aos outros intérpretes; desejo expressar um sincero agradecimento ao produtor Pietro Valsecchi e aos dirigentes, aqui presentes, das Casas de Produção Taodue e Mediaset.

Com esta segunda parte do filme conclui-se a narração da vicissitude terrena do amado Pontífice. Ouvimos de novo o apelo inicial do seu Pontificado que ressoou tantas vezes ao longo dos anos: "Abri as portas a Cristo! Não tenhais medo!". A sucessão das imagens mostrou-nos um Papa imerso no contacto com Deus e precisamente por isto, sempre sensível às expectativas dos homens. O filme fez-nos pensar idealmente nas suas viagens apostólicas a todas as partes do mundo; deu-nos a oportunidade de reviver os seus encontros com tantas pessoas, com os Grandes da terra e com os simples cidadãos, com personagens ilustres e com pessoas desconhecidas. Entre todos, merece uma menção especial o abraço a Madre Teresa de Calcutá, ligada a João Paulo II por uma profunda sintonia espiritual. Petrificados, como se estivéssemos presentes, ouvimos de novo os tiros do trágico atentado na Praça de São Pedro a 13 de Maio de 1981. Desse conjunto de imagens emergiu novamente a figura de um incansável profeta de esperança e de paz, que percorreu os caminhos do mundo para comunicar o Evangelho a todos. Voltaram à mente as suas palavras vibrantes para condenar a opressão de regimes totalitários, a violência homicida e a guerra; palavras cheias de conforto e de esperança para manifestar proximidade aos familiares das vítimas de conflitos e de dramáticos atentados, como o atentado às Torres Gémeas de Nova Iorque; palavras de coragem e de denúncia da sociedade consumista e da cultura hedonista, obcecada pela construção de um bem-estar simplesmente material que não pode satisfazer as profundas expectativas do coração humano.

Eis os pensamentos que surgem espontâneos do coração esta tarde, e que quis partilhar convosco, queridos irmãos e irmãs, repercorrendo, ajudado pelas sequências deste filme, as fases do Pontificado do inesquecível João Paulo II. Que o amado Pontífice nos acompanhe do alto e nos obtenha do Senhor a graça de sermos, como ele, sempre fiéis à nossa missão. Concedo a todos vós aqui presentes e às pessoas que vos são queridas a minha Bênção.





                                                              Abril 2006









AOS PARTICIPANTES NO SEMINÁRIO PROMOVIDO


PELA CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA


Sábado, 1 de Abril de 2006

Senhor Cardeal

Venerados Irmãos
no Episcopado e no Sacerdócio
Ilustres Senhores e gentis Senhoras

Estou feliz por vos receber e saúdo cordialmente todos vós que participais no Seminário sobre o tema: "O património cultural e os valores das Universidades europeias como base para a atractividade do "Espaço Europeu de Educação Superior"". Vós vindes de cerca de cinquenta países europeus, aderentes ao chamado "Processo de Bolonha", para o qual também a Santa Sé ofereceu a sua contribuição. Saúdo o Cardeal Zenon Grocholewski, Prefeito da Congregração para a Educação Católica, que em vosso nome me dirigiu palavras de amável deferência, explicando-me ao mesmo tempo as finalidades da vossa reunião; estou-lhe grato por ter organizado este encontro no Vaticano, em colaboração com a Conferência dos Reitores das Universidades Pontifícias, com a Pontifícia Academia das Ciências, com a UNESCO-CEPES, com o Conselho da Europa e com o patrocínio da Comissão Europeia. Transmito uma saudação especial aos Senhores Ministros e aos Representantes dos vários Organismos internacionais que quiseram estar presentes.

Durante estes dias, a vossa reflexão centrou-se na contribuição que as Universidades europeias, enriquecidas pela sua longa tradição, são capazes de oferecer para a construção da Europa do terceiro milénio, tendo em consideração o facto de que cada realidade cultural é memória do passado e, ao mesmo tempo, projecto para o futuro. Para esta reflexão, a Igreja tenciona oferecer a sua contribuição, como já fez ao longo dos séculos.

Efectivamente, tem sido constante a sua solicitude pelos Centros de estudo e pelas Universidades da Europa que, com "o serviço do pensamento", transmitiram e continuam a legar às jovens gerações os valores de um peculiar património cultural, enriquecido por dois milénios de experiência humanista e cristã (cf. Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Europa, 59). Nos primórdios teve uma influência considerável o monaquismo, cujos méritos, além dos âmbitos espiritual e religioso, se estendem aos sectores económico e intelectual. Na época de Carlos Magno, com a contribuição da Igreja foram fundadas verdadeiras e próprias escolas, das quais o imperador desejava que beneficiasse o maior número possível de pessoas.

Alguns séculos mais tarde nasceu a Universidade, que da Igreja recebeu um impulso essencial. Da Universidade de Bolonha à de Paris, Cracóvia, Salamanca, Colónia, Oxford e Praga, para citar apenas algumas delas, desenvolveram-se rapidamente numerosas Universidades europeias e desempenharam um papel importante na consolidação da identidade da Europa e na formação do seu património cultural. As instituições universitárias distinguiram-se sempre pelo seu amor à sabedoria e à busca da verdade, como verdadeira finalidade da Universidade, com uma referência constante à visão cristã, que reconhece no homem a obra-prima da criação, dado que foi feito à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26-27). Uma das características desta visão foi sempre a convicção de que existe uma profunda unidade entre a verdade e o bem, entre os olhos da mente e os olhos do coração: "Ubi amor, ibi oculos", dizia Ricardo de São Vítor (cf. Beniamin minor, c. 13): o amor faz ver. A Universidade nasceu do amor pelo saber, da curiosidade de conhecer, de descobrir o que é o mundo, o homem. Todavia, também de um saber que leva ao agir e, em última análise, que conduz ao amor.

Ilustres Senhores e gentis Senhoras, ao dirigir um rápido olhar ao "velho" continente, é fácil constatar quais são os desafios culturais que hoje a Europa está a enfrentar, uma vez que está comprometida na redescoberta da sua identidade, que não é apenas de ordem económico-política. A questão fundamental, tanto hoje como ontem, permanece a antropológica. O que é o homem?

De onde provém? Aonde deve ir? Como deve ir? Isto é, trata-se de esclarecer qual é a concepção do homem que se encontra na base dos novos projectos. E, justamente, vós perguntais ao serviço de que homem, de que imagem do homem a Universidade deseja colocar-se: de um indivíduo fechado na defesa exclusiva dos seus próprios interesses, de uma única perspectiva de interesses, de uma perspectiva materialista, ou de uma pessoa aberta à solidariedade para com o próximo, na busca do verdadeiro sentido da existência, que deve ser um sentido comum, que transcende as pessoas individualmente? Além disso, interrogais-vos sobre qual é a autêntica relação entre a pessoa humana, a ciência e a técnica.

Se nos séculos XIX-XX a técnica conheceu um crescimento extraordinário, no início deste século XXI foram dados outros passos igualmente importantes: graças à informática, o desenvolvimento tecnológico assumiu também uma parte das nossas actividades mentais, com consequências que comprometem o nosso modo de pensar e podem condicionar a nossa própria liberdade. É necessário dizer com determinação que o ser humano nunca pode, nem deve, ser sacrificado aos êxitos da ciências e da técnica: eis por que motivo se manifesta em toda a sua importância a chamada questão antropológica que, para nós, herdeiros de uma tradição humanista fundamentada sobre os valores cristãos, deve ser enfrentada à luz dos princípios inspiradores da nossa civilização, que puderam encontrar nas Universidades europeias autênticos laboratórios de investigação e de aprofundamento.

"Da concepção bíblica do homem, a Europa tirou o melhor da sua cultura humanista observava João Paulo II, na sua Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Europa e... promoveu a dignidade da pessoa, fonte de direitos inalienáveis" (n. 25). Desta forma a Igreja acrescentava o meu venerado Predecessor contribuiu para difundir e consolidar os valores que tornaram universal a cultura europeia. Todavia, o homem não pode compreender-se a si mesmo de maneira plena, se prescindir de Deus.

É por este motivo que a dimensão religiosa da existência humana não pode ser descuidada, no momento em que se começa a construção da Europa do terceiro milénio. Aqui sobressai o papel peculiar das Universidades como universo científico, e não apenas como um conjunto de diferentes especializações: na situação actual, pede-se-lhes que não se contentem com instruir, com transmitir conhecimentos técnicos e profissionais, que são muito importantes mas insuficientes, mas que se comprometam também no desempenho de uma atenta função educativa ao serviço das novas gerações, fazendo apelo ao património de ideais e de valores que caracterizaram os séculos passados. Deste modo, a Universidade poderá ajudar a Europa a conservar e a reencontrar a sua "alma", revitalizando as raízes cristãs que lhe deram origem.

Ilustres Senhores e gentis Senhoras, Deus torne fecundo o trabalho que levais a cabo e os esforços que envidais em benefício de numerosos jovens, em quem está depositada a esperança da Europa. Acompanho estes bons votos com a certeza de uma oração especial por cada um de vós, enquanto imploro sobre todos a Bênção divina.



PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DA MORTE

DO SERVO DE DEUS JOÃO PAULO II

PALAVRAS DO PAPA BENTO XVI

NA VIGÍLIA DE ORAÇÃO


Domingo, 2 de Abril de 2006

Queridos irmãos e irmãs!


Encontramo-nos esta tarde, no primeiro aniversário da morte do amado Papa João Paulo II, para esta vigília mariana organizada pela Diocese de Roma. Saúdo com afecto todos vós aqui presentes na Praça de São Pedro, começando pelo Cardeal Vigário Ruini e pelos Bispos Auxiliares, com um pensamento especial para os Cardeais, os Bispos, os sacerdotes, os religiosos e todos os fiéis leigos, particularmente os jovens. Na verdade, é toda a cidade de Roma que está aqui simbolicamente reunida para este emocionante momento de reflexão e de oração. Dirijo uma saudação especial ao Cardeal Stanislaw Dziwisz, Arcebispo Metropolitano de Cracóvia, em ligação televisiva connosco, que durante muitos anos foi fiel colaborador do saudoso Pontífice. Já transcorreu um ano depois da morte do Servo de Deus João Paulo II, que se verificou quase nesta mesma hora eram 21.37h mas a sua memória continua a estar viva como nunca, como testemunham as numerosas manifestações programadas nestes dias, em todas as partes do mundo. Ele continua a estar presente na nossa mente e no nosso coração; continua a comunicar-nos o seu amor a Deus e o seu amor ao homem; continua a suscitar em todos, sobretudo nos jovens, o entusiasmo do bem e a coragem de seguir Jesus e os seus ensinamentos.

Como resumir a vida e o testemunho evangélico deste grande Pontífice? Poderia tentar fazê-lo, usando duas palavras: "fidelidade" e "dedicação", fidelidade total a Deus e dedicação sem limites à própria missão de Pastor da Igreja universal. Fidelidade e dedicação que se mostraram ainda mais persuasivas e comovedoras nos últimos meses, quando encarnou em si quanto escreveu em 1984 na Carta apostólica Salvifici doloris: "O sofrimento está presente no mundo para desencadear o amor, para fazer nascer obras de amor para com o próximo, para transformar toda a civilização humana na "civilização do amor"" (n. 30). A sua doença enfrentada com coragem fez com que todos se tornassem mais atentos ao sofrimento humano, a cada sofrimento físico e espiritual; deu ao sofrimento dignidade e valor, testemunhando que o homem não vale pela sua eficiência, pelo seu aparecer, mas por si mesmo, porque é criado e amado por Deus. Com as palavras e com os gestos o querido João Paulo II não se cansou de indicar ao mundo que se o homem se deixa abraçar por Cristo, não mortifica a riqueza da sua humanidade; se adere a Ele com todo o coração, nada lhe faltará. Ao contrário, o encontro com Cristo torna a nossa vida mais apaixonante. Precisamente porque se aproximou cada vez mais de Deus na oração, na contemplação, no amor à Verdade e à Beleza, o nosso amado Papa pôde tornar-se companheiro de viagem de cada um de nós e falar com autoridade também a quantos andavam afastados da fé cristã.

No primeiro aniversário do seu regresso à Casa do Pai somos convidados esta noite a acolher de novo a herança espiritual que ele nos deixou; somos estimulados, entre outras coisas, a viver procurando incansavelmente a Verdade, a única que satisfaz o nosso coração. Somos encorajados a não ter receio de seguir Cristo, para levar a todos o anúncio do Evangelho, que é fermento de uma humanidade mais fraterna e solidária. João Paulo II nos ajude do céu a prosseguir o nosso caminho, permanecendo discípulos de Jesus para sermos, como ele mesmo gostava de repetir aos jovens, "sentinelas da manhã" neste início do terceiro milénio cristão. Por isso invocamos Maria, a Mãe do Redentor, em relação à qual ele sentiu sempre uma terna devoção.

Dirijo-me agora aos fiéis que da Polónia estão sintonizados connosco.

Unamo-nos espiritualmente com os polacos que se reuniram em Cracóvia, em Varsóvia e nos outros lugares para a vigília. Está viva em nós a recordação de João Paulo II e não desaparece a sensação da sua presença espiritual. A recordação do amor especial que sentia pelos seus concidadãos seja sempre para vós a luz no caminho para Cristo. "Permanecei fortes na fé". Abençoo-vos de coração.

Agora, concedo a todos de coração a minha Bênção.







AOS BISPOS DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL


DA COSTA DO MARFIM EM VISITA


"AD LIMINA APOSTOLORUM"


Segunda-feira, 3 de Abril de 2006

Senhor Cardeal

Amados Irmãos no Episcopado

É com alegria que vos recebo nestes dias em que realizais a vossa visita ad limina Apostolorum, manifestando desta forma o vosso vínculo indefectível com o Sucessor de Pedro e com a Igreja universal. De facto, o Bispo que "é princípio visível e fundamento da unidade na própria Igreja particular, é também o laço visível da comunhão eclesiástica entre a sua Igreja particular e a Igreja universal" (Pastores gregis, ). Agradeço ao Presidente da vossa Conferência Episcopal, D. Laurent Aktan Mandjo, as amáveis palavras que me dirigiu em vosso nome, traçando um amplo panorama da situação da Igreja na Costa do Marfim. Quando regressardes, transmiti a todos as saudações calorosas do Papa e a certeza da sua oração fervorosa para que a vossa nação reencontre a unidade e a paz numa fraternidade autêntica entre todos os seus filhos.

De facto, a crise que o vosso País está a atravessar infelizmente deu origem a divisões que constituem uma ferida profunda nos relacionamentos entre os diferentes componentes da sociedade. As violências a que essa situação deu origem causaram um atentado à confiança entre as pessoas e à estabilidade do País, deixando atrás de si numerosos sofrimentos que são difíceis de curar. O restabelecimento de uma paz verdadeira só será possível através do perdão generosamente concedido e da reconciliação efectivamente realizada entre todas as pessoas e entre os grupos envolvidos. Para obter isto, todas as partes em causa devem aceitar prosseguir corajosamente o diálogo, a fim de examinar profunda e lealmente as causas que levaram à situação actual e para encontrar os meios de alcançar uma solução aceitável para todos, na justiça e na verdade. O caminho da paz é longo e difícil, mas nunca é impossível.

Amados irmãos no Episcopado, neste esforço comum, os católicos assumiram o seu lugar, porque eles nunca podem permanecer indiferentes à construção de um mundo reconciliado. Eles têm a responsabilidade de contribuir para estabelecer relacionamentos harmoniosos e fraternos entre as pessoas e entre as comunidades. Para que a realização plena deste objectivo seja crível, é necessário em primeiro lugar restabelecer a confiança entre os discípulos de Jesus, apesar das divergências de opinião que podem manifestar-se entre eles. Pois, é antes de tudo no interior da Igreja que deve ser vivido um amor autêntico, na unidade e na reconciliação, seguindo assim o ensinamento do Senhor: "Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros" (Jn 13,35). Por conseguinte, compete aos cristãos deixarem-se transformar pela força do Espírito, a fim de serem verdadeiras testemunhas do amor do Pai, que quer fazer de todos os homens uma única família. A sua actividade, que os estimula a ir ao encontro dos sofrimentos e das necessidades dos seus irmãos, constituirá a sua expressão mais convincente.

Nas vossas Igrejas diocesanas, face às tensões políticas, Bispos, sacerdotes e pessoas consagradas devem ser para todos modelos de fraternidade e de caridade, e contribuir mediante as suas palavras e comportamentos para a edificação de uma sociedade unida e reconciliada.

Nesta perspectiva, a formação inicial e permanente dos sacerdotes será cada vez mais uma das vossas preocupações primárias. Para enfrentar as situações difíceis do mundo de hoje, e sobretudo para permitir que o sacerdote edifique plenamente o seu ser sacerdotal, esta formação conferirá um lugar fundamental à vida espiritual. De facto, o sacerdote tem por missão ajudar os fiéis a descobrir o mistério de Deus e a abrir-se aos outros. Para esta finalidade, está chamado a ser um autêntico pesquisador de Deus, permanecendo contudo próximo das preocupações dos homens. Uma vida espiritual intensa, que lhe permita entrar mais profundamente em comunhão com o Senhor, ajudá-lo-á a deixar-se possuir pelo amor de Deus, a fim de poder anunciar aos homens que este amor nunca se detém. Por outro lado, vivendo fielmente a castidade no celibato, o sacerdote manifestará que todo o seu ser é doação de si mesmo a Deus e aos irmãos. Por conseguinte, convido-vos a vigiar com solicitude paterna sobre os vossos sacerdotes, para favorecer a unidade e a vida fraterna entre eles. Que eles encontrem em vós um irmão que os ouve, que os ampara nos momentos difíceis, e um pai que os encoraja a progredir na sua vida pessoal e no anúncio do Evangelho!

Nos vossos relatórios quinquenais, ressaltastes a urgência da formação dos leigos. De facto, o aprofundamento da fé é uma necessidade, a fim de poder resistir ao recomeçar de práticas ancestrais ou às solicitações das seitas e, sobretudo, para explicar a razão da esperança cristã num mundo complexo que conhece problemas novos e graves. Encorajo-vos principalmente a dar aos catequistas, com os quais me congratulo pela dedicação ao serviço da Igreja, uma formação sólida que os torne capazes de assumir a missão que lhes está confiada, vivendo a sua fé de uma forma coerente. Os fiéis, particularmente os que estão comprometidos nos âmbitos intelectuais, políticos, económicos, encontrarão no Compêndio da Doutrina Social da Igreja um instrumento fundamental de formação e de evangelização, em vista do seu crescimento humano e espiritual, e da sua missão no mundo.

Para que a Igreja seja um sinal cada vez mais compreensível daquilo que ela é e para que se adapte à sua missão, o trabalho de inculturação da fé é uma necessidade. Este processo, tão importante para o anúncio do Evangelho a todas as culturas, não deve comprometer a especificidade e a integridade da fé, mas deve ajudar os cristãos a compreenderem e a viverem melhor a mensagem evangélica na sua própria cultura, isto é, a renunciar às práticas que estão em contradição com os compromissos baptismais. Como mencionastes nos vossos relatórios, o peso da mentalidade tradicional, com frequência, constitui um obstáculo ao acolhimento do Evangelho. Assim, entre as numerosas questões que são apresentadas aos fiéis, a do compromisso no sacramento do matrimónio é um dos mais importantes. A poligamia ou a coabitação de facto sem celebração religiosa constituem com frequência impedimentos graves. Portanto, é necessário prosseguir incessantemente o esforço que empreendestes para fazer aceitar melhor, sobretudo aos jovens, que o matrimónio é, para o cristão, um caminho de santidade: "Por isso, o matrimónio exige um amor indissolúvel; graças a esta sua estabilidade, pode contribuir eficazmente para realizar em plenitude a vocação baptismal dos esposos" (Ecclesia in Africa, ).

Por fim, gostaria de realçar com interesse o desenvolvimento nas vossas dioceses de movimentos eclesiais, que contribuem para dar um renovado estímulo missionário às comunidades cristãs. Convido os membros desses grupos a aprofundar cada vez mais o seu conhecimento pessoal de Cristo para se oferecerem generosamente a Ele, permanecendo profundamente enraizados na fé da Igreja. Todavia, estes movimentos devem constituir o objecto de um discernimento esclarecido e constante da parte dos Bispos, para garantir a eclesialidade do seu caminho e manter uma comunhão autêntica com a Igreja universal e diocesana.

Queridos Irmãos no Episcopado, ao terminar este encontro, gostaria de vos reconfirmar o afecto do Sucessor de Pedro pelo povo costa-marfinense, dirigindo-lhes de novo com insistência "um convite a prosseguir pelo caminho do diálogo construtivo, em vista da reconciliação e da paz" (Angelus, 22 de Janeiro de 2006). Confio todos vós à intercessão de Nossa Senhora, Rainha da paz, assim como os sacerdotes, os religiosos, as religiosas, os catequistas e todos os vossos diocesanos. Concedo-vos, de coração, a Bênção Apostólica.



ENCONTRO DE BENTO XVI


COM OS JOVENS DE ROMA E DO LÁCIO


EM PREPARAÇÃO PARA


A XXI JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE


Quinta-feira, 6 de Abril 2006

1. Santidade, chamo-me Simone, pertenço à paróquia de São Bartolomeu, tenho 21 anos e estudo engenharia química na Universidade "La Sapienza" de Roma.


Antes de mais, agradeço por nos ter enviado a Mensagem para a XXI Jornada Mundial da Juventude sobre o tema da Palavra de Deus que ilumina os passos da vida do homem. Perante as ansiedades, as incertezas do futuro, e também quando enfrento simplesmente a rotina da vida quotidiana, também eu sinto a necessidade de me alimentar da Palavra de Deus e de conhecer melhor Cristo e assim encontrar respostas para as minhas perguntas. Com frequência me interrogo sobre o que faria Jesus se estivesse no meu lugar numa determinada situação, mas nem sempre consigo compreender o que a Bíblia me diz. Além disso sei que os livros da Bíblia foram escritos por diversos homens, em épocas diversas e todas muito distantes da minha. Como posso reconhecer que aquilo que leio é Palavra de Deus que interpela a minha vida? Obrigado.

Respondo realçando um primeiro ponto: antes de tudo, é preciso dizer que se deve ler a Sagrada Escritura não como um livro histórico qualquer, como lemos, por exemplo, Homero, Ovídio, Horácio; é preciso lê-la realmente como Palavra de Deus, isto é, colocando-se em diálogo com Deus. Inicialmente deve-se rezar, falar com o Senhor: "Abre-me a porta". É quanto diz com frequência Santo Agostinho nas suas homilias: "Bati à porta da tua Palavra para encontrar finalmente o que o Senhor me quer dizer". Isto parece-me um ponto muito importante. Não se lê a Escritura num clima académico, mas rezando e dizendo ao Senhor: "Ajuda-me a compreender a tua Palavra, o que agora tu me queres dizer nesta página".

O segundo ponto é: a Sagrada Escritura introduz na comunhão com a família de Deus. Por conseguinte, não se pode ler sozinhos a Sagrada Escritura. Não há dúvida de que é sempre importante ler a Bíblia de modo muito pessoal, num diálogo pessoal com Deus, mas ao mesmo tempo é importante lê-la na companhia de pessoas com as quais se caminha. Deixar-se ajudar pelos grandes mestres da "Lectio divina". Temos, por exemplo, tantos livros do Cardeal Martini, um verdadeiro mestre da "Lectio divina", que ajuda a entrar no coração da Sagrada Escritura. Ele conhece bem todas as circunstâncias históricas, todos os elementos característicos do passado, mas procura abrir sempre a porta para mostrar que aparentemente palavras do passado também são palavras do presente. Estes mestres ajudam-nos a compreender melhor e também a aprender como ler bem a Sagrada Escritura. Depois, em geral, é oportuno lê-la também em companhia dos amigos que estão a caminho connosco e procuram, juntos, o modo de viver com Cristo, qual deve ser a vida que nos vem da Palavra de Deus.

O terceiro ponto: se é importante ler a Sagrada Escritura ajudados pelos mestres, acompanhados pelos amigos, pelos companheiros de caminhada, é importante em particular lê-la na grande companhia do Povo de Deus peregrino, isto é, na Igreja. A Sagrada Escritura tem dois sujeitos. Antes de tudo, o sujeito divino: é Deus que fala. Mas Deus quis envolver o homem na sua Palavra. Enquanto os muçulmanos têm a convicção de que o Alcorão seja inspirado verbalmente por Deus, nós cremos que a Sagrada Escritura se caracteriza como dizem os teólogos pela "sinergia", a colaboração de Deus com o Homem. Ele envolve o seu Povo com a sua palavra e assim o segundo sujeito o primeiro sujeito, como disse, é Deus é humano. Nela há escritores individuais, mas também a continuidade de um sujeito permanente o Povo de Deus que caminha com a Palavra de Deus e está em diálogo com Deus. Ouvindo Deus, aprende-se a ouvir a Palavra de Deus e depois também a interpretá-la. E assim a Palavra de Deus torna-se presente, porque as pessoas morrem, mas o sujeito vital, o Povo de Deus, está sempre vivo, e é idêntico ao longo dos milénios: é sempre o mesmo sujeito vivente, no qual vive a Palavra.

Explicam-se assim também muitas estruturas da Sagrada Escritura, sobretudo a chamada "releitura". Um texto antigo é lido de novo noutro livro, digamos 100 anos mais tarde, e então o que ainda não era compreensível naquele momento precedente é compreendido em profundidade, mesmo se já estava contido no texto precedente. E volta a ser lido de novo mais tarde, e de novo se compreendem outros aspectos, outras dimensões da Palavra, e assim nesta permanente releitura e reescritura no contexto de uma continuidade profunda, enquanto se sucediam os tempos da expectativa, a Sagrada Escritura cresceu. Por fim, com a vinda de Cristo e com a experiência dos Apóstolos a Palavra tornou-se definitiva, de forma que não podem haver mais reescrituras, mas continuam a ser necessários novos aprofundamentos da nossa compreensão. O Senhor disse: "O Espírito Santo introduzir-vos-á numa profundidade que agora não podeis ter". Por conseguinte, a comunhão da Igreja é o sujeito vivo da Escritura. Mas também agora o sujeito é o próprio Senhor, o qual continua a falar na Escritura que temos nas mãos. Penso que devemos aprender estes três elementos: ler em diálogo pessoal com o Senhor; ler acompanhados por mestres que têm a experiência da fé, que entraram na Sagrada Escritura; ler na grande companhia da Igreja, em cuja Liturgia estes acontecimentos se tornam sempre de novo presentes, na qual o Senhor fala agora connosco, para que, lentamente entremos cada vez mais na Sagrada Escritura, na qual Deus fala realmente connosco, hoje.

2. Santo Padre, chamo-me Anna, tenho 19 anos, estudo Letras e pertenço à Paróquia de Santa Maria do Carmelo.

Um dos problemas com os quais me deparo com mais frequência é o afectivo. Em maior medida temos dificuldade em amar. Sim, dificuldade: porque é fácil confundir o amor com o egoísmo, sobretudo hoje, quando grande parte da mídia quase nos impõe uma visão da sexualidade individualista, secularizada, onde tudo parece ser lícito, e tudo é concedido em nome da liberdade e da consciência dos indivíduos. A família fundada no matrimónio parece ser apenas uma invenção da Igreja, para não falar, depois, das relações pré-matrimoniais, cuja proibição é considerada, até por muitos de nós, crentes, incompreensível ou fora do tempo... Sabendo bem que muitos de nós procuramos viver responsavelmente a nossa vida afectiva, pode ilustrar-nos o que nos quer dizer em relação a isto a Palavra de Deus? Obrigada.

Trata-se de uma grande questão e responder em poucos minutos certamente não é possível, mas procuro dizer alguma coisa. A própria Anna já deu algumas respostas quando disse que hoje o amor é com frequência mal interpretado, porque é apresentado como uma experiência egoísta, enquanto que na realidade é um abandono de si e assim torna-se um encontrar-se. Ela disse também que uma cultura consumista falsifica a nossa vida com um relativismo que parece conceder-nos tudo e na realidade nos esvazia. Mas ouçamos então o que diz a Palavra de Deus em relação a isto. Anna queria saber exactamente o que diz a Palavra de Deus. É para mim muito agradável ver que já nas primeiras páginas da Sagrada Escritura, logo após a narração da Criação do homem, encontramos a definição do amor e do matrimónio. O autor sagrado diz: "O homem deixará seu pai e sua mãe, unir-se-á à sua mulher e os dois serão uma só carne, uma única existência". Estamos no início e já nos é dada uma profecia do que é o matrimónio; e esta definição também permanece idêntica no Novo Testamento. O matrimónio é este seguir o outro no amor e, desta forma, tornar-se uma única existência, uma só carne, e por isso, inseparáveis; uma nova existência que nasce desta comunhão de amor, que une e cria um futuro. Os teólogos medievais, interpretando esta afirmação que se encontra no início da Sagrada Escritura, disseram que dos sete Sacramentos, o matrimónio foi o primeiro que Deus instituiu, porque foi instituído já no momento da criação, no Paraíso, no início da história, e antes de qualquer história humana. É um sacramento do Criador do universo, inscrito precisamente no próprio ser humano, que está orientado para este caminho, no qual o homem abandona os pais e se une à sua mulher para formar uma só carne, para que, desta forma, se tornem uma única existência. Por conseguinte, o sacramento do matrimónio não é invenção da Igreja, é realmente "con-criado" com o homem como tal, como fruto do dinamismo do amor, no qual o homem e a mulher se encontram reciprocamente e assim encontram também o Criador que os chamou ao amor. É verdade que o homem caiu e foi expulso do Paraíso, ou por outras palavras mais modernas, é verdade que todas as culturas estão poluídas pelo pecado, pelos erros do homem na sua história e assim o desígnio inicial inscrito na nossa natureza está obscurecido. De facto, nas culturas humanas encontramos este obscurecimento do desígnio original de Deus. Mas, ao mesmo tempo, observamos as culturas, toda a história cultural da humanidade, verificamos também que o homem nunca pôde esquecer totalmente este desígnio que existe na profundidade do seu ser. Sempre soube, num certo sentido, que as outras formas de relação entre homem e mulher não correspondiam realmente ao desígnio original do seu ser. E assim nas culturas, sobretudo nas grandes culturas, vemos sempre de novo como elas se orientam para esta realidade, a monogamia, ser o homem e a mulher uma só carne. É assim, na fidelidade, que uma nova geração pode crescer, que se pode dar continuidade a uma tradição cultural, renovando-se e realizando, na continuidade, um progresso autêntico.

O Senhor, que falou disto na língua dos profetas de Israel, mencionando a concessão da parte de Moisés do divórcio, disse: Moisés vo-lo concedeu "devido à dureza do vosso coração". O coração depois do pecado tornou-se "duro", mas não era este o desígnio do Criador e os Profetas com clareza crescente insistiram sobre este desígnio originário. Para renovar o homem, o Senhor aludindo a estas vozes proféticas que sempre guiaram Israel para a clareza da monogamia reconheceu com Ezequiel que temos necessidade, para viver esta vocação, de um coração novo; em vez de um coração de pedra como diz Ezequiel precisamos de um coração de carne, de um coração verdadeiramente humano. E o Senhor no Baptismo, mediante a fé "implanta" em nós este coração novo. Não é um transplante físico, mas talvez nos possamos servir precisamente desta comparação: depois do transplante, é necessário que o organismo seja cuidado, que receba os remédios necessários para poder viver com o coração novo, de forma a tornar-se o "seu coração" e não o "coração de outrém". Muito mais neste "transplante espiritual", onde o Senhor nos implanta um coração novo, um coração aberto ao Criador, à vocação de Deus, para poder viver com este coração novo, são necessários cuidados adequados, é preciso recorrer aos remédios oportunos, para que ele se torne verdadeiramente "o nosso coração". Vivendo na comunhão com Cristo, com a sua Igreja, o novo coração torna-se realmente "o nosso coração" e torna-se possível o matrimónio. O amor exclusivo entre um homem e uma mulher, a vida a dois designada pelo Criador torna-se possível, mesmo se o clima do nosso mundo lhe apresenta tantas dificuldades, até fazê-la parecer impossível.

O Senhor dá-nos um coração novo e nós devemos viver com este coração novo, usando as terapias oportunas para que seja realmente "nosso". É assim que vivemos tudo o que o Criador nos deu e isto cria uma vida verdadeiramente feliz. De facto, também podemos ver isto neste mundo, apesar de tantos outros modelos de vida: existem tantas famílias cristãs que vivem com fidelidade e com alegria a vida e o amor indicados pelo Criador e assim cresce uma nova humanidade.
E por fim acrescentaria: todos sabemos que para alcançar uma meta no desporto e na profissão são necessárias disciplina e renúncias, mas depois elas são coroadas pelo sucesso, por ter alcançado a meta desejada. Também a própria vida, isto é, o tornar-se homens segundo o desígnio de Jesus, exige renúncias; mas elas não são uma coisa negativa, ao contrário ajudam a viver como homens com um coração novo, a viver uma vida verdadeiramente humana e feliz. Dado que existe uma cultura consumista que pretende impedir que vivamos segundo o desígnio do Criador, nós devemos ter a coragem de criar ilhas, oásis, e depois grandes terrenos de cultura católica, nos quais viver o desígnio do Criador.

3. Beatíssimo Padre, chamo-me Inelida, tenho 17 anos, sou ajudante do Chefe dos Escuteiros dos Lobinhos na Paróquia de São Gregório Barbarigo e estudo no Liceu Artístico "Mario Mafai".

Na sua Mensagem para a XXI Jornada Mundial da Juventude Vossa Santidade disse-nos que "é urgente que surja uma nova geração de apóstolos radicados na palavra de Cristo". São palavras tão fortes e comprometedoras que quase assustam. Sem dúvida, também nós gostaríamos de ser novos apóstolos, mas pode explicar-nos mais detalhadamente quais são, segundo Vossa Santidade, os maiores desafios a enfrentar no nosso tempo, e como espera que sejam estes novos apóstolos? Por outras palavras: que espera de nós, Santidade?

Todos nos perguntamos o que espera de nós o Senhor. Parece-me que o grande desafio do nosso tempo assim me dizem também os Bispos em visita "ad Limina", por exemplo, os da África é o secularismo: isto é, um modo de viver e de apresentar o mundo como "si Deus non daretur", isto é, como se Deus não existisse. Pretende-se limitar Deus à esfera privada, a um sentimento, como se Ele não fosse uma realidade objectiva e assim cada um forma o seu projecto de vida. Mas, esta visão que se apresenta como se fosse científica, aceita como válido só o que se pode verificar com a experiência. Com um Deus que não se dispõe para a experiência imediata, esta visão termina por dilacerar também a sociedade: de facto, isto leva cada um a formar o seu projecto e no final encontram-se uns contra os outros. Uma situação, como se vê, decididamente insuportável. Devemos tornar de novo Deus presente nas nossas sociedades. Parece-me que esta seja a primeira necessidade: que Deus esteja de novo presente na nossa vida, que não vivamos como se fôssemos autónomos, autorizados a inventar o que é a liberdade e a vida. Devemos capacitar-nos que somos criaturas, constatar que existe um Deus que nos criou e que na sua vontade não é dependência mas um dom de amor que nos faz viver.

Por conseguinte, o primeiro ponto é conhecer Deus, conhecê-lo cada vez mais, reconhecer na nossa vida que Deus existe, e que Deus está relacionado com ela. O segundo ponto se reconhecemos que Deus existe, que a nossa liberdade é partilhada com os outros e que deve existir um parâmetro comum para construir uma realidade comum o segundo ponto, dizia, apresenta a questão: qual Deus? De facto, existem tantas imagens falsas de Deus, um Deus violento, etc. A segunda questão é: reconhecer o Deus que nos mostrou o seu rosto em Jesus, que sofreu por nós, que nos amou até à morte e desta forma venceu a violência. É preciso tornar presente, antes de tudo na nossa "própria" vida o Deus vivo, o Deus que não é desconhecido, um Deus inventado, um Deus só pensado, mas um Deus que se mostrou, se mostrou a si mesmo e o seu rosto. Só assim, a nossa vida se torna verdadeira, autenticamente humana e também os critérios do verdadeiro humanismo se tornam presentes na sociedade. Também aqui é válido, como disse na primeira resposta, que não podemos construir sozinhos esta vida justa e recta, mas devemos caminhar em companhia de amigos justos e rectos, de companheiros com os quais podemos fazer a experiência de que Deus existe e que é agradável caminhar com Deus. E caminhar na grande companhia da Igreja, que nos apresenta nos séculos a presença do Deus que fala, que age, que nos acompanha. Portanto diria: encontrar o Deus que se revelou em Jesus Cristo, caminhar juntamente com a sua grande família, com os nossos irmãos e irmãs que são a família de Deus, isto parece-me o conteúdo essencial deste apostolado do qual falei.

4. Santidade, chamo-me Vittorio, pertenço à Paróquia de São João Bosco em "Cinecittà", tenho 20 anos e estudo Ciência da Educação na Universidade de "Tor Vergata".

Sempre na sua Mensagem, Vossa Santidade convida-nos a não ter medo de responder com generosidade ao Senhor, especialmente quando propõe que o sigamos na vida consagrada ou na vida sacerdotal. Diz-nos que não devemos ter medo, que devemos ter confiança n'Ele, e que não seremos desiludidos. Estou convencido de que muitos de nós, que estamos aqui ou quem nos segue de casa esta tarde através da televisão, tenho a certeza de que estejam pensando em seguir Jesus por um caminho de especial consagração, mas nem sempre é fácil compreender qual é o caminho justo. Pode dizer-nos como compreendeu Vossa Santidade qual era a sua vocação? Pode dar-nos conselhos para compreendermos melhor se o Senhor nos chama para o seguir na vida consagrada ou sacerdotal? Obrigado.

No que me diz respeito, cresci num mundo muito diferente do actual, mas contudo as situações assemelham-se. Por um lado, existia ainda o ambiente de "cristandade", no qual era normal frequentar a igreja e aceitar a fé como a revelação de Deus e procurar viver segundo a revelação; por outro lado, havia o regime nazista, que afirmava em voz alta: "Na nova Alemanha não haverá mais sacerdotes, nem vida consagrada, já não temos necessidade dessa gente; procurai outra profissão". Mas precisamente ouvindo estas vozes "fortes", no confronto com a brutalidade daquele sistema com um rosto desumano, compreendi que ao contrário havia muita necessidade de sacerdotes. Este contraste, ver aquela cultura anti-humana, confirmou-me na convicção de que o Senhor, o Evangelho, a fé nos mostravam o caminho justo e que nos devíamos comprometer para que esse caminho sobrevivesse. Nessa situação, a vocação ao sacerdócio aumentou quase de modo natural juntamente comigo e sem grandes acontecimentos de conversão. Além disso, duas coisas me ajudaram neste caminho: já desde jovem, ajudado pelos meus pais e pelo pároco, descobri a beleza da Liturgia e sempre a amei, porque sentia que nela está reflectida a beleza divina e se nos abre o céu; o segundo elemento foi a descoberta da beleza do conhecimento, conhecer Deus, a Sagrada Escritura, graças à qual é possível introduzir-se naquela grande aventura do diálogo com Deus que é a Teologia. E assim, foi uma alegria entrar neste trabalho milenário da Teologia, nesta celebração da Liturgia, na qual Deus está connosco e festeja juntamente connosco.

Naturalmente não faltaram as dificuldades. Perguntava-me se na realidade eu tinha a capacidade de viver toda a vida o celibato. Sendo um homem de formação teórica e não prática, também sabia que não é suficiente amar a Teologia para ser um bom sacerdote, mas há a necessidade de estar sempre disponível para os jovens, os idosos, os doentes, os pobres; é preciso ser simples com os simples. A Teologia é bela, mas também é necessária a simplicidade da palavra e da vida cristã. E perguntava: serei capaz de viver tudo isto e de não ser unilateral, só um teólogo, etc.? Mas o Senhor ajudou-me e ajudou-me sobretudo a companhia dos amigos, de bons sacerdotes e mestres.
Voltando à pergunta, penso que é importante estar atentos aos gestos do Senhor no nosso caminho. Ele fala-nos através de acontecimentos, de pessoas, de encontros: é preciso estar atentos a tudo isto. Depois, o segundo ponto, entrar realmente na amizade de Jesus, numa relação pessoal com Ele e não saber só através de outros ou dos livros quem é Jesus, mas viver uma relação cada vez mais aprofundada de amizade pessoal com Jesus, na qual podemos começar a compreender o que Ele nos pede. E depois, a atenção ao que somos, às nossas possibilidades: por um lado, ter coragem e, por outro, ser humildes, confiantes e abertos, com a ajuda dos amigos, da autoridade da Igreja, dos sacerdotes, e também das famílias: que quer de mim o Senhor? Sem dúvida isto permanece sempre uma grande aventura, mas a vida só pode ser bem sucedida se tivermos a coragem da aventura, a confiança de que o Senhor nunca nos deixará sozinhos, que nos acompanhará e nos ajudará.

5. Santo Padre, chamo-me Giovanni, tenho 17 anos, estudo no Liceu Científico Tecnológico "Giovanni Giorgi" de Roma e pertenço à Paróquia de Santa Maria Mãe da Misericórdia.

Peço-lhe que nos ajude a compreender melhor como a revelação bíblica e as teorias científicas podem convergir na busca da verdade. Muitas vezes somos tentados a pensar que ciência e fé entre si sejam inimigas; que ciência e técnica sejam a mesma coisa; que a lógica matemática tenha descoberto tudo; que o mundo é fruto da casualidade, e que se a matemática não descobriu o teorema Deus é porque Deus, simplesmente, não existe. Em síntese, sobretudo quando estudamos, nem sempre é fácil reconduzir tudo a um projecto divino, ínsito na natureza e na história do Homem. Por vezes, a fé vacila ou reduz-se a simples acto sentimental. Também eu, Santo Padre, como todos os jovens, tenho fome de Verdade: mas como posso fazer para harmonizar Ciência e Fé?

O grande Galileu disse que Deus escreveu o livro da natureza na forma da linguagem matemática. Ele estava convencido de que Deus nos deu dois livros: o da Sagrada Escritura e o da natureza. E a linguagem da natureza era esta a sua convicção é a matemática, por conseguinte, ela é linguagem de Deus, do Criador. Reflictamos agora sobre o que é a matemática: em si é um sistema abstracto, uma invenção do espírito humano, que como tal na sua pureza não existe. É sempre realizado aproximativamente, mas como tal é um sistema intelectual, é uma grande, genial invenção do espírito humano. O que surpreende é que esta invenção da nossa mente humana é verdadeiramente a chave para compreender a natureza, que a natureza está realmente estruturada de modo matemático e que a nossa matemática, inventada pelo nosso espírito, é realmente o instrumento para poder trabalhar com a natureza, para a pôr ao nosso serviço, para a instrumentalizar através da técnica.

Parece-me quase incrível que uma invenção do intelecto humano e a estrutura do universo coincidam: a matemática por nós inventada dá-nos realmente acesso à natureza do universo e faz com que ele seja utilizado por nós. Portanto, a estrutura intelectual do sujeito humano e a estrutura objectiva da realidade coincidem: a razão subjectiva e a razão objectiva na natureza são idênticas. Penso que esta coincidência entre quanto nós pensámos e como se realiza e se comporta a natureza, sejam um grande enigma e desafio, porque vemos que, no final, é "uma" razão que relaciona os dois: a nossa razão não poderia descobrir essa outra, se na origem das duas não se encontrasse uma razão idêntica.

Neste sentido, tenho a impressão que a matemática na qual Deus, como tal, não pode aparecer nos mostra a estrutura inteligente do universo. Agora existem também teorias do caos, mas são limitadas, porque se o caos prevalecesse, toda a técnica se tornaria impossível. Só porque se pode confiar na nossa matemática, também se pode confiar na técnica. A nossa ciência, que torna finalmente possível trabalhar com as energias da natureza, supõe a estrutura confiável, inteligente da matéria. E desta forma vemos que há uma racionalidade subjectiva e uma racionalidade objectiva na matéria, que coincidem. Evidentemente agora ninguém pode provar como se prova na experimentação, nas leis técnicas que as duas são realmente originadas numa única inteligência, mas parece-me que esta unidade da inteligência, atrás das duas inteligências, esteja realmente no nosso mundo. E quanto mais nós podemos instrumentalizar o mundo com a nossa inteligência, tanto mais sobressai o desígnio da Criação.

Por fim, para chegar à questão definitiva, digo: Deus ou existe ou não existe. Há apenas duas opções. Ou se reconhece a prioridade da razão, da Razão criadora que está na origem de tudo e é o princípio de tudo a prioridade da razão é também prioridade da liberdade ou se defende a prioridade do irracional, segundo o qual tudo o que acontece na nossa terra e na nossa vida seria apenas ocasional, marginal, um produto irracional a razão seria um produto da irracionalidade. Por fim, não se pode "provar" um projecto ou outro, mas a grande opção do Cristianismo é a opção pela racionalidade e pela prioridade da razão. Parece-me que esta seja uma óptima opção, que nos mostra como por trás de tudo haja uma grande Inteligência, na qual podemos confiar.

Mas hoje o verdadeiro problema contra a fé parece ser o mal no mundo: perguntamos como pode ser ele compatível com esta racionalidade do Criador. E aqui temos realmente necessidade do Deus que se fez carne e que nos mostra como Ele não seja apenas uma razão matemática, mas que esta razão originária também é Amor. Se olharmos para as grandes opções, a opção cristã também é hoje a mais racional e a mais humana. Por isso, podemos elaborar com confiança uma filosofia, uma visão do mundo que esteja baseada nesta prioridade da razão, nesta confiança de que a Razão criadora é amor, e que este amor é Deus.







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