
Bento XVI Discursos 2007
Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007
Senhor Comandante
Senhor Dirigente
Queridos Funcionários e Agentes!
Depois das solenes festividades do Natal e no início de um ano novo, o encontro convosco que formais o Inspectorado-Geral da Segurança Pública junto do Vaticano representa um momento sempre agradável e familiar. Dirijo a cada um a minha cordial saudação e sinto-me feliz por ter esta ocasião para vos expressar o meu profundo apreço e o meu reconhecimento pelo vosso precioso serviço. Agradeço em particular o Dirigente-Geral, Dr. Vincenzo Caso, pela s gentis palavras que expressou; e dirijo o meu grato pensamento também ao Chefe da Polícia, Prefeito Gianni De Gennaro, e ao Prefeito Salvatore Festa. Sinto-me feliz por desejar a todos os melhores votos para o ano que acabou de iniciar.
Queridos amigos, este encontro oferece-nos sempre, além da alegria de nos encontrarmos juntos, também um motivo de reflexão, e contribui para fortalecer em vós as motivações da tarefa que vos foi confiada. Sei bem, também por experiência directa, como é importante para os peregrinos e para os turistas a vossa presença discreta nos lugares que constituem o coração da Roma cristã. Cada um deles, que deseja visitar a Basílica de São Pedro e se detém dentro da imponente Colunata de Bernini, encontra os vossos rostos e não raramente se servem das vossas atenções.
Há um aspecto deste insubstituível trabalho que hoje gostaria de ressaltar: é o da guarda dos lugares e da solicitude pelas pessoas. Trata-se de dois elementos essenciais para compreender o real significado do compromisso específico que vos é pedido. Tendes a tarefa de guardar e vigiar lugares que têm um valor inestimável para a memória e para a fé de milhões de peregrinos; lugares que contêm grandes tesouros de história e de arte, mas sobretudo onde se realiza, por mistério imperscrutável, o encontro vivo dos fiéis com o Senhor Jesus. O povo de Deus, o peregrino, cada pessoa compreende, passando ao vosso lado, que goza de uma protecção especial e tranquilizadora. Que cada um se sinta ajudado e protegido pela vossa presença, e assim seja favorecido ao participar no grande património espiritual da comunidade cristã. Como componentes deste Corpo especial de Segurança Pública, tende a solicitude de vigiar para que cada pessoa possa chegar com tranquilidade até à entrada dos lugares sagrados; vigiados por vós, os peregrinos abram depois o coração para o encontro com o Deus verdadeiro e vivificante.
Queridos irmãos e irmãs, esta é uma reflexão válida para cada um de nós: todos estamos chamados a ser guardas do nosso próximo. O Senhor pedir-nos-á contas da responsabilidade que nos foi confiada, do bem ou do mal que tivermos realizado em relação aos nossos irmãos: se os acompanhámos com atenção no caminho quotidiano, fazendo-nos partícipes dos anseios e das alegrias manifestadas pelo seu coração; se os seguimos, de modo discreto mas constante, na sua viagem e se os ajudámos e amparámos quando o caminho se fazia mais empenhativo e cansativo.
Queridos amigos, carreguemos juntos os pesos uns dos outros, partilhando a alegria de pertencer ao Senhor e de viver constantemente à luz do seu Evangelho, palavra de verdade que salva.
Peçamos a protecção materna à Virgem Mãe, no início deste ano novo, confiando-lhe cada tristeza, anseio e esperança, para que em todas as circunstâncias da vida possamos amar, alegrar-nos e viver na fé do Filho de Deus que por nós se fez homem. Com estes sentimentos, ao desejar-vos um trabalho sereno e proveitoso, invoco sobre vós, sobre as vossas famílias e todas as pessoas queridas a abundância dos dons celestes, e concedo-vos de coração uma especial Bênção Apostólica.
Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2007
Senhor Embaixador
É com prazer que recebo Vossa Excelência no Vaticano por ocasião da apresentação das Cartas que o acreditam como Embaixador extraordinário e plenipotenciário da República da Turquia junto da Santa Sé.
Agradeço-lhe as palavras amáveis que me transmitiu da parte de Sua Ex.cia o Senhor Ahmet Necdet Sezer, Presidente da República, e ficar-lhe-ia grato por lhe transmitir em retribuição os meus votos cordiais pela sua pessoa e pelos seus compatriotas. Nesta ocasião, desejo expressar mais uma vez a minha gratidão às Autoridades e à população turcas pelo acolhimento que me reservaram por ocasião da minha viagem pastoral em Dezembro passado.
A experiência inesquecível que me levou, seguindo os passos dos meus predecessores Paulo VI e João Paulo II, a Ankara, Éfeso e Istambul, permitiu-me verificar as boas relações, estabelecidas há muito tempo, entre o seu país e a Santa Sé. Durante os meus diferentes encontros com as Autoridades políticas, eu quis reafirmar o enraizamento da Igreja Católica na sociedade turca, graças à herança prestigiosa das primeiras comunidades cristãs da Ásia Menor e ao contributo insubstituível à vida da Igreja universal dado pelos primeiros concílios ecuménicos, mas também em virtude da existência das comunidades cristãs de hoje, algumas minorias, dedicadas ao seu país e ao bem comum de toda a sociedade, desejam contribuir para a edificação da Nação. Gozando da liberdade religiosa garantida a todos os crentes pela Constituição turca, a Igreja Católica deseja poder beneficiar de um estatuto jurídico reconhecido e ver instituído um órgão de diálogo oficial entre a Conferência dos Bispos e as Autoridades do Estado, a fim de regular os diferentes problemas que poderão apresentar-se e prosseguir as boas relações entre as duas partes. Não duvido de que o seu Governo fará tudo o que lhe é possível para progredir neste sentido.
Durante a minha memorável viagem, manifestei várias vezes o respeito da Igreja Católica pelo Islão, e a estima do Papa e dos fiéis pelos crentes muçulmanos, sobretudo por ocasião da visita à Mesquita azul de Istambul. No mundo actual no qual as tensões parecem exacerbar-se, a convicção da Santa Sé, que coincide com a que Vossa Excelência acaba de expressar, é de que os crentes das diferentes religiões devem esforçar-se a favor da paz, começando pela denúncia da violência, com muita frequência usada no passado com o pretexto de motivações religiosas, e aprendendo a conhecer-se melhor e a respeitar-se para edificar uma sociedade cada vez mais fraterna. As religiões podem também unir os seus esforços para agir em favor do respeito do homem, criado à imagem do Todo-Poderoso, e para fazer reconhecer os valores fundamentais que regem a vida das pessoas e das sociedades. O diálogo, necessário entre as Autoridades religiosas a todos os níveis, começa na vida quotidiana pela estima e pelo respeito recíprocos que os fiéis de todas as religiões devem sentir uns pelos outros, partilhando a mesma vida e comprometendo-se juntos pelo bem comum.
Como recordei recentemente em Ankara, a Santa Sé reconhece o lugar específico da Turquia e a sua situação geográfica e histórica de ponte entre os continentes asiático e europeu e de encruzilhada entre as culturas e as religiões. Ela aprecia o compromisso do seu País no âmbito da comunidade internacional em favor da paz, sobretudo a sua acção pela retomada das negociações no Médio Oriente e a sua implicação actual no Líbano, para ajudar a reconstrução do país devastado pela guerra e para permitir um diálogo construtivo entre todas as partes constitutivas da sociedade libanesa. A Santa Sé segue sempre com grande atenção os debates e os esforços empreendidos pelas nações para regular entre si, por vezes com a ajuda de outros países e das Autoridades regionais ou internacionais, as situações de conflito herdadas do passado, assim como as acções empreendidas para aproximar os países entre si, em associações ou uniões políticas, culturais e económicas. A globalização dos intercâmbios, já manifestada a nível económico e financeiro, deve evidentemente ser acompanhada por empreendimentos políticos comuns, a nível do planeta, para garantir um desenvolvimento duradouro e organizado que não exclua ninguém e que garanta um futuro equilibrado para as pessoas, as famílias e os povos.
Senhor Embaixador, permita que eu saúde por seu intermédio as comunidades católicas da Turquia que tive a alegria de visitar, em particular em Éfeso e Istambul. Aos Bispos, aos sacerdotes e a todos os fiéis, repito o afecto do Sucessor de Pedro e os seus encorajamentos para que a Igreja Católica que está na Turquia continue a testemunhar humilde e fielmente o amor de Deus através do diálogo com todos, particularmente com os crentes muçulmanos, e através do seu compromisso ao serviço do bem comum. Saúdo também com afecto Sua Santidade o Patriarca Bartolomeu I, os Bispos e todos os fiéis da Igreja Ortodoxa, com a qual já nos unem muitos vínculos de fraternidade na expectativa do dia abençoado em que todos seremos convidados para a mesma mesa de Cristo.
Senhor Embaixador, no momento em que inaugura oficialmente a sua missão junto da Santa Sé, formulo os meus melhores votos pelo seu feliz cumprimento. Tenha a certeza de que encontrará sempre junto dos meus colaboradores um acolhimento atento e uma compreensão cordial.
Sobre Vossa Excelência, sobre a sua família, seus colaboradores da Embaixada, assim como sobre as Autoridades e o povo turco, invoco de todo o coração a abundância das Bênçãos do Todo-Poderoso.
Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2007
Queridos Bispos Peura e Wróbel
Ilustres amigos
É com alegria que vos dou as boas-vindas, membros da delegação ecuménica da Finlândia, que visitais Roma por ocasião da festa de Santo Henrique, Padroeiro da vossa nação.
A vossa presença aqui coincide com a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos do corrente ano. O tema desta semana "Ele faz ouvir os surdos e falar os mudos" (Mc 7,37) explica como Jesus liberta todos nós da surdez espiritual, tornando-nos capazes de ouvir a sua palavra salvífica e de proclamá-la aos outros. Esta responsabilidade do testemunho conjunto com palavras e gestos alimenta o nosso caminho ecuménico. Aproximando-nos ulteriormente de Cristo e convertendo-nos para a sua verdade e o seu amor, ela aproxima-nos também uns dos outros.
Nos anos mais recentes, as relações entre os cristãos na Finlândia desenvolveu-se de modo a oferecer muita esperança para o futuro do ecumenismo. Eles rezam e trabalham de bom grado em conjunto, dando um testemunho público comum da palavra de Deus. É precisamente este testemunho persuasivo das verdades orientadoras e salvíficas do Evangelho que todos os homens e mulheres buscam ou têm necessidade de ouvir. Ele exige coragem da parte dos cristãos. Com efeito, como sugeri nas Vésperas ecuménicas durante a minha visita à Baviera, por detrás "deste debilitamento do tema da justificação e do perdão dos pecados encontra-se, na realidade, um enfraquecimento do nosso relacionamento com Deus. Por isso, a nossa tarefa primordial talvez consista em redescobrir de outra forma o Deus vivo na nossa vida, no nosso tempo e na nossa sociedade" (Homilia, 12 de Setembro de 2006).
Na Declaração Conjunta sobre a Justificação, luteranos e católicos percorreram um considerável caminho teológico. Ainda há muito a fazer e, por isso, é animador o facto de que o diálogo nórdico luterano-católico na Finlândia e na Suécia está a examinar o tema: "A Justificação na vida da Igreja". Espero e rezo a fim de que estes diálogos contribuam de maneira concreta para a busca da unidade plena e visível da Igreja e, ao mesmo tempo, ofereçam uma resposta mais clara às questões fundamentais que estão a atingir a vida e a sociedade.
Confiantes na convicção de que o Espírito Santo é o autêntico protagonista do esforço ecuménico (cf. Unitatis redintegratio UR 1 UR 4), continuemos a rezar e a trabalhar pelo estabelecimento de laços de amor e de cooperação mais estreitos entre os luteranos e os católicos na Finlândia. Sobre cada um de vós e todo o querido povo da Finlândia, invoco as abundantes Bênçãos divinas da paz e da alegria.
Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2007
Senhor Cardeal
Venerados Irmãos
Monsenhor Reitor
Queridos alunos
do Colégio Caprânica!
Estou feliz por vos receber na iminência da festa da vossa Padroeira, Santa Inês. Saúdo-vos com afecto, iniciando pelo Cardeal Vigário Camillo Ruini e pelo Arcebispo Pio Vigo, que formam a Comissão Episcopal designada para o Colégio. Saúdo o Reitor, Mons. Ermenegildo Manicardi. Dou especiais boas-vindas a vós, queridos Alunos, que fazeis parte da comunidade do mais antigo colégio eclesiástico romano.
Com efeito, passaram 550 anos desde quando, a 5 de Janeiro de 1457, o Cardeal Domenico Caprânica, proveniente de Fermo, fundou o Colégio ao qual deu o nome, destinando-lhe todos os seus bens e um prédio junto de Santa Maria in Aquiro, onde pudessem ser acolhidos os jovens estudantes chamados ao sacerdócio. A recém-criada instituição era a primeira no seu género em Roma; inicialmente reservada aos jovens provenientes de Roma e de Fermo, alargou em seguida a hospitalidade a alunos de outras regiões italianas e de diversas nacionalidades. O Cardeal Caprânica faleceu cerca de dois anos depois, mas a sua fundação já tinha iniciado o seu caminho, que continua até hoje, tendo sido fechado apenas um decénio, de 1798 a 1807, durante o período da chamada República Romana. Dois Papas foram alunos do Caprânica: Bento XV, por quase quatro anos, que justamente vós considerais "Parens alter" pelo afecto especial que sempre nutriu pela vossa casa, e depois, por um período mais breve, o Servo de Deus Pio XII. Os meus Predecessores, alguns dos quais foram visitar-vos em circunstâncias especiais, sempre demonstraram benevolência ao vosso Colégio.
Também o nosso hodierno encontro se realiza, além de ser em memória de Santa Inês, no contexto de um significativo aniversário da vossa instituição. Nesta perspectiva histórica e espiritual é útil questionar-nos sobre as motivações que impeliram o Cardeal Caprânica a fundar esta próvida obra, e acerca do valor que elas conservam para vós, actualmente. Antes de tudo, é preciso lembrar que o fundador teve experiência directa dos colégios das Universidades de Pádua e de Bolonha, onde foi estudante, e também em Sena, Florença e Perugia. Tratava-se de instituições nascidas para hospedar jovens versados nos estudos e não pertencentes a famílias facultosas. Ao tomar alguns elementos desses modelos, idealizou um que fosse exclusivamente destinado à formação dos futuros sacerdotes, com atenção preferencial pelos candidatos menos abastados.
Dessa maneira precedeu de mais de um século a instituição dos "seminários", actuada pelo Concílio de Trento. Contudo, não focalizamos ainda a motivação de fundo da prudente iniciativa: ela consiste na convicção de que a qualidade do clero depende da seriedade da sua formação. Mas nos tempos do Cardeal Caprânica, faltava uma cuidadosa selecção dos aspirantes às sagradas Ordens: às vezes eles eram examinados sobre literatura e canto, mas não sobre teologia, moral e direito canónico, com imagináveis repercussões negativas sobre a Comunidade eclesial. Eis porque, nas Constituições do seu Colégio, o Cardeal impôs aos estudantes de teologia a aproximação aos melhores autores, especialmente Tomás de Aquino; aos de direito, a doutrina do Papa Inocêncio III, e para todos a ética aristotélica. Depois, não se contentando com as lições do Studium Urbis, ele garantiu repetições suplementares realizadas por especialistas directamente no Colégio. Esta organização dos estudos estava inserida num quadro de formação integral, centrada sobre a dimensão espiritual, que tinha como pilares os Sacramentos da Eucaristia quotidiana e da Penitência pelo menos mensal e era apoiada pelas práticas de piedade prescritas ou sugeridas pela Igreja.
Também a educação caritativa tinha uma grande importância, quer na vida fraterna comum quer na assistência aos doentes; como também a que hoje chamamos "experiência pastoral". De facto, era previsto que nos dias festivos os alunos prestassem serviço na Catedral ou nas demais igrejas do lugar. O próprio estilo comunitário, por fim, dava uma válida contribuição formativa, caracterizado por uma forte co-participação nas decisões relativas à vida do Colégio.
Encontramos aqui a mesma escolha de fundo que em seguida farão os Seminários diocesanos, naturalmente com um sentido mais completo de pertença à Igreja particular, ou seja, a escolha de uma séria formação humana, cultural e espiritual, aberta às exigências próprias dos tempos e dos lugares. Queridos amigos, peçamos ao Senhor, por intercessão de Maria Santíssima e de Santa Inês, para que o Almo Colégio Caprânica prossiga este seu caminho, fiel à sua longa tradição e aos ensinamentos do Concílio Vaticano II. A vós, queridos Alunos, faço votos para que renoveis todos os dias, do fundo do coração, a vossa oferta a Deus e à Santa Igreja, conformando-vos cada vez mais a Cristo Bom Pastor, que vos chamou a segui-Lo e a trabalhar na sua vinha. Agradeço-vos esta agradável visita e, enquanto vos garanto a minha oração, concedo com afecto a todos vós e às pessoas a vós queridas, uma especial Bênção Apostólica.
Sábado, 20 de Janeiro de 2007
Senhor Embaixador
Sinto-me feliz por receber Vossa Excelência no Vaticano para a apresentação solene das Cartas que o acreditam como Embaixador extraordinário e plenipotenciário da Roménia junto da Santa Sé. Tenha a amabilidade de expressar a Sua Ex.cia o Senhor Traian Basescu, Presidente da Roménia, os meus votos cordiais pela sua pessoa assim como pelo bem-estar e a prosperidade do povo romeno. Peço a Deus que acompanhe os esforços da cada um na obra de edificação de uma nação cada vez mais fraterna e solidária.
Senhor Embaixador, no início deste ano o seu País alegrou-se legitimamente por ser admitido oficialmente, depois de longos anos de esforços, na União Europeia. A Santa Sé, que mantém desde há anos relações estreitas e frutuosas com a Roménia, como Vossa Excelência acabou de ressaltar, acolheu esta nova situação com satisfação, pois ela consagra cada vez mais a unidade reencontrada do continente europeu, depois do longo e triste período da separação e da guerra fria. O seu País tem uma longa tradição cristã, viva e fecunda na sua cultura assim como no dinamismo das diferentes Igrejas e comunidades eclesiais, e na sua participação activa na vida social. Por conseguinte, "alegro-me por que a Roménia, rica deste inegável património cristão, e que contribuiu em grande medida para modelar a Europa das Nações e a Europa dos povos" (cf. Discurso ao Corpo Diplomático, 8 de Janeiro de 2007), possa dar a sua contribuição original para a casa europeia, a fim de permitir que ela não seja apenas uma força económica e um grande mercado de bens de consumo, mas que possa encontrar um novo impulso político, cultural e espiritual, capaz de construir um futuro prometedor para as novas gerações. Como recordei recentemente ao Corpo Diplomático, "respeitando a pessoa humana é possível promover a paz e é construindo a paz que são lançadas as bases de um humanismo integral autêntico. Nisto encontra uma resposta a preocupação de tantos dos nossos contemporâneos em relação ao futuro" (ibidem).
Depois de muitos anos, o seu País comprometeu-se num profundo trabalho de renovação da sociedade, com a preocupação de curar as feridas do passado e de permitir que todos gozem das liberdades fundamentais e beneficiem do progresso económico e social. Alegro-me por isto e encorajo os responsáveis políticos a prestar atenção às exigências de uma solidariedade activa entre todas as camadas da população, para evitar que no momento da globalização não se crie um abismo crescente entre cidadãos que acedem legitimamente aos benefícios do desenvolvimento económico e os que se encontram progressivamente marginalizados, por vezes excluídos deste processo, como se observa, infelizmente, em muitas sociedades modernas. De igual modo é importante garantir a todos o acesso equitativo a uma justiça independente e transparente, capaz de lutar de maneira eficaz contra quantos não respeitam o bem comum e usam as leis para seu benefício. Nesta perspectiva, desejo também que seja dedicada uma atenção renovada às famílias mais pobres, para que possam fazer crescer os seus filhos em dignidade.
Congratulo-me também pelo progresso feito pelo seu governo na gestão delicada da restituição dos bens confiscados às comunidades religiosas. É uma obra de longo alcance, orientada pela justiça e pela equidade, que deve permitir que todos os cultos reconhecidos encontrem o seu lugar legítimo no seio da sociedade. Desejo igualmente que as regras da liberdade religiosa, que é uma liberdade fundamental, sejam plenamente respeitadas, sobretudo no que diz respeito à Igreja Greco-Católica.
Sei que a Igreja Católica, por seu lado, está sempre pronta a estudar com as Autoridades competentes, num espírito de diálogo, os meios de superar as eventuais dificuldades que poderão surgir nas relações recíprocas. Isto contribuirá em grande medida para a paz social. A este respeito, desejo manifestar a minha preocupação em relação ao caso da Catedral Saint-Joseph de Bucareste, em favor do qual o Arcebispo de Bucareste fez numerosas solicitações junto dos órgãos competentes do Estado, a fim de preservar o património histórico que ela constitui e os valores de fé que representa, não só para a comunidade católica mas para toda a população romena.
A visita do Papa João Paulo II, em 1999, marcou, como Vossa Excelência observou, "o coração e o espírito dos Romenos". Ela permitiu sobretudo um renovado estímulo nas relações entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa Romena. Ao saudar cordialmente, por seu intermédio, Sua Beatitude Teoctist, Patriarca ortodoxo da Roménia, que por sua vez veio visitar a Igreja de Roma em 2002, formulo votos por que os fiéis católicos e ortodoxos continuem a enlaçar relações cada vez mais fraternas na vida quotidiana e por que sejam igualmente incrementadas a todos os níveis as ocasiões de diálogo. Desejo sobretudo que o encontro ecuménico europeu, que terá lugar em Sibiu em Setembro próximo, possa constituir uma etapa importante no caminho empreendido juntos rumo à unidade.
Permita-me que eu saúde também a comunidade católica da Roménia, unida à volta dos seus Pastores. Ela teve, como recordou o meu predecessor, "a oportunidade providencial de ver prosperar lado a lado, depois de séculos, as duas tradições, latina e bizantina, que embelezam juntas o rosto da única Igreja" (João Paulo II, Discurso aos Bispos da Roménia em visita ad limina, 1 de Março de 2003), o que lhe impõe que testemunhe particularmente a unidade católica e a qualifica de modo especial para trabalhar em favor do ecumenismo. Sei que os fiéis católicos participam activamente na vida católica do país, sobretudo a nível espiritual e social, e encorajo-os vivamente a testemunhar com coragem o lugar insubstituível da família no seio da sociedade.
No momento em que Vossa Excelência inicia oficialmente as suas funções junto da Santa Sé, formulo os meus melhores votos pelo feliz cumprimento da sua missão. Tenha a certeza, Senhor Embaixador de que encontrará sempre atenção e compreensão cordiais.
Sobre Vossa Excelência, sobre a sua família, os seus colaboradores da Embaixada e sobre todo o povo romeno, invoco de coração a abundância das Bênçãos divinas.
Sábado, 20 de Janeiro de 2007
Senhores Cardeais
Queridos irmãos no Episcopado!
É motivo de grande alegria receber e saudar com afecto os Conselheiros e Membros da Pontifícia Comissão para a América Latina por ocasião da sua Reunião Plenária. Agradeço ao seu Presidente, o Cardeal Giovanni Battista Re, as suas amáveis palavras que expressam os sentimentos de todos vós e o desejo profundo de renovar o vosso compromisso de servir cum Petro et sub Petro, a Igreja que peregrina na América Latina, continuando o exemplo de Cristo, o Bom Pastor, que ama e se entrega pelas suas ovelhas.
Pensando nos desafios que no início deste terceiro milénio se apresentam à Evangelização, foi escolhido como tema de reflexão deste encontro "A família e a educação cristã na América Latina", em perfeita sintonia com o inesquecível Encontro Mundial das Famílias no verão passado em Valência, na Espanha. Foi um agradável acontecimento que pude partilhar com famílias católicas de todo o mundo, muitas delas latino-americanas.
A vossa presença faz-me pensar na V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, que convoquei em Aparecida, Brasil, e que terei o prazer de inaugurar. Peço ao Espírito Santo, que assiste sempre a sua Igreja, que a glória de Deus Pai misericordioso e a presença pascal do seu Filho iluminem e guiem os trabalhos deste importante acontecimento eclesial a fim de que seja sinal, testemunho e força de comunhão para toda a Igreja na América Latina.
Esta Conferência, em continuidade com as quatro anteriores, está chamada a dar um impulso renovado à Evangelização nesta vasta região do mundo eminentemente católica, na qual vive grande parte da comunidade dos crentes. É preciso proclamar integralmente a Mensagem da Salvação, para que impregne as raízes da cultura e se encarne no momento histórico latino-americano actual, para responder melhor às suas necessidades e aspirações legítimas.
Ao mesmo tempo, deve ser reconhecida e defendida sempre a dignidade de cada ser humano como critério fundamental dos projectos sociais, culturais e económicos, que ajudem a construir a história segundo o desígnio de Deus. De facto, a história latino-americana oferece numerosos testemunhos de homens e mulheres que seguiram fielmente Cristo de modo tão radical que, cheios desse fervor divino que a todos consome, forjaram a identidade cristã dos seus povos. A sua vida é um exemplo e uma invocação a seguir os seus passos.
A Igreja na América Latina enfrenta enormes desafios: a mudança cultural originada por uma comunicação social que incide sobre os modos de pensar e sobre os costumes de milhões de pessoas; os fluxos migratórios, com tantas repercussões na vida familiar e na prática religiosa nos novos ambientes; o surgimento de novos questionamentos sobre como os povos devem assumir a sua memória histórica e o seu futuro democrático; a globalização, o secularismo, a pobreza crescente e a deterioração ecológica, sobretudo nas grandes cidades, assim como a violência e o narcotráfico.
Antes de tudo isto, vê-se a urgente necessidade de uma nova Evangelização, que nos estimule a aprofundar os valores da nossa fé, para que sejam linfa e configurem a identidade desses amados povos que um dia receberam a luz do Evangelho. Por isso, o tema escolhido como guia para as reflexões da mencionada Conferência é oportuno: Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que os nossos povos n'Ele tenham a vida. Com efeito, a V Conferência deve fomentar que todos os cristãos se convertam em verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, por Ele enviados como apóstolos, e como dizia o Papa João Paulo II, "não de reevangelização mas de uma nova evangelização. Nova no seu ardor, nos seus métodos, na sua expressão", a fim de que a Boa Nova se enraíze na vida e na consciência de todos os homens e mulheres da América Latina (Discurso na abertura da XIX Assembleia do Conselho do Episcopado Latino-Americano, Port-au-Prince, Haiti, 9 de Março de 1983).
Queridos Irmãos, os homens e mulheres da América têm grande sede de Deus. Quando na vida das comunidades se produz um sentimento de orfandade em relação a Deus Pai, é vital o trabalho dos Bispos, dos sacerdotes e dos demais agentes de pastoral, que dêem testemunho, como Cristo, de que o Pai é sempre Amor providente que se revelou em seu Filho. Quando a fé não se alimenta da oração e da meditação da Palavra divina, quando a vida sacramental se debilita, prosperam as seitas e os novos grupos pseudo-religiosos, provocando o afastamento da Igreja de muitos católicos. Não recebendo estas respostas às suas aspirações mais profundas, que poderiam encontrar-se na vida de fé partilhada, produzem-se também situações de vazio espiritual. Na tarefa evangelizadora é fundamental recordar sempre que o Pai e o Filho enviaram o Espírito Santo no Pentecostes, e que esse mesmo Espírito continua a estimular a vida da Igreja. Por isso é importante o sentido de pertença eclesial, no qual o cristão cresce e amadurece na comunhão com os seus irmãos, filhos de um mesmo Deus e Pai.
"Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão por mim" (Jn 14,6). Como ressaltou o meu venerado predecessor João Paulo II na sua Exortação Apostólica Ecclesia in America, "Jesus Cristo é, portanto, a resposta definitiva à pergunta acerca do sentido da vida, às questões fundamentais que inquietam hoje tantos homens e mulheres do Continente americano" (). Só vivendo intensamente o seu amor a Jesus Cristo e entregando-se de maneira generosa ao serviço da caridade, os seus discípulos serão testemunhas eloquentes e credíveis do amor imenso de Deus por todos os seres humanos. Desta forma, amando com o mesmo amor de Deus, chegarão a ser agentes de transformação do mundo, instaurando nele uma nova civilização, que o amado Papa Paulo VI chamava justamente "a civilização do amor" (cf. Discurso no encerramento do Ano Santo, 25 de Dezembro de 1975).
Para o futuro da Igreja na América Latina e no Caribe é importante que os cristãos aprofundem e assumam o estilo de vida próprio dos discípulos de Jesus: simples e alegre, com uma fé sólida arraigada no mais íntimo do seu coração e alimentada pela oração e pelos sacramentos. De facto, a fé cristã alimenta-se sobretudo da celebração dominical da Eucaristia, na qual se realiza um encontro comunitário, único e especial com Cristo, com a sua vida e a sua palavra.
O verdadeiro discípulo cresce e amadurece na família, na comunidade paroquial e diocesana; converte-se em missionário quando anuncia a pessoa de Cristo e o seu Evangelho a todos os ambientes; a escola, a economia, a cultura, a política e os meios de comunicação social. De modo especial, os frequentes fenómenos de exploração e injustiça, de corrupção e violência, são uma chamada urgente a que os cristãos vivam a sua fé com coerência e se esforcem por receber uma sólida formação doutrinal e espiritual, contribuindo assim para a construção de uma sociedade mais justa, mais humana e cristã.
É um dever fundamental estimular os cristãos que, animados pelo seu espírito de fé e caridade, trabalham incansavelmente para oferecer novas oportunidades a quantos se encontram na pobreza ou nas zonas periféricas mais abandonadas, para que possam ser protagonistas activos do seu próprio desenvolvimento, levando-lhes uma mensagem de fé, de esperança e de solidariedade.
Para terminar, volto ao tema do vosso encontro destes dias sobre a família cristã, lugar privilegiado para viver e transmitir a fé e as virtudes. No lar é guardado o património da fé; nele os filhos recebem o dom da vida, sentem-se amados por aquilo que são e aprendem os valores que os ajudarão a viver como filhos de Deus. Desta forma, a família, acolhendo o dom da vida, converte-se no ambiente propício para responder ao dom da vocação (cf. Alocução do Angelus, Valência, 8 de Julho de 2006), especialmente neste momento no qual se sente tanto a necessidade de que o Senhor envie trabalhadores para a sua messe.
Peçamos a Maria, modelo de mãe na Sagrada Família e Mãe da Igreja, Estrela da Evangelização, que guie com a sua materna intercessão as comunidades eclesiais da América Latina e do Caribe, e assista os participantes na V Conferência para que encontre os caminhos mais apropriados a fim de que aqueles povos tenham a vida em Cristo e construam, no chamado "Continente da esperança", um futuro digno para todos os homens e mulheres. Estimulo-vos a todos nos vossos trabalhos e concedo-vos de coração a minha Bênção Apostólica.
Bento XVI Discursos 2007