
Bento XVI Discursos 2007
Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007
Senhor Embaixador
É para mim motivo de particular alegria receber as Cartas com que Sua Ex.cia o Sr. Filip Vujanovic, Presidente da República de Montenegro, o acredita como primeiro Embaixador junto da Sé Apostólica. Seja bem-vindo! Os sentimentos do Sucessor de Pedro, hoje, tem origens antigas e alimenta-se de uma memória que restabelece um diálogo jamais interrompido ao longo dos séculos entre as estirpes de Montenegro e o Bispo de Roma. Por seu intermédio, Senhor Embaixador, desejo expressar o meu júbilo, em primeiro lugar, ao Senhor Presidente da República, que tive a alegria de encontrar recentemente, e depois também às outras Autoridades do Estado e a toda a sociedade civil montenegrina que, no seu pluralismo étnico, quis instaurar um diálogo directo e cordial com a Santa Sé.
Como é do seu conhecimento, desde os tempos apostólicos a Boa Nova alcançou as terras que hoje formam a República à qual Vossa Excelência pertence. Tais vínculos espirituais fortaleceram-se por obra do apóstolo dos monges beneditinos, a ponto de chegar, durante o pontificado do grande Papa Gregório VII, ao público reconhecimento da independência do Reino de Coclea, quando chegaram ao Príncipe Mihail as insígnias da realeza da Sé de Pedro. Durante as alternadas vicissitudes dos séculos, os povos activos na actual Crna Gora conservaram sempre uma relação dinâmica e cordial com os outros povos vizinhos, a ponto de oferecer interessantes contribuições para a vida das Nações europeias, também à Itália, a qual, no século passado, deram inclusivamente uma Rainha.
Os antigos documentos falam de um diálogo proveitoso entre a Sé Apostólica e o Príncipe Nicola de Montenegro, que levou em 1886 à estipulação de uma convenção com a qual se providenciava às necessidades espirituais dos cidadãos católicos, dependentes da então capital Cetinje. A clarividência das resoluções adoptadas por aquele Chefe de Estado em relação ao reconhecimento dos direitos de uma parte dos seus concidadãos impõe-se ainda hoje à nossa admiração, ressaltando a necessidade de uma justa consideração das exigências objectivas da prática religiosa de cada um. Cada católico está bem consciente das prerrogativas do Estado, mas ao mesmo tempo, está de igual modo consciente dos seus deveres em relação aos imperativos evangélicos. Portanto, reflectindo sobre os séculos transcorridos, quando a mensagem evangélica da salvação alcançou as terras de Montenegro, abraçando a tradição oriental e ao mesmo tempo a ocidental, a sua Pátria, Senhor Embaixador, caracterizou-se sempre como lugar privilegiado daquele encontro ecuménico que todos desejam. Também o encontro entre cristãos e muçulmanos encontrou em Montenegro realizações convincentes.
É necessário prosseguir este caminho, sobre o qual a Igreja deseja que todos convirjam no compromisso de unir os esforços ao serviço da originária nobreza do ser humano. De facto, a Igreja vê nisto uma parte significativa da sua missão ao serviço do homem na sua inteireza de pensamento, de acção, de projectação, no respeito das tradições que identificam uma terra como tal. Estou certo de que, no âmbito europeu, Montenegro não deixará de dar a própria contribuição quer no campo civil, quer no político, social, cultural e religioso.
Uma das prioridades sobre as quais certamente está a reflectir a nova República independente, que Vossa Excelência representa, é o fortalecimento do estado de direito nos vários âmbitos da vida pública, mediante a adopção de providencias que garantam a efectiva consecução de todos aqueles direitos que são previstos pelas leis fundamentais do Estado. Isto há-de promover o crescimento nos cidadãos da confiança social, permitindo-lhes sentir-se livres de perseguir os seus legítimos objectivos quer como indivíduos quer como comunidades no interior das quais escolheram reunir-se, e isto traduzir-se-á numa maturação geral na cultura da legalidade.
Montenegro pertence r família das Nações europeias, às quais mesmo na pequena dimensão, deu e deseja continuar a dar o seu generoso contributo. O pleno reconhecimento da vida e das finalidades da comunidade católica no contexto da sociedade montenegrina, realizado há mais de um século, resultou ser útil para a soberania do Estado e agradável para a missão específica da Igreja. Naquela específica circunstância histórica, como não observar a atitude respeitadora da Igreja Ortodoxa da época, que não se opôs a um entendimento com a Sé Apostólica? Aliás, ela viu neste passo um instrumento útil para satisfazer melhor as necessidades espirituais da população. É desejável que esta disposição cristã possa desenvolver-se ulteriormente.
Como no passado, a Sé Apostólica deseja reafirmar também hoje a sua estima, afecto e consideração pelas nobres estirpes que habitam em Montenegro, dando também continuidade a um diálogo fraterno com a Ortodoxia, tão presente e viva no País. São testemunhas desta atitude as relações milenares de consideração recíproca. Também hoje é preciso aprofundar esta atitude construtiva, para servir melhor o povo por Vossa Excelência hoje aqui dignamente representando. Ele, com grande abertura de ânimo, olha contemporaneamente quer para Oriente quer para Ocidente, pondo-se como ponte entre as duas realidades. Em plena cordialidade, como nos séculos transcorridos, é possível estabelecer aqueles entendimentos que vão em benefício do País e da comunidade católica, sem lesar minimamente os direitos legítimos de outras comunidades religiosas. É este o caminho escolhido pela Europa de hoje e que o seu País pretende percorrer com tanta esperança.
Senhor Embaixador, as credenciais que Vossa Excelência hoje me apresenta são o sinal de uma vontade positiva de contribuir para a vida internacional com a própria identidade específica. Neste sentido, Vossa Excelência encontrará na Sé Apostólica um interlocutor que conhece bem a história, o presente e os desejos do seu povo. Em mim e nos meus válidos colaboradores, Vossa Excelência encontrará atenção e consideração, baseada sobre as milenárias relações recíprocas. Ao pedir-lhe que se faça intérprete junto das Autoridades que o acreditam da minha estima e da minha gratidão, peço-lhe que transmita a expressão dos meus sentidos votos de prosperidade, de paz e de progresso para todos os habitantes de Montenegro, sobre os quais invoco as abundantes bênçãos do Altíssimo.
Quinta-feira, 25 de Janeiro de 2007
Prezados e venerados Irmãos
Obrigado pela vossa visita. Saúdo todos vós com carinho, a começar pelo Secretário-Geral do Sínodo dos Bispos, a quem agradeço as amáveis palavras que me dirigiu em nome de todos vós. Sob a sua orientação, reunistes-vos pela quinta vez com a finalidade de cumprir os deveres previstos a seguir à XI Assembleia Geral Ordinária e dar início à preparação para a próxima Assembleia. Recebo-vos com a saudação do Apóstolo das Nações, cuja extraordinária conversão comemoramos precisamente hoje: "Graça e paz vos sejam dadas da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo" (1Co 1,3). Jesus é o supremo Pastor da Igreja, e é no seu nome e sob a sua ordem que nós temos o cuidado de velar sobre a grei com plena disponibilidade, até ao dom total das nossas existências.
A futura XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos terá como tema: "A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja". A ninguém passa despercebida a importância deste tema que, de resto, é o resultado mais exigido por parte dos Pastores das Igrejas particulares. Trata-se de um tema desejado há muito tempo. E isto compreende-se facilmente porque a acção espiritual, que exprime e alimenta a vida e a missão da Igreja, se fundamenta necessariamente na Palavra de Deus. Além disso ela, destinada a todos os discípulos do Senhor como nos recordou a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos exige especiais veneração e obediência, a fim de que seja acolhida também como urgente exortação à plena comunhão entre os crentes em Cristo.
A propósito do tema supramencionado, trabalhastes com empenhamento e já chegastes à fase final da redacção dos Lineamenta, um documento que deseja corresponder à exigência, tão sentida pelos Pastores, de favorecer cada vez mais o contacto com a Palavra de Deus na meditação e na oração. Estou-vos grato pelo apreciado trabalho que, juntamente com a Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos e com um válido grupo de peritos, estais a levar a cabo. E considerei muito interessante a breve exposição que Vossa Excelência me apresentou, da qual pude compreender quanto realizastes. Estou persuadido de que, quando forem publicados, os Lineamenta servirão como instrumento precioso para que toda a Igreja possa aprofundar a temática da próxima Assembleia sinodal. Formulo cordiais bons votos a fim de que isto contribua para a redescoberta da importância da Palavra de Deus na vida de todos os cristãos, de cada comunidade eclesial e também civil a redescobrir inclusive o dinamismo missionário, ínsito na Palavra de Deus. Como recorda a Carta aos Hebreus, a Palavra de Deus é viva e eficaz (cf. He 4,12), porque ilumina o nosso caminho na peregrinação terrena rumo ao pleno cumprimento do Reino de Deus.
Estimados Irmãos, agradeço-vos mais uma vez a vossa visita hodierna. Asseguro uma especial lembrança na oração pelas vossas intenções, enquanto invoco sobre vós a protecção maternal da Bem-Aventurada Virgem Maria, que ofereceu ao mundo Jesus Cristo, Palavra viva que se fez carne. Como sinal de gratidão e de bons votos pela assistência do Espírito Santo na futura consulta da Igreja universal, concedo a Bênção Apostólica a todos vós e, de bom grado, torno-a extensiva a quantos são confiados aos vossos cuidados pastorais.
Sábado, 27 de Janeiro de 2007
Caríssimos Prelados Auditores
Oficiais e Colaboradores
do Tribunal da Rota Romana
Estou particularmente feliz por me encontrar de novo convosco, por ocasião da inauguração do ano judiciário. Saúdo cordialmente o Colégio dos Prelados Auditores, a começar pelo Decano, D. Antoni Stankiewicz, a quem agradeço as palavras com que introduziu este nosso encontro. Saúdo também os Oficiais, os Advogados e os demais Colaboradores deste Tribunal, assim como os membros do Studium Rotale e todos os presentes. É de bom grado que aproveito a ocasião para vos renovar a expressão da minha estima e, ao mesmo tempo, para reiterar a relevância do vosso ministério eclesial num sector tão vital como é a actividade judiciária. Tenho bem presente o precioso trabalho que sois chamados a desempenhar com diligência e escrúpulo, em nome e por mandato desta Sé Apostólica. A vossa delicada tarefa de serviço à verdade na justiça é sustentada pelas insignes tradições deste Tribunal, em cujo respeito cada um de vós deve sentir-se pessoalmente comprometido.
No ano passado, no meu primeiro encontro convosco, procurei explorar os caminhos para superar a aparente contraposição entre o instituto do processo de nulidade matrimonial e o genuíno sentido pastoral. Em tal perspectiva, emergia o amor pela verdade como ponto de convergência entre pesquisa processual e serviço pastoral às pessoas. Porém, não devemos esquecer que nas causas de nulidade matrimonial a verdade processual pressupõe a "verdade do próprio matrimónio".
Contudo, a expressão "verdade do matrimónio" perde relevância existencial num contexto cultural marcado pelo relativismo e pelo positivismo jurídico, que consideram o matrimónio como mera formalidade social dos vínculos afectivos. Portanto, ele não só se torna contingente como podem ser os sentimentos humanos, mas apresenta-se como uma superestrutura legal que a vontade humana poderia manipular a bel-prazer, privando-o até da sua índole heterossexual.
Esta crise de sentido do matrimónio faz-se sentir também pelo modo de pensar de não poucos fiéis. Os efeitos práticos do que chamamos "hermenêutica da descontinuidade e da ruptura" acerca do ensinamento do Concílio Vaticano II (cf. Discurso à Cúria Romana, 22 de Dezembro de 2005), percebem-se de modo particularmente intenso no âmbito do matrimónio e da família. Com efeito, para alguns parece que a doutrina conciliar sobre o matrimónio, e concretamente a descrição deste instituto como "intima communitas vitae et amoris" (Constituição Pastoral Gaudium et spes GS 48), deva levar a negar a existência de um vínculo conjugal indissolúvel, porque se trataria de um "ideal" ao qual não podem ser "obrigados" os "cristãos normais". De facto, difundiu-se também em certos ambientes eclesiais a convicção segundo a qual o bem pastoral das pessoas em situação matrimonial irregular exigiria uma espécie da sua regularização canónica, independentemente da validade ou nulidade do seu matrimónio, ou seja, prescindindo da "verdade" acerca da sua condição pessoal. Com efeito, a via da declaração de nulidade matrimonial é considerada um instrumento jurídico para alcançar tal objectivo, segundo uma lógica em que o direito se torna a formalização das pretensões subjectivas. A propósito, seja realçado antes de tudo que o Concílio descreve certamente o matrimónio como uma intima communitas vitae et amoris, mas tal comunidade é determinada, seguindo a tradição da Igreja, por um conjunto de princípios de direito divino, que fixam o seu verdadeiro sentido antropológico permanente (cf. Ibidem).
Depois, em fiel continuidade hermenêutica com o Concílio, seguiram-se o magistério de Paulo VI e de João Paulo II, como também a obra legislativa dos Códigos, tanto latino como oriental. De facto, por tais Instâncias foi envidado, também a respeito da doutrina e da disciplina matrimonial, o esforço da "reforma" ou da "renovação da continuidade"
Fevereiro 2007
Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2007
Queridos amigos!
É grande a minha alegria, depois de ter sido um dos membros fundadores da Fundação para a Pesquisa e o Diálogo inter-religioso e intercultural, ao encontrar-me convosco e ao receber-vos hoje no Vaticano. Saúdo em particular Sua Alteza Real o Príncipe Hassan da Jordânia, que tenho o prazer de reencontrar nesta ocasião.
Agradeço ao Vosso Presidente, Sua Eminência o Metropolita Damaskinos de Andrinopla, que me apresentou o fruto do vosso trabalho: a edição conjunta, na sua língua original e segundo a ordem cronológica, dos três livros sagrados das três religiões monoteístas. Com efeito, trata-se do primeiro projecto que considerámos ao criar juntos esta Fundação, para "dar uma contribuição específica e positiva ao diálogo entre as culturas e entre as religiões".
Como recordei em várias ocasiões, em continuidade com a Declaração conciliar Nostra aetate do meu querido predecessor, o Papa João Paulo II, somos chamados, Judeus, Cristãos e Muçulmanos, a reconhecer e a desenvolver os vínculos que nos unem. Foi precisamente esta a ideia que nos levou a criar a Fundação, cuja finalidade é procurar "a mensagem mais essencial e autêntica que as três religiões monoteístas, Judaísmo, Cristianismo e Islão, podem dirigir ao mundo do século XXI", para dar um renovado impulso ao diálogo inter-religioso e intercultural, mediante a pesquisa comum e pelo esclarecimento e difusão do que, nos nossos respectivos patrimónios espirituais, contribui para reforçar os vínculos fraternos entre as nossas comunidades de crentes. Por estes motivos, a Fundação propos-se, num primeiro momento, elaborar um instrumento de referência que ajude a superar os desentendimentos e os preconceitos, oferecendo uma base comum aos trabalhos futuros. Assim, vós realizastes esta bonita edição dos três livros que são a fonte de crenças religiosas, criadoras de culturas que marcam profundamente os povos e aos quais hoje nós somos devedores.
A releitura e, para alguns, a descoberta dos textos que muitas pessoas no mundo veneram como sagrados obriga ao respeito recíproco, no diálogo confiante. Os homens de hoje esperam de nós uma mensagem de concórdia e de serenidade, e a manifestação concreta da nossa vontade comum de os ajudar a realizar a sua aspiração legítima a viver na justiça e na paz. Têm o direito de esperar de nós o sinal forte de uma compreensão renovada e de uma cooperação reforçada, segundo o objectivo próprio da Fundação, que se propõe oferecer "também ao mundo um sinal de esperança e a promessa da bênção divina que acompanha sempre a acção caritativa".
Os trabalhos da fundação contribuirão para uma tomada de consciência crescente de tudo o que, nas diferentes culturas do nosso tempo, está conforme à sabedoria divina e serve a dignidade do homem, para melhor discernir e rejeitar tudo o que é usurpação do nome de Deus e desnaturalização da humanidade do homem. Portanto somos convidados a comprometer-nos num trabalho comum de reflexão, trabalho da razão que invoco convosco de todo o coração, para perscrutar o mistério de Deus à luz das nossas tradições religiosas e das respectivas sabedorias, para discernir os valores adequados para iluminar os homens e as mulheres de todos os povos da terra, seja qual for a sua cultura e religião. Eis por que é precioso dispor de um ponto de referência comum graças à realização do vosso trabalho. Desta forma podemos progredir no diálogo inter-religioso e intercultural, diálogo hoje necessário como nunca: um diálogo verdadeiro, respeitador das diferenças, corajoso, paciente e perseverante, que baseie a sua força na oração e se alimente da esperança que habita em todos os que crêem em Deus e que depositam n'Ele a sua confiança.
As nossas respectivas tradições religiosas insistem sobre o carácter sagrado da vida e sobre a dignidade da pessoa humana. Sabemos que Deus abençoará as nossas iniciativas se elas concorrerem para o bem de todos os seus filhos e se fizerem com que se respeitem uns aos outros, numa fraternidade com dimensões mundiais. Com todos os homens de boa vontade, nós desejamos a paz. Eis por que repito com insistência: a pesquisa e o diálogo inter-religioso e intercultural não são uma opção, mas uma necessidade vital para o nosso tempo.
O Todo-Poderoso abençoe os vossos trabalhos e vos conceda, assim como aos vossos familiares, a abundância das suas bênçãos!
Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2007
Estimados irmãos em Cristo
É com grande alegria que vos dou as boas-vindas, membros da Comissão Mista Internacional para o Diálogo Teológico entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas Orientais, por ocasião do vosso quarto encontro plenário.
Através de vós, saúdo de bom grado os meus Veneráveis Irmãos, os Chefes das Igrejas Ortodoxas Orientais: Sua Santidade o Papa Shenouda III, Sua Santidade o Patriarca Zakka I Iwas, Sua Santidade o Catholicos Karekin II, Sua Santidade o Catholicos Aram I, Sua Santidade o Patriarca Paulus, Sua Santidade o Patriarca Antonios I e Sua Santidade Baselios Marthoma Didymus I.
O vosso encontro relativo à constituição e à missão da Igreja é de grande importância para o nosso caminho comum para o restabelecimento da plena comunhão. A Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas Orientais compartilham um património que provém dos tempos apostólicos e dos primeiros séculos do cristianismo. Esta "herança de experiência" deveria formar o nosso futuro ao "guiar o nosso caminho para o reencontro da plena comunhão" (cf. Ut unum sint UUS 56).
O Senhor confiou-nos o mandamento "Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda criatura" (Mc 16,15). Hoje, muitos ainda esperam que a verdade doEvangelholhessejatransmitida.
A sede que têm da Boa Nova reforce a nossa determinação a agir e a pregar diligentemente por aquela unidade querida pela Igreja, a fim de que exerça a própria missão no mundo, em conformidade com a oração de Jesus: "Para que eles cheguem à perfeição da unidade e assim o mundo reconheça que Tu me enviaste e que os amaste a eles como a mim" (Jn 17,23)!
Muitos de vós provêm de países do Médio Oriente. A difícil situação que cada indivíduo e as comunidades cristãs enfrentam na região é causa de profunda preocupação para todos nós. Com efeito, as minorias cristãs acham difícil sobreviver num clima geopolítico tão variável e, com frequência, são tentados a emigrar. Nestas circunstâncias, os Cristãos de todas as tradições e comunidades do Médio Oriente são chamados a ser corajosos e permanecer firmes na força do Espírito de Cristo (cf. Mensagem por ocasião do Santo Natal aos Católicos que vivem na região médio-oriental, 21 de Dezembro de 2006). Que a intercessão e o exemplo de muitos mártires e santos, que deram corajoso testemunho de Cristo nessas terras, apoie e reforce as comunidades cristãs na própria fé!
Obrigado por terdes vindo hoje aqui e pelo vosso constante compromisso no caminho do diálogo e da unidade. Que o Espírito Santo vos acompanhe nas vossas deliberações. A todos vós, concedo de todo coração a minha Bênção Apostólica.
Sexta-feira, 2 de Fevereiro de 2007
Queridos irmãos e irmãs!
É com prazer que me encontro convosco no final da Celebração eucarística, que vos reuniu nesta Basílica também este ano, numa ocasião tão significativa para vós que, pertencendo a Congregações, Institutos, Sociedades de Vida Apostólica e Novas Formas de vida consagrada, constituís uma componente particularmente significativa do Corpo místico de Cristo. A celebração de hoje recorda a Apresentação do Senhor no Templo, festa escolhida pelo meu venerado predecessor, João Paulo II, como "Dia da Vida Consagrada". Dirijo com profundo prazer a minha saudação a cada um de vós, começando pelo Senhor Cardeal Franc Rodé, Prefeito da vossa Congregação, ao qual estou grato pelas cordiais palavras que me dirigiu em vosso nome. Saúdo depois o Secretário e todos os membros da Congregação, que dedica a sua atenção a um sector vital da Igreja. A festa de hoje é oportuna como nunca para pedir juntos ao Senhor o dom de uma presença cada vez mais numerosa e incisiva dos religiosos, das religiosas e das pessoas consagradas na Igreja a caminho pelas estradas do mundo.
Queridos irmãos e irmãs, a festa que hoje celebramos recorda-nos que o vosso testemunho evangélico, para ser verdadeiramente eficaz, deve brotar de uma resposta sem reservas à iniciativa de Deus que vos consagrou em si com um especial acto de amor. Como os idosos Simeão e Ana estavam desejosos de ver o Messias antes da sua morte e falavam dele "a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém" (cf. Lc 2,26 Lc 2,38), assim também neste nosso tempo difunde-se, sobretudo entre os jovens, a necessidade de encontrar Deus. Quantos são escolhidos por Deus para a vida consagrada realizam precisamente de modo definitivo este anseio espiritual. De facto, habita neles uma só expectativa, a do Reino de Deus: que Deus reine nas nossas vontades, nos nossos corações, no mundo. Neles arde uma única sede de amor, que só o Eterno pode satisfazer.
Com o seu exemplo proclamam um mundo com frequência desorientado, mas na realidade cada vez mais em busca de um sentido, que Deus é o Senhor da existência, que a sua "graça vale mais que a vida" (Ps 62,4). Escolhendo a obediência, a pobreza e a castidade pelo Reino dos céus, mostrando que cada afeição e amor às coisas e às pessoas é incapaz de saciar definitivamente o coração; que a existência terrena é uma expectativa mais ou menos longa do encontro "face a face" com o Esposo divino, expectativa que se deve viver com o coração sempre vigilante para estarmos prontos a reconhecê-lo e a acolhê-lo quando ele vier.
Portanto, por sua natureza a vida consagrada constitui uma resposta a Deus total e definitiva, incondicionada e apaixonada (cf. Vita consecrata VC 17). E quando se renuncia a tudo para seguir Cristo, quando se lhe dá o que se possui de mais precioso enfrentando qualquer sacrifício, então, como aconteceu para o Mestre divino, também a pessoa consagrada que segue os seus passos se torna necessariamente "sinal de contradição", porque o seu modo de pensar e de viver muitas vezes está em contraste com a lógica do mundo, como quase sempre se apresenta nos meios de comunicação social. Escolhe-se Cristo, aliás, deixamo-nos "conquistar" por Ele sem reservas.
Diante desta coragem, quanta gente sequiosa da verdade permanece estupefacta e atraída por quem não hesita em dar a vida por aquilo em que crê. Não é esta a fidelidade evangélica radical à qual é chamada, também neste nosso tempo, cada pessoa consagrada? Demos graças ao Senhor por que tantos religiosos e religiosas, tantas pessoas consagradas, em todas as partes da terra, continuam a oferecer um testemunho supremo e fiel de amor a Deus e aos irmãos, testemunho que com frequência se tinge com o sangue do martírio. Agradeço a Deus porque estes exemplos continuam a suscitar também hoje no coração de muitos jovens o desejo de seguir Cristo para sempre, de modo íntimo e total.
Queridos irmãos e irmãs, nunca vos esqueçais de que a vida consagrada é dom divino, e que em primeiro lugar é o Senhor que a guia a bom termo segundo os seus projectos. Esta certeza de que o Senhor nos conduz a bom fim, apesar das nossas debilidades; esta certeza deve servir de conforto, preservando-vos da tentação do desencorajamento diante das inevitáveis dificuldades da vida e dos numerosos desafios da época moderna. De facto, nos tempos difíceis que estamos a viver muitos Institutos podem sentir uma sensação de desorientação pelas debilidades que encontram no seu interior e por muitos obstáculos que encontram no cumprimento da sua missão. Aquele Menino Jesus, que hoje é apresentado no Templo, está vivo entre nós e ampara-nos de modo invisível para que cooperemos fielmente com Ele na obra da salvação e não nos abandona.
A liturgia de hoje é particularmente sugestiva porque está assinalada pelo símbolo da luz. A solene procissão dos círios, que realizastes no início da celebração, indica Cristo, verdadeira luz do mundo, que resplandece na noite da história e que ilumina todo aquele que procura a verdade. Queridos consagrados e consagradas, ardei nesta chama e fazei-a resplandecer com a vossa vida, para que, em toda a parte, brilhe um raio da luz irradiada por Jesus, esplendor de verdade.
Dedicando-vos exclusivamente a Ele (cf. Vita consecrata VC 15), testemunhais o fascínio da verdade de Cristo e a alegria que brota do amor por Ele. Na contemplação e na actividade, na solidão e na fraternidade, no serviço aos pobres e aos últimos, no acompanhamento pessoal e nos areópagos modernos, estai prontos para proclamar e testemunhar que Deus é Amor, como é agradável amá-lo. Maria, a Tota pulchra, vos ensine a transmitir aos homens e às mulheres de hoje este fascínio divino, que deve transparecer das vossas palavras e das vossas acções. Ao manifestar-vos o meu grato apreço pelo serviço que prestais à Igreja, garanto-vos a minha constante recordação na oração e abençoo-vos a todos de coração.
Sábado, 3 de Fevereiro de 2007
Queridos irmãos e irmãs
Sinto-me feliz por estar hoje convosco, membros dos Institutos Seculares, que encontro pela primeira vez depois da minha eleição para a Cátedra do Apóstolo Pedro. Saúdo-vos a todos com afecto. Saúdo o Cardeal Franc Rodé, Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, e agradeço-lhe as expressões de filial devoção e espiritual proximidade dirigidas a mim também em vosso nome. Saúdo o Cardeal Cottier e o Secretário da vossa Congregação. Saúdo a Presidente da Conferência Mundial dos Institutos Seculares, que se fez intérprete dos sentimentos e das expectativas de todos vós que viestes de diversos países de todos os continentes para celebrar um Simpósio internacional sobre a Constituição apostólica Provida Mater Ecclesia.
Como já foi dito, passaram 60 anos daquele 2 de Fevereiro de 1947, quando o meu Predecessor Pio XII promulgou esta Constituição apostólica, dando assim uma configuração teológico-jurídica a uma experiência preparada nos decénios precedentes, e reconhecendo nos Institutos Seculares um dos inúmeros dons com que o Espírito Santo acompanha o caminho da Igreja e a renova em todos os séculos. Aquele acto jurídico não representou o ponto de chegada, mas o ponto de partida de um caminho destinado a delinear uma nova forma de consagração: a de fiéis leigos e presbíteros diocesanos, chamados a viver com radicalidade evangélica exactamente aquela secularidade na qual eles estão imersos em virtude da condição existencial ou do ministério pastoral. Hoje, estais aqui para continuar a traçar o percurso iniciado há sessenta anos, que vos vê cada vez mais apaixonados portadores, em Cristo Jesus, do sentido do mundo e da história. A vossa paixão nasce da descoberta da beleza de Cristo, do seu modo único de amar, encontrar, curar a vida, alegrá-la, confortá-la. É esta a beleza que as vossas vidas querem cantar, para que o vosso estar no mundo seja sinal do vosso estar em Cristo.
Com efeito, é o mistério da Encarnação ("Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito": Jn 3,16) que torna a vossa inserção nas vicissitudes humanas lugar teológico. A obra da salvação realizou-se não em contraposição, mas dentro e através da história dos homens. Em relação a isso, a Carta aos Hebreus observa: "Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho" (He 1,1-2a). O próprio acto redentor realizou-se no contexto do tempo e da história, significando obediência ao desígnio de Deus inscrito na obra criada pelas suas mãos. É ainda o mesmo texto da Carta aos Hebreus, texto inspirado, a revelar: "Disse primeiro: "Não quiseste nem te agradaram sacrifícios, oferendas e holocaustos pelos pecados", e, no entanto, eram oferecidos segundo a Lei. Disse em seguida: "Eis que venho para fazer a tua vontade"" (He 10,8-9a). Estas palavras do Salmo que a Carta aos Hebreus vê expressas no diálogo intratrinitário, são palavras do Filho que diz ao Pai: "Eis-me, venho fazer a tua vontade".
E assim se realiza a Encarnação: "Eis-me, venho fazer a tua vontade". O Senhor envolve-nos nas suas palavras que se tornam nossas: eis-me, venho com o Senhor, com o Filho, fazer a tua vontade.
Dessa maneira, o caminho da vossa santificação é delineado com clareza: a adesão oblativa ao desígnio salvífico manifestado na Palavra revelada, a solidariedade com a história, a busca da vontade do Senhor inscrita nas vicissitudes humanas governadas pela sua providência. E, ao mesmo tempo, reconhecem-se as características da missão secular: o testemunho das virtudes humanas, como "a justiça, a paz, a alegria" (Rm 14,17), o "comportamento exemplar" do qual fala Pedro na sua Primeira Carta (cf. 1P 2,12) fazendo ressoar a palavra do Mestre: "Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu" (Mt 5,16). Faz parte também da missão secular o compromisso pela construção de uma sociedade que reconheça nos vários âmbitos a dignidade da pessoa e os valores irrenunciáveis para a sua plena realização: da política à economia, da educação ao empenho pela saúde pública, da administração dos serviços à pesquisa científica.
Cada realidade própria e específica vivida pelo cristão, o seu trabalho e os seus interesses concretos, mesmo conservando a sua relativa consistência, encontram o seu fim último no estar envolvidos pela mesma finalidade com a qual o Filho de Deus veio ao mundo. Portanto, vos sentis chamados a agir em virtude de cada dor, injustiça, assim como de cada busca de verdade, de beleza e de bondade, não porque tendes a solução para todos os problemas, mas porque cada circunstância em que o homem vive e morre constitui para vós a ocasião de testemunhar a obra salvífica de Deus. Esta é a vossa missão. A vossa consagração evidencia, por um lado, a particular graça que vos vem do Espírito para a realização da vocação, por outro, empenha-vos a uma total docilidade de mente, de coração e de vontade ao projecto de Deus Pai revelado em Cristo Jesus, para cuja sequela radical fostes chamados.
Cada encontro com Cristo requer uma mudança profunda de mentalidade, mas para alguns, como aconteceu convosco, a chamada do Senhor é particularmente exigente: deixar tudo, porque Deus é tudo e será tudo na vossa vida. Não se trata simplesmente de um modo diferente de relacionar-vos com Cristo e de exprimir a vossa adesão a Ele, mas de uma escolha de Deus que, de modo estável, exige de vós uma confiança absolutamente total n'Ele. Conformar a própria vida com a de Cristo entrando nestas palavras, conformar a própria vida com a de Cristo através da prática dos conselhos evangélicos é uma nota fundamental e vinculante que, na sua especificidade, exige empenhos e gestos concretos, de "alpinistas do espírito", como vos quis chamar o venerado Papa Paulo VI (Discurso aos participantes no 1º Congresso Internacional dos Institutos Seculares: Insegnamenti, VIII, 1970, p. 939).
O carácter secular da vossa consagração evidencia, por um lado, os meios que utilizais para a realizar, isto é, aqueles próprios de cada homem e mulher que vive em condições comuns no mundo, e por outro, a forma do seu desenvolvimento, ou seja, de uma relação profunda com os sinais dos tempos que sois chamados a discernir, pessoal e comunitariamente, à luz do Evangelho. Muitas vezes, com competência, foi delineado o vosso carisma exactamente neste discernimento, para que possais ser laboratório de diálogo com o mundo, aquele "laboratório experimental no qual a Igreja verifica as modalidades concretas das suas relações com o mundo" (Paulo VI, Discurso aos Responsáveis gerais dos Institutos Seculares: Insegnamenti, XIV, 1976, p. 676).
Precisamente disto deriva a persistente actualidade do vosso carisma, porque este discernimento deve ser feito não a partir de fora da realidade, mas do seu interior, através de um envolvimento completo. Isto acontece por meio das relações quotidianas que podeis tecer nos relacionamentos familiares e sociais, na actividade profissional, no tecido das comunidades civil e eclesial. O encontro com Cristo, o pôr-se no seu seguimento abre de par em par e impele ao encontro com todos, porque se Deus se realiza somente na comunhão, também o homem só na comunhão trinitária encontrará a sua plenitude.
Não vos é pedido que instituais particulares formas de vida, de empenho apostólico, de intervenções sociais, excepto o que pode nascer nas relações pessoais, fontes de riqueza profética. Como o fermento que faz crescer toda a farinha (cf. Mt 13,33), assim seja a vossa vida, às vezes silenciosa e escondida, mas sempre decidida e encorajadora, capaz de gerar esperança. O lugar do vosso apostolado é, portanto, todo o humano, não só dentro da comunidade cristã onde a relação se sustenta na escuta da Palavra e na vida sacramental, na qual vos apoiais para manter a identidade baptismal repito, o lugar do vosso apostolado é todo humano, tanto dentro da comunidade cristã como na comunidade civil onde a relação se actua na busca do bem comum, no diálogo com todos, chamados a testemunhar aquela antropologia cristã que constitui proposta de sentido numa sociedade desorientada e confusa pelo clima multicultural e multirreligioso que a caracteriza.
Vindes de diversos países, diversas são as situações culturais, políticas e também religiosas nas quais viveis, trabalhais, envelheceis. Em todas elas sois pesquisadores da Verdade, da humana revelação de Deus na vida. Sabemos que a estrada é longa, cujo presente é apreensivo, mas o êxito está garantido. Anunciai a beleza de Deus e da sua criação. No exemplo de Cristo, sede obedientes ao amor, homens e mulheres de mansidão e misericórdia, capazes de percorrer as estradas do mundo, fazendo somente o bem. As vossas sejam vidas que coloquem no centro as Beatitudes, contradizendo a lógica humana, para exprimir uma incondicionada confiança em Deus que quer o homem feliz. A Igreja tem necessidade também de vós para dar cumprimento à sua missão. Sede semente de santidade lançada em abundância nos sulcos da história. Radicados na acção gratuita e eficaz com que o Espírito do Senhor está a guiar as vicissitudes humanas, possais dar frutos de fé genuína, escrevendo com a vossa vida e com o vosso testemunho parábolas de esperança, escrevendo-as com as obras sugeridas pela "fantasia da caridade" (João Paulo II, Carta Ap. Novo millennio ineunte, NM 50).
Com estes votos, ao garantir-vos a minha constante oração, concedo-vos uma especial Bênção Apostólica como apoio para as vossas iniciativas de apostolado e de caridade.
Bento XVI Discursos 2007