Bento XVI Discursos 2008

A vossa participação activa no primeiro Congresso Missionário Asiático levou a renovadas iniciativas para a promoção de relações de boa vontade com os budistas no vosso país. A este propósito, encorajo-vos a desenvolver relações cada vez melhores com os budistas, para o bem de cada uma das vossas comunidades e de toda a nação.

Finalmente, meus estimados Irmãos, desejo manifestar a minha sincera gratidão pela fidelidade com que desempenhais o vosso ministério no meio de circunstâncias e contextos difíceis, frequentemente além do vosso controle. No próximo mês, a Igreja inaugura um especial Ano jubilar em honra de São Paulo. Este "Apóstolo das Nações" tem sido admirado ao longo dos séculos, pela sua intrépida perseverança nos momentos de prova e nas tribulações, energicamente narradas nas suas Cartas e nos Actos dos Apóstolos (cf. 2Tm 1,8-13 Ac 27,13-44). Paulo exorta-nos a conservar o nosso olhar fixo na glória que espera por nós, para jamais nos desesperarmos nos momentos de dor e de sofrimento da vida presente. A dádiva da esperança que nós recebemos e na qual somos salvos (cf. Rm 8,24) concede a graça e transforma o nosso estilo de vida (cf. Spe salvi, ). Iluminado pelo Espírito Santo, convido-vos a unir-vos a São Paulo, na confiança segura de que nada nem a angústia, a perseguição, a fome, nem as realidades presentes e futuras pode separar-nos do amor de Deus em nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Rm 8,35-39).

Enquanto vos confio à intercessão de Maria, Rainha dos Apóstolos, é de bom grado que vos concedo a Bênção apostólica a vós, ao clero, aos religiosos, às religiosas e aos fiéis leigos.





AO SENHOR ACISCLO VALLADARES MOLINA


NOVO EMBAIXADOR DA REPÚBLICA DA GUATEMALA


JUNTO DA SANTA SÉ POR OCASIÃO


DA APRESENTAÇÃO DAS CARTAS CREDENCIAIS


Sábado, 31 de Maio de 2008


Senhor Embaixador

1. É com prazer que recebo as cartas que o acreditam como Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República da Guatemala junto da Santa Sé. Apraz-me dar-lhe as cordiais boas-vindas a este solene acto com o qual inicia a missão que lhe foi confiada, e expresso-lhe ao mesmo tempo a minha gratidão pelas palavras que me dirigiu, assim como pela deferente saudação que me fez chegar da parte de Sua Ex., Eng. Álvaro Colom Caballeros, Presidente desse nobre País. Peço-lhe que transmita os meus melhores votos para ele e para o seu Governo, garantindo-lhe as minhas orações pela segurança, o progresso e a harmoniosa convivência do amado povo guatemalteco.

2. Celebra-se este ano o XXV aniversário da primeira Visita Pastoral que o meu venerado Predecessor realizou a essa amada terra "da eterna primavera". Naquela memorável ocasião, o Servo de Deus João Paulo II pôde manifestar a solicitude com que a Santa Sé acompanhou essa Nação nas suas diversas vicissitudes, estando-lhe especialmente próxima nos momentos mais delicados, para partilhar os desvelos do seu povo e, sobretudo, para o encorajar a trabalhar com abnegação pelo bem comum.

Senhor Embaixador, consta-me que os guatemaltecos correspondem a esta solicitude com uma abnegada adesão ao Bispo de Roma, o qual contribui para estreitar os vínculos de amizade que unem desde há muito tempo o seu País à Santa Sé, que tem em grande consideração estas relações espontâneas e formula os melhores votos para que as circunstâncias em que a Guatemala vive permitam um presente cheio de benefícios nos diversos âmbitos da sociedade e consolidem uma base firme para enfrentar o futuro prometedor.

3. A recente visita ad Limina dos Bispos guatemaltecos ofereceu-nos uma oportunidade magnífica para conhecer mais de perto a vitalidade com que a Igreja na sua Nação anuncia o Evangelho, abre caminhos de esperança e estende uma mão fraterna a todos os cidadãos, preferencialmente aos mais desamparados.

A partir desta óptica, a Igreja partilha a preocupação das autoridades da Guatemala, como Vossa Excelência fez notar, face a fenómenos que afligem grande parte da população, como a pobreza e a emigração. A rica experiência eclesial, acumulada ao longo da história, pode ajudar a encontrar as medidas para enfrentar a solidariedade, indispensável para obter soluções efectivas e duradouras. Neste sentido, aos imprescindíveis programas técnicos e económicos, devem juntar-se os outros aspectos que fomentam a dignidade da pessoa, a estabilidade da família e uma educação que tenha em consideração os mais importantes valores humanos e cristãos. Também não devemos esquecer quantos tiveram que abandonar a sua terra, sem deixar de a levar no coração. Este é um dever de gratidão e justiça para eles que, de facto, são também uma fonte de recursos significativos para a Pátria que os viu nascer.

4. Outro desafio para a Guatemala é remediar a subalimentação de numerosas crianças. O direito à alimentação responde principalmente a uma motivação ética: "dar de comer a quem tem fome" (cf. Mt 25,35), que obriga a partilhar os bens materiais como prova do amor de que todos necessitamos. Como já assinalei noutra ocasião, "o objectivo de erradicar a fome e, ao mesmo tempo, contar com uma alimentação sadia e suficiente, exige também métodos e acções específicas que permitam uma exploração dos recursos que respeite o património da criação. Trabalhar nesta direcção é uma prioridade que contribui não só para beneficiar dos resultados da ciência, da investigação e das tecnologias, mas também para ter em consideração os ciclos e o ritmo da natureza conhecidos pelo povo das zonas rurais, assim como para proteger os usos tradicionais das comunidades indígenas, deixando de parte razões egoístas e exclusivamente económicas" (Mensagem ao Director-Geral da FAO por ocasião da Jornada Mundial da Alimentação,4 de Outubro de 2007, n. 3).

5. Este direito primário à alimentação está intrinsecamente vinculado à tutela e à defesa da vida humana, rocha firme e inviolável na qual se baseia todo o edifício dos direitos humanos. Portanto, nunca será demais o esmero que se deve dedicar para apoiar as mães, especialmente as que se encontram em grave dificuldade, de modo que possam dar ao mundo os seus filhos com dignidade, evitando o injustificável recurso ao aborto. Neste sentido, salvaguardar a vida humana, sobretudo a nascitura já concebida, cuja inocência e desprotecção são maiores, é uma tarefa sempre vigente, com a qual está relacionada, por sua natureza, a facilitação de que a adopção das crianças seja garantida em qualquer momento pela legalidade dos procedimentos para a obter.

6. O flagelo da violência social acutiza-se com frequência pela falta de diálogo e de unidade nos lares, por dilacerantes desigualdades económicas, por graves negligências e deficiências no campo da saúde, pelo consumo e tráfico de droga ou pela chaga da corrupção. Constato com satisfação os passos que foram dados na sua Nação na luta contra estas tragédias, e que devem continuar, promovendo a cooperação de todos para lhes pôr fim através da promoção dos valores rectos e do combate à ilegalidade, à impunidade e à corrupção.

7. Senhor Embaixador, antes de terminar este encontro, desejo felicitar Vossa Excelência assim como a sua família e os demais membros desta missão diplomática, e expressar-lhe os meus melhores votos no momento em que Vossa Excelência assume a nobre responsabilidade de representar o seu País junto da Santa Sé. Encontrará sempre junto dos meus colaboradores a ajuda da qual poderá precisar no desempenho de tão alto cargo.

Ao recomendar à materna intercessão de Nossa Senhora do Rosário o povo e as autoridades guatemaltecas, suplico fervorosamente a Deus que abençoe e acompanhe o caminho que a sua Pátria está a percorrer, para que brilhem nela incessantemente as estrelas da paz, da justiça, da prosperidade e da concórdia fraterna.





AOS PARTICIPANTES NO CONGRESSO PROMOVIDO


PELA FUNDAÇÃO "CENTESIMUS ANNUS PRO PONTIFICE"


Sala Clementina

31 de Maio de 2008


Senhor Cardeal
Venerados Irmãos
no Episcopado e no Sacerdócio
Ilustres Senhoras e Senhores

É com prazer que hoje me encontro convosco e que vos dou as minhas cordiais boas-vindas. Estou grato ao Conde Lorenzo Rossi di Montelera que, como Presidente da Fundação, interpretou os vossos sentimentos, expondo também as linhas de acção seguidas durante o ano. Saúdo o Senhor Cardeal Attilio Nicora e aos Arcebispos Cláudio Maria Celli e Domenico Calcagno, assim como cada um de vós, a quem renovo a expressão do meu reconhecimento pelo serviço que prestais à Igreja, oferecendo uma generosa contribuição para as múltiplas iniciativas da Santa Sé ao Serviço dos pobres em numerosas regiões do mundo. Neste sentido, estou-vos grato de modo particular pelo dom que quisestes trazer-me por ocasião do presente encontro.

Este ano, para a vossa tradicional reunião, escolhestes como tema "O capital social e o desenvolvimento humano". Assim, detivestes-vos para ponderar sobre a necessidade, sentida por muitas pessoas, de promover um desenvolvimento global atento à promoção integral do homem, lançando luz também sobre o contributo que pode ser oferecido pelas associações de voluntariado, fundações desprovidas de lucro e outros órgãos comunitários, fundados com a finalidade de tornar o tecido social cada vez mais solidário. Um desenvolvimento económio é possível, se as opções económicas e políticas praticadas tiverem em consideração aqueles princípios fundamentais que o tornam acessível a todos: refiro-me de maneira particular aos princípios da subsidiariedade e da solidariedade. No centro de toda a programação económica, considerando especialmente a vasta e complicada rede de relações que caracteriza a época pós-moderna, é necessário que se encontre sempre a pessoa, criada à imagem de Deus e por Ele desejada para conservar e administrar os imensos recursos da criação. Somente uma cultura partilhada da participação responsável e activa, pode permitir que cada ser humano se sinta não fruidor ou testemunha passiva, mas colaborador no processo de desenvolvimento mundial.

O homem, ao qual no Génesis Deus confiou a terra, tem a tarefa de fazer frutificar todos os bens terrenos, comprometendo-se a empregá-los para satisfazer as necessidades de todos os membros da família humana. Uma das metáforas recorrentes no Evangelho é, com efeito, precisamente aquela do administrador. Por conseguinte, com o espírito de um administrador fiel o homem deve gerir os recursos que Deus lhe confiou, colocando-os à disposição de todos. Em síntese, é necessário evitar que o lucro seja exclusivamente individual, ou que as formas de colectivismo oprimam a liberdade pessoal. O interesse económico e comercial jamais deve tornar-se exclusivo, porque assim mortificaria concretamente a dignidade humana. Uma vez que o processo de globalização, em acto no mundo, abrange cada vez mais os campos da cultura, da economia, das finanças e da política, o grande desafio contemporâneo consiste em "globalizar" não apenas os interesses económicos e comerciais, mas inclusivamente as expectativas de solidariedade, no respeito e na valorização do contributo de cada um dos componentes da sociedade. Como vós reiterastes oportunamente, o crescimento económico nunca deve estar desvinculado da busca de um desenvolvimento humano e social integral. A este propósito, na sua doutrina social a Igreja ressalta a importância da contribuição dos elementos intermediários, em conformidade com o princípio da subsidiariedade, contribuindo livremente para orientar as transformações culturais e sociais e para as destinar a um autêntico progresso do homem e da colectividade. A este propósito, na Encíclica Spe salvi afirmei que "as melhores estruturas só funcionam se numa comunidade subsistem convicções que sejam capazes de motivar os homens para uma livre adesão ao ordenamento comunitário" ( a).

Queridos amigos, enquanto vos renovo a minha gratidão pelo apoio generoso que, incansavelmente, prestais à actividade de caridade e de promoção humana da Igreja, convido-vos a oferecer a contribuição da vossa reflexão, também para a realização de uma justa ordem económica mundial. A este respeito, apraz-me citar uma eloquente afirmação do Concílio Vaticano II: "Os cristãos lê-se na Constituição Gaudium et spes não podem formular um desejo mais vivo do que servir os homens do seu tempo com uma generosidade cada vez maior e mais eficaz. Por conseguinte, dóceis ao Evangelho e com as energias próprias dele, unidos a todos aqueles que amam e cultivam a justiça, têm a realizar neste mundo uma tarefa imensa..." (GS 93). Continuai com este espírito a vossa acção em benefício de numerosos dos nossos irmãos. No último dia, no dia do Juízo Final, seremos interrogados se recorremos àquilo que Deus pôs à nossa disposição para ir ao encontro das legítimas expectativas e às carências dos nossos irmãos, especialmente dos mais pequeninos e necessitados.

A Virgem Maria, que hoje contemplamos na sua visita à idosa prima Isabel, obtenha que cada um de vós seja sempre solícito em relação ao próximo. Asseguro-vos uma lembrança na oração e, carinhosamente, concedo-vos a minha Bênção a vós aqui presentes, às vossas famílias e a quantos colaboram convosco nas vossas diferentes actividades profissionais.





NO FINAL DA RECITAÇÃO DO ROSÁRIO


NO ENCERRAMENTO DO MÊS DEDICADO A MARIA


Sábado, 31 de Maio de 2008


Amados irmãos e irmãs

Concluímos o mês de Maio com este sugestivo encontro de oração mariana. Saúdo-vos com afecto e agradeço-vos a vossa participação. Saúdo em primeiro lugar o Senhor Cardeal Angelo Comastri; juntamente com ele, saúdo também os demais Cardeais, Arcebispos, Bispos e sacerdotes que intervieram nesta celebração vespertina. Faço extensiva a minha saudação às pessoas consagradas e a todos vós, estimados fiéis leigos, que com a vossa presença desejastes prestar uma homenagem à Virgem Santíssima.

No dia de hoje celebramos a festa da Visitação da Bem-Aventurada Virgem e a memória do Coração Imaculado de Maria. Por conseguinte, tudo nos convida a dirigir o olhar confiante a Maria. Nós dirigimo-nos a Ela, também nesta tarde, com a antiga e sempre actual prática piedosa do Rosário. Quando não é uma repetição mecânica de fórmulas tradicionais, o Rosário constitui uma meditação bíblica que nos faz percorrer de novo os acontecimentos da vida do Senhor, em companhia da Bem-Aventurada Virgem, conservando-os, como Ela, no nosso coração. Em muitas comunidades cristãs, durante o mês de Maio, existe a bonita tradição de recitar de modo mais solene o Santo Rosário em família e nas paróquias. Agora, que termina o mês, não cesse este bom hábito; pelo contrário, continue com compromisso ainda maior a fim de que, na escola de Maria, a lâmpada da fé resplandeça cada vez mais no coração dos cristãos e nos seus lares.

Na hodierna festa da Visitação, a liturgia faz-nos ouvir de novo o trecho do Evangelho de Lucas, que narra a viagem de Maria de Nazaré à casa da sua idosa prima Isabel. Imaginemos o estado de espírito da Virgem a seguir à Anunciação, quando o Anjo a deixou. Maria encontrou-se com um grandioso mistério encerrado no seu ventre; Ela sabia que tinha acontecido algo de extraordinariamente singular; dava-se conta de que tinha encetado o último capítulo da história da salvação do mundo. Mas ao seu redor tudo tinha permanecido como antes, e a aldeia de Nazaré desconhecia completamente o que lhe tinha acontecido.

No entanto, antes de se preocupar consigo mesma Maria pensa na sua prima Isabel, que ela sabia que estava em estado de gravidez avançada e, impelida pelo mistério de amor que tinha acabado de receber em si mesma, põe-se a caminho "à pressa" para ir levar-lhe a sua ajuda. Eis a grandeza simples e sublime de Maria! Quando chega à casa de Isabel, acontece algo que nenhum pintor jamais poderá representar com a beleza e a profundidade da sua realização. A luz interior do Espírito Santo envolve as suas pessoas. E, iluminada do Alto, Isabel exclama: "Bendita és Tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a Mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre. Bem-Aventurada Aquela que acreditou, porque vai acontecer o que o Senhor lhe prometeu" (Lc 1,42-45).

Estas palavras poderiam parecer-nos desproporcionadas em relação ao contexto real. Isabel é uma das numerosas mulheres idosas de Israel, e Maria uma jovem desconhecida de um povoado perdido da Galileia. O que elas podem ser e o que podem realizar num mundo onde contam outras pessoas e são importantes outros poderes? Todavia, Maria surpreende-nos mais uma vez; o seu coração é límpido, totalmente aberto à luz de Deus; a sua alma está sem pecado, não se encontra sobrecarregada pelo orgulho nem pelo egoísmo. As palavras de Isabel fazem brotar no seu espírito um cântico de louvor, que é uma autêntica e profunda leitura "teológica" da história: uma leitura que nós temos que aprender continuamente dela, cuja fé está desprovida de sombras e sem manchas. "A minha alma proclama a grandeza do Senhor". Maria reconhece a grandeza de Deus. Este é o primeiro sentimento indispensável da fé; o sentimento que oferece segurança à criatura humana e que a liberta do medo, mesmo no meio das tempestades da história.

Indo para além da superfície, Maria "vê" a obra de Deus na história com os olhos da fé. Por isso é bem-aventurada, porque acreditou: com efeito, pela fé Ela acolheu a palavra do Senhor e concebeu o Verbo encarnado. A sua fé levou-a a descobrir que os tronos de todos os poderosos deste mundo são provisórios, enquanto o trono de Deus é a única rocha que não muda e não cai. À distância de séculos e de milénios, o Magnificat permanece a mais verdadeira e profunda interpretação da história, enquanto as leituras feitas por inúmeros sábios deste mundo foram desmentidas pelos acontecimentos ao longo dos séculos.

Prezados irmãos e irmãs! Voltemos para casa com o Magnificat no nosso coração. Tenhamos em nós os mesmos sentimentos de louvor e de acção de graças de Maria em relação ao Senhor, a sua fé e a sua esperança, o seu dócil abandono nas mãos da Providência divina. Imitemos o seu exemplo de disponibilidade e de generosidade no serviço aos irmãos. Com efeito, somente acolhendo o amor de Deus e fazendo da nossa existência um serviço abnegado e generoso ao próximo poderemos elevar com júbilo um cântico de louvor ao Senhor. Que nos alcance esta graça Nossa Senhora, que nesta tarde nos convida a encontrar refúgio no seu Coração Imaculado. Concedo a todos vós a minha Bênção.

                                                

                                                    Junho de 2008



AOS PARTICIPANTES DA PEREGRINAÇÃO


PROMOVIDA PELA ARQUIDIOCESE DE TURIM (ITÁLIA)


Sala Paulo VI

Segunda-feira, 2 de Junho de 2008


Senhores Cardeais
Prezados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio
Queridos irmãos e irmãs
da Arquidiocese de Turim

Dirijo a minha cordial saudação a cada um de vós, sede bem-vindos à casa do Sucessor de São Pedro! É de bom grado que me encontro convosco no final da vossa peregrinação a Roma, que coroa o caminho espiritual e pastoral levado a cabo pela vossa comunidade diocesana ao longo destes anos. Enquanto vos recebo com alegria, dirijo a minha saudação em primeiro lugar ao vosso Arcebispo, Cardeal Severino Poletto, enquanto lhe agradeço inclusivamente as amáveis palavras com as quais explicou o itinerário eclesial que percorrestes até ao presente e as futuras perspectivas missionárias que vos aguardam. Saúdo o Bispo Auxiliar, Cardeal Francesco Marchisano, os presbíteros, os religiosos, as religiosas, os catequistas e os representantes das paróquias e dos diferentes organismos da vossa Arquidiocese. Saúdo as Autoridades e quantos quiseram unir-se a vós neste encontro. Através de vós aqui presentes, gostaria de fazer chegar a minha saudação a toda a população de Turim, cidade rica de história civil e religiosa. E sinto a necessidade de dirigir uma palavra de particular proximidade espiritual e de solidariedade inclusive às populações das áreas do Pinerolese e do Cuneese, atingidas nestes dias pelas consequências do mau tempo. Asseguro uma especial prece ao Senhor, a fim de que receba na sua paz as vítimas e ampare quantos estão a lutar para fazer face a esta grave calamidade natural.

Amados irmãos e irmãs, depois de terdes celebrado ontem a Eucaristia na Basílica de São Paulo fora dos Muros, hoje de manhã foi junto do Túmulo dos Apóstolos que renovastes coralmente a solene profissão de fé. E que lugar podia ser mais indicado para um gesto tão significativo, como a Redditio fidei? Na Basílica de São Pedro, onde tudo fala do heroísmo dos primórdios do cristianismo, o sangue dos mártires continua a ser um eloquente convite a seguir Cristo incondicionalmente. A Basílica e as Grutas do Vaticano são visitadas por católicos de todas as regiões do mundo que, embora pertençam a diferentes culturas e línguas, professam a mesma fé e fazem parte da única Igreja de Cristo. Também vós pudestes mergulhar neste clima de santidade e de catolicidade, e agora, antes de regressar às respectivas comunidades esperais do Papa uma palavra que vos anime a ser testemunhas coerentes do Evangelho nesta nossa época.

O vosso Arcebispo desejou gentilmente informar-me acerca do caminho percorrido pela vossa Comunidade diocesana desde que, em 1999, foi chamado pelo Senhor a ser o seu Pastor, e ainda mais a partir da data em que, em Setembro de 2003, empreendeu a sua visita pastoral que, se Deus quiser, terminará no próximo domingo. Este itinerário eclesial viu-vos protagonistas de uma vasta acção apostólica e missionária, começando a partir de um intenso movimento espiritual centrado acima de tudo na Eucaristia dominical, na adoração eucarística semanal e na redescoberta da importância do Sacramento da Reconciliação. Animados pelo sincero anélito de uma "renovada primeira evangelização", preocupastes-vos por vos aproximardes dos chamados "distantes", ampliando os horizontes da caridade pastoral de cada uma das comunidades paroquiais. Este compromisso missionário tornou-se ainda mais compartilhado no corrente ano pastoral, ano da Redditio fidei, e encontra o seu momento culminante precisamente na solene profissão de fé que proclamastes de modo coral hoje de manhã junto ao Túmulo do Príncipe dos Apóstolos.

Mas nem tudo termina aqui: depois desta restabelecedora pausa romana, é necessário retomar o caminho e assumir novos compromissos. Com efeito, dedicareis o próximo ano pastoral à Palavra de Deus, e no seguinte orientar-vos-eis para uma contemplação mais atenta do mistério da Paixão de Cristo. Neste contexto, sinto-me feliz por ir ao encontro da vossa grande expectativa e por acolher o desejo do vosso Arcebispo, permitindo que na Primavera de 2010 tenha lugar mais uma solene "Ostensão do Sudário". Se o Senhor me conceder a vida e a saúde, também eu espero ir para esta ostensão. Será uma ocasião mais propícia do que nunca estou certo disso para contemplar aquela Face misteriosa que, silenciosamente, fala ao coração dos homens, convidando-os a reconhecer nela o Rosto de Deus, que "amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna" (Jn 3,16).

Estimados irmãos e irmãs, não tenhais medo de confiar em Cristo: somente Ele pode satisfazer as expectativas mais profundas do espírito humano. Nenhuma dificuldade, nenhum obstáculo diminua o vosso amor pelo Evangelho! Se Jesus constituir o cerne das vossas famílias, das vossas paróquias e de todas as comunidades, sentireis viva a sua presença e aumentarão a unidade e a comunhão entre todos os segmentos da Diocese. Por conseguinte, alimentai constantemente a união com o Senhor na oração e com a prática frequente dos Sacramentos, de modo especial da Eucaristia e da Confissão. Entre as vossas preocupações pastorais, haja também a garantia de uma formação cristã permanente dos jovens e dos adultos. No sulco dos vossos Santos atentos às exigências dos jovens e dos pobres, como Dom Bosco, Murialdo, Cottolengo, Cafasso e outros ainda verdadeiramente, uma terra de Santos possa a vossa Diocese resplandecer pelas obras de caridade e por um esforço coral na abordagem do grande "desafio educativo" das novas gerações. A celeste Mãe de Cristo, que vós invocais como "Consolata" e Auxiliadora, proteja os sacerdotes e os agentes pastorais; obtenha para as vossas comunidades, numerosas e santas vocações ao sacerdócio e à vida consagrada; suscite nos jovens e nas jovens o desejo de seguir o excelso ideal da santidade; e seja para todos alívio e sustento, especialmente para os idosos, os enfermos, os indivíduos que sofrem, as pessoas sozinhas e abandonadas. Enquanto vos asseguro uma especial lembrança na oração, abençoo-vos afectuosamente, a vós aqui presentes, e faço o meu pensamento extensivo a todas as pessoas que vos são queridas.





AOS PRELADOS DA CONFERÊNCIA EPISCOPAL


DA MALÁSIA, SINGAPURA E BRUNEI POR OCASIÃO


DA VISITA "AD LIMINA APOSTOLORUM"


Sexta-feira, 6 de Junho de 2008




Amados Irmãos Bispos

É-me grato receber-vos por ocasião da vossa visita ad Limina, enquanto renovais os laços de comunhão na fé e no amor entre vós, como Pastores do povo de Deus que está na Malásia, Brunei e Singapura, e o Sucessor de Pedro na Sé de Roma. Agradeço as amáveis palavras que o Arcebispo D. Pakiam me dirigiu em vosso nome, e transmito a certeza das minhas preces e dos meus bons votos por todos vós e por aqueles que forem confiados ao vossos cuidados pastorais.

Por uma feliz coincidência, a vossa visita à cidade dos Apóstolos Pedro e Paulo realiza-se num momento em que a Igreja no mundo inteiro está a preparar-se para celebrar um ano dedicado a São Paulo, o grande Apóstolo das Nações, no bimilenário do seu nascimento. Rezo a fim de que possais haurir inspiração do exemplo deste apóstolo zeloso, mestre extraordinário e testemunha corajosa da verdade do Evangelho. Pela sua intercessão, que possais também vós experimentar um renovado ardor na grandiosa tarefa missionária para a qual, como São Paulo, fostes escolhidos e chamados (cf. Ga 1,15-16), para a tarefa de anunciar o Evangelho de Jesus Cristo na Malásia, Brunei e Singapura. Retomando as palavras dirigidas por São Paulo aos anciãos de Éfeso, exorto-vos a "cuidar de vós mesmos e de todo o rebanho, dado que o Espírito Santo vos constituiu como guardiães, para apascentardes a Igreja de Deus, que Ele adquiriu para si com o sangue do seu próprio Filho" (Ac 20,28).

"A fé da Igreja em Jesus é um dom recebido e um dom a compartilhar; trata-se da maior dádiva que a Igreja pode oferecer à Ásia" (Ecclesia in Asia, ). Felizmente, os povos da Ásia manifestam uma intensa aspiração por Deus (cf. ibid., ). Ao transmitir-lhes a mensagem que também vós recebestes (cf. 1Co 15,3), lançais as sementes da evangelização no solo fértil. No entanto, se quiserdes que a fé floresça, é necessário que ela lance raízes profundas no solo asiático, para não ser vista como um produto importado, alheio à cultura e às tradições do vosso povo. Conscientes do modo como São Paulo anunciava a Boa Nova aos Atenienses (cf. Ac 17,22-34), sois chamados a apresentar a fé cristã em sintonia com "a intuição espiritual inata e a sabedoria moral do espírito asiático" (Ecclesia in Asia, ), de tal maneira que as pessoas a aceitem e a façam sua.

De modo particular, tendes necessidade de assegurar que o Evangelho cristão não seja de modo algum confundido nas suas mentes com os princípios seculares associados ao Iluminismo. Pelo contrário, "vivendo um amor autêntico" (Ep 4,15), podeis ajudar os vossos concidadãos a distinguir entre o trigo do Evangelho e o joio do materialismo e do relativismo. Podeis ajudá-los a responder aos urgentes desafios apresentados pelo Iluminismo, familiar à cristandade ocidental há mais de dois séculos, mas que somente agora começa a ter um impacto significativo nas demais regiões do mundo. Enquanto resistimos à "ditadura da razão positivista" que procura excluir Deus do discurso público, deveríamos acolher as "autênticas conquistas do Iluminismo" de modo especial a ênfase dada aos direitos humanos, à liberdade de religião e à sua prática (cf. Discurso aos membros da Cúria Romana, por ocasião da tradicional troca dos bons votos de Natal, 22 de Dezembro de 2006). Ao ressaltardes a índole universal dos direitos humanos, assente na dignidade da pessoa humana criada à imagem de Deus, levais a cabo uma importante tarefa de evangelização, uma vez que este ensinamento constitui uma parte essencial do Evangelho. Agindo assim, estareis a seguir os passos de São Paulo, que sabia como exprimir os elementos fundamentais da fé e da prática cristã, de uma maneira que podia ser assimilada pelas comunidades de gentios para junto dos quais ele era enviado.

Este apostolado paulino exige um compromisso no diálogo inter-religioso, e encorajo-vos a desempenhar esta obra importante, explorando todos os caminhos que se vos abrem. Estou consciente de que nem todos os territórios por vós representados oferecem o mesmo grau de liberdade religiosa, e muitos de vós, por exemplo, encontram sérias dificuldades na promoção da educação religiosa cristã nas escolas. Não desanimeis, mas continuai a proclamar com convicção as "riquezas insondáveis de Cristo" (Ep 3,8), de tal modo que todos possam ouvir falar do amor de Deus, que se tornou manifesto em Jesus. No contexto de um diálogo aberto e honesto com os muçulmanos, budistas e hindus, mas também com os sequazes de outras religiões presentes nos vossos respectivos países, ajudais os vossos compatriotas a reconhecer e a observar os preceitos da lei "inscritos nos seus corações" (Rm 2,15), explicando claramente a verdade do Evangelho. Desta forma, o vosso ensinamento pode alcançar um vasto público e ajudar a promover uma visão unificada do bem comum. Por sua vez, isto deveria contribuir para fomentar o crescimento da liberdade religiosa e uma maior coesão social entre os membros dos diferentes grupos étnicos, que só podem conduzir à paz e ao bem-estar de toda a comunidade.

No que se refere ao cuidado pastoral que ofereceis aos vossos povos, gostaria de vos encorajar a manifestar uma particular solicitude pelos vossos presbíteros. Recorrendo à imagem evocada por São Paulo ao escrever ao jovem Timóteo, exortai-os a reavivar o dom de Deus que já se encontra neles mediante a imposição das mãos (cf. 2Tm 1,6). Sede para eles pais, irmãos e amigos, como Paulo foi para Timóteo e Tito. Orientai-os através do exemplo, demonstrando-lhes o modo como imitar Cristo, o Bom Pastor. Segundo uma sua célebre frase, São Paulo proclamava: "Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim" (Ga 2,20). Modelando toda a vossa vida e comportamento segundo Cristo, permiti que os vossos sacerdotes descubram o que significa viver como alter Christus no meio do vosso povo. Deste modo, não só conseguireis inspirá-los a oferecer a sua vida inteira "como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus" (Rm 12,1), mas cada vez mais jovens hão-de aspirar a esta sublime vida de serviço sacerdotal.

Estou consciente de que, nos territórios por vós representados existem algumas regiões em que é raro ver um sacerdote, e outras onde as pessoas ainda não ouviram falar do Evangelho. Também elas exigem de modo particular a vossa solicitude pastoral e as vossas orações. Ora, "como poderão invocar Aquele em quem não acreditaram? E como poderão acreditar, se não houver quem O anuncie?" (Rm 10,14). Aqui, a formação dos leigos adquire um acréscimo de importância, de tal forma que, através de uma catequese sólida, os filhos dispersos de Deus podem conhecer a esperança para a qual foram chamados, a sua "herança rica e gloriosa" (Ep 1,18). Desta maneira, poderão ser preparados para receber o sacerdote, quando o mesmo chegar ao meio deles. Dizei aos vossos catequistas, tanto leigos como religiosos, que me recordo deles nas minhas preces, e que aprecio a enorme contribuição que oferecem para a vida das comunidades cristãs na Malásia, Brunei e Singapura. Mediante o seu trabalho vital, numerosos homens, mulheres e crianças tornam-se capazes de "conhecer o amor de Cristo, que supera qualquer conhecimento", tornando-se "repletos de toda a plenitude de Deus" (Ep 3,19).

Queridos Irmãos Bispos, rezo a fim de que, quando regressardes aos vossos respectivos países, "sejais sempre alegres, rezeis sem cessar e deis graças em todas as circunstâncias, porque esta é a vontade de Deus para vós em Jesus Cristo" (1Th 5,16). Enquanto confio todos vós, os vossos sacerdotes, religiosos, religiosas e fiéis leigos à intercessão de Maria, Mãe da Igreja, concedo-vos cordialmente a minha Bênção Apostólica como penhor de alegria e de paz no Senhor.

Bento XVI Discursos 2008