Bento XVI Discursos 2009
Sala Régia
Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009
Excelências
Minhas Senhoras e meus Senhores!
O mistério da encarnação do Verbo, que revivemos cada ano na Festa de Natal, convida-nos a meditar sobre os acontecimentos que marcam o curso da história. É precisamente à luz deste mistério cheio de esperança que se situa este encontro tradicional convosco, ilustres membros do Corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé, que, no início deste novo ano nos proporciona uma ocasião oportuna para trocar votos sinceros. Dirijo-me em primeiro lugar a Sua Excelência o Senhor Embaixador Alejandro Valladares Lanza, expressando-lhe a minha gratidão pelos votos que amavelmente me formulou, pela primeira vez, como Decano do Corpo diplomático. A minha deferente saudação dirige-se também a cada um de vós, assim como aos vossos familiares e colaboradores e, através de vós, aos povos e aos governos dos países que representais. Para todos, peço a Deus o dom de um ano fecundo de justiça, de serenidade e de paz.
Na alvorada deste ano de 2009, o meu pensamento afectuoso dirige-se antes de tudo para quantos sofrem por causa de graves catástrofes naturais, em particular ao Vietname, Birmânia, China e Filipinas, América Central e Caribe, Colômbia e Brasil, ou ainda devido a conflitos nacionais ou regionais sangrentos ou a atentados terroristas que semearam a morte e a destruição em países como o Afeganistão, a Índia, o Paquistão e a Argélia. Não obstante muitos esforços, a paz tão almejada ainda está longe! Perante esta constatação, não devemos desencorajar-nos nem diminuir o compromisso em favor de uma cultura de paz autêntica, mas ao contrário, devemos duplicar os esforços em favor da segurança e do progresso. Neste sentido, a Santa Sé quis estar entre os primeiros que assinaram e ratificaram a "Convenção sobre as armas de submunições", documento que tem também o objectivo de fortalecer o direito internacional humanitário. Por outro lado, verificando com preocupação os sintomas de crise que se manifestam no campo do desarmamento e da não-proliferação nuclear, a Santa Sé recorda insistentemente que não se pode construir a paz quando as despesas militares subtraem enormes recursos humanos e materiais aos projectos de desenvolvimento, sobretudo dos povos mais pobres.
E é aos pobres, os demasiado numerosos pobres do nosso planeta, que eu desejo hoje prestar atenção, após a Mensagem para o Dia Mundial da Paz, que dediquei este ano ao tema "Combater a pobreza, construir a paz". As palavras com as quais o Papa Paulo VI iniciava a sua reflexão na Encíclica Populorum progressio nada perderam da sua actualidade: "Ser libertados da miséria, encontrar com mais certeza a subsistência, a saúde, um emprego estável; participar nas responsabilidades, livres de qualquer opressão, salvaguardados de situações que ofendem a dignidade de homens; ser mais instruídos; numa palavra, fazer, conhecer e possuir mais, para ser mais: esta é a aspiração dos homens de hoje, quando um grande número deles está condenado a viver em condições que tornam ilusório este desejo legítimo" (PP 6). Para construir a paz, é preciso voltar a dar esperança aos pobres. Como não pensar em tantas pessoas e famílias provadas pelas dificuldades e incertezas que a actual crise financeira e económica causou em escala mundial? Como não recordar a crise alimentar e o aquecimento climático, que tornam ainda mais difícil o acesso à alimentação e à água para os habitantes das regiões mais pobres do planeta? É urgente que doravante se adopte uma estratégia eficaz para combater a fome e facilitar o desenvolvimento agrícola local, dado que a proporção de pobres aumenta no próprio interior dos países ricos. Nesta óptica, alegro-me por que, por ocasião da recente Conferência de Doha sobre o financiamento ao desenvolvimento, foram identificados critérios úteis para orientar o governo do sistema económico e ajudar os mais débeis. Mais em profundidade, para tornar a economia mais sadia, é preciso construir uma nova confiança. Este objectivo só poderá ser alcançado pela realização de uma ética fundada na dignidade inata da pessoa humana. Sei como isto é exigente, mas não é uma utopia! Hoje como nunca, está em jogo o nosso futuro, assim como o próprio destino do nosso planeta e dos seus habitantes, em primeiro lugar das jovens gerações que herdarão um sistema económico e um tecido social seriamente comprometidos.
Sim, Senhoras e Senhores, se quisermos combater a pobreza, devemos investir em primeiro lugar na juventude, educando-a para um ideal de fraternidade autêntica. Durante as minhas viagens apostólicas do ano passado, tive a ocasião de encontrar muitos jovens, sobretudo no âmbito extraordinário da celebração da XXIII Jornada Mundial da Juventude, em Sidney, na Austrália. As minhas viagens apostólicas, começando pela visita aos Estados Unidos, permitiram-me também considerar as expectativas de numerosos sectores da sociedade em relação à Igreja católica. Nesta fase delicada da história da humanidade, marcada por incertezas e por interrogações, são numerosos os que esperam que a Igreja católica exerça com coragem e clareza a sua missão de evangelização e a sua obra de promoção humana. O meu discurso na Sede da Organização das Nações Unidas insere-se neste contexto: após sessenta anos da adopção da Declaração universal dos Direitos do Homem, eu quis ressaltar que este documento se funda na dignidade da pessoa humana, e esta sobre a natureza comum a todos que transcende as diversas culturas. Alguns meses mais tarde, indo em peregrinação a Lourdes para celebrar o 150° aniversário das aparições da Virgem Maria a Santa Bernadete, eu quis frisar que a mensagem de conversão e de amor que irradia da gruta de Massabielle permanece de grande actualidade, como um convite constante a construir a nossa existência e as relações entre os povos sobre bases de respeito e de fraternidade autênticas, conscientes de que esta fraternidade supõe um Pai comum a todos os homens, o Deus Criador. De resto, uma sociedade sadiamente laica não ignora a dimensão espiritual e os seus valores, porque a religião, e pareceu-me útil repeti-lo durante a minha viagem pastoral à França, não é um impedimento, mas ao contrário é um fundamento sólido para a construção de uma sociedade mais justa e mais livre.
As discriminações e os gravíssimos ataques dos quais foram vítimas, no ano passado, milhares de cristãos, demonstram que não é só a pobreza material, mas também a pobreza moral, que prejudica a paz. De facto, é na pobreza moral que certas acções lançam as suas raízes. Reafirmando o grande contributo que as religiões podem dar para a luta contra a pobreza e para a construção da paz, gostaria de repetir nesta assembleia que, idealmente, representa todas as nações do mundo: o cristianismo é uma religião de liberdade e de paz e está ao serviço do verdadeiro bem da humanidade. Aos nossos irmãos e irmãs vítimas da violência, especialmente no Iraque e na Índia, renovo a certeza do meu afecto paterno; às autoridades civis e políticas, exorto com insistência a que se comprometam com energia para pôr fim à intolerância e aos vexames contra os cristãos, que trabalhem para remediar os danos provocados, sobretudo aos lugares de culto e às propriedades; e que encorajem com todos os meios o justo respeito por todas as religiões, proscrevendo todas as formas de ódio e de desprezo. Faço votos também por que, no mundo ocidental, não se cultivem preconceitos ou hostilidades contra os cristãos, simplesmente porque, sobre certas questões, a sua voz incomoda. Por seu lado, os discípulos de Cristo, que se confrontam com estas provações, não desanimem: o testemunho do Evangelho é sempre um "sinal de contradição" em relação ao "espírito do mundo"! Se as tribulações são insuportáveis, a presença constante de Cristo é um conforto poderoso. O seu Evangelho é uma mensagem de salvação para todos e por este motivo não pode ser confinado na esfera privada, mas deve ser proclamado sobre os telhados, até aos extremos confins da terra.
O nascimento de Cristo na pobre gruta de Belém leva-nos naturalmente a recordar a situação do Médio Oriente, em primeiro lugar, da Terra Santa, onde, nestes dias, assistimos a uma recrudescência de violência que provoca danos e sofrimentos imensos às populações civis. Esta situação complica ainda a busca de uma saída do conflito entre israelenses e palestinianos, profundamente desejada por grande parte da população e pelo mundo inteiro. Mais uma vez, gostaria de repetir que a opção militar não é uma solução e que a violência, de onde quer que ela provenha e seja qual for a forma que assume, deve ser firmemente condenada. Faço votos por que, com o compromisso determinante da comunidade internacional, a trégua na Faixa de Gaza seja posta em vigor o que é indispensável para voltar a criar condições de vida aceitáveis para a população e que sejam relançadas as negociações de paz renunciando ao ódio, às provocações e ao recurso às armas. É muito importante que, por ocasião do prazo eleitoral crucial que interessa muitos habitantes da região nos próximos meses, sobressaiam dirigentes capazes de fazer progredir com determinação este processo e de guiar os seus povos rumo à difícil mas indispensável reconciliação. Ela não pode ser alcançada sem adoptar uma abordagem global dos problemas desses países, no respeito pelas aspirações e pelos interesses legítimos de todas as populações interessadas. Além dos esforços renovados para a solução do conflito israelo-palestinense, que acabei de mencionar, é preciso dar um apoio convicto ao diálogo entre Israel e a Síria e, para o Líbano, apoiar a consolidação em acto das instituições, que será tanto mais efectiva quanto mais for realizada num espírito de unidade. Aos iraquianos, que se preparam para retomar plenamente a orientação do seu destino, dirijo um encorajamento particular a virar de página para olhar para o futuro a fim de o construir sem discriminação de raça, de etnia ou de religião. No que diz respeito ao Irão, deve ser procurada infatigavelmente uma solução negociada para a controvérsia sobre o programa nuclear, através de um mecanismo que permita satisfazer as exigências legítimas do país e da comunidade internacional. Este resultado favoreceria em grande medida a distensão regional e mundial.
Dirigindo agora o olhar para o grande continente asiático, constato com preocupação que em certos países as violências perduram e que noutros a situação política permanece tensa, mas existem progressos que permitem olhar para o futuro com mais confiança. Penso, por exemplo, na retomada de novas negociações de paz em Mindanao, nas Filipinas, e no novo rumo dado às relações entre Pequim e Taipé. Neste mesmo contexto de busca da paz, uma solução definitiva para o conflito que se verifica no Sri Lanka só pode ser política, enquanto que as necessidades das populações envolvidas devem continuar a ser objecto de uma atenção firme. As comunidades cristãs que vivem na Ásia são muitas vezes pequenas sob o ponto de vista numérico, mas desejam oferecer uma contribuição convicta e eficaz para o bem comum, para a estabilidade e para o progresso dos seus países, oferecendo um testemunho da primazia de Deus que estabelece uma hierarquia sadia dos valores e confere uma liberdade mais forte do que as injustiças. A recente beatificação de cento e oitenta e oito mártires no Japão recordou isto de modo eloquente. A Igreja, como foi dito numerosas vezes, não pede privilégios, mas a aplicação do princípio da liberdade religiosa em todas as suas dimensões. Nesta óptica, é importante que, na Ásia central, as legislações sobre as comunidades religiosas garantam o pleno exercício deste direito fundamental, no respeito pelas normas internacionais.
Daqui a poucos meses, terei a alegria de me encontrar com muitos irmãos e irmãs na fé e em humanidade que vivem em África. Na expectativa desta visita que tanto desejei, rezo ao Senhor para que os seus corações sejam dispostos ao acolhimento do Evangelho e a vivê-lo com coerência, construindo a paz pela luta contra a pobreza moral e material. Deve ser prestada uma atenção especial à infância: vinte anos após a adopção da Convenção sobre os Direitos da Criança, elas continuam a ser muito vulneráveis. Numerosas crianças vivem o drama de refugiados e deslocados na Somália, no Darfur e na República Democrática do Congo. Trata-se de fluxos migratórios relativos a milhões de pessoas que têm necessidade de ajuda humanitária e que sobretudo são privadas dos seus direitos elementares e feridas na sua dignidade. Peço a quantos exercem responsabilidades políticas, a nível nacional e internacional, que tomem todas as medidas necessárias para resolver os conflitos em acto e para pôr fim às injustiças que os provocaram. Faço votos por que na Somália, o restabelecimento do Estado possa finalmente progredir, para que cessem os intermináveis sofrimentos dos habitantes desse País. De igual modo no Zimbábue, a situação permanece crítica e são necessárias consideráveis ajudas humanitárias. Os Acordos de paz no Burundi lançaram uma luz de esperança para a região. Formulo votos a fim de que sejam plenamente aplicados e se tornem fonte de inspiração para outros países, que ainda não encontraram o caminho da reconciliação. A Santa Sé, como sabeis, segue com atenção especial o continente africano e está feliz por ter estabelecido no ano passado relações diplomáticas com Botsuana.
Neste vasto panorama, que inclui o mundo inteiro, desejo de igual modo falar um momento sobre a América Latina. Também lá, os povos desejam viver em paz, livres da pobreza e exercendo livremente os seus direitos fundamentais. Neste contexto, é desejável que as necessidades de quantos emigram sejam tomadas em consideração por legislações que facilitem a unificação familiar e conciliem as exigências legítimas de segurança e as do respeito inviolável da pessoa. Gostaria também de me congratular pelo compromisso prioritário de alguns governos para restabelecer a legalidade e empreender uma luta sem sujeições contra o tráfico dos entorpecentes e contra a corrupção. Alegro-me pelo facto de que, trinta anos após o início da mediação pontifícia sobre a contenda entre a Argentina e o Chile na zona austral, os dois países tenham de certa forma confirmado a sua vontade de paz elevando um monumento ao meu venerado predecessor, o Papa João Paulo II. Por outro lado, faço votos por que a recente assinatura do Acordo entre a Santa Sé e o Brasil facilite o livre exercício da missão evangelizadora da Igreja e fortaleça ainda mais a sua colaboração com as instituições civis para o desenvolvimento integral da pessoa. A Igreja acompanha há cinco séculos os povos da América Latina, partilhando as suas esperanças e preocupações. Os seus Pastores sabem que, para favorecer um progresso autêntico da sociedade, a sua tarefa consiste em esclarecer as consciências e formar leigos capazes de intervir com fervor nas realidades temporais, pondo-se ao serviço do bem comum.
Olhando por fim para as nações que estão mais próximas, gostaria de saudar a comunidade cristã da Turquia, recordando que, neste ano jubilar especial por ocasião do segundo milénio do nascimento do Apóstolo São Paulo, numerosos peregrinos convergem a Tarso, a sua cidade de origem, o que ressalta mais uma vez o vínculo estreito desta terra com as origens do cristianismo. As aspirações pela paz são vivas no Chipre, onde foram retomadas as negociações em vista de soluções justas para os problemas relacionados com a divisão da Ilha. No que diz respeito ao Cáucaso, gostaria de recordar mais uma vez que os conflitos que investem os Estados e a Região não podem ser resolvidos com as armas e, pensando na Geórgia, faço votos por que sejam respeitados todos os compromissos subscritos no Acordo de cessar-fogo do mês de Agosto passado concluído graças aos esforços diplomáticos da União Europeia e que o regresso dos deslocados aos seus lares seja facilitado o mais depressa possível. Falando por fim do Sudeste da Europa, a Santa Sé prossegue o seu compromisso pela estabilidade na região, e espera que continuem a ser criadas as condições para um futuro de reconciliação e de paz entre as populações da Sérvia e do Kosovo, no respeito pelas minorias e sem esquecer a preservação do precioso património artístico e cultural cristão, que constitui uma riqueza para toda a humanidade.
Senhoras e Senhores Embaixadores, no final desta análise panorâmica, que, na sua brevidade, não pode mencionar todas as situações de sofrimento e de pobreza que estão presentes no meu espírito, volto à Mensagem para a celebração do Dia Mundial da Paz deste ano. Neste documento, recordei que os seres humanos mais pobres são as crianças nascituras (n. 3). Não posso deixar de recordar, terminando, outros pobres, como os doentes e as pessoas idosas abandonadas, as famílias divididas e sem pontos de referência. A pobreza combate-se se a humanidade se torna mais fraterna mediante valores e ideais partilhados, fundados na dignidade da pessoa, na liberdade relacionada com a responsabilidade, no reconhecimento efectivo do lugar de Deus na vida do homem. Nesta perspectiva, fixemos o nosso olhar em Jesus, o humilde Menino deitado na manjedoura. Dado que Ele é o Filho de Deus, indica-nos que a solidariedade fraterna entre todos os homens é a via-mestra para combater a pobreza e construir a paz. Que a luz do Seu amor ilumine todos os governantes e toda a humanidade! Ela nos guie ao longo deste ano que acaba de iniciar! Bom ano a todos.
Sábado, 10 de Janeiro de 2009
Prezados irmãos e irmãs
É com grande alegria que vos recebo tão numerosos no dia de hoje, por ocasião do 40º aniversário do início do Caminho Neocatecumenal em Roma, que actualmente conta com 500 comunidades. A todos vós a minha cordial saudação. De modo especial, saúdo o Cardeal Vigário, Agostino Vallini, assim como o Cardeal Stanislaw Rylko, Presidente do Pontifício Conselho para os Leigos que, com dedicação, vos acompanharam no itinerário de aprovação dos vossos Estatutos. Saúdo os responsáveis do Caminho Neocatecumenal: o Senhor Kiko Argüello, a quem agradeço cordialmente as palavras entusiastas e entusiasmantes com que se fez intérprete dos sentimentos de todos vós. Saúdo a Senhora Carmen Hernández e o Padre Mário Pezzi. Saúdo as comunidades que partem em missão rumo às periferias mais necessitadas de Roma, as que vão em "missio ad gentes" nos cinco continentes, as 200 novas famílias itinerantes e os 700 catequistas itinerantes, responsáveis pelo Caminho Neocatecumenal nas várias nações. Obrigado a todos vós. O Senhor vos acompanhe.
Significativamente, este nosso encontro realiza-se na Basílica Vaticana, construída sobre o sepulcro do Apóstolo Pedro. Foi precisamente ele, o Príncipe dos Apóstolos que, respondendo à pergunta com que Jesus interpelava os Doze sobre a sua identidade, confessou com ímpeto: "Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo!" (Mt 16,16). Hoje estais aqui reunidos para renovar esta mesma profissão de fé. A vossa presença, tão numerosa e animada, dá testemunho dos prodígios realizados pelo Senhor nas últimas quatro décadas; ela indica também o compromisso com que tendes a intenção de continuar o caminho encetado, um caminho de seguimento fiel de Cristo e de testemunho corajoso do seu Evangelho, não apenas aqui em Roma mas onde quer que a Providência vos conduza; um caminho de adesão dócil às directrizes dos Pastores e de comunhão com todos os outros componentes do Povo de Deus. Tencionais fazer isto, bem conscientes de que ajudar os homens desta nossa época a encontrar Jesus Cristo, Redentor do homem, constitui a missão da Igreja e de cada baptizado. O "Caminho Neocatecumenal" insere-se nesta missão eclesial como uma das numerosas sendas suscitadas pelo Espírito Santo com o Concílio Vaticano ii para a nova evangelização.
Tudo começou aqui em Roma, há quarenta anos, quando na Paróquia dos Santos Mártires do Canadá foram constituídas as primeiras comunidades do Caminho Neocatecumenal. Como deixar de bendizer o Senhor pelos frutos espirituais que, através do método de evangelização por vós levado a cabo, puderam ser recolhidos nestes anos? Quantas novas energias apostólicas foram suscitadas, tanto entre os sacerdotes como entre os leigos! Quantos homens e mulheres, e quantas famílias, que se afastaram da comunidade eclesial ou tinham abandonado a prática da vida cristã, através do querigma e do itinerário de redescoberta do Baptismo foram ajudadas a reencontrar a alegria da fé e o entusiasmo do testemunho evangélico! A recente aprovação dos Estatutos do "Caminho" por parte do Pontifício Conselho para os Leigos veio consolidar a estima e a benevolência com que a Santa Sé acompanha a obra que o Senhor suscitou através dos vossos Iniciadores. O Papa, Bispo de Roma, agradece-vos o generoso serviço que prestais à evangelização desta Cidade e a dedicação com que vos prodigalizais por levar o anúncio cristão a todos os seus ambientes. Obrigado a todos vós.
A vossa acção apostólica, já tão benemérita, será ainda mais eficaz na medida em que vos esforçardes por cultivar constantemente aquele anélito pela unidade que Jesus comunicou aos Doze durante a última Ceia. Ouvimos o cântico: antes da Paixão, com efeito, o nosso Redentor rezou intensamente para que os seus discípulos fossem um só, de modo que o mundo pudesse ser impelido a crer nele (cf. Jn 17,21), uma vez que tal unidade só pode derivar da força de Deus. É esta unidade, dom do Espírito Santo e busca incessante dos crentes, que faz de cada comunidade uma articulação viva e bem inserida no Corpo místico de Cristo. A unidade dos discípulos do Senhor pertence à essência da Igreja e é condição indispensável para que a sua acção evangelizadora seja fecunda e credível. Sei com que zelo as comunidades do Caminho Neocatecumenal estão a trabalhar em 103 paróquias de Roma! Enquanto vos encorajo a dar continuidade a este compromisso, exorto-vos a intensificar a vossa adesão a todas as directrizes do Cardeal Vigário, meu directo colaborador no governo pastoral da Diocese. Obrigado pelo vosso "sim", que obviamente brota do coração. A inserção orgânica do "Caminho" na pastoral diocesana e a sua unidade com as demais realidades irão beneficiar todo o povo cristão, tornando mais profícuo o esforço da Diocese, em vista de um renovado anúncio do Evangelho nesta nossa Cidade. Com efeito, hoje há necessidade de uma vasta acção missionária que empenhe as diversas realidades eclesiais que, mesmo conservando cada uma a originalidade do seu próprio carisma, trabalhem concordemente procurando realizar aquela "pastoral integrada" que já permitiu alcançar resultados significativos. E vós, pondo-vos com plena disponibilidade ao serviço do Bispo, como recordam os vossos Estatutos, podereis servir de exemplo para muitas Igrejas locais, que justamente olham para a Igreja de Roma como modelo ao qual fazer referência.
Há outro fruto espiritual amadurecido nestes quarenta anos pelo qual, juntamente convosco, gostaria de dar graças à Providência divina: é o grande número de sacerdotes e de pessoas consagradas que o Senhor Kiko falou-nos acerca disto suscitou nas vossas comunidades. Muitos presbíteros estão comprometidos nas paróquias e em outros campos de apostolado diocesano; muitos são missionários itinerantes em várias nações: eles prestam um serviço generoso à Igreja de Roma, e a Igreja de Roma oferece um serviço precioso à evangelização do mundo. Trata-se de uma verdadeira "primavera de esperança" para a comunidade diocesana de Roma e para a Igreja universal! Estou grato ao Reitor e aos seus colaboradores do Seminário Redemptoris Mater de Roma pela obra educativa que eles levam a cabo. Todos nós sabemos que a sua tarefa não é fácil, mas é muito importante para o porvir da Igreja. Por conseguinte, encorajo-os a dar continuidade a esta missão, seguindo as directrizes formativas propostas quer pela Santa Sé quer pela Diocese. A finalidade que é necessário que todos os formadores tenham em vista é a de preparar presbíteros bem inseridos no presbitério diocesano e na pastoral, tanto paroquial como diocesana.
Estimados irmãos e irmãs, a página evangélica que foi proclamada evocou-nos as exigências e as condições da missão apostólica. As palavras de Jesus, que nos foram referidas pelo Evangelista São Marcos, ressoam como um convite a não desanimarmos perante as dificuldades, a não procurarmos sucessos humanos, a não termos medo de incompreensões e até de perseguições. Pelo contrário, encorajam a depositar a confiança unicamente no poder de Cristo, a tomar a "própria cruz" e a seguir os passos do nosso Redentor que, neste tempo natalício já a terminar, se nos manifestou na humildade e na pobreza de Belém. A Virgem Santa, modelo de cada discípulo de Cristo e "casa de bênção" como cantastes, vos ajude a realizar com alegria e fidelidade o mandato que a Igreja vos entrega com confiança. Enquanto vos agradeço o serviço que prestais na Igreja de Roma, asseguro-vos a minha oração e, de coração, abençoo-vos a vós aqui presentes e todas as comunidades do Caminho Neocatecumenal, espalhadas pelo mundo inteiro.
Sala Clementina
Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009
Ilustres Senhores e gentis Senhoras
No início do ano novo já é tradição que o Papa receba na sua casa os administradores de Roma, da sua Província e da Região do Lácio, para um cordial intercâmbio de bons votos. É o que acontece também hoje de manhã, num clima de estima e de amizade sincera: portanto, obrigado pela vossa agradável presença. Dirijo uma saudação deferente, em primeiro lugar, ao Presidente da Junta Regional do Lácio, Senhor Pietro Marrazzo; ao Presidente da Câmara Municipal de Roma, Deputado Gianni Alemanno; e ao Presidente da Província de Roma, Senhor Nicola Zingaretti, agradecendo-lhes as amáveis palavras que gentilmente me quiseram dirigir, também em nome das respectivas Administrações. A minha saudação estende-se aos Presidentes das diversas Assembleias de Conselho e a cada um de vós aqui presentes, às vossas famílias e também às queridas populações que representais de modo ideal.
Nas intervenções há pouco pronunciadas entrevi esperanças e preocupações. É indubitável que a comunidade mundial está a atravessar um período de grave crise económica, mas que está ligada à crise estrutural, cultural e de valores. A difícil situação, que está a atingir a economia mundial, traz consigo em toda a parte recaídas inevitáveis, e portanto atinge também Roma, a sua Província, as cidades e as aldeias do Lácio. Diante de um desafio tão árduo é quanto sobressai inclusive das vossas palavras deve ser concorde a vontade de reagir, ultrapassando as divisões e harmonizando estratégias que, se por um lado enfrentam as emergências de hoje, por outro visam designar um projecto estratégico orgânico para os anos futuros, inspirado naqueles princípios e valores que fazem parte do património ideal da Itália e, mais especificamente, de Roma e do Lácio. Nos momentos difíceis da sua história, o povo sabe reencontrar unidade de intenções e coragem, em volta da guia sábia de administradores iluminados, cuja preocupação fundamental é o bem de todos.
Queridos amigos, nas vossas intervenções parece claro que as Administrações por vós guiadas apreciam a presença e a actividade da comunidade católica; aqui faço questão de reiterar que ela não pede nem se orgulha de privilégios, mas deseja que a própria missão espiritual e social continue a encontrar apreço e cooperação. Agradeço-vos a vossa disponibilidade; com efeito, recordo que Roma e o Lácio desempenham um papel peculiar para a cristandade. Aqui, os católicos sentem-se estimulados a um testemunho evangélico vivo e a uma diligente acção de promoção humana, de maneira especial hoje, diante das dificuldades que nos são bem conhecidas. A este propósito, embora as Cáritas diocesanas, as comunidades paroquiais e as associações católicas não poupem esforços para prestar ajuda a quantos estão em necessidade, torna-se indispensável uma sinergia entre todas as instituições para oferecer respostas concretas às crescentes necessidades do povo. Penso nas famílias, principalmente nas famílias com filhos pequenos que têm direito a um futuro sereno, e nos idosos, muitos dos quais vivem em solidão e em condições de dificuldade; penso na emergência habitacional, na carência de trabalho e no desemprego juvenil, na difícil convivência entre diferentes grupos étnicos, na importante questão da imigração e dos nómades.
Se a actuação de políticas económicas e sociais adequadas é tarefa do Estado, a Igreja, à luz da sua doutrina social, é chamada a oferecer a sua contribuição, estimulando a reflexão e formando as consciências dos fiéis e de todos os cidadãos de boa vontade. Talvez nunca como hoje, a sociedade civil compreende que só com estilos de vida inspirados na sobriedade, na solidariedade e na responsabilidade, é possível construir uma sociedade mais justa e um futuro melhor para todos. Faz parte do seu dever institucional, que os poderes públicos garantam a todos os habitantes os próprios direitos, tendo em consideração que os deveres de cada um sejam definidos com clareza e realmente postos em prática. Eis por que uma prioridade inderrogável é a formação no respeito das normas, na assunção das próprias responsabilidades, num estilo de vida que reduza o individualismo e a defesa dos interesses partidários, a fim de tender em conjunto para o bem de todos, tendo particularmente a peito as expectativas dos indivíduos mais frágeis da população, não considerados um peso, mas sim um recurso a ser valorizado.
Nesta perspectiva, com uma intuição que gostaria de dizer profética, desde há anos a Igreja concentra os seus esforços sobre o tema da educação. Desejo manifestar gratidão pela colaboração que se instaurou entre as vossas Administrações e as comunidades eclesiais, no que se refere aos oratórios e à construção de novos complexos paroquiais nos bairros que não os têm. Faço votos por que no futuro esta entreajuda, no respeito das recíprocas competências, se consolide ulteriormente, tendo presente que as estruturas eclesiais, no coração de um bairro, além de permitir o exercício do direito fundamental da pessoa humana, que é a liberdade religiosa, são na realidade centros de agregação e de formação nos valores da socialidade, da convivência pacífica, da fraternidade e da paz.
Como não pensar especialmente nos adolescentes e nos jovens, que são o nosso porvir? Cada vez que a crónica refere espisódios de violência juvenil, cada vez que a imprensa cita acidentes rodoviários em que morrem muitos jovens, volta-me à mente o tema da emergência educativa, que hoje exige a colaboração mais ampla possível. Debilitam-se, de modo especial entre as jovens gerações, os valores naturais e cristãos que dão significado à vida quotidiana e formam uma visão da vida aberta à esperança; no entanto, sobressaem desejos efémeros e expectativas não duradouras, que no final geram tédio e falências. Tudo isto tem como êxito nefasto o afirmar-se de tendências a banalizar o valor da própria vida, para se refugiar na transgressão, na droga e no álcool, que para alguns se tornaram um rito habitudinário do fim de semana. Até o amor corre o risco de se reduzir a "uma simples coisa que se pode comprar e vender" e, "antes, o próprio homem torna-se mercadoria" (Deus caritas est ). Perante o niilismo que permeia de maneira crescente o mundo juvenil, a Igreja convida todos a dedicar-se seriamente aos jovens, a não os deixar à mercê de si mesmos, nem expostos à escola de "maus mestres", mas a comprometê-los em iniciativas sérias, que lhes permitam compreender o valor da vida numa família estável, fundada sobre o matrimónio. Só assim se lhes oferece a possibilidade de programar com confiança o seu futuro. Quanto à comunidade eclesial, ela torne-se ainda mais disponível para ajudar as novas gerações de Roma e do Lácio a projectar de modo responsável o seu amanhã. Ela propõe-lhes sobretudo o amor de Cristo, o único que pode oferecer respostas satisfatórias às interrogações mais profundas do nosso coração.
Enfim, permiti-me uma breve consideração relativa ao mundo da saúde. Sei bem como é exigente a tarefa de assegurar a todos uma assistência médica adequada no campo das doenças físicas e psíquicas, e como são ingentes as despesas a enfrentar. Também neste campo, como de resto no escolar, a comunidade eclesial, herdeira de uma longa tradição de assistência aos enfermos, com muitos sacrifícios continua a prestar a sua actividade através de hospitais e casas de cura inspirados nos princípios evangélicos. No ano que acaba de transcorrer, da parte da Região do Lácio, não obstante as dificuldades das situações actuais, receberam-se sinais positivos para ir ao encontro também das estruturas católicas de assistência à saúde. Formulo votos por que, continuando os esforços em curso, tal colaboração seja oportunamente incentivada, de tal modo que as pessoas possam continuar a valer-se do precioso serviço que estas estruturas de excelência reconhecida desempenham com competência, profissionalidade, atenção à gestão financeira e cuidado para com os doentes e as suas famílias.
Ilustres Senhores e gentis Senhoras! A tarefa que vos foi confiada pelos cidadãos não é fácil: vós tendes que vos medir com numerosas e complicadas situações que, cada vez mais frequentemente, têm necessidade de intervenções e decisões não simples e por vezes impopulares. Que vos sirva de estímulo a consciência de que, enquanto prestais um serviço importante à sociedade de hoje, contribuís para construir um mundo verdadeiramente humano para as novas gerações. A contribuição mais importante que o Papa vos assegura, e fá-lo com grande carinho, é a oração diária, para que o Senhor vos ilumine e vos torne sempre servidores honestos do bem comum. Com estes sentimentos, invoco a intercessão maternal de Nossa Senhora, venerada em muitas localidades do Lácio, e do Apóstolo Paulo, do qual estamos a comemorar o bimilénio do nascimento, e imploro a bênção de Deus sobre vós, as vossas famílias e todos aqueles que vivem em Roma, na sua Província e em toda a Região.
Bento XVI Discursos 2009