
Bento XVI Discursos 2007
Quinta-feira, 22 de Março de 2007
Senhor Cardeal
Venerados Irmãos
no Episcopado e no Sacerdócio
Estimados irmãos e irmãs
Estou feliz por vos receber, por ocasião da Sessão Plenária do Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde. Dirijo a minha cordial saudação a cada um de vós, vindos de várias partes do mundo, como válidas expressões do compromisso das Igrejas particulares, dos Institutos de Vida Consagrada e das numerosas obras da comunidade cristã no sector da saúde. Agradeço ao Cardeal Javier Lozano Barragán, Presidente do Pontifício Conselho, as amáveis palavras com que se fez intérprete dos sentimentos comuns, explicando-me as finalidades que, neste momento, são objecto do vosso trabalho. Saúdo com reconhecimento o Secretário, o Subsecretário, os Oficiais e os Consultores presentes, assim como os demais Colaboradores.
Esta vossa reunião não se propõe aprofundar um tema específico, mas sim, verificar o estado de realização do programa que definistes precedentemente e, portanto, determinar as finalidades futuras. Por isso, encontrar-me convosco numa circunstância como esta proporciona-me a alegria, por assim dizer, de fazer com que cada um de vós sinta a proximidade concreta do Sucessor de Pedro e, através dele, de todo o Colégio episcopal no vosso serviço eclesial. De facto, a pastoral da saúde constitui um âmbito particularmente evangélico, que evoca de modo imediato a obra de Jesus, bom Samaritano da humanidade. Quando passava através dos povoados da Palestina, anunciando a boa nova do Reino de Deus, Ele acompanhava sempre a pregação com os sinais que realizava sobre os doentes, curando quantos eram prisioneiros de todos os tipos de doença e de enfermidade. A saúde do homem, do homem todo, foi o sinal que Cristo escolheu previamente para manifestar a proximidade de Deus, o seu amor misericordioso que purifica o espírito, a alma e o corpo. Caros amigos, seja sempre esta a referência fundamental de cada uma das vossas iniciativas: o seguimento de Cristo, que os Evangelhos nos apresentam como "Médico" divino.
É esta perspectiva bíblica que valoriza o princípio ético natural do dever do cuidado pelo doente, com base no qual cada existência humana deve ser defendida em conformidade com as particulares dificuldades em que se encontra e segundo as nossas possibilidades concretas de ajuda. Socorrer o ser humano é um dever, quer em resposta a um direito fundamental da pessoa, quer porque o cuidado pelos indivíduos redunda em benefício da colectividade. A ciência médica progride, enquanto aceita repôr sempre em discussão o diagnóstico e o método de cura, no pressuposto de que os dados precedentemente adquiridos e os limites presumíveis podem ser ultrapassados. De resto, a estima e a confiança em relação aos agentes de saúde são proporcionados à certeza de que estes defensores profissionais da vida jamais desprezarão uma só existência humana, por mais diminuída que seja, saberão encorajar sempre as tentativas de cura. Portanto, o compromisso em prol da cura deve ser ampliado a cada ser humano, com a intenção de tutelar toda a sua existência. Com efeito, o conceito moderno do cuidado pela saúde é a promoção humana: da cura do doente aos cuidados de prevenção, com a busca do maior desenvolvimento humano, favorecendo um adequado ambiente familiar e social.
Esta perspectiva ética, fundamentada na dignidade da pessoa humana e nos direitos e deveres essenciais inerentes, é confirmada e revigorada pelo mandamento do amor, fulcro da mensagem cristã. Portanto, os agentes de saúde cristãos sabem muito bem que existe um vínculo estreitíssimo e indissolúvel entre a qualidade do seu serviço profissional e a virtude da caridade, à qual Cristo os chama: é precisamente no bom cumprimento do seu trabalho, que eles oferecem às pessoas o testemunho do amor de Deus. A caridade como tarefa da Igreja, que fiz objecto de reflexão na minha Encíclica Deus caritas est, encontra uma prática especialmente significativa no cuidado pelos doentes. Atesta-o a história da Igreja, com inúmeros testemunhos de homens e mulheres que, tanto de forma individual como colectiva, têm desempenhado o seu trabalho neste campo. Por isso, entre os Santos que exerceram de maneira exemplar a caridade, na Encíclica pude mencionar figuras emblemáticas como João de Deus, Camilo de Lellis e José Cottolengo, que serviram Cristo pobre e sofredor na pessoa dos enfermos.
Estimados irmãos e irmãs, permiti-me então retransmitir-vos idealmente as reflexões que propus na Encíclica, com as respectivas orientações pastorais sobre o serviço caritativo da Igreja, como "comunidade de amor". E à Encíclica agora posso acrescentar também a Exortação Apostólica pós-sinodal há pouco publicada, que discorre de maneira ampla e articulada sobre a Eucaristia como "Sacramento da caridade". É precisamente da Eucaristia, que a pastoral da saúde pode haurir continuamente a força para socorrer o homem de maneira eficaz e promovê-lo segundo a dignidade que lhe é própria. Nos hospitais e nas casas de cura, a capela representa o coração palpitante em que Jesus se oferece de forma incessante ao Pai celestial pela vida da humanidade.
Distribuída aos doentes decorosamente e com espírito de oração, a Eucaristia é a linfa vital que os conforta e infunde na sua alma a luz interior, para que vivam com fé e esperança a condição de enfermidade. Portanto, confio-vos também este recente documento: fazei-o vosso, aplicai-o ao campo da pastoral da saúde, haurindo daí indicações espirituais e pastorais apropriadas.
Enquanto vos formulo votos de todo o bem para os trabalhos que estais a realizar nestes dias, acompanho-os com uma particular lembrança na oração, invocando a materna salvaguarda de Maria Santíssima, Salus infirmorum, e com a Bênção Apostólica, que concedo de coração a todos vós aqui presentes, a quantos colaboram convosco nas respectivas sedes e a todos os vossos entes queridos.
Sábado, 24 de Março de 2007
Senhores Cardeais
Venerados Irmãos no Episcopado
Distintos Parlamentares
Ilustres Senhoras e Senhores
Estou particularmente feliz por vos receber em tão grande número nesta Audiência, que se realiza na vigília do 50º aniversário da assinatura dos Tratados de Roma, a 25 de Março de 1957. Então, encerrava-se uma etapa importante para a Europa, que saíra arrasada da segunda guerra mundial e desejava construir um futuro de paz e de maior bem-estar económico e social, sem dissolver nem negar as diversas identidades nacionais. Saúdo D. Adrianus Herman van Luyn, S.D.B., Bispo de Rotterdam, Presidente da Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia, e agradeço-lhe as amáveis palavras que me dirigiu. Saúdo também os demais Prelados, as ilustres Autoridades e quantos participam no Congresso promovido nestes dias pela COMECE, para reflectir sobre a Europa.
Desde o mês de Março de há cinquenta anos, este continente percorreu um longo caminho, que levou à reconciliação dos dois "pulmões" o Oriente e o Ocidente vinculados por uma história comum, mas arbitrariamente separados por uma cortina de injustiça. A integração económica estimulou a política e favoreceu a busca, ainda arduamente em acto, de uma estrutura institucional adequada para uma União Europeia, que já conta 27 países e aspira a tornar-se no mundo uma protagonista global.
Ao longo destes anos, sentiu-se cada vez mais a exigência de estabelecer um equilíbrio sadio entre as dimensões económica e social, através de políticas capazes de produzir riquezas e de incrementar a competitividade, sem contudo descuidar as legítimas expectativas dos pobres e dos marginalizados. Sob a perspectiva demográfica, infelizmente há que constatar que a Europa parece estar a percorrer um caminho que poderia levá-la ao fim da história. Além de pôr em perigo o crescimento económico, isto pode causar também enormes dificuldades para a coesão social e, sobretudo, favorecer um individualismo perigoso, que não considera as consequências para o futuro. Poder-se-ia quase pensar que o continente europeu está de facto a perder confiança no seu próprio porvir. Além disso, no que se refere por exemplo ao respeito pelo meio ambiente, ou então ao acesso ordenado aos recursos e aos investimentos energéticos, a solidariedade é incentivada com dificuldade, e não apenas no âmbito internacional, mas também no contexto estritamente nacional. Revela-se que o próprio processo de unificação europeia não é compartilhado por todos, em função da difundida impressão de que vários "capítulos" do projecto europeu foram "escritos" sem ter na devida conta as expectativas dos cidadãos.
De tudo isto sobressai com clareza o facto de que não se pode pensar em edificar uma autêntica "casa comum" europeia, descuidando a própria identidade dos povos deste nosso continente. Com efeito, trata-se mais de uma identidade histórica, cultural e moral, do que geográfica, económica ou política; uma identidade constituída por um conjunto de valores universais, que o Cristianismo contribuiu para forjar, adquindo assim um papel não somente histórico, mas instituinte em relação à Europa. Tais valores, que constituem a alma do continente, devem permanecer na Europa do terceiro milénio como "fermento" de civilização. Efectivamente, sem eles como poderia o "velho" continente continuar a desempenhar a função de "fermento" para o mundo inteiro?
Se, por ocasião do 50º aniversário dos Tratados de Roma, os governos da União desejam "aproximar-se" dos seus cidadãos, como poderiam excluir um elemento essencial da identidade europeia, como o Cristianismo, no qual uma vasta maioria deles ainda continua a identificar-se?
Não é motivo de surpresa que a Europa contemporânea, enquanto aspira a apresentar-se como uma comunidade de valores, parece cada vez mais frequentemente contestar o facto de que existem valores universais e absolutos? Esta singular forma de "apostasia" de si mesma, antes ainda que de Deus, não a induz porventura a duvidar da sua própria identidade? Deste modo, termina-se por difundir a convicção de que a "ponderação dos bens" é o único caminho para o discernimento moral, e que o bem comum é sinónimo de compromisso. Na realidade, se o compromisso pode constituir um equilíbrio legítimo de diferentes interesses particulares, transforma-se em mal comum todas as vezes que comporta acordos prejudiciais à natureza humana.
Uma comunidade que se constrói sem respeitar a autêntica dignidade do ser humano, esquecendo-se que cada pessoa é criada à imagem de Deus, termina por não fazer o bem a ninguém. Eis por que motivo parece cada vez mais indispensável que a Europa evite aquela atitude pragmática, hoje amplamente difundida, que justifica de maneira sistemática o compromisso a respeito dos valores humanos essenciais, como se fosse a aceitação inevitável de um presumível mal menor. Este pragmatismo, apresentado como equilíbrio realista, em última análise não é assim, precisamente porque nega a dimensão de valor e de ideal, inerente à natureza humana. Além disso, quando em tal pragmatismo se inserem tendências e correntes laicistas e relativistas, termina-se por negar aos cristãos o próprio direito de intervir como tais no debate público ou, pelo menos, desqualifica-se a sua contribuição com a acusação de desejar salvaguardar privilégios injustificados. No actual momento histórico, e diante dos numerosos desafios que o caracterizam, para ser uma válida garante do estado de direito e uma promotora eficaz dos valores universais, a União Europeia não pode deixar de reconhecer claramente a existência segura de uma natureza humana estável e permanente, manancial de direitos comuns de todos os indivíduos, inclusive daquelas mesmas pessoas que os negam. Neste contexto, há que salvaguardar o direito à objecção de consciência, todas as vezes que forem violados os direitos humanos fundamentais.
Queridos amigos, sei como é difícil para os cristãos defender denodadamente esta verdade acerca do homem! Porém, não vos canseis e não desanimeis! Vós sabeis que tendes a tarefa de contribuir para edificar, com a ajuda de Deus, uma nova Europa, realista mas não cínica, rica de ideais e livre de ilusões ingénuas, inspirada na verdade perene e vivificadora do Evangelho. Por isso, permanecei presentes, de modo concreto, no debate público a nível europeu, conscientes de que ele já faz parte integrante do nacional, e acompanhai este empenho com uma acção cultural eficaz. Não cedais à lógica do poder como finalidade de si próprio! Que vos sirva de estímulo e apoio constantes esta admoestação de Cristo: se o sal perder o seu sabor, não servirá senão para ser lançado fora e pisado (cf. Mt 5,13). O Senhor torne fecundos todos os vossos esforços e vos ajude a reconhecer e a valorizar os elementos positivos presentes na civilização contemporânea, porém denunciando intrepidamente tudo aquilo que é contrário à dignidade do homem.
Estou certo de que Deus não deixará de abençoar o esforço generoso de quantos, com espírito de serviço, trabalham em vista de construir uma casa comum europeia, onde todas as contribuições culturais, sociais e políticas visem o bem comum. A vós, já comprometidos de várias maneiras neste importante empreendimento humano e evangélico, manifesto o meu apoio e dirijo o meu mais sentido encorajamento. Sobretudo, asseguro-vos a minha lembrança na oração e, enquanto invoco a protecção maternal de Maria, Mãe do Verbo encarnado, concedo-vos de coração, assim como às vossas famílias e às vossas comunidades, a minha carinhosa Bênção.
Sábado, 24 de Março de 2007
Queridos irmãos e irmãs
É para mim um grande prazer receber-vos hoje, nesta Praça de São Pedro, por ocasião do XXV aniversário do reconhecimento pontifício da Fraternidade Comunhão e Libertação. Dirijo a cada um de vós a minha cordial saudação, em particular aos Prelados, aos sacerdotes e aos responsáveis presentes. Saúdo de modo especial Mons. Julián Carrón, Presidente davossaFraternidade, e agradeço-lhe as bonitas e profundas palavras que me dirigiu em nome de todos vós.
O meu primeiro pensamento dirige-se ao vosso Fundador, Mons. Luigi Giussani, ao qual me ligam tantas recordações e que se tinha tornado para mim um verdadeiro amigo. O último encontro, como mencionou Mons. Carrón, foi na Catedral de Milão, em Fevereiro de há dois anos, quando o amado João Paulo II me enviou para presidir o seu solene funeral. O Espírito Santo suscitou na Igreja, através dele, um Movimento, o vosso, que desse testemunho da beleza de ser cristãos numa época em que se ia difundindo a opinião de que o cristianismo era algo que se vivia com fadiga e opressão. Então Mons. Giussani comprometeu-se a despertar nos jovens o amor a Cristo "Caminho, Verdade e Vida", repetindo que só Ele é o caminho para a realização dos desejos mais profundos do coração do homem, e que Cristo não nos salva apesar da nossa humanidade, mas através dela. Como recordei na homilia para o seu funeral, este corajoso sacerdote, que cresceu numa casa pobre de pão, mas rica de música como ele mesmo gostava de dizer desde o início se sentiu tocado, aliás ferido, pelo desejo de uma beleza qualquer. Procurava a própria Beleza, a Beleza infinita que encontrou em Cristo. Como não recordar ainda os numerosos encontros e contactos de Mons. Giussani com o meu venerado predecessor João Paulo II? Numa circunstância que vos é querida, o Papa quis mais uma vez recordar que a intuição pedagógica original de Comunhão e Libertação consiste em responder de modo fascinante e em sintonia com a cultura contemporânea, ao acontecimento cristão, compreendido como fonte de novos valores e capaz de orientar toda a existência.
O acontecimento, que mudou a vida do Fundador, "feriu" também a de muitos dos seus filhos espirituais, e deu lugar às numerosas experiências religiosas que formam a história da vossa ampla e articulada Família espiritual. Comunhão e Libertação é uma experiência comunitária da fé, que nasceu na Igreja não de uma vontade organizativa da Hierarquia, mas originada por um encontro renovado com Cristo e assim, podemos dizer, por um impulso derivante por fim do Espírito Santo.
Ainda hoje ela se oferece como possibilidade de viver de modo profundo e actualizado a fé cristã, por um lado com uma total fidelidade e comunhão com o Sucessor de Pedro e com os Pastores que garantem o governo da Igreja; por outro lado, com uma espontaneidade e uma liberdade que permitem novas e proféticas realizações apostólicas e missionárias.
Queridos amigos, o vosso Movimento insere-se assim no amplo florescimento de associações, movimentos e novas realidades eclesiais providencialmente suscitados pelo Espírito Santo na Igreja depois do Concílio Vaticano II. Cada dom do Espírito encontra-se originária e necessariamente ao serviço da edificação do Corpo de Cristo, oferecendo um testemunho da imensa caridade de Deus pela vida de cada homem. Portanto, a realidade dos Movimentos eclesiais é sinal da fecundidade do Espírito do Senhor, para que se manifeste no mundo a vitória de Cristo ressuscitado e se cumpra o mandato missionário confiado a toda a Igreja. Na mensagem enviada ao Congresso mundial dos Movimentos eclesiais, a 27 de Maio de 1998, o Servo de Deus João Paulo II, repetiu que, na Igreja, não há contraste ou contraposição entre a dimensão institucional e a dimensão carismática, das quais os Movimentos são uma expressão significativa, porque ambas são co-essenciais para a constituição divina do Povo de Deus. Na Igreja também as instituições essenciais são carismáticas e por outro lado os carismas devem de uma forma ou de outra institucionalizar-se para ter coerência e continuidade. Assim as duas dimensões, originadas pelo Espírito Santo para o mesmo Corpo de Cristo, concorrem juntas para tornar presente o mistério e a obra salvífica de Cristo no mundo. Isto explica a atenção com que o Papa e os Pastores olham para a riqueza dos dons carismáticos na época contemporânea. A este propósito, durante um recente encontro com o clero e com os párocos de Roma, recordando o convite que São Paulo dirige na Primeira Carta aos Tessalonicenses para não apagar os carismas, disse que se o Senhor nos dá novos dons devemos ser-lhe gratos, mesmo se podem ser imcómodos. Ao mesmo tempo, dado que a Igreja é una, se os Movimentos são realmente dons do Espírito Santo, devem inserir-se naturalmente na Comunidade eclesial e servi-la de modo que, no diálogo paciente com os Pastores, eles possam constituir elementos edificantes para a Igreja de hoje e de amanhã.
Queridos irmãos e irmãs, o saudoso João Paulo II, noutra ocasião, para vós muito significativa, confiou-vos esta recomendação: "Ide por todo o mundo levar a verdade, a beleza e a paz, que se encontram em Cristo Redentor". Mons. Giussani fez daquelas palavras o programa de todo o Movimento e, para Comunhão e Libertação, foi o início de uma estação missionária que vos levou a oitenta países. Hoje, convido-vos a prosseguir por este caminho, com uma fé profunda, personalizada e firmemente radicada no Corpo de Cristo vivo, a Igreja, que garante a contemporaneidade de Jesus connosco. Terminemos este nosso encontro dirigindo o pensamento a Maria com a recitação do Angelus. Por ela Mons. Giussani nutria uma grande devoção, alimentada pela invocação Veni Sancti Spiritus, veni per Mariam e pela recitação do Hino à Virgem de Dante Alighieri, que repetistes também esta manhã. Acompanhe-vos a Virgem Santa e vos ajude a pronunciar generosamente o vosso "sim" à vontade de Deus em qualquer circunstância. Queridos amigos, podeis contar com a minha constante recordação na oração, enquanto vos abençoo com afecto a todos vós aqui presentes e a toda a vossa Família espiritual.
Domingo, 25 de Março de 2007
Prezados irmãos e irmãs
Neste domingo de Primavera embora o tempo não seja muito bonito saúdo todos vós cordialmente, a começar pelo Cardeal Vigário, pelo Bispo Auxiliar e pelo Pároco. Mas saúdo-vos sobretudo a vós, que sois a paróquia viva, as "pedras vivas" da Igreja.
Hoje é o dia da Anunciação a Maria, o dia em que recordamos que, com o seu "sim", Maria nos abriu o Céu, de tal forma que agora Deus é um de nós. Ela convida-nos, também a nós, a dizer "sim" a Deus, a deixá-lo entrar nas nossas vidas. Vós tendes esta bonita Igreja Paroquial, sinal visível de que Deus habita connosco. Mas é sempre importante construir a Igreja viva. E vós, com a vossa fé, com o vosso compromisso, dia após dia, edificais a Igreja viva, que depois dá vida também ao edifício.
Obrigado pelo vosso compromisso! Esperemos que o Senhor vos conceda um bom Domingo!
Domingo, 25 de Março de 2007
Caros irmãos e irmãs
Estou simplesmente feliz por me encontrar no meio de vós, por ver uma comunidade rica de fé, uma comunidade jovem, e assim por ver como a Igreja vive hoje. Enquanto o centro de Roma é um pouco despovoado, vemos aqui a Roma viva. É a comunidade à qual São Paulo escreveu e na qual São Pedro ensinou o Evangelho. Aqui nasceu o Evangelho de São Marcos, segundo a tradição, como reflexo da pregação de São Pedro. Portanto, encontramo-nos num lugar onde, desde o início, a semente da Palavra de Deus cresceu, e aumentou também o "ágape", o amor, de tal maneira que cem anos mais tarde mais ou menos no ano 100 Santo Inácio podia dizer que Roma preside à caridade. E assim deve ser. Não é suficiente que em Roma viva o Papa. Em Roma deve viver uma Igreja activa, comprometida, uma Igreja que preside à caridade. E por isso, para mim é uma experiência muito feliz ver na paróquia que esta Igreja de Roma existe, está viva mesmo depois de dois mil anos.
Gostaria de saudar todos vós. O pároco apresentou-me os diversos componentes da comunidade aqui presentes. Comecemos, naturalmente, pelo Cardeal Vigário, o Bispo Auxiliar, o pároco e os sacerdotes. Além disso, há muitos grupos. Pois bem, não é necessário repetir o que o vosso pároco já disse. Agradeço a todos aqueles que colaboram. E estou-vos grato pela bonita poesia que me foi apresentada; sente-se que brota precisamente do coração desta comunidade. Vejo que em Roma ainda vive a oferta da poesia, mesmo nesta época, por assim dizer, pouco poética.
Agora, não gostaria de recomeçar considerações e reflexões complicadas. Só gostaria de agradecer ao laicado adulto, que edifica a paróquia viva. Aqui, tendes os Padres Vocacionistas. A palavra "Vocacionistas" faz pensar em "vocação". Podemos examinar duas dimensões desta palavra. Antes de tudo, pensa-se imeditamente na vocação ao sacerdócio. Mas a palavra tem uma dimensão muito mais vasta, mais geral. Cada homem tem dentro de si um projecto de Deus, uma vocação pessoal, uma ideia pessoal de Deus sobre o que ele é chamado a realizar na história para construir a sua Igreja, Templo vivo da sua presença. E a função do sacerdote consiste sobretudo em despertar esta consciência, em ajudar a descobrir a vocação pessoal, o desígnio de Deus para cada um de nós. Vejo que aqui muitas pessoas descobriram o projecto que lhes concerne, tanto no que se refere à sua vida profissional e à sua formação da sociedade de hoje na qual a presença das consciências cristãs é fundamental como também no que diz respeito à vocação para ajudar a fim de que a Igreja cresça e viva. Ambas estas coisas são igualmente importantes.
Uma sociedade em que a consciência cristã deixa de viver, perde a orientação, já não sabe aonde ir, o que se pode e o que não se pode fazer, e termina no vazio, fracassa. Somente se a consciência viva da fé ilumina os nossos corações, podemos construir também uma sociedade justa. Não é o Magistério que impõe doutrinas. É o Magistério que ajuda, para que a própria consciência possa ouvir a voz de Deus, a própria consciência possa conhecer o que é bom, qual é a vontade do Senhor. É somente uma ajuda, a fim de que a responsabilidade pessoal, alimentada por uma consciência viva, possa realmente funcionar e, assim, contribuir para fazer com que a justiça esteja verdadeiramente presente na nossa sociedade: a justiça em si mesma e a justiça universal para todos os irmãos no mundo actual. Hoje não existe apenas a globalização económica: há também a globalização da responsabilidade; aquela universalidade pela qual todos nós somos responsáveis por todos.
A Igreja oferece-nos o encontro com Cristo, com Deus vivo, com o "Logos" que é a Verdade e a Luz, que não faz violência contra as consciências, que não impõe uma doutrina parcial, mas que nos ajuda a ser nós mesmos homens e mulheres plenamente sucedidos, e assim a vivermos na responsabilidade pessoal e na comunhão mais profunda entre nós, numa comunhão que nasce da comunhão com Deus, com o Senhor.
Aqui vejo uma comunidade viva. Estou grato aos sacerdotes, agradeço a todos vós, colaboradores. E formulo votos a fim de que o Senhor vos ajude e vos ilumine sempre. Desde hoje, Domingo da Paixão, vos faço votos de uma boa Páscoa e desejo-vos também no futuro todo o bem para a vossa paróquia, para a vossa comunidade, para este bairro de Fidene.
Sexta-feira, 30 de Março de 2007
Senhora Embaixadora!
Recebo com prazer Vossa Excelência, por ocasião da apresentação das Cartas que a acreditam como Embaixadora Extraordinária e Plenipotenciária da República da Ucrânia junto da Santa Sé.
Agradeço-lhe as amáveis palavras que me dirigiu, assim como as saudações que me transmitiu da parte de Sua Ex.ª o Sr. Victor Yushenko, Presidente da República. Ficar-lhe-ia grato por se dignar expressar-lhe em retribuição os votos cordiais que formulo pela sua pessoa, e os meus agradecimentos pelo caloroso convite para visitar o seu lindo País, recordando-me da visita pastoral realizada pelo meu predecessor o Papa João Paulo II em 2001. Por seu intermédio, gostaria também de dirigir ao povo ucraniano os meus melhores votos de bem-estar e prosperidade.
Transcorreram quinze anos depois do estabelecimento das relações diplomáticas entre a Santa Sé e o seu País e o caminho percorrido é importante. A Ucrânia, que sempre teve uma vocação de porta entre o Oriente e o Ocidente devido à sua posição geográfica no confim oriental do continente europeu, empreendeu e intensificou, ao longo destes anos, uma política de abertura e de colaboração com os outros países do continente. A Santa Sé aprecia esta perspectiva que contribui para dar de novo à Europa a sua verdadeira dimensão, garantindo as condições para um intercâmbio frutuoso entre países do Oeste e do Leste, entre os dois pulmões culturais que forjaram a história da Europa e que marcaram sobretudo a sua história cristã. Estou certo de que a Nação ucraniana, profundamente impregnada do Evangelho na sua vida, na sua cultura e nas suas instituições, após o seu baptismo mais que milenar em Kiev, terá a solicitude de levar às outras nações o dinamismo da sua identidade, preservando as características originais. De facto, é importante, no nosso mundo cada vez mais constrangido pelas urgências da mundialização, favorecer um diálogo exigente e aprofundado tanto entre as culturas como entre as religiões, não para as nivelar a todas num sincretismo empobrecedor mas para permitir o seu desenvolvimento num respeito recíproco e trabalhar, cada um segundo o seu carisma próprio, para o bem comum.
Esta perspectiva permitirá certamente reduzir as fontes sempre possíveis de tensão e de confronto entre os grupos ou entre as nações, e garantirá também a todos as condições de uma paz e de um progresso duradouros.
Em relação a isto, alegro-me pelo bom clima das relações entre as Autoridades públicas e as Igrejas e Comunidades eclesiais que vivem na Ucrânia. Os crentes no seu País rejubilam pela liberdade religiosa, que é uma dimensão essencial da liberdade do homem, e portanto uma expressão da sua dignidade. Segundo uma justa distinção das responsabilidades próprias da esfera religiosa e da esfera civil, o Estado reconhece de facto as diferentes culturas e as diversas confissões religiosas, e garante um direito igual perante a lei, permitindo assim que cada um encontre o seu papel específico, para o bem da inteira Nação.
Uma das vocações próprias da Igreja católica expressa-se na importância que ela sempre deu à educação dos jovens, sobretudo através do apostolado dos numerosos institutos religiosos que, ao longo da história, se consagraram a esta obra. Trata-se para a Igreja de permitir que os jovens recebam uma formação sólida e integral, fundada nos princípios da ética cristã e portanto da dignidade fundamental do ser humano, criado à imagem de Deus. Eles poderão também encontrar um caminho de desenvolvimento pessoal, moral e espiritual, e serão cada vez mais capazes de assumir no futuro a sua missão na sociedade, tendo a preocupação permanente de promover o respeito pela dignidade humana através das suas diferentes expressões, nos campos da política, da economia e da bioética. A Igreja católica deseja participar activamente nesta grande missão educativa, pondo a sua experiência ao serviço de todos, em relação com as outras confissões cristãs, como disto já dá testemunho a colaboração empreendida e levada a termo no âmbito do Conselho pan-ucraniano das Igrejas e dos Organismos religiosos, para elaborar juntos um programa relativo ao ensino da ética cristã nas escolas públicas.
Desejo expressar também a minha satisfação pelo direito concedido recentemente pelo Ministério da Educação à Universidade Católica da Ucrânia de discernir o Bacharelado e a Licença em Teologia. Trata-se evidentemente de um acontecimento importante para a vida da Igreja na Ucrânia dado que, com esta decisão, as Autoridades ucranianas reconhecem à teologia o estatuto de disciplina universitária.
Permita-me ainda, Senhora Embaixadora, que saúde por seu intermédio a comunidade católica que vive na Ucrânia. Ela pertence aos dois ritos bizantino e latino e tem em si a preocupação pelo diálogo permanente entre as duas tradições oriental e ocidental, que pertencem à vida da Igreja Católica e que modelaram a história do continente europeu e do seu País. Agradeço particularmente ao Senhor Presidente da República a sua cordial atenção aos Bispos da Conferência Episcopal da Ucrânia dos Latinos que recentemente se encontraram com ele, e estou certo do compromisso de todos os católicos da Ucrânia no serviço ao bem comum do País. Sei que eles desejam testemunhar quotidianamente o Evangelho através da solidariedade com os pequenos, a vontade de construir a paz e o desejo de consolidar cada vez mais os valores da família fundada sobre a instituição do matrimónio. Conheço também o seu desejo de progredir pelo caminho da unidade com os seus irmãos ortodoxos, assim como com os seus irmãos de outras confissões cristãs. Por conseguinte, encorajo-os a mostrar-se sempre disponíveis para consolidar o diálogo ecuménico, tão necessário para superar as dificuldades e para alcançar a unidade tão desejada, a fim de dar ao mundo um testemunho mais verdadeiro da Boa Nova.
No momento em que Vossa Excelência inaugura oficialmente as suas funções, formulo os meus melhores votos pelo feliz cumprimento da sua missão. Tenha a certeza, Senhora Embaixadora, de encontrar sempre junto dos diferentes serviços da Santa Sé atenção e compreensão cordiais. Invoco de todo o coração sobre Vossa Excelência, sobre a sua família, os seus colaboradores da Embaixada, as Autoridades e o povo ucraniano, a abundância das Bênçãos divinas.
Bento XVI Discursos 2007