
Bento XVI Discursos 2008
Santuário Nacional da Imaculada Conceição de Washington, D.C.
Quarta-feira, 16 de Abril de 2008
1. Pede-se ao Santo Padre que exprima a sua avaliação a respeito do desafio do secularismo em aumento na vida pública e sobre o relativismo na vida intelectual, assim como as suas sugestões acerca do modo como enfrentar tais desafios do ponto de vista pastoral, para poder realizar a obra de evangelização de forma mais eficaz.
Abordei brevemente este tema no meu discurso. Considero significativo o facto de que aqui na América, diversamente de muitos lugares na Europa, a mentalidade secular não se pôs como intrinsecamente oposta à religião. No interior do contexto da separação entre Igreja e Estado, a sociedade norte-americana sempre se distinguiu por um respeito fundamental pela religião e pelo seu papel público e, se quisermos dar crédito às sondagens, o povo americano é profundamente religioso. Todavia, não é suficiente contar com esta religiosidade tradicional e comportar-se como se tudo fosse normal, enquanto os seus fundamentos são lentamente corroídos. Um compromisso sério no campo da evangelização não pode prescindir de um profundo diagnóstico dos desafios reais que o Evangelho tem diante de si na cultura americana contemporânea.
Naturalmente, o que é essencial é uma correcta compreensão da justa autonomia da ordem secular, uma autonomia que não pode ser desvinculada de Deus Criador e do seu plano de salvação (cf. Gaudium et spes GS 36). Talvez o tipo de secularismo da América apresente um problema particular: enquanto permite acreditar em Deus e respeita o papel público da religião e das Igrejas, todavia subtilmente reduz o credo religioso ao mínimo denominador comum. A fé torna-se aceitação passiva de que determinadas coisas "lá fora" são verdadeiras, mas sem relevância prática para a vida quotidiana. O resultado é uma crescente separação entre a fé e a vida: o viver "como se Deus não existisse". Isto é agravado por uma abordagem individualista e ecléctica da fé e da religião: longe da aproximação católica do pensar com a Igreja, cada pessoa julga ter um direito de identificar e escolher, conservando os vínculos sociais mas sem uma conversão integral, interior à lei de Cristo. Por conseguinte, em vez de ser transformados e renovados na alma, os cristãos são facilmente tentados a conformar-se com o espírito do século (cf. Rm 12,3). Constatamo-lo de maneira aguda no escândalo causado por católicos que promovem um presumível direito ao aborto.
A um nível mais profundo, o secularismo desafia a Igreja a confirmar e a perseguir ainda mais activamente a sua missão no e para o mundo. Como foi esclarecido pelo Concílio, a este propósito os leigos têm uma responsabilidade particular. Estão convencidos de que é necessário, por um lado, um maior sentido da relação intrínseca entre o Evangelho e a lei natural e, por outro, a busca do autêntico bem humano, como é encarnado na lei civil e nas decisões morais pessoais. Numa sociedade que justamente tem em alta consideração a liberdade pessoal, a Igreja deve promover a todos os níveis os seus ensinamentos na catequese, na pregação, na instrução no seminário e na universidade uma apologética destinada a afirmar a verdade da revelação cristã, a harmonia entre fé e razão, e uma sadia compreensão da liberdade, vista em termos positivos como libertação tanto dos limites do pecado como para uma vida autêntica e plena. Em síntese, o Evangelho deve ser pregado e ensinado como um modo de vida integral, que oferece uma resposta atraente e verdadeira, intelectual e prática, aos problemas humanos concretos. Em última análise, a "ditadura do relativismo" nada mais é do que uma ameaça à liberdade humana que somente amadurece na generosidade e na fidelidade à verdade.
Poder-se-ia dizer muito mais, naturalmente, sobre este tema: todavia, permiti-me concluir, dizendo que na minha opinião a Igreja na América, neste preciso momento da sua história, tem diante de si o desafio de reencontrar a visão católica da realidade e de apresentá-la de maneira envolvedora e com fantasia a uma sociedade que oferece todos os tipos de receitas par a auto-realização humana. Penso de modo particular na nossa necessidade de falar ao coração dos jovens que, apesar da constante exposição a mensagens contrárias ao Evangelho, continuam a ter sede de autenticidade, de bondade e de verdade. Ainda resta muito a fazer a nível da pregação e da catequese, nas paróquias e nas escolas, se quisermos que a evangelização produza frutos para a renovação da vida eclesial na América.
2. O Santo Padre é interrogado a respeito de "um certo silencioso processo", mediante o qual os católicos abandonam a prática da fé, por vezes através de uma decisão explícita, mas com maior frequência afastando-se passiva e gradualmente da participação na Missa e da identificação com a Igreja.
Certamente, uma boa parte de tudo isto depende do progressivo reduzir-se de uma cultura religiosa, às vezes comparada de modo pejorativo com um "gueto", que poderia revigorar a participação e a identificação com a Igreja. como acabei de dizer, um dos grandes desafios que estão diante da Igreja neste país consiste em cultivar uma identidade católica fundamentada não apenas em elementos exteriores, mas principalmente num modo de pensar e de agir arraigado no Evangelho e enriquecido com base na tradição viva da Igreja.
Este tema envolve claramente factores como o individualismo religioso e o escândalo. Mas vamos ao cerne da questão: a fé não pode sobreviver, se não for alimentada, se não "agir através da caridade" (Ga 5,6). Têm hoje as pessoas dificuldade de encontrar Deus nas nossas igrejas? A nossa pregação perdeu, porventura, o sal que lhe é próprio? Isto não poderia ser devido ao facto de que muitos se esqueceram, ou talvez nunca aprenderam, como rezar na e com a Igreja?
Não falo aqui de pessoas que deixam a Igreja em busca de "experiências" religiosas subjectivas; este é um tema pastoral que deve ser enfrentado nos seus próprios termos. Penso que estamos a falar de pessoas que se desviaram do caminho, sem ter conscientemente rejeitado a fé em Cristo, mas que, por um motivo qualquer, não receberam a força vital da liturgia, dos Sacramentos e da pregação. E no entanto a fé cristã, como sabemos, é essencialmente eclesial, e sem um vínculo vivo com a comunidade, nunca alcançará a sua maturidade. Para voltar à questão que acaba de ser debatida: o resultado pode ser uma silenciosa apostasia.
Por isso, permiti-me fazer duas breves observações sobre o problema do "processo de abandono", que espero estimulem ulteriores reflexões.
Em primeiro lugar, como sabeis, torna-se cada vez mais difícil nas sociedades ocidentais falar de maneira sensata de "salvação". E no entanto a salvação a libertação da realidade do mal e o dom de uma vida nova e livre em Cristo está no próprio âmago do Evangelho. Como eu já disse, temos que redescobrir modos novos e fascinantes para proclamar esta mensagem e despertar uma sede daquela plenitude que somente Cristo pode oferecer. É na liturgia da Igreja, e sobretudo no sacramento da Eucaristia, que estas realidades são manifestadas do modo mais poderoso e são vividas na existência dos crentes; talvez ainda tenhamos muito a fazer, para realizar a visão do Concílio a respeito da liturgia, como exercício do sacerdócio comum e como impulso para um apostolado frutuoso no mundo.
Em segundo lugar, temos que reconhecer com preocupação o quase completo eclipse de um sentido escatológico em muitas das nossas sociedades tradicionalmente cristãs. Como sabeis, formulei esta problemática na Encíclica Spe salvi. É suficiente dizer que fé e esperança não são limitadas a este mundo: como virtudes teologais, elas unem-se ao Senhor e levam-nos ao cumprimento não apenas do nosso destino, mas também do destino de toda a criação. A fé e a esperança são a inspiração e a base dos nossos esforços em vista de nos prepararmos para a vinda do Reino de Deus. No Cristianismo não pode haver lugar para uma religião puramente particular: Cristo é o Salvador do mundo e, como membros do seu Corpo e partícipes dos seus munera profético, sacerdotal e régio, não podemos separar o nosso amor por Ele do compromisso da edificação da Igreja e da ampliação do Reino. Na medida em que a religião se torna uma questão puramente particular, ela perde a sua própria alma.
Permiti-me concluir, afirmando o óbvio. Os campos estão ainda hoje prontos para a colheita (cf. Jn 4,35); Deus continua a fazer crescer a messe (cf. 1Co 3,6). Podemos e devemos crer, juntamente com o saudoso Papa João PauloII, que Deus está a preparar uma nova Primavera para a cristandade (cf. Redemptoris missio RMi 86). O que é mais necessário, neste tempo específico da história da Igreja na América, é a renovação daquele zelo apostólico que inspire os seus pastores de maneira activa a procurar os que se perderam, a curar quantos estão feridos e a revigorar os mais frágeis (cf. Ez 34,16). E isto, como eu disse, exige novos modos de pensar fundados num sadio diagnóstico dos desafios hodiernos e um compromisso pela unidade no serviço à missão da Igreja em relação às gerações do presente.
3. Pede-se ao Santo Padre que expresse uma sua opinião sobre o declínio das vocações, não obstante o número crescente da população católica, e a respeito das razões da esperança oferecidas pelas qualidades pessoais e pela sede de santidade que caracterizam os candidatos que decidem prosseguir.
Sejamos sinceros: a capacidade de cultivar as vocações para o sacerdócio e para a vida religiosa é um sinal seguro da saúde de uma Igreja local. Não há espaço para qualquer satisfação a este propósito. Deus continua a chamar os jovens, mas compete a nós encorajar uma resposta generosa a livre a tal chamamento. Além disso, nenhum de nós pode dar esta graça por certa.
No Evangelho, Jesus diz-nos que devemos rezar para que o Senhor da messa envie trabalhadores; Ele admite também que os trabalhadores são poucos, em comparação com a abundância da messe (cf. Mt 9,37-38). Pode parecer estranho, mas com frequência penso que a oração o unum necessarium é o único aspecto eficaz das vocações, e nós tendemos muitas vezes a esquecê-lo ou a subestimá-lo!
Não falo somente de oração pelas vocações. A própria oração, nascida nas famílias católicas, alimentada por programas de formação cristã, revigorada pela graça dos Sacramentos, é o meio principal mediante o qual podemos conhecer a vontade de Deus para a nossa vida. Na medida em que ensinamos os jovens a rezar, e a rezar bem, cooperamos para o chamamento de Deus. Os programas, os planos e os projectos têm o seu lugar, mas o discernimento de uma vocação é antes de tudo o fruto do diálogo íntimo entre o Senhor e os seus discípulos. Se souberem rezar, os jovens podem estar confiantes de saber o que fazer do chamamento de Deus.
Observou-se que existe uma crescente sede de santidade em muitos jovens e que, embora em número cada vez menor, quantos vão em frente demonstram um grande idealismo e oferecem muitas promessas. É importante ouvi-los, compreender as suas experiências e encorajá-los a ajudar os seus coetâneos a ver a necessidade de sacerdotes e religiosos comprometidos, assim como a beleza de uma vida de sacrifício e de serviço ao Senhor e à sua Igreja. Na minha opinião, é pedido muito aos directores e formadores das vocações: hoje como nunca, é necessário oferecer aos candidatos uma sadia formação intelectual e humana, que os torne capazes não só de responder às interrogações concretas e às necessidades dos contemporâneos, mas também de amadurecer na sua conversão e de perseverar na vocação através de um compromisso que dure a vida inteira. Como bispos, estais conscientes do sacrifício que é exigido de vós, quando vos pedem que um dos vossos melhores sacerdotes deixe os seus compromissos para trabalhar no seminário. Exorto-vos a responder com generosidade, para o bem da Igreja inteira.
Enfim, penso que sabeis por experiência que muitos dos vossos irmãos sacerdotes são felizes na sua vocação. Aquilo que disse no meu discurso acerca da importância da unidade e da colaboração com o presbitério aplica-se também neste campo. Todos nós temos a necessidade de abandonar as divisões estéreis, os desacordos e os preconceitos, e de ouvir em conjunto a voz do Espírito que orienta a Igreja para um futuro de esperança. Cada um de nós sabe como foi importante a fraternidade sacerdotal na própria vida; ela não é apenas uma posse preciosa, mas inclusivamente um grande recurso para a renovação do sacerdócio e o crescimento de novas vocações. Desejo concluir, encorajando-vos a criar oportunidades de um diálogo ainda maior e de encontros fraternos entre os vossos presbíteros, de maneira especial os jovens. Estou persuadido de que isto dará fruto para o seu enriquecimento, para o aumento do seu amor ao sacerdócio e à Igreja, assim como para a eficácia do seu apostolado.
Com estas poucas observações, encorajo-vos mais uma vez no vosso ministério os fiéis confiados aos vossos cuidados pastorais, e recomendo-vos à intercessão amorosa de Maria Imaculada, Mãe da Igreja.
Sala de Conferências da Catholic University of America,
Washington, D.C.
Quinta-feira, 17 de Abril de 2008
Estimados Cardeais
Queridos Irmãos Bispos
Ilustres Professores
Docentes e Educadores
"Que formosos são os pés dos que anunciam boas novas" (Rm 10,15-17). Com estas palavras de Isaías, citadas por São Paulo, saúdo calorosamente cada um de vós anunciadores de sabedoria e através de vós todo o pessoal, os estudantes e as famílias das numerosas e variadas instituições formativas que representais. É um verdadeiro prazer para mim encontrar-me convosco e partilhar algumas reflexões sobre a natureza e identidade da educação católica hoje. Desejo em particular agradecer ao Pe. Davide O'Connell, Presidente e Reitor da Catholic University of America. Apreciei muito, estimado Presidente, as suas gentis palavras de boas-vindas. Peço-lhe que transmita a minha cordial gratidão a toda a comunidade faculdade, pessoal e estudantes desta Universidade.
A tarefa educativa é parte integrante da missão que a Igreja tem de proclamar a Boa Nova. Antes de mais e sobretudo cada instituição educativa católica é um lugar no qual encontrar o Deus vivo, o qual em Jesus Cristo revela a força transformadora do seu amor e da sua verdade (cf. Spe salvi, ). Esta relação suscita o desejo de crescer no conhecimento e na compreensão de Cristo e do seu ensinamento. Deste modo quantos o encontram são levados pelo poder do Evangelho a levar uma vida caracterizada por quanto é belo, bom e verdadeiro; uma vida de testemunho cristão alimentada e fortalecida dentro da comunidade dos discípulos de nosso Senhor, a Igreja.
A dinâmica entre encontro pessoal, conhecimento e testemunho cristão é parte integrante da diakonia da verdade que a Igreja exerce no meio da humanidade. A revelação de Deus oferece a cada geração a possibilidade de descobrir a verdade última sobre a própria vida e sobre o fim da história. Esta tarefa nunca é fácil: envolve toda a comunidade cristã e motiva cada geração de educadores cristãos a garantir que o poder da verdade de Deus permeie todas as dimensões das instituições que eles servem. Desta forma, a Boa Nova de Cristo é posta em condições de agir, guiando quer o professor quer o estudante para uma verdade objectiva que, transcendendo o particular e o subjectivo, remete para o universal e o absoluto que nos habilita a proclamar com confiança a esperança que não desilude (cf. Rm 5,5). Contra os conflitos pessoais, a confusão moral e a fragmentação do conhecimento, as nobres finalidades da formação académica e da educação, fundadas sobre a unidade da verdade e sobre o serviço à pessoa e à comunidade, tornam-se um instrumento de esperança poderoso e especial.
Queridos amigos, a história desta Nação oferece numerosos exemplos do compromisso da Igreja a este propósito. De facto, a comunidade católica neste país fez da educação uma das suas prioridades mais importantes. Este empreendimento não se realizou sem grandes sacrifícios. Figuras eminentes como Santa Isabel Ann Seton e outros fundadores e fundadoras, com grande tenacidade e clarividência guiaram a instituição do que constitui hoje uma distinta rede de escolas paroquiais que contribuem para o bem-estar da Igreja e da Nação. Alguns, como Santa Katharine Drexel, dedicaram a sua vida à educação de todos aqueles que outros tinham descuidado no seu caso, afro-americanos e americanos nativos. Numerosos Religiosos, Religiosas e Sacerdotes, juntamente com pais altruístas, ajudaram através das Escolas católicas, gerações de imigrantes a sair da miséria e a ocupar o seu lugar na sociedade hodierna.
Este sacrifício continua também hoje. É um excelente apostolado da esperança procurar ocupar-se das necessidades materiais, intelectuais e espirituais de mais de três milhões de jovens estudantes. Isto oferece também a toda a comunidade católica uma oportunidade muito louvável de contribuir generosamente para as necessidades financeiras das nossas instituições. É preciso garantir-lhes a possibilidade de perdurar a longo prazo. De facto, deve ser feito o possível, em colaboração com a comunidade mais vasta, para garantir que elas sejam acessíveis a pessoas de todas as camadas sociais e económicas. Não deve ser negada a criança alguma o direito de uma educação na fé que, como resultado, alimenta o espírito da nação.
Há quem ponha em questão hoje o compromisso da Igreja na educação, perguntando-se se os seus recursos não poderiam ser melhor empregues noutras partes. Certamente, numa nação como esta, o Estado predispõe amplas oportunidades para a educação e atrai mulheres e homens dedicados e generosos para esta honrada profissão. Portanto, é oportuno reflectir, sobre o que é específico das nossas instituições católicas. Como podem elas contribuir para o bem da sociedade através da missão primária da Igreja, que é evangelizar?
Todas as actividades da Igreja brotam da sua consciência de ser portadora de uma mensagem que tem a sua origem no próprio Deus: na sua bondade e sabedoria, Deus escolheu revelar-Se a Si mesmo e fazer conhecer o propósito escondido da sua vontade (cf. Ep 1,9 Dei Verbum DV 2). O desejo de Deus de Se fazer conhecer e o desejo inato de cada ser humano de conhecer a verdade fornecem o contexto da busca humana sobre o significado da vida. Este encontro único é apoiado dentro da nossa comunidade cristã: quem procura a verdade torna-se alguém que vive de fé (cf. Fides et ratio, FR 31). Isto pode ser descrito como um movimento do "eu" para o "nós", que leva o indivíduo a ser incluído no povo de Deus.
A mesma dinâmica de identidade comunitária a quem pertenço? vivifica o ethos das nossas instituições católicas. A identidade de uma Universidade ou de uma Escola católica não é simplesmente uma questão de número de estudantes católicos. É uma questão de convicção pensamos verdadeiramente que só no mistério do Verbo feito carne se torna deveras claro o mistério do homem (cf. Gaudium et spes GS 22)? Estamos verdadeiramente prontos para confiar o nosso eu total intelecto e vontade mente e coração a Deus? Aceitamos a verdade que Cristo revela? Nas nossas universidades e escolas a fé é "tangível"? É-lhe dada expressão fervorosa na liturgia, nos sacramentos, mediante a oração, os actos de caridade, a solicitude pela justiça e o respeito pela criação de Deus? Só deste modo damos realmente testemunho de quem somos e daquilo que afirmamos.
Desta perspectiva pode-se reconhecer que a contemporânea "crise de verdade" está radicada numa "crise de fé". Só mediante a fé podemos dar livremente o nosso consentimento ao testemunho de Deus e reconhecê-lo como o garante transcendente da verdade que ele revela. Mais uma vez, vemos por que promover a intimidade pessoal com Jesus Cristo e o testemunho comunitário da sua verdade que é amor é indispensável nas instituições formativas católicas. De facto, todos nós vemos, e observamos com preocupação, a dificuldade ou a renitência que muitas pessoas hoje têm em confiar-se a Deus. Trata-se de um fenómeno complexo, sobre o qual reflicto continuamente. Enquanto procurámos com diligência envolver a inteligência dos nossos jovens, talvez tenhamos descuidado a sua vontade. Por conseguinte, observamos com ansiedade que a noção de liberdade é deturpada. A liberdade não é faculdade de libertar-se de uma obrigação; é faculdade de empenhar-se por uma participação no próprio Ser. Por conseguinte, a autêntica liberdade nunca pode ser alcançada no afastamento de Deus. Uma semelhante opção significaria por último descuidar a verdade genuína de que precisamos para nos compreendermos a nós próprios. Por isso, uma particular responsabilidade para cada um de vós, e para os vossos colegas, é suscitar entre os vossos jovens o desejo de um acto de fé, encorajando-os a confiar-se à vida eclesial que flui deste acto de fé. É aqui que a liberdade alcança a certeza da verdade. Na escolha de viver segundo tal verdade, abraçamos a plenitude da vida de fé que nos é dada na Igreja.
Portanto, claramente a identidade católica não depende das estatísticas. Nem pode ser simplesmente equiparada com a ortodoxia naturalmente contida. Isto exige e inspira muito mais: ou seja, que cada aspecto das vossas comunidades de estudo se reflicta na vida eclesial de fé. Só na fé a verdade se pode encarnar e a razão tornar-se verdadeiramente humana, capaz de orientar a vontade pelo caminho da liberdade (cf.Spe salvi, ). Deste modo as nossas instituições oferecem uma contribuição vital para a missão da Igreja e servem eficazmente a sociedade. Elas tornam-se lugares nos quais a presença activa de Deus nos assuntos humanos é reconhecida e cada jovem descobre a alegria de entrar no "ser para os outros" de Cristo (cf. ibid., ).
A missão, primária na Igreja, de evangelizar, na qual as instituições educativas desempenham um papel fundamental, está em sintonia com a aspiração fundamental da nação de desenvolver uma sociedade verdadeiramente elevada à dignidade da pessoa humana. Mas por vezes o valor da contribuição da Igreja para o debate público é posto em questão. Por isso é importante recordar que a verdade da fé e a da razão nunca se contradizem entre si (cf. Concílio Ecuménico Vaticano I, Constituição dogmática sobre a Fé católica Dei Filius, IV; DS 3017 Santo Agostinho, Contra Academicos, III, 20, 43). A missão da Igreja, de facto, envolve-a na luta que a humanidade enfrenta para alcançar a verdade. Ao expressar a verdade revelada ela serve todos os membros da sociedade purificando a razão, garantindo que ela permaneça aberta à consideração das verdades últimas. Haurindo da sabedoria divina, ela ilumina a fundação da moralidade e da ética humana, e recorda a todos os grupos na sociedade que não é a prática que cria a verdade mas é a verdade que deve servir como base da prática. Longe de ameaçar a tolerância da legítima diversidade, uma tal contribuição ilumina a própria verdade que torna alcançável o consentimento, e ajuda a manter o debate público razoável, honesto e fiável. De modo semelhante a Igreja nunca se cansa de apoiar as categorias morais essenciais do justo e do injusto, sem as quais a esperança só pode esvaecer, abrindo o caminho a frios cálculos pragmáticos utilitaristas que reduzem a pessoa a pouco mais do que um boneco num jogo fictício.
Em relação ao forum educativo, a diakonia da verdade assume um elevado significado nas sociedades nas quais a ideologia secularista levanta uma barreira entre verdade e fé. Esta divisão levou à tendência de igualar verdade e conhecimento e adoptar uma mentalidade positivista que, rejeitando a metafísica, nega os fundamentos da fé e recusa a necessidade de uma visão moral. Verdade significa mais do que conhecimento: conhecer a verdade leva-nos a descobrir o bem. A verdade fala ao indivíduo na sua integridade, convidando-nos a responder com todo o nosso ser. Esta visão optimista funda-se na nossa fé cristã, porque nesta fé é doada a visão do Logos, a Razão criadora de Deus, que na Encarnação se revelou, ela mesma, como Divindade. Longe de ser apenas uma comunicação de dados factuais "informativa" a verdade amante do Evangelho é criadora e capaz de mudar a vida é "performativa" (cf. Spe salvi, ). Com confiança, os educadores cristãos podem libertar os jovens dos limites do positivismo e despertar a sua receptividade em relação à verdade, a Deus e à sua bondade. Deste modo vós ajudareis também a formar a sua consciência de que, enriquecida pela fé, abre um caminho seguro para a paz interior e para o respeito pelo próximo.
Contudo, não é uma surpresa se não tanto as nossas próprias comunidades eclesiais mas a sociedade em geral tem intensas expectativas de educadores católicos. Isto confere-vos uma responsabilidade e oferece-vos uma oportunidade. Um número cada vez maior de pessoas sobretudo de pais reconhece a necessidade de excelência na formação humana dos seus filhos. Como Mater et Magistra, a Igreja partilha a sua preocupação. Quando nada além do indivíduo é reconhecido como definitivo, o critério último de juízo torna-se o eu e a satisfação dos desejos imediatos do indivíduo. A objectividade e a perspectiva, que derivam apenas do reconhecimento da essencial dimensão transcendente da pessoa humana, podem perder-se. No âmbito de um semelhante horizonte relativista as finalidades da educação são inevitavelmente reduzidas. Afirma-se lentamente uma queda dos níveis. Observamos hoje uma certa timidez face à categoria do bem e uma irreflectida caça à novidade do momento como realização da liberdade. Somos testemunhas da convicção de que qualquer experiência seja de igual valor e da relutância em admitir imperfeições e erros. E particularmente preocupante é a redução da área preciosa e delicada da educação sexual à gestão do "risco", privado de qualquer referência à beleza do amor conjugal.
Como podem responder os educadores cristãos? Estes perigosos desenvolvimentos põem em evidência a urgência particular daquilo a que poderíamos chamar "caridade intelectual". Este aspecto da caridade exige que o educador reconheça que a profunda responsabilidade de guiar os jovens à verdade é unicamente um acto de amor. Na realidade, a dignidade da educação reside na promoção da verdadeira perfeição e a alegria de quantos devem ser guiados. Na prática, a "caridade intelectual" apoia a essencial unidade do conhecimento contra a fragmentação que deriva quando a razão está separada da perseguição da verdade. Isto guia os jovens para a profunda satisfação de exercer a liberdade em relação à verdade, e leva a formular a relação entre a fé e os vários aspectos da vida familiar e civil. Quando a paixão pela plenitude e pela unidade da verdade for despertada, os jovens certamente apreciarão a descoberta que a questão sobre o que eles podem conhecer os abre para a vasta aventura do que eles deveriam fazer. Então eles experimentarão "em quem" e "no que" é possível esperar e sentir-se-ão inspirados a dar a sua contribuição à sociedade de uma forma que gera esperança nos outros.
Queridos amigos, desejo concluir chamando a atenção especificamente sobre a importância eminente da vossa competência e do vosso testemunho no interior das nossas Universidades e Escolas católicas. Em primeiro lugar, permiti que eu vos agradeça pela vossa dedicação e generosidade. Conheço desde os tempos em que eu era professor e depois ouvi dos vossos Bispos e Oficiais da Congregação para a Educação Católica que a fama das Instituições educativas no vosso país é amplamente devida a vós a aos vossos predecessores. As vossas abnegadas contribuições da pesquisa externa à dedicação de quantos trabalham no âmbito das Instituições escolares servem quer o vosso país quer a Igreja. Por isso manifesto-vos a minha profunda gratidão.
Em relação aos membros das Faculdades nos Colégios universitários católicos, desejo reafirmar o grande valor da liberdade académica. Em virtude desta liberdade vós estais chamados a procurar a verdade onde quer que a análise atenta da evidência vos conduza. Contudo, é também o caso de recordar que qualquer apelo ao princípio da liberdade académica para justificar posições que contradizem a fé e o ensinamento da Igreja obstaria ou até trairia a identidade e a missão da Universidade, uma missão que está no coração do munus docendi da Igreja e não é de qualquer forma autónoma ou independente dela.
Professores e administradores, quer nas Universidades quer nas Escolas, têm o dever e o privilégio de garantir que os estudantes recebam uma instrução na doutrina e na prática católica. Isto exige que o testemunho público do modo de ser de Cristo, como resulta do Evangelho e é proposto pelo Magistério da Igreja, modele todos os aspectos da vida institucional quer no interior quer no exterior das salas de aulas. Afastar-se desta visão enfraquece a identidade católica e, longe de fazer progredir a liberdade, inevitavelmente conduz à confusão quer moral quer intelectual e espiritual.
Desejo expressar também uma particular palavra de encorajamento aos professores de catequese tanto leigos como religiosos, os quais se batem por garantir que os jovens se tornem quotidianamente mais capazes de apreciar o dom da fé. A educação religiosa é um apostolado estimulante e existem muitos sinais de um desejo entre os jovens de conhecer melhor a fé e de a praticar com determinação. Se queremos que este despertar aumente, é necessário que os professores tenham uma compreensão clara e determinada da natureza específica e do papel da educação católica. Eles devem estar prontos também para guiar o compromisso assumido por toda a comunidade escolar na assistência aos nossos jovens e às suas famílias e experimentar a harmonia entre fé, vida e cultura.
A este ponto, desejo fazer um especial apelo aos religiosos, às religiosas e aos sacerdotes: não abandoneis o apostolado escolar; aliás, renovai a vossa dedicação às escolas, especialmente às que se encontram nas áreas mais pobres. Nos lugares onde existem muitas promessas falazes que atraem os jovens para longe do caminho da verdade e da liberdade genuína, o testemunho dos conselhos evangélicos dado pela pessoa consagrada é um dom insubstituível. Encorajo os religiosos presentes a dedicar renovado entusiasmo na promoção das vocações. Sabei que o vosso testemunho em favor do ideal da consagração e da missão no meio dos jovens é uma fonte de grande inspiração na fé para eles e para as suas famílias.
A todos vós digo: sede testemunhas de esperança! Alimentai o vosso testemunho com a oração. Dizei a razão da esperança que caracteriza as vossas vidas (cf. 1P 3,15), vivendo a verdade que propondes aos vossos estudantes. Ajudai-os a conhecer e a amar aquele Um que encontrastes, cuja verdade e bondade vós conhecestes com alegria. Com Santo Agostinho digamos: "Nós que falamos e vós que ouvis reconheçamo-nos como fiéis discípulos de um único Mestre" (Serm.,23, 2). Com estes sentimentos de comunhão concedo de bom grado a vós, aos vossos colegas e estudantes e às vossas famílias a Bênção Apostólica.
Centro Cultural "Pope John Paul II" em Washington, D.C.
Quinta-feira, 17 de Abril de 2008
Caros amigos
Estou feliz por ter a ocasião de me encontrar hoje convosco. Agradeço ao Bispo Sklba as suas gentis palavras de boas-vindas e saúdo cordialmente todos vós aqui reunidos em representação das diversas religiões presentes nos Estados Unidos da América. Muitos de vós aceitaram gentilmente o convite a compor as reflexões contidas no programa de hoje. Estou-vos particularmente grato pelas vossas palavras sobre o modo como cada uma das vossas tradições dá testemunho da paz. Obrigado a todos vós!
Este país tem uma longa história de colaboração entre as diversas religiões, em muitos campos da vida pública. Serviços de oração inter-religiosa no decurso da festa nacional de acção de graças, iniciativas corais em actividades caritativas e uma voz comum sobre importantes questões públicas: estes são alguns dos modos como os membros de várias religiões se encontram, para melhorar a compreensão recíproca e promover o bem comum. Encorajo todos os grupos religiosos na América a perseverar na sua colaboração e enriquecer assim a vida pública com os valores espirituais que animam a vossa acção no mundo.
O lugar onde agora nos encontramos congregados foi fundado especialmente para a promoção deste tipo de colaboração. Com efeito, o Centro cultural Pope John Paul II propõe-se oferecer uma voz cristã à "busca humana de significado e de finalidade na vida" num mundo de "diversas comunidade religiosas, étnicas e culturais" (Mission Statement). Esta instituição recorda-nos a convicção desta nação de que todos os homens deveriam ser livres para perseguir a felicidade de um modo compatível com a sua natureza de criaturas dotadas de razão e de livre vontade.
Os americanos sempre apreciaram a possibilidade de prestar um culto livre e em conformidade com a sua própria consciência. Alexis de Tocqueville, o historiador francês e observador das realidades norte-americanas, fascinou-se por este aspecto da nação. Ele ressaltou que este é um país onde a religião e a liberdade estão "intimamente vinculadas" em vista de contribuir para uma democracia estável que favoreça as virtudes sociais e a participação na vida comunitária de todos os seus cidadãos. Nas áreas urbanas, é normal que as pessoas provenientes de diversas tradições culturais e religiosas se comprometam todos os dias, umas ao lado das outras, nos âmbitos comerciais, sociais e educativos. Hoje jovens cristãos, judeus, muçulmanos, hindus e budistas, bem como crianças de todas as religiões nas salas de aula de todo o país sentam-se lado a lado, aprendendo umas com e das outras. Esta diversidade dá lugar a novos desafios que suscitam uma reflexão mais profunda sobre os princípios fundamentais de uma sociedade democrática. Possam outros haurir coragem da vossa experiência, dando-se conta de que uma sociedade unida pode originar de uma pluralidade de povos "E pluribus unum, de muitos, um só" sob a condição de que todos reconheçam a liberdade religiosa como um direito civil fundamental (cf. Dignitatis humanae DH 2).
A tarefa de defender a liberdade religiosa nunca está completa. Novas situações e desafios exortam os cidadãos e os líderes a reflectir sobre o modo como as respectivas decisões respeitam este direito humano fundamental. Tutelar a liberdade religiosa segundo a norma da lei não garante que aos povos, de modo particular as minorias, sejam poupadas formas injustas de discriminação e de preconceito. Isto exige um esforço constante da parte de todos os membros da sociedade a fim de que aos cidadãos seja oferecida a oportunidade de praticar o culto pacificamente e de transmitir o seu património religioso aos próprios filhos.
A transmissão das tradições religiosas às gerações que se sucedem não só ajuda a preservar um património, mas também apoia e alimenta no presente a cultura que as circunda. O mesmo é válido para o diálogo entre as religiões; enriquecem-se tanto aqueles que nele participam como a sociedade em geral. Na medida em que crescemos na compreensão recíproca, vemos que compartilhamos uma estima pelos valores éticos alcançáveis pela razão humana, que são respeitados por todas as pessoas de boa vontade. O mundo pede insistentemente um testemunho comum destes valores. Portanto, convido todas as pessoas religiosas a considerar o diálogo não somente como um meio para reforçar a compreensão mútua, mas inclusive como um modo para servir de maneira ampla a sociedade. Dando testemunho das verdades morais que têm em comum com todos os homens e mulheres de boa vontade, os grupos religiosos hão-de exercer uma influência positiva na cultura mais vasta e inspirar os vizinhos, os colegas de trabalho e os compatriotas a unir-se na tarefa de revigorar laços de solidariedade. Citando as palavras do Presidente Franklin Delano Roosevelt, "à nossa terra hoje não poderia acontecer algo maior que um renascimento do espírito de fé".
Bento XVI Discursos 2008