Bento XVI Discursos 2007


AOS BISPOS AMIGOS DO MOVIMENTO DOS FOCOLARES


E DA COMUNIDADE DE SANTO EGÍDIO


Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007


Venerados Irmãos no Episcopado

Estou feliz por vos receber nesta especial Audiência e saúdo cordialmente todos vós, que viestes de vários países do mundo. Dirijo também um particular pensamento àqueles que estão aqui connosco e que pertencem a outras Igrejas. Alguns de vós participam no encontro anual dos Bispos amigos do Movimento dos Focolares, que tem como tema: "Cristo crucificado e abandonado, luz na noite cultural". É de bom grado que aproveito esta ocasião para enviar a Chiara Lubich os meus bons votos e a minha bênção, que torno extensiva a todos os membros do Movimento por ela fundado. Outros participam no IX Congresso de Bispos amigos da Comunidade de Santo Egídio, que aborda um tema mais actual do que nunca: "A globalização do amor". Saúdo Sua Ex.cia D. Vincenzo Paglia e, juntamente com ele, o Professor Andrea Riccardi e toda a Comunidade que, no aniversário da sua fundação, esta tarde, vai reunir-se na Basílica de São João de Latrão, para uma solene Celebração Eucarística.

Não disponho aqui de todos os nomes, mas naturalmente saúdo cada um dos queridos Irmãos, Bispos e Cardeais, bem como todos os Irmãos da Igreja Ortodoxa, enfim, saúdo-vos a todos de coração.

Estimados Irmãos no Episcopado, em primeiro lugar gostaria de vos dizer que a vossa proximidade dos dois Movimentos, enquanto ressalta a vitalidade destas novas agregações de fiéis, manifesta outrossim a comunhão entre os carismas, que constitui um típico "sinal dos tempos". Parece-me que estes encontros dos carismas da unidade da Igreja, na diversidade dos dons, constituem um sinal muito encorajador e importante. A Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores gregis recorda que "as relações recíprocas entre os Bispos... vão muito além dos seus encontros institucionais" ().

É aquilo que acontece inclusive nos encontros como os vossos, em que se experimenta não apenas a colegialidade, mas uma fraternidade episcopal que, da partilha dos ideais promovidos pelos Movimentos, haure um estímulo que torna mais intensa a comunhão dos corações, mais vigoroso e mais compartilhado o compromisso a mostrar a Igreja como lugar de oração e de caridade, como casa de misericórdia e de paz. O meu venerado Predecessor, João Paulo II, apresentou os Movimentos e as Novas Comunidades que surgiram ao longo destes anos, como uma dádiva providencial do Espírito Santo à Igreja, para responder de maneira eficaz aos desafios do nosso tempo. E vós sabeis que esta é também a minha convicção. Quando eu era professor, e depois Cardeal, tive a ocasião de expressar esta minha convicção, de que realmente os Movimentos constituem um dom do Espírito Santo à Igreja. E precisamente no encontro dos carismas mostram também a riqueza, tanto dos dons como também da unidade na fé.

Como esquecer, por exemplo, a extraordinária Vigília de Pentecostes do ano passado, que viu a participação coral de numerosos Movimentos e Associações eclesiais? Ainda está viva em mim a comoção experimentada quando participei, na Praça de São Pedro, numa experiência espiritual tão intensa. Repito-vos aquilo que então tive a ocasião de manifestar aos fiéis reunidos de todas as regiões do mundo, ou seja, que a multiformidade e a unidade dos carismas e dos ministérios são inseparáveis na vida da Igreja. O Espírito Santo deseja a multiformidade dos Movimentos ao serviço do único Corpo, que é precisamente a Igreja. E realiza isto através do ministério daqueles que Ele mesmo destinou para reger a Igreja de Deus: os Bispos, em comunhão com o Sucessor de Pedro. Esta unidade e esta multiplicidade, que existem no Povo de Deus, tornam-se de certa maneira manifesta também no dia de hoje, dado que estão reunidos com o Papa diversos Bispos, próximos de dois diferentes Movimentos eclesiais, caracterizados por uma forte dimensão missionária. No rico mundo ocidental onde, não obstante a cultura relativista, contudo não falta ao mesmo tempo um difundido desejo de espiritualidade, os vossos Movimentos dão testemunho da alegria da fé e da beleza de ser cristão, em grande abertura ecuménica. Nas vastas áreas deprimidas da terra, eles transmitem a mensagem da solidariedade e tornam-se próximos dos pobres e dos mais fracos mediante aquele amor humano e divino, que desejei repropor à atenção de todos na Carta Encíclica Deus caritas est. Por conseguinte, da comunhão entre Bispos e Movimentos pode brotar um válido impulso para um renovado compromisso da Igreja no anúncio e no testemunho do Evangelho da esperança e da caridade, em todos os recantos do mundo.

O Movimento dos Focolares, precisamente a partir do coração da sua espiritualidade, ou seja, de Jesus crucificado e abandonado, salienta o carisma e o serviço da unidade, que se realiza nos vários âmbitos sociais e culturais, como por exemplo o económico, com a "economia da comunhão", e através dos caminhos do ecumenismo e do diálogo inter-religioso. Inserindo no centro da sua própria existência a oração e a liturgia, a Comunidade de Santo Egídio deseja tornar-se próxima daqueles que estão a experimentar situações de dificuldade e de marginalização social.

Para o cristão, mesmo que esteja distante, o homem nunca é um estranho. Em conjunto, é possível enfrentar com maior ímpeto os desafios que nos interpelam de maneira urgente neste início do terceiro milénio: em primeiro lugar, penso na busca da justiça e da paz, bem como na urgência de construir um mundo mais fraterno e solidário, precisamente a partir dos países de onde alguns de vós são originários, e que estão a ser provados por conflitos sanguinolentos. Refiro-me de maneira especial à África, continente que trago no meu coração e que, faço votos por que possa finalmente conhecer um período de paz estável e de desenvolvimento autêntico. O próximo Sínodo dos Bispos africanos constituirá, sem dúvida, um momento propício para manifestar o grande amor que Deus reserva às amadas populações africanas.

Prezados amigos, a fraternidade original que existe entre vós e os Movimentos dos quais sois amigos impele-vos a carregar em conjunto "os fardos uns dos outros" (Ga 6,2), como recomenda o Apóstolo, acima de tudo naquilo que diz respeito à evangelização, ao amor pelos pobres e pela causa da paz. Que o Senhor torne cada vez mais prolíferas as vossas iniciativas espirituais e apostólicas. Acompanho-vos com a oração e, de bom grado, concedo a Bênção Apostólica a todos vós aqui presentes, ao Movimento dos Focolares e à Comunidade de Santo Egídio, como também aos fiéis que são confiados aos vossos cuidados pastorais.





AO SENHOR JUAN GÓMEZ MARTÍNEZ


NOVO EMBAIXADOR DA COLÔMBIA


JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO


DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS


Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2007


Senhor Embaixador

1. Apraz-me receber das suas mãos as Cartas que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República da Colômbia junto da Santa Sé. Dou-lhe as minhas cordiais boas-vindas a este encontro com o qual inicia a sua missão e agradeço-lhe as amáveis palavras que me dirigiu, assim como a deferente saudação que o Senhor Presidente, Dr. Álvaro Uribe Vélez, me enviou por seu intermédio, como expressão da proximidade espiritual do povo colombiano ao Papa.

Vossa Excelência vem representar junto da Santa Sé uma Nação que, ao longo da sua história, se distinguiu pela sua identidade católica. As suas palavras recordaram-me, e permitiram-me comprovar mais uma vez, o profundo afecto e a filial devoção dos colombianos ao Sucessor de Pedro, como fruto de uma arraigada vivência da fé cristã, e que se manifesta também, no apreço dos fiéis para com os Bispos e seus colaboradores, procurando manter as tradições e as virtudes herdadas dos antepassados.

2. Não passam despercebidos no mundo os esforços importantes que o seu país fez para procurar a paz e a reconciliação, juntamente com o compromisso por fomentar o progresso e instituições democráticas mais sólidas. São dignos de louvor os objectivos alcançados para uma maior segurança e estabilidade social, assim como a luta contra a pobreza. É preciso ressaltar também a constante preocupação em matéria de educação, favorecendo o acesso de todos os cidadãos aos programas escolares e universitários, porque a educação é a base de uma sociedade mais humana e solidária.

Não obstante, como Vossa Excelência mencionou, no seu país continuam a verificar-se situações complexas no campo político e social. Conheço os desafios que impedem de prosseguir um diálogo de paz, necessário não obstante os múltiplos obstáculos que se apresentam no caminho. Além disso, persistem outros problemas na sociedade que atentam contra a dignidade das pessoas, a unidade das famílias, um justo progresso económico e uma conveniente qualidade de vida. Tendo em consideração tanto os benefícios como as dificuldades, estimulo todos os colombianos a continuar os seus esforços para conseguir a concórdia e o crescimento harmonioso da nação. Estas aspirações só alcançam a sua plena realização quando Deus é considerado como o centro da vida e da história humana.

3. Por isso aprecio que Vossa Excelência tenha ressaltado o trabalho importante da Igreja Católica para a reconciliação nacional. De facto, além da participação directa de alguns Bispos, sacerdotes e religiosos nas acções encaminhadas para construir a paz, a sua voz ressoou também nos momentos decisivos da vida colombiana, recordando quais são as bases insubstituíveis do verdadeiro progresso humano e da convivência pacífica, exortando os católicos e os homens de boa vontade a seguir o caminho do perdão e da responsabilidade comum para instaurar a justiça.

4. Como Pastor da Igreja Universal, não posso deixar de expressar a Sua Excelência a minha preocupação pelas leis relativas a questões muito delicadas como a transmissão e a defesa da vida, a enfermidade, a identidade da família e o respeito do matrimónio. Sobre estes temas, e à luz da razão natural e dos princípios morais e espirituais que provêm do Evangelho, a Igreja Católica continuará a proclamar incessantemente a inalienável grandeza dos leigos presentes nos órgãos legislativos, no Governo e na administração da justiça, para que as leis expressem sempre os princípios e os valores que estejam em conformidade com o direito natural e que promovam o autêntico bem comum.

5. O início da sua missão junto da Santa Sé oferece-me também a oportunidade de recordar o que já disse no mês passado no meu discurso ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé. Ao falar sobre vários países, referi-me "sobretudo à Colômbia, onde o prolongado conflito interno provocou uma crise humanitária, sobretudo no que se refere aos prófugos. Devem ser feitos todos os esforços para pacificar o país, para que às famílias sejam restituídos os seus parentes dos quais foram privadas, para dar de novo segurança e vida normal a milhões de pessoas. Estes sinais darão confiança a todos, inclusive a quantos foram envolvidos na luta armada" (8 de Janeiro de 2007).

É meu desejo fervoroso que no seu país se ponha fim a este cruel flagelo dos sequestros, que atentam de modo tão grave contra a dignidade e os direitos das pessoas. Acompanho com a minha oração quantos se encontram injustamente privados da liberdade e expresso a minha proximidade às suas famílias, confiando na sua imediata libertação.

A este respeito, as numerosas instituições dedicadas à caridade, seguindo os projectos pastorais da Conferência Episcopal e das dioceses, estão chamadas a prestar assistência humanitária aos mais necessitados, especialmente aos deslocados, tão numerosos na Colômbia, assim como às vítimas da violência. Deste modo dão também testemunho do esforço da Igreja que, sempre como sinal da sua própria missão e nas circunstâncias que a nação vive, é artífice de comunhão e de esperança.

6. Ao terminar este encontro, desejo manifestar-lhe os meus anseios de que na sua Pátria se consolide a paz tão desejada, assim como a reconciliação. Peço a Deus Pai que faça frutificar todos os esforços realizados com esta finalidade. Invoco também a intercessão de Nossa Senhora do Rosário de Chiquinquirá sobre o querido povo colombiano, sobre o Senhor Presidente e demais governantes, e de modo especial sobre Vossa Excelência e sua distinta família, desejando-lhe bom êxito no cumprimento da alta missão que lhe foi confiada.





A UM GRUPO DE MINISTROS DAS FINANÇAS


DE VÁRIOS PAÍSES


Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2007


Senhoras e Senhores

É com prazer que vos dou as boas-vindas, a vós Ministros das Finanças da Itália, do Reino Unido, do Canadá e da Rússia, assim como aos demais Ministros, aos ilustres líderes internacionais e às importantes personalidades mundiais, inclusive à Rainha da Jordânia e ao Presidente do Banco Mundial. Estou grato ao Senhor Ministro Tommaso Padoa Schioppa, pelas suas amáveis palavras de saudação, proferidas em nome de todos vós. O nosso encontro hodierno é profundamente apreciado, uma vez que se realiza como parte do lançamento de um programa-guia destinado ao desenvolvimento e à produção de vacinas contra enfermidades pandémicas, bem como à sua distribuição aos países mais pobres. Esta digna iniciativa, denominada "Advance Market Commitment", tem em vista contribuir para a resolução de um dos desafios mais urgentes no campo dos cuidados preventivos da saúde, que diz respeito de maneira particular às nações que já sofrem por causa da pobreza e de graves necessidades. Além disso, ela tem inclusive o mérito de unir as instituições públicas e o sector privado, num esforço para encontrar formas mais eficazes de intervir neste campo.

Este nosso encontro tem lugar imediatamente antes do Dia Mundial do Doente, celebrado todos os anos em 11 de Fevereiro, festa de Nossa Senhora de Lourdes. Trata-se de uma ocasião que a a Igreja tem de chamar publicamente a atenção para o flagelo do sofrimento, e no corrente ano ela está focalizada sobre as pessoas que sofrem de doenças incuráveis, muitas das quais se encontram numa fase terminal. Em tal contexto, encorajo de todo o coração os esforços que envidais em vista deste novo programa e da sua finalidade de fazer progredir a investigação científica destinada à descoberta de novas vacinas. Estas vacinas são urgentemente necessárias para prevenir que milhões de seres humanos inclusive inúmeras crianças venham a morrer todos os anos por causa de enfermidades infecciosas, de maneira especial nas regiões do nosso mundo que se encontram expostas a maiores perigos. Nesta era do mercado globalizado, todos nós estamos preocupados com o crescente fosso existente entre o padrão de vida dos países que gozam de enormes riquezas e de um elevado nível de desenvolvimento tecnológico, e o das nações que são insuficientemente desenvolvidas, onde a pobreza persiste e chega mesmo a aumentar.

A iniciativa criativa e promissora lançada no dia de hoje deseja opor-se a esta tendência, uma vez que visa criar um "futuro" mercado em favor das vacinas, prioritariamente das que são capazes de prevenir a mortalidade infantil. Asseguro-vos o apoio integral da Santa Sé em benefício deste programa humanitário, que se inspira no espírito de solidariedade humana de que o nosso mundo tem necessidade para ultrapassar todas as formas de egoísmo e para promover a coexistência pacífica dos povos. Como mencionei na minha Mensagem para o Dia Mundial da Paz do corrente ano, qualquer serviço prestado para o bem dos pobres constitui um serviço que se realiza em prol da paz, porque "na raiz de não poucas tensões que ameaçam a paz, estão certamente as inúmeras desigualdades injustas, ainda tragicamente presentes no nosso mundo" (n. 6).

Ilustres Senhoras e Senhores, rezarei por cada um de vós, a fim de que Deus Todo-Poderoso vos assista nos vossos esforços, envidados para levar a cabo esta importante obra. Sobre vós e os vossos entes queridos, invoco cordialmente as suas Bênçãos de sabedoria, de fortaleza e de paz.





À DELEGAÇÃO DA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS


MORAIS E POLÍTICAS DE PARIS


Sábado, 10 de Fevereiro de 2007



Senhor Secretário perpétuo
Senhor Cardeal
Queridos amigos Académicos
Minhas Senhoras e meus Senhores!

É com prazer que hoje vos recebo, membros da Academia das Ciências Morais e Políticas. Em primeiro lugar, agradeço ao Senhor Michel Albert, Secretário perpétuo, as palavras com que se fez intérprete da vossa delegação, e a medalha que recorda a minha entrada como membro associado estrangeiro da vossa nobre Instituição.

A Academia das Ciências Morais e Políticas é um lugar de confrontos e de debates, propondo a todos os cidadãos e ao legislador reflexões para ajudar a "encontrar formas de organização políticas mais favoráveis ao bem público e ao desenvolvimento do indivíduo". De facto, a reflexão e a acção das Autoridades e dos cidadãos devem centrar-se sobre dois elementos: o respeito de todo o ser humano e a busca do bem comum. No mundo actual, é extremamente urgente convidar os nossos contemporâneos a dedicar uma atenção renovada a estes dois elementos. De facto, o desenvolvimento do subjectivismo, que faz com que cada um tenda a considerar-se como única referência e a convencer-se de que o que pensa tem o carácter da verdade, estimula-nos a formar as consciências sobre os valores fundamentais, que não podem ser ridicularizados sem pôr em perigo o homem e a própria sociedade, e sobre os critérios objectivos de uma decisão, que pressupõem um acto da razão.

Como ressaltei por ocasião da minha conferência sobre a nova Aliança, feita na vossa Academia em 1995, a pessoa humana é "um ser constitutivamente em relação", chamada a sentir-se cada vez mais responsável pelos seus irmãos e irmãs em humanidade. A questão apresentada por Deus, a partir do primeiro texto da Escritura, deve ressoar incessantemente no coração de cada um: "Que fizeste ao teu irmão?". O sentido da fraternidade e da solidariedade, e o sentido do bem comum baseiam-se numa vigilância em relação aos irmãos e à organização da sociedade, dando a cada um o seu lugar, para que possa viver em dignidade, ter abrigo e o necessário para a sua existência e da sua família, pela qual é responsável. Neste espírito, é preciso compreender a moção que votastes, no passado mês de Outubro, relativa aos direitos do homem e da liberdade de expressão, que faz parte dos direitos fundamentais, tendo sempre a preocupação de não subjugar a dignidade fundamental das pessoas e dos grupos humanos, e de respeitar as crenças religiosas.

Seja-me permitido recordar também nesta ocasião a figura de Andreï Dimitrijevitch Sakharov, ao qual eu sucedi na Academia. Esta grande personalidade recorda-nos que é necessário, na vida pessoal e na pública, ter a coragem de dizer a verdade e segui-la, ser livre em relação ao mundo circunstante que com frequência tende a impor os seus modos de ver e os comportamentos a adoptar. A verdadeira liberdade consiste em caminhar pela via da verdade, segundo a própria vocação, consciente de que cada um deve prestar contas da sua vida ao seu Criador e Salvador. É importante que saibamos propor aos jovens este caminho, recordando-lhes que o verdadeiro desenvolvimento não se realiza a qualquer preço e convidando-os a não se contentarem de seguir todas as modas que surgem. Desta forma, eles saberão discernir com coragem e tenacidade o caminho da liberdade e do bem-estar, que exige que se viva um certo número de exigências e que se façam esforços, sacrifícios e renúncias necessárias para agir bem.

Um dos desafios para os nossos contemporâneos, e sobretudo para a juventude, consiste em procurar viver não simplesmente a exterioridade, a aparência, mas desenvolver uma vida interior, lugar unificador do ser e do agir, lugar do reconhecimento da nossa dignidade de filhos de Deus chamados à liberdade, sem se separar da fonte da vida, mas permanecendo-lhes ligados.

Reconhecer-se filhos e filhas de Deus, uma vida bela e boa sob o olhar de Deus e as vitórias realizadas sobre o mal e contra a mentira fazem rejubilar o coração do homem. Permitindo que todos descubram que a sua vida tem um sentido e que dele somos responsáveis, abrimos o caminho para uma maturação das pessoas e para uma humanidade reconciliada, solícita com o bem comum.

O estudioso russo Sakharov é um exemplo disto; quando, sob o regime comunista, foi privado da sua liberdade exterior, a sua liberdade interior, da qual ninguém o podia privar, autorizava-o a tomar a palavra para defender com determinação os seus compatriotas, em nome do bem comum.

Ainda hoje, é fundamental que o homem não se deixe limitar por correntes exteriores, como o relativismo, a busca do poder e do lucro a qualquer preço, a droga, as relações afectivas desregradas, a confusão em campo matrimonial, o não reconhecimento do ser humano em todas as etapas da sua existência, desde a concepção até ao seu fim natural, deixando pensar que existem períodos nos quais o ser humano realmente não existe. Devemos ter a coragem de recordar aos nossos contemporâneos o que é o homem e o que é a humanidade. Convido as Autoridades civis e as pessoas que desempenham uma função na transmissão dos valores a terem sempre a coragem da verdade sobre o homem.

Ao terminar o nosso encontro, consenti que eu faça votos por que, mediante os seus trabalhos, a Academia das Ciências Morais e Políticas, com outras instituições, possa ajudar sempre os homens a construir uma vida melhor e a edificar uma sociedade onde é belo viver como irmãos.

Acompanho estes votos com a oração que elevo ao Senhor por vós, pelas vossas famílias e por todos os membros da Academia das Ciências Morais e Políticas.



À CONFEDERAÇÃO NACIONAL DAS MISERICÓRDIAS


DA ITÁLIA E AOS DOADORES DE SANGUE


Sábado, 10 de Fevereiro de 2007


Amados amigos
das Misericórdias da Itália

Estou contente por vos receber e dirijo as minhas cordiais boas-vindas a todos vós aqui presentes, agradecido por esta visita, que me oferece a ocasião para vos conhecer melhor. Saúdo o Presidente da vossa Confederação e agradeço ao prezado Cardeal Antonelli as amáveis palavras que me dirigiu em nome de todos vós. As Misericórdias é necessário ressaltá-lo constituem a mais antiga forma de voluntariado organizado, que surgiu no mundo. Efectivamente, elas remontam à iniciativa tomada por São Pedro, Mártir de Verona que, em 1244 em Florença, reuniu um grupo de cidadãos de todas as idades e classes sociais, desejosos de "honrar a Deus mediante obras de misericórdia para o bem do próximo", no anonimato mais absoluto e na gratuidade total.

Hoje, a Confederação das Misericórdias da Itália reúne mais de setecentas "confrarias" como vós as definis eloquentemente concentradas de maneira especial na Toscana, mas presentes em todo o território nacional, de forma particular nas regiões centrais e meridionais. A elas, é necessário acrescentar os numerosos grupos de doadores de sangue, denominados "Fratres". Por conseguinte, os voluntários congregados pela vossa organização benéfica são mais de cem mil; eles estão comprometidos de modo permanente nos âmbitos social e de assistência à saúde. A variedade das vossas intervenções, além de ser uma resposta às necessidades emergentes na sociedade, constitui o sinal de um zelo, de uma "fantasia" na caridade, que deriva de um coração palpitante, cujo "motor" é o amor pelo homem que se encontra em dificuldade.

É precisamente por este motivo que mereceis apreço: com a vossa presença e a vossa acção, contribuís para difundir o Evangelho do amor de Deus por todos os homens. Com efeito, como deixar de recordar a impressionante página evangélica, em que São Mateus nos apresenta o encontro definitivo com o Senhor?

Então, como o próprio Jesus nos disse, seremos interrogados pelo Juiz do mundo se, ao longo da nossa existência, demos de comer aos famintos e de beber aos sedentos; se recebemos o forasteiro e se abrimos as portas do nosso coração aos mais necessitados. Em síntese, no juízo final Deus perguntar-nos-á se não amamos de maneira abstracta, mas concretamente, com as obras (cf. Mt 25,31-46). E sensibiliza-me sempre verdadeiramente, ao ler de novo estas linhas, o facto de que Jesus, o Filho do homem e Juiz derradeiro, nos precede mediante esta acção, tornando-se Ele mesmo homem, fazendo-se pobre e sequioso e, no final, nos abraça estreitando-nos ao coração. É assim que Deus realiza aquilo que deseja que nós mesmos façamos: permanecer abertos aos outros e viver o amor não tanto com as palavras, mas com as obras.

No final da nossa vida seremos julgados sobre o amor, gostava de repetir São João da Cruz. Como é necessário que também hoje, aliás, especialmente nesta nossa época caracterizada por numerosos desafios humanos e espirituais, os cristãos proclamem com as obras o amor misericordioso de Deus! Cada baptizado deveria ser um "Evangelho vivo". Com efeito, muitas pessoas que não recebem facilmente Cristo e os seus ensinamentos exigentes, são contudo sensíveis ao testemunho daqueles que transmitem a sua mensagem mediante o exemplo concreto da caridade. O amor é uma linguagem que chega directamente ao coração, abrindo-o à confiança. Então exorto-vos, como fazia São Pedro com os primeiros cristãos, a estardes sempre prontos "a responder a quem quer que vos pergunte a razão da vossa esperança" (1P 3,15).

Além disso, gostaria de acrescentar mais uma reflexão: a vossa realidade associativa constitui um típico exemplo da importância que contém a conservação das próprias "raízes cristãs" na Itália e na Europa. As vossas confrarias, as Misericórdias, são uma presença viva e alegre, muito realista, destas raízes cristãs. Nos dias de hoje, as Misericórdias não constituem uma agregação eclesial, mas as suas raízes históricas sem dúvida permanecem cristãs. Exprime-o o seu próprio nome: "Misericórdias", manifestando inclusive o facto, precedentemente recordado, de que nas vossas origens existe a iniciativa de um Santo. Pois bem, para que continuem a dar frutos, as raízes devem conservar-se vivas e sólidas. É por isso que, oportunamente, propondes que os vossos sócios dediquem momentos periódicos de qualificação e de formação, em vista de aprofundar cada vez mais as motivações humanas e cristãs das vossas actividades. Com efeito, corre-se o risco de que o voluntariado venha a reduzir-se a um simples activismo. Contudo, se permanecer vital, o seu vigor espiritual poderá comunicar aos outros muito mais do que as coisas materialmente necessárias: pode oferecer ao próximo que está em dificuldade, o olhar de amor de que ele tem necessidade (cf. Carta Encíclica Deus caritas est ).

Enfim, desejo manifestar-vos um terceiro motivo de apreço: juntamente com outras associações de voluntariado, vós desempenhais uma importante função educativa. Ou seja, contribuís para manter viva a sensibilidade aos valores mais nobres, como a fraternidade e a ajuda abnegada àqueles que se encontram em dificuldade. Da experiência do voluntariado, particularmente os jovens poderão haurir benefício porque, se for bem delineado, o mesmo torna-se para eles uma "escola de vida", que os ajuda a dar um sentido e um valor mais excelsos e fecundos à sua própria existência. Possam as Misericórdias encorajá-los a crescer na dimensão do serviço ao próximo e a descobrir uma grande verdade evangélica: ou seja, que "há mais alegria em dar do que em receber" (Ac 20,35 cf. Deus caritas est ).

Dilectos amigos, amanhã 11 de Fevereiro, festa de Nossa Senhora de Lourdes, celebra-se o Dia Mundial do Doente, que já chegou à sua XV edição. No corrente ano, a atenção dirige-se de maneira especial às pessoas que sofrem de doenças incuráveis. Queridos amigos, a muitos deles também vós dedicais os vossos serviços. A Virgem Imaculada, Mãe da Misericórdia, vele sobre todas as vossas confrarias, aliás, sobre cada um dos membros das Misericórdias da Itália. Que Ela vos ajude a cumprir com amor autêntico a vossa missão, contribuindo desta forma para difundir no mundo o amor de Deus, manancial de vida para cada ser humano. A vós aqui presentes, a todas as Misericórdias da Itália e aos doadores de sangue "Fratres", concedo do íntimo do coração a minha Bênção.



AO SENHOR LUIS PARÍS CHAVERRI


NOVO EMBAIXADOR DA COSTA RICA


JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO


DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS


Sábado, 10 de Fevereiro de 2007


Senhor Embaixador!

1. É-me grato recebê-lo nesta audiência durante a qual me apresenta as Cartas Credenciais que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Costa Rica junto da Santa Sé, e agradeço-lhe sinceramente as amáveis palavras que me dirigiu neste solene acto com o qual inicia a missão que o seu Governo lhe confiou. Peço-lhe que faça chegar a minha deferente saudação ao Senhor Presidente da República, Dr. Óscar Arias, correspondendo ao que Vossa Excelência me transmitiu, e com o qual expressa a proximidade e o afecto do povo costa-riquenho ao Sucessor de Pedro.

2. A Costa Rica tem uma forte marca religiosa, que reflecte a fé do seu povo depois de mais de cinco séculos do início da evangelização. Neste sentido, a Igreja Católica, fiel à sua missão de levar a mensagem de salvação a todos os povos, e de acordo com a sua doutrina social, procura favorecer o progresso integral do ser humano e a defesa da sua dignidade, contribuindo para a consolidação dos valores fundamentais para que a sociedade possa gozar de estabilidade e harmonia, de acordo com a sua grande aspiração a viver em paz, liberdade e democracia.

As diversas comunidades eclesiais, movidas pelo desejo de manter viva a mensagem evangélica, cooperam em campos muito importantes, como o ensino, a assistência aos mais desfavorecidos, os serviços no campo da saúde, e a promoção da pessoa na sua condição de cidadão e filho de Deus. Por isso, os Bispos da Costa Rica olham com atenção e preocupação para as circunstâncias sociais que o País vive, como o crescente nível de pobreza, a insegurança pública e a violência familiar, juntamente com uma forte imigração de países vizinhos. Perante situações por vezes conflituosas e para defender o bem comum, oferecem a sua colaboração com iniciativas que favorecem o entendimento e a conciliação, e levam à promoção da justiça e à solidariedade, fomentando quando é necessário o diálogo nacional entre os responsáveis da vida pública.

Por outro lado, e como Sua Excelência ressaltou, este diálogo deve excluir qualquer forma de violência nas suas diversas expressões e ajudar a construir um futuro mais humano com a colaboração de todos. A este respeito, é oportuno recordar que as mensagens sociais não se alcançam aplicando unicamente medidas técnicas necessárias, mas promovendo também reformas que tenham presente uma consideração ética da pessoa, da família e da sociedade. Por isso, devem cultivar-se os valores morais como a honestidade, a austeridade e a responsabilidade pelo bem comum. Deste modo poder-se-á evitar o egoísmo pessoal e colectivo, assim como a corrupção em todos os ambientes, que impedem qualquer progresso.

3. Sabemos bem que o futuro de uma Nação se deve basear na paz, fruto da justiça (cf. Jc 3,18), construindo um tipo de sociedade que, começando pelos responsáveis da vida política, parlamentar, administrativa e judicial, favoreça a concórdia, a harmonia e o respeito da pessoa, assim como a defesa dos seus direitos fundamentais. Neste sentido, são dignas de louvor as iniciativas que o Governo da Costa Rica realizou no âmbito internacional para promover no mundo a paz e os direitos humanos, assim como a tradicional proximidade com as posições mantidas pela Santa Sé em diversos foros internacionais sobre questões tão importantes como a defesa da vida humana e a promoção do matrimónio e da família.

Todos os costa-riquenhos, com as qualidades que os distinguem, devem ser protagonistas e artífices do progresso do País, cooperando para a estabilidade política que permita a todos participar na vida pública. Cada um, segundo a sua capacidade e possibilidades pessoais, é chamado a dar a própria contribuição para o bem da Pátria, baseado numa ordem social mais justa e participativa. Para esta finalidade, os ensinamentos morais da Igreja oferecem valores e orientações que, se forem tomados em consideração especialmente por quantos trabalham ao serviço da Nação, são de grande ajuda para enfrentar de modo adequado as necessidades e aspirações dos cidadãos.

O doloroso e vasto problema da pobreza, com graves consequências no campo da educação, da saúde e da habitação, é um desafio urgente para os governantes e responsáveis da administração pública em relação ao futuro da Nação. É necessária uma retomada de consciência mais profunda que permita enfrentar decididamente a actual situação em todas as suas dimensões, cooperando assim para um verdadeiro compromisso pelo bem de todos. Assim como noutras partes, os pobres carecem dos bens primários e não encontram os meios indispensáveis que permitem a sua promoção e progresso integral. Isto prejudica, sobretudo, os imigrados em busca de melhor nível de vida. Perante esta situação, a Igreja, à luz da sua doutrina social, procura estimular e favorecer iniciativas orientadas para superar situações de marginalização em que se encontram tantos irmãos necessitados, pois a preocupação pelo social também faz parte da sua acção evangelizadora (cf. Sollicitudo rei socialis SRS 41).

4. Senhor Embaixador, antes de concluir este encontro desejo expressar-lhe os meus melhores votos para que a missão que hoje inicia seja fecunda em frutos e êxitos. Peço-lhe, de novo, que se faça intérprete dos meus sentimentos e esperanças junto do Senhor Presidente da República e demais Autoridades do seu País, enquanto invoco a bênção de Deus e a protecção da sua Padroeira, Nossa Senhora dos Anjos, para Vossa Excelência, a distinta família e colaboradores, e para todos os amadíssimos filhos e filhas da Costa Rica.





Bento XVI Discursos 2007