Bento XVI Discursos 2009


DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

AO INSPECTORADO DA POLÍCIA DE ESTADO

NO VATICANO


Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009


Prezados amigos do Inspectorado de Segurança Pública no Vaticano

Há pouco começou o novo ano, e para mim é um verdadeiro prazer encontrar-me mais uma vez convosco e formular a cada um de vós ardentes bons votos, que cordialmente estendo às vossas famílias e às pessoas que vos são queridas. A índole familiar deste encontro tradicional, que aprecio muito, oferece-me a oportunidade de vos dirigir uma saudação pessoal e de vos expressar o meu mais profundo e agradecido apreço pelo trabalho que, diariamente, realizais com reconhecida profissionalidade e grande dedicação. Em vós, saúdo com afecto aqueles que o Estado italiano destina a um especial serviço de polícia e de vigilância, ligado à minha missão de Pastor da Igreja universal.

A minha saudação e os meus bons votos dirigem-se, antes de tudo, ao Dr. Giulio Callini, há pouco nomeado Dirigente-Geral, a quem agradeço as palavras com que interpretou os vossos comuns sentimentos, assim como ao Prefeito Salvatore Festa. Com igual afecto, saúdo os demais componentes do Inspectorado de Segurança Pública no Vaticano, que não puderam estar presentes. Estendo a minha deferente saudação ao Chefe da Polícia, Prefeito Antonio Manganelli; ao Vice-Chefe da Polícia, Prefeito Francesco Cirillo; ao Comandante da Polícia de Roma, Dr. Giuseppe Caruso, e aos outros Dirigentes e funcionários da Polícia de Estado pela sua significativa presença.

Considerando o trabalho que vós sois chamados a realizar recordo que sempre me acontecia de encontrar algum de vós quando, como Cardeal, atravessava todos os dias a Praça de São Pedro penso nos sacrifícios que o vosso serviço comporta. Sacrifícios que vós deveis fazer, mas que também os vossos familiares são chamados a compartilhar, por causa dos turnos que são exigidos pela vigilância contínua dos lugares adjacentes à Praça de São Pedro no Vaticano. Por isso, hoje gostaria de incluir no meu agradecimento também as vossas famílias, com um pensamento especial para aqueles de vós que há pouco casaram ou que estão prestes a dar este passo. A todos e a cada um garanto uma cordial lembrança na oração.

Começa um novo ano e são muitas as nossas expectativas e esperanças. Porém, não podemos negar que no horizonte se delineiam também não poucas sombras que preocupam a humanidade. Contudo, não podemos desanimar; aliás, temos que manter sempre acesa em nós a chama da esperança. Para nós, cristãos, a verdadeira esperança é Cristo, dom do Pai à humanidade. Este anúncio é para todos os homens: ele encontra-se no âmago da mensagem evangélica; com efeito, Jesus nasceu, morreu e ressuscitou para todos. A Igreja continua a proclamá-lo hoje e a toda a humanidade, para que cada pessoa e cada situação humana possa experimentar o poder da graça salvadora de Deus, a única que pode transformar o mal em bem. Só Cristo pode renovar o coração do homem e torná-lo um "oásis" de paz; só Cristo pode ajudar-nos a construir um mundo onde reinam a justiça e o amor.

Estimados funcionários e agentes, à luz desta esperança sólida, o nosso trabalho quotidiano, qualquer que ele seja, adquire um significado e valor diversos, porque o alicerçamos naqueles valores humanos e espirituais que tornam a nossa existência mais serena e útil para os irmãos. Por exemplo, no que se refere à vossa obra de vigilância, ela pode ser vivida como uma missão. Um serviço ao próximo, relativo à ordem e à segurança e, ao mesmo tempo, uma ascese pessoal, por assim dizer, uma vigilância interior constante que exige uma boa harmonia entre a disciplina e a cordialidade, o controle de si e o acolhimento vigilante dos peregrinos e dos turistas que vêm ao Vaticano. E este serviço levado a cabo com amor torna-se prece, oração ainda mais agradável a Deus quando o vosso trabalho é pouco gratificante, monótono e cansativo, especialmente nas horas nocturnas ou nos dias em que o clima se torna rígido. E é cumprindo bem o próprio dever que cada baptizado realiza a sua vocação à santidade.

Caros amigos, enquanto vos renovo os meus mais cordiais bons votos para este novo ano, asseguro-vos a minha proximidade espiritual e, de bom grado, concedo a cada um de vós uma especial Bênção Apostólica, que estendo com carinho aos vossos familiares e às pessoas que vos são queridas.

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

AOS BISPOS DO IRÃO EM VISITA

«AD LIMINA APOSTOLORUM»


Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009


Amados e venerados Irmãos
no Episcopado!

É com alegria e afecto que vos recebo esta manhã. Saúdo de modo particular Sua Excelência D. Ramzi Garmou, Arcebispo de Teerão dos Caldeus e Presidente da Conferência Episcopal Iraniana, que acaba de me dirigir palavras gentis em vosso nome. Sois os Ordinários das Igrejas arménia, caldeia e latina. Portanto, amados Irmãos, representais a riqueza da unidade na diversidade que existe no seio da Igreja católica e da qual dais testemunho quotidianamente na República Islâmica do Irão. Aproveito a ocasião para expressar a todo o povo iraniano a minha saudação cordial da qual vos fareis intérpretes junto das vossas comunidades. Hoje como outrora, a Igreja católica não deixa de encorajar quantos se preocupam pelo bem comum e pela paz entre as nações. Por seu lado, o Irão, ponte entre o Médio Oriente e a Ásia subcontinental, não deixará de realizar esta vocação.

Sinto-me sobretudo feliz por poder expressar-vos pessoalmente o meu apreço cordial pelo serviço que prestais numa terra onde a presença cristã é antiga e onde se desenvolveu e manteve durante diversas vicissitudes da história iraniana. O meu reconhecimento vai também aos sacerdotes, aos religiosos e religiosas que trabalham neste vasto e belo país. Sei quanto a sua presença é necessária e quanto a assistência espiritual e humana que eles garantem aos fiéis, através de um contacto directo e quotidiano, é preciosa e oferece a todos um bom testemunho. Penso de modo particular na assistência prestada às pessoas idosas e às categorias sociais que se encontram em particulares situações de necessidade. Saúdo também através de vós todas as pessoas comprometidas nas obras da Igreja. Gostaria de recordar de igual modo a contribuição da Igreja católica, sobretudo através da Caritas, para a obra de reconstrução, após o terrível terramoto que atingiu a região de Bam. Desejo recordar também o conjunto dos fiéis católicos cuja presença na terra dos seus antepassados leva a pensar na imagem bíblica do fermento na massa (cf. Mt 13,33), que faz levedar o pão, lhe confere sabor e consistência. Através de vós, queridos Irmãos, gostaria de agradecer a todos a sua constância e perseverança e encorajá-los a permenecer fiéis à fé dos seus antepassados e afeiçoados à sua terra a fim de colaborar para o desenvolvimento da nação.

Mesmo se as vossas diferentes Comunidades vivem em contextos diversificados, alguns problemas são-lhes comuns. Precisam de desenvolver relações harmoniosas com as instituições públicas que, com a graça de Deus certamente se aprofundarão pouco a pouco e permitir-lhe-ão realizar do melhor modo a sua missão de Igreja no respeito recíproco e para o bem de todos. Encorajo-vos a promover todas as iniciativas que favoreçam um melhor conhecimento mútuo. Podem ser explorados dois caminhos: o do diálogo cultural, riqueza plurimilenar do Irão, e o da caridade. O segundo iluminará o primeiro e será o seu motor. "A caridade é paciente; a caridade é prestativa... A caridade jamais passará..." (). Para realizar este objectivo, e sobretudo para o progresso espiritual dos vossos respectivos fiéis, é necessário dispor de trabalhadores que semeiem e que ceifem: sacerdotes, religiosos e religiosas. As vossas comunidades reduzidas em número não permitem a emergência de numerosas vocações locais que é necessário encorajar. Por outro lado, a difícil missão dos sacerdotes e dos religiosos obriga-os a deslocarem-se para assistir as diferentes comunidades espalhadas em todo o país. Para superar esta dificuldade concreta e outras, a constituição de uma Comissão bilateral com as vossas Autoridades deve ser alargada para permitir também o desenvolvimento de relações e o conhecimento mútuo entre a República Islâmica do Irão e a Igreja católica.

Gostaria de mencionar outro aspecto do vosso dia-a-dia. Por vezes os cristãos das vossas comunidades procuram alhures possibilidades mais favoráveis para a sua vida profissional e para a educação dos seus filhos. Verifica-se este desejo legítimo nos habitantes de numerosos países, que faz parte da condição humana, a qual procura sempre melhorar. Esta situação estimula-vos, como pastores do vosso rebanho, a ajudar particularmente os fiéis que permanecem no Irão e a encorajá-los a continuar em contacto com os membros das suas famílias que escolheram outro destino. Eles serão também capazes de manter a sua identidade e a sua fé ancestral. O caminho que se abre diante de vós é longo. Ele exige muita constância e paciência. O exemplo de Deus que é misericordioso e paciente com o seu povo será o vosso modelo e ajudar-vos-á a percorrer o espaço necessário para o diálogo.

As vossas Igrejas são herdeiras de uma nobre tradição e de uma longa presença cristã no Irão. Elas contribuíram, cada uma à sua maneira, para a vida e edificação do país. Elas desejam prosseguir a sua obra de serviço no Irão mantendo a sua identidade própria e vivendo livremente a sua fé. Na minha oração, não esqueço o vosso país e as comunidades católicas presentes no seu território e peço a Deus que as abençoe e as assista.

Queridos irmãos no Episcopado, desejo garantir-vos o meu afecto e apoio. Agradeço-vos que, quando regressardes ao Irão, transmitais aos vossos sacerdotes, religiosos e religiosas, assim como a todos os vossos fiéis, que o Papa está próximo deles e que reza por eles. A ternura materna da Virgem Maria vos acompanhe na vossa missão apostólica e que a Mãe de Deus apresente ao seu divino Filho todas as intenções, preocupações e alegrias dos fiéis das vossas diversas comunidades! Invoco sobre todos, neste ano dedicado a São Paulo, o Apóstolo das Nações, uma Bênção particular.

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

NO FINAL DO CONCERTO PELOS OITENTA E CINCO ANOS

DE MONSENHOR GEORG RATZINGER


Capela Sistina

Sábado, 17 de Janeiro de 2009


Estimados Irmãos
no Episcopado e no Sacerdócio
Amado Bispo Gerhard Ludwig
Estimados hóspedes de Regensburg
Estimados Músicos
e queridos "Domspatzen"
Querido Georg
Queridos amigos de língua italiana

Ao ouvir há pouco a Missa em dó menor de Mozart, voltei a pensar em quando, no distante ano de 1941, por iniciativa do meu querido irmão Georg fomos juntos ao festival de Salzburg. Pudemos então assistir a alguns maravilhosos concertos e, entre eles, na Basílica abacial de São Pedro, à execução da Missa em dó menor. Foi um momento inesquecível, diria, um vértice espiritual, daquele nosso passeio cultural. Precisamente por isso foi para nós motivo de particular alegria, por ocasião da fausta data genetlíaca do meu irmão, poder ouvir de novo esta magnífica e profunda composição sacra do grande filho da cidade de Salzburg, Wolfgang Amadeus Mozart. Também em nome do meu irmão, agradeço este maravilhoso dom que nos permitiu reviver momentos de extraordinária intensidade espiritual e artística.

Querido Georg, queridos amigos!

Já transcorreram quase 70 anos desde quando tomaste a iniciativa e fomos juntos a Salzburg, e na maravilhosa igreja abacial de São Pedro assistimos à Missa em dó menor de Mozart. Mesmo se eu na época era ainda um jovem simples, compreendi contigo que tínhamos vivido algo diferente do que um simples concerto: tinha sido música em oração, ofício divino, no qual podemos alcançar algo da magnificência e da beleza do próprio Deus, e ficamos tocados por esse acontecimento. Depois da guerra voltamos outras vezes a Salzburg para ouvir a Missa em dó menor, e é por isso que ela está inscrita profundamente na nossa biografia interior. A tradição quis que Mozart tenha composto esta Missa para desfazer um voto: em agradecimento pelas suas núpcias com Constance Weber. Explicam-se assim também os importantes solo do soprano, nos quais Constance era chamada a dar voz à gratidão e à alegria gratias agimus tibi propter magnam gloriam tuam gratidão pela graça de Deus que tinha recebido. Sob um ponto de vista estreitamente litúrgico poder-se-ia objectar que estes grandes solos se afastassem um pouco da sobriedade da liturgia romana; mas ao contrário podemos também perguntar: Não sentimos porventura neles a voz da esposa, da Igreja, da qual nos acabou de falar Mons. Gerhard Ludwig? Não é precisamente a voz da esposa, que faz ressoar neles a sua alegria por ser amada por Cristo e o seu próprio amor, e assim guia-nos a nós, como Igreja viva, diante de Deus, na sua gratidão e na sua alegria? Mozart colocou na grandeza desta música e desta Missa, que supera qualquer individualismo, o seu agradecimento pessoal. Neste momento, juntamente contigo, querido Georg, agradecemos a Deus, na harmonia desta Missa, os teus 85 anos de vida que Ele te doou. O professor Hommes, na publicação predisposta para este concerto, ressaltou com vigor que a gratidão expressa nesta Missa não é uma gratidão superficial e lançada ali com superficialidade, por um homem do Rococó, mas que nesta Missa encontra expressão também toda a intensidade da sua luta interior, da sua busca de perdão, da misericórdia de Deus e depois, destas profundezas, eleva-se radiante como nunca, a alegria em Deus.

Os 85 anos da tua vida nem sempre foram fáceis. Quando nasceste, tinha acabado de terminar a inflacção e o povo, também os nossos pais, tinham perdido todas as suas poupanças. Depois veio a crise económica mundial, a ditadura nazista, a guerra, a prisão... Depois, com nova esperança e alegria, numa Alemanha destruída e sangrada, iniciámos o nosso caminho. E também ali, não faltaram difíceis paredes íngremes e passagens escuras, mas sentimos sempre a bondade de Deus que te chamou e guiou. Desde o início, muito cedo, manifestou-se em ti esta dúplice vocação: para a música e para o sacerdócio, uma que abraça a outra, e assim foste guiado nos teus passos e percorreste o teu caminho, até quando a Providência te doou o encargo em Regensburg, com os Regensburger Domspatzen, onde pudeste servir sacerdotalmente a música e transmitir ao mundo e à humanidade a alegria pela existência de Deus através da beleza da música e do canto. Também ali tiveste muitos sofrimentos cada prova é uma fadiga, nós podemos intuir isto e sabemo-lo; também outras fadigas... Mas depois, quando o coro ressoava de modo brilhante e levava ao mundo a alegria, a beleza de Deus, tudo voltava a ser grande e belo. Por isto hoje agradecemos o bom Deus, juntamente contigo, pela tua providência, e depois agradecemos a ti, porque empregastes todas as tuas forças, a tua disciplina, a tua alegria, a tua fantasia e a tua criatividade nestes trinta anos com os Regensburger Domspatzen, conduzindo-os sempre de novo para Deus.

Naturalmente, e sobretudo, sentimo-nos também felizes nesta hora, porque este coro que há mais de mil anos ininterruptamente canta o louvor a Deus na catedral de Regensburg, mesmo sendo o coro de Igreja mais antigo do mundo, sempre constituído desta forma, é sempre jovem e cantou-nos com força e beleza jovens o louvor a Deus. A vós, queridos Domspatzen, um cordial "Vergelt's Gott", ao maestro de capela, a todos, de modo particular também à orquestra e aos solistas que nos deram de novo o som original dos tempos de Mozart. Um cordial agradecimento a todos vós!

E dado que a vida humana é sempre incompleta, enquanto estamos a caminho, em cada agradecimento humano há sempre também expectativa, esperança e alegria; e assim rezamos hoje ao bom Deus para que te conceda, querido Georg, ainda bons anos nos quais tu possas continuar a viver a alegria de Deus e a alegria da música, nos quais tu possas ainda servir aos homens como sacerdote. E pedimos-lhe que permita que todos nós, um dia, entremos no concerto celeste, para experimentar definitivamente a alegria de Deus.

Ao renovar também em nome dos hóspedes de língua italiana um fervoroso agradecimento aos promotores e aos realizadores desta agradabilíssima iniciativa, formulo votos de que a maravilhosa música ouvida, no contexto único da Capela Sistina, contribua para aprofundar a nossa relação com Deus; sirva para reavivar no nosso coração a alegria que brota da fé, para que cada um se torne sua testemunha convicta no seu ambiente de vida quotidiana. E naturalmente, um grande obrigado ao Bispo e ao capítulo da catedral e a todos os que contribuíram para a realização deste concerto. Com estes sentimentos concedo a todos com afecto a Bênção Apostólica.

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

EM VIDEOCONFERÊNCIA POR OCASIÃO

DA MISSA DE CONCLUSÃO


DO VI ENCONTRO MUNDIAL DAS FAMÍLIAS


Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe

Cidade do México, 18 de Janeiro de 2009


Amados irmãos e irmãs

1. Saúdo todos vós com afecto, no final desta solene celebração eucarística com que se está a concluir o VI Encontro Mundial das Famílias, na Cidade do México. Dou graças a Deus pelas inúmeras famílias que, sem poupar esforços, se reuniram ao redor do altar do Senhor.

Saúdo de modo especial o Senhor Cardeal Secretário de Estado, Tarcisio Bertone, que presidiu a esta celebração como meu Legado. Quero expressar o meu afecto e a minha gratidão ao Senhor Cardeal Ennio Antonelli, assim como aos membros do Pontifício Conselho para a Família, por ele presidido; ao Senhor Arcebispo Primaz do México, Cardeal Norberto Rivera Carrera; e a Comissão Central que se ocupou da organização deste VI Encontro Mundial. O meu reconhecimento estende-se a todos aqueles que, com a sua abnegada dedicação e entrega, tornaram possível a sua realização. Saúdo também os Senhores Cardeais e Bispos presentes na celebração, de modo particular os membros da Conferência do Episcopado Mexicano e as Autoridades desta querida Nação, que generosamente hospedaram e tornaram possível este importante acontecimento.

Os mexicanos sabem bem que estão muito próximos do coração do Papa. Penso neles e apresento a Deus Pai as suas alegrias e as suas esperanças, os seus projectos e as suas preocupações. No México, o Evangelho arraigou-se profundamente, forjando as suas tradições, a sua cultura e a identidade das suas nobres populações. É necessário cuidar deste rico património, para que continue a ser manancial de energias morais e espirituais, para enfrentar com intrepidez e criatividade os desafios do presente, e oferecê-lo como dádiva preciosa às novas gerações.

Participei com alegria e interesse neste Encontro Mundial, principalmente com a minha oração, dando orientações específicas e acompanhando atentamente a sua preparação e o seu desenvolvimento. Hoje, através dos meios de comunicação, peregrinei espiritualmente até esse Santuário mariano, coração do México e de toda a América, para confiar a Nossa Senhora de Guadalupe todas as famílias do mundo.

2. Este Encontro Mundial das Famílias quis animar os lares cristãos, a fim de que os seus membros sejam pessoas livres e ricas de valores humanos e evangélicos, a caminho da santidade, que é o melhor serviço que nós cristãos podemos oferecer à sociedade actual. A resposta cristã diante dos desafios, que a família e a vida humana em geral devem enfrentar, consiste em refortalecer a confiança no Senhor e o vigor que brota da própria fé, que se alimenta da escuta atenta da Palavra de Deus. Como é bonito reunir-se em família, para permitir que Deus fale ao coração dos seus membros através da sua Palavra viva e eficaz! Na oração, de forma especial mediante a recitação do Rosário como se fez ontem, a família contempla os mistérios da vida de Jesus, interioriza os valores que medita e sente-se chamada a encarná-los na sua vida.

3. A família é um fundamento indispensável para a sociedade e os povos, assim como um bem insubstituível para os filhos, dignos de vir à vida como fruto do amor, da entrega total e generosa dos pais. Como pôs em evidência Jesus, honrando a Virgem Maria e São José, a família ocupa um lugar primário na educação da pessoa. É uma verdadeira escola de humanidade e de valores perenes. Ninguém se deu a vida a si mesmo. Recebemos de outros a vida, que se desenvolve e amadurece com as verdades e os valores que aprendemos no relacionamento e na comunhão com os demais. Neste sentido, a família fundada no matrimónio indissolúvel entre um homem a uma mulher expressa esta dimensão de relacionamento, filial e comunitária, e é o âmbito onde o homem pode nascer com dignidade, crescer e desenvolver-se de maneira integral (cf. Homilia na Santa Missa por ocasião do V Encontro Mundial das Famílias, Valença, 9 de Julho de 2006).

No entanto, esta obra educativa é dificultada por um conceito errado de liberdade, em que o capricho e os impulsos subjectivos do indivíduo são exaltados a ponto de deixar cada um encerrado na prisão do próprio ego. A verdadeira liberdade do ser humano provém do facto de ter sido criado à imagem e semelhança de Deus, e por isso deve ser exercida com responsabilidade, optando sempre pelo bem verdadeiro, a fim de que se transforme em amor, em dom de si mesmo. Para isto, mais do que teorias são precisos a proximidade e o amor característicos da comunidade familiar. É no lar que se aprende a viver verdadeiramente, a valorizar a vida e a saúde, a liberdade e a paz, a justiça e a verdade, o trabalho, a concórdia e o respeito.

4. Hoje mais do que nunca são necessários o testemunho e o compromisso público de todos os baptizados, para reafirmar a dignidade e o valor único e insubstituível da família fundada no matrimónio de um homem com uma mulher e aberto à vida, assim como da vida humana em todas as suas etapas. Devem-se promover também medidas legislativas e administrativas que ajudem as famílias nos seus direitos inalienáveis, necessários para dar continuidade à sua missão extraordinária. Os testemunhos apresentados na celebração de ontem mostram que também hoje a família pode manter-se firme no amor de Deus e renovar a humanidade no novo milénio.

5. Desejo manifestar a minha proximidade e assegurar a minha oração por todas as famílias que dão testemunho de fidelidade em circunstâncias particularmente árduas. Encorajo as famílias numerosas que, vivendo às vezes no meio de contrariedades e incompreensões, dão um exemplo de generosidade e confiança em Deus, desejando que não lhes faltem as ajudas necessárias. Penso inclusive nas famílias que sofrem por causa da pobreza, da enfermidade, da marginalização ou da emigração. E de maneira muito especial nas famílias cristãs que são perseguidas por causa da sua fé. O Papa está muito próximo de todos vós e acompanha-vos no vosso esforço de cada dia.

6. Antes de concluir este encontro, apraz-me anunciar que o VII Encontro Mundial das Famílias terá lugar, se Deus quiser, na Itália, na cidade de Milão, no ano de 2012, sobre o tema: "A família, o trabalho e a festa". Agradeço sinceramente ao Senhor Cardeal Dionigi Tettamanzi, Arcebispo de Milão, a amabilidade com que aceitou este importante compromisso.

7. Confio todas as famílias do mundo à protecção da Santíssima Virgem, tão venerada na nobre terra mexicana, sob a denominação de Guadalupe. A Ela, que nos recorda sempre que a nossa felicidade consiste em cumprir a vontade de Cristo (cf. Jn 2,5), digo-lhe agora:

Santíssima Mãe de Guadalupe,
que manifestaste o teu amor e a tua ternura
aos povos do continente americano,
enche de alegria e de esperança todos os povos
e todas as famílias do mundo.

A ti, que precedes e orientas o nosso caminho de fé
para a pátria eterna,
confiamos as alegrias, os projectos,
as preocupações e os anseios de todas as famílias.

Ó Maria,
a ti recorremos, confiando na tua ternura de Mãe.
Não desatendas as súplicas que te dirigimos
por todas as famílias do mundo,
neste período crucial da história,
aliás, acolhe todos nós no teu Coração de Mãe
e acompanha-nos no nosso caminho para a pátria celestial.

Amém!

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

AOS MEMBROS DE UMA DELEGAÇÃO ECUMÉNICA

PROVENIENTE DA FINLÂNDIA


Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009




Prezados e ilustres amigos
da Finlândia

É com grande alegria que dou as boas-vindas a todos vós nesta visita anual a Roma para a festa do vosso Padroeiro, Santo Henrique, e agradeço ao Bispo Gustav Björkstrand as amáveis palavras que me dirigiu em vosso nome.

Estas peregrinações constituem uma ocasião para oração, reflexão e diálogo comuns, ao serviço da nossa busca da plena comunhão. A vossa visita realiza-se durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, cujo tema do corrente ano foi tirada do livro de Ezequiel: "Para que eles possam tornar-se um só nas vossas mãos" (Ez 37,15-23). A visão do profeta é a dos dois fragmentos de madeira, simbolizando os dois reinos em que o povo de Deus foi dividido, para depois ser novamente reunido num só povo (cf. Ez 37,15-23). No contexto do ecumenismo, ela fala-nos de Deus, que nos leva constantemente a uma unidade mais profunda em Cristo, renovando-nos e libertando-nos das nossas divisões.

A Comissão para o Diálogo Luterano-Católico na Finlândia e na Suécia continua a ter em consideração a Declaração Conjunta sobre a Justificação. Neste ano celebramos o décimo aniversário desta significativa Declaração, e actualmente a Comissão está a estudar as suas implicações e a possibilidade da sua recepção. Sob o tema: A Justificação na Vida da Igreja, o diálogo está a ter em consideração cada vez mais plena a natureza da Igreja como sinal e instrumento da salvação realizada em Jesus Cristo, e não simplesmente como uma mera assembleia de fiéis ou como uma instituição dotada de várias funções.

A vossa peregrinação a Roma tem lugar no contexto do Ano Paulino, no segundo milénio do nascimento do Apóstolo das Nações, cuja vida e ensinamento estiveram incansavelmente comprometidos em vista da unidade da Igreja. São Paulo recorda-nos a maravilhosa graça que nós recebemos, tornando-nos membros do Corpo de Cristo através do Baptismo (cf. 1Co 12,12-31). A Igreja é o Corpo Místico de Cristo, e é orientada continuamente pelo Espírito Santo, o Espírito do Pai e do Filho. É unicamente fundamentada nesta realidade da encarnação, que a índole sacramental da Igreja, como comunhão em Cristo, pode ser compreendida. Um consenso a propósito das implicações do mistério da Igreja, profundamente cristológicas e pneumatológicas, manifestar-se-ia como o alicerce mais promissor para a obra da Comissão.

Com Paulo aprendemos também que a unidade da qual estamos à procura é nada menos do que a manifestação da nossa plena incorporação no Corpo de Cristo, pois "todos vós que fostes baptizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo... porque todos vós sois um só em Cristo Jesus" (Ga 3,27-28). Estimados amigos, tendo em vista esta finalidade, a minha ardente esperança é por que a vossa visita a Roma revigore ulteriormente as relações ecuménicas entre os luteranos e os católicos na Finlândia, que têm sido tão positivas há muitos anos. Juntos, demos graças a Deus por tudo o que foi alcançado até à presente data nas relações luterano-católicas, e oremos para que o Espírito da verdade nos oriente rumo a uma unidade cada vez maior, ao serviço do Evangelho.

Com tais sentimentos de afecto no Senhor, e no início deste novo ano, invoco sobre vós e as vossas famílias as dádivas divinas da alegria e da paz.

DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

AO NOVO PATRIARCA DE ANTIOQUIA DOS SÍRIOS,

IGNACE YOUSSIF III YOUNAN


Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009




Eminência
Beatitudes
Queridos Irmãos no Episcopado!

É com alegria que vos recebo e dou a cada um de vós as calorosas boas-vindas, dando graças a Nosso Senhor Jesus Cristo no final do Sínodo da Igreja de Antioquia dos Sírios que elegeu o seu novo Patriarca.

A minha saudação fraterna dirige-se antes de tudo ao Patriarca Ignace Youssif III Younan, que acaba de ser eleito, invocando sobre ele a abundância das bênçãos divinas. Que o Senhor conceda a Vossa Beatitude "a graça do apostolado" para poder servir a Igreja e glorificar o Seu Santo Nome no mundo.

Saúdo Sua Eminência o Senhor Cardeal Leonardo Sandri, Prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, ao qual confiei a presidência do vosso Sínodo, agradecendo-lhe sentidamente.

Saúdo de igual modo Sua Beatitude, o Cardeal Ignace Moussa Daoud, Prefeito Emérito da Congregação para as Igrejas Orientais, e Sua Beatitude Ignace Pierre Abdel Ahad, Patriarca Emérito, assim como todos vós, que viestes a Roma para realizar o acto mais eminente da responsabilidade sinodal.

Desde as origens do cristianismo, os Apóstolos Pedro e Paulo estavam intimamente ligados a Antioquia, onde pela primeira vez os discípulos de Jesus receberam o nome de cristãos (cf. Ac 11,26). Não podemos esquecer os vossos ilustres Pais na fé. Em primeiro lugar Santo Inácio, Bispo de Antioquia, do qual, por tradição, os Patriarcas sírio-antioquenos tomam o nome no momento em que aceitam o cargo patriarcal; e Santo Efrém, comummente chamado o Sírio, cuja luz espiritual continua a iluminar vivamente a Igreja universal. Com eles, outros grandes santos, filhos e pastores da vossa Igreja, ilustraram admiravelmente o mistério da salvação várias vezes, mediante a eloquência sublime do martírio.

Desta herança, o novo Patriarca é o primeiro guarda; contudo, cada um deverá, como irmão e membro do Sínodo, contribuir ele também para esta tarefa num espírito de autêntica colegialidade episcopal. Confio ao novo Patriarca e ao Episcopado sírio-católico, primeiro e antes de tudo, a tarefa da unidade entre os pastores e no seio das comunidades eclesiais.

Beatitude!

Nesta feliz circunstância, pedistes, em conformidade com os cânones sagrados, a ecclesiastica communio, que vos concedi de bom grado, cumprindo um aspecto do serviço petrino que me é particularmente querido. A comunhão com o Bispo de Roma, sucessor do bem-aventurado Apóstolo Pedro, estabelecido pelo Senhor como fundamento visível da unidade na fé e na caridade, é a garantia do vínculo com Cristo Pastor e insere as Igrejas particulares no mistério da Igreja una, santa, católica e apostólica.

Vossa Beatitude nasceu e cresceu na Síria e conhece bem o Médio Oriente, berço da Igreja Sírio-Católica. Contudo, desempenhastes o vosso serviço episcopal na América como primeiro Bispo da Eparquia "Our Lady of Deliverance in Newark" para os fiéis sírios residentes nos Estados Unidos e no Canadá, assumindo assim o cargo de Visitador apostólico na América Central. A diáspora oriental contribuiu portanto para oferecer à Igreja síria o seu novo Patriarca. Assim, os vínculos tornar-se-ão ainda mais estreitos com a Mãe-pátria, que tantos orientais tiveram que deixar para procurar melhores condições de vida. O meu desejo é que no Oriente, de onde veio o anúncio do Evangelho, as comunidades cristãs continuem a viver e a testemunhar a sua fé, como fizeram no decorrer dos séculos, desejando ao mesmo tempo que sejam dispensadas as curas pastorais adequadas a quantos se estabeleceram noutras partes, a fim de que possam permanecer ligados de modo frutuoso com as suas raízes religiosas. Peço a ajuda do Senhor para cada comunidade oriental a fim de que, onde quer que ela se encontre, saiba integrar-se no seu novo contexto social e eclesial, sem perder a sua identidade própria e levando as características da espiritualidade oriental, de modo que utilizando "as palavras do Oriente e do Ocidente" a Igreja fale eficazmente de Cristo ao homem contemporâneo. Deste modo, os cristãos enfrentarão os desafios mais urgentes da humanidade, construirão a paz e a solidariedade universais e testemunharão a "grande esperança" da qual são os portadores incansáveis.

Formulo votos fervorosos e jubilosos para Vossa Beatitude e para a Igreja Sírio-Católica.

Peço ao Príncipe da Paz que o ampare como "Caput et Pastor", assim como a todos os seus irmãos e filhos, a fim de que sejam semeadores de paz antes de mais na Terra Santa, no Iraque e no Líbano, onde a Igreja síria tem uma presença histórica tão apreciada.

Ao confiar-vos à Santíssima Mãe de Deus, concedo de todo o coração ao novo Patriarca e a cada um de vós, assim como às comunidades que representais, a Bênção Apostólica.





Bento XVI Discursos 2009