
Bento XVI Homilias 152
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Basílica Vaticana
Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2010
(Vídeo)
Senhores Cardeais
Venerados Irmãos
no Episcopado
Caros irmãos e irmãs
Nas descrições sintéticas da vida pública de Jesus, breve mas intensa, os Evangelhos atestam que Ele anuncia a Palavra e realiza curas de doentes, sinal por excelência da proximidade do Reino de Deus. Por exemplo, Mateus escreve: "Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas suas sinagogas, anunciando o Evangelho do Reino e curando toda a espécie de doença e de enfermidade no povo" (Mt 4,23 cf. Mt 9,35). A Igreja, à qual é confiada a tarefa de prolongar no espaço e no tempo a missão de Cristo, não pode desatender estas duas obras essenciais: evangelização e cura dos doentes no corpo e no espírito. Com efeito, Deus quer curar o homem todo, e no Evangelho a cura do corpo é sinal da purificação mais profunda, que é a remissão dos pecados (cf. Mc 2,1-12). Portanto, não admira que Maria, Mãe e modelo da Igreja, seja evocada e venerada como "Salus infirmorum", "Saúde dos enfermos". Como primeira e perfeita discípula do seu Filho, Ela demonstrou sempre, acompanhando o caminho da Igreja, uma solicitude especial para com os sofredores. Dão testemunho disto as milhares de pessoas que acorrem aos santuários marianos para invocar a Mãe de Cristo e encontram nela força e alívio. A narração evangélica da Visitação (cf. Lc 1,39-56) mostra-nos como a Virgem, depois do anúncio do Anjo, não conservou para si o dom recebido, mas partiu imediatamente para ir ajudar a idosa prima Isabel, que havia seis meses trazia João no seu ventre. No apoio oferecido por Maria a esta parente que vive, em idade avançada, uma situação delicada como a gravidez, vemos prefigurada toda a acção da Igreja a favor da vida que tem necessidade de cuidado.
O Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde, instituído há vinte e cinco anos pelo Venerável Papa João Paulo II, é sem dúvida uma expressão privilegiada de tal solicitude. O pensamento vai com reconhecimento ao Cardeal Fiorenzo Angelini, primeiro Presidente do Dicastério e desde sempre apaixonado animador deste âmbito de actividade eclesial; assim como ao Cardeal Javier Lozano Barragán, que até há poucos meses deu continuidade e incrementou este serviço. Além disso, é com profunda cordialidade que dirijo ao actual Presidente, D. Zygmunt Zimowski, que assumiu esta herança significativa e importante, a minha saudação que faço extensiva a todos os oficiais e aos funcionários que neste quarto de século colaboraram louvavelmente neste gabinete da Santa Sé. Depois, desejo saudar as associações e os organismos responsáveis pela organização do Dia do Doente, de modo particular a unitalsi e a Obra Romana de Peregrinações. Naturalmente, dirijo cordiais boas-vindas a vós, queridos doentes! Obrigado por terdes vindo e sobretudo pela vossa oração, enriquecida pela oblação das vossas dificuldades e sofrimentos. E dirijo uma saudação também aos enfermos e aos voluntários unidos a nós de Lourdes, Fátima, Czestochowa e dos outros Santuários marianos, a quantos nos acompanham através da rádio e da televisão, de modo especial das casas de cura ou das suas próprias habitações. O Senhor Deus, que vigia constantemente sobre os seus filhos, conceda alívio e consolação a cada um.
São dois os tempos principais que a hodierna liturgia da Palavra nos apresenta: o primeiro é de índole mariana e liga o Evangelho à primeira leitura, tirada do capítulo final do Livro de Isaías, assim como ao Salmo responsorial, extraído do cântico de louvor a Judite. O outro tema, que encontramos no trecho da Carta de Tiago, é o da oração da Igreja pelos enfermos e, de forma particular, do sacramento que lhes é reservado. Na memória das aparições de Lourdes, lugar escolhido previamente por Maria para manifestar a sua solicitude maternal pelos enfermos, a liturgia faz ressoar oportunamente o Magnificat, o cântico da Virgem que exalta as grandes obras de Deus na história da salvação: os humildes e os indigentes, assim como todos aqueles que temem a Deus, experimentam a sua misericórdia, que altera o destino terreno e deste modo desmonstra a santidade do Criador e Redentor. O Magnificat não é o cântico daqueles aos quais a sorte sorri, que têm sempre "o vento em popa"; é acima de tudo a acção de graças de quem conhece os dramas da vida, mas confia na obra redentora de Deus. É um cântico que exprime a fé provada de gerações de homens e mulheres, que depuseram em Deus a sua esperança empenhando-se pessoalmente, como Maria, para ser úteis aos irmãos em necessidade. No Magnificat, ouvimos a voz de muitos Santos e Santas da caridade; penso em particular naqueles que despenderam a própria vida no meio dos doentes e dos sofredores, como Camilo de Lellis e João de Deus, Damião de Veuster e Bento Menni. Quem permanece por muito tempo próximo das pessoas que sofrem, conhece a angústia e as lágrimas, mas também o milagre da alegria, fruto do amor.
A maternidade da Igreja é reflexo do amor atencioso de Deus, de que fala o profeta Isaías: "Como uma mãe consola um filho / assim eu vos consolo / e em Jerusalém sereis consolados" (Is 66,13). Uma maternidade que fala sem palavras, que suscita nos corações a consolação, uma alegria íntima, uma alegria que paradoxalmente convive com a dor, com o sofrimento. Como Maria, a Igreja conserva dentro de si mesma os dramas do homem e a consolação de Deus, mantendo-os unidos ao longo da peregrinação da história. Durante os séculos, a Igreja manifesta os sinais do amor de Deus, que continua a realizar grandes obras nas pessoas humildes e simples. O sofrimento aceite e oferecido, a partilha sincera e gratuita, não são porventura milagres do amor? Não é porventura a coragem de enfrentar desarmados o mal – como Judite – só com a força da fé e da esperança no Senhor, um milagre que a graça de Deus suscita continuamente em muitas pessoas que dedicam tempo e energias para ajudar aqueles que sofrem? Por tudo isto, nós vivemos uma alegria que não esquece o sofrimento mas, ao contrário, o abrange. Deste modo, os doentes e todos os sofredores são na Igreja não só destinatários de atenção e de cuidados, mas antes de tudo e sobretudo protagonistas da peregrinação da fé e da esperança, testemunhas dos prodígios do amor, da alegria pascal que floresce da Cruz e da Ressurreição de Cristo.
No trecho da Carta de Tiago, que há pouco foi proclamado, o Apóstolo convida a esperar com constância a vinda já próxima do Senhor e, neste contexto, dirige uma exortação particular relativa aos doentes. Esta inserção é muito interessante, porque reflecte a acção de Jesus que, curando os enfermos, demonstrava a proximidade do Reino de Deus. A doença é vista na perspectiva dos últimos tempos, com o realismo da esperança tipicamente cristã. "Quem de vós estiver na dor, reze; quem estiver na alegria, entoe hinos de louvor" (Jc 5,13). Parece que podemos ouvir palavras semelhantes de São Paulo, quando convida a viver todas as coisas em relação à novidade radical de Cristo, à sua morte e ressurreição (cf. 1Co 7,29-31). "Quem está doente, chama para junto de si os presbíteros da Igreja e eles rezem sobre ele, ungindo-o com o óleo em nome do Senhor. E a oração feita com fé salvará o mundo" (Jc 5,14-15). Aqui, é evidente o prolongamento de Cristo na sua Igreja: é novamente Ele que age, mediante os presbíteros; é o seu próprio Espírito que age, mediante o sinal sacramental do óleo; é a Ele que se dirige a fé, expressa na oração; e, como acontecia com as pessoas curadas por Jesus, a cada doente é possível dizer: a tua fé, sustentada pela fé dos irmãos e das irmãs, salvou-te.
Deste texto, que contém o fundamento e a prática do sacramento da Unção dos enfermos, obtém-se ao mesmo tempo uma visão do papel dos doentes na Igreja. Um papel concreto na "provocação", por assim dizer, da oração feita com fé. "Quem estiver doente, chame os presbíteros". Neste Ano sacerdotal, apraz-me ressaltar o vínculo entre os doentes e os sacerdotes, uma espécie de aliança, de "cumplicidade" evangélica. Ambos têm uma tarefa: o enfermo deve "chamar" os presbíteros, e estes devem responder, para atrair sobre a experiência da doença a presença e a acção do Ressuscitado e do seu Espírito. E aqui podemos ver toda a importância da pastoral dos enfermos, cujo valor é verdadeiramente incalculável, pelo bem imenso que faz em primeiro lugar ao doente e ao próprio sacerdote, mas inclusive aos familiares, aos conhecidos, à comunidade e, através de percursos desconhecidos e misteriosos, a toda a Igreja e ao mundo. Com efeito, quando a Palavra de Deus fala de cura, de salvação, de saúde do enfermo, entende estes conceitos em sentido integral, sem jamais separar a alma do corpo: um doente curado pela oração de Cristo, mediante a Igreja, constitui uma alegria na terra e no céu, é primícias de vida eterna.
Prezados amigos, como escrevi na Encíclica Spe salvi, "a grandeza da humanidade determina-se essencialmente na relação com o sofrimento e com quem sofre. Isto vale tanto para o indivíduo como para a sociedade" (n. ). Ao instituir um Pontifício Conselho dedicado à pastoral da saúde, a Santa Sé quis oferecer a própria contribuição também para promover um mundo mais capaz de acolher e curar os doentes como pessoas. Com efeito, desejou ajudá-los a viver a experiência da enfermidade de modo humano, sem a renegar, mas conferindo-lhe um sentido. Gostaria de concluir estas reflexões com um pensamento do Venerável Papa João Paulo II, que ele testemunhou com a sua própria vida. Na Carta Apostólica Salvifici doloris, ele escreveu: "Cristo ensinou ao homem, ao mesmo tempo, a fazer o bem com o sofrimento e a fazer o bem a quem sofre. Neste dúplice aspecto, Ele revelou até ao fundo o sentido do sofrimento" (n. 30). Que a Virgem Maria nos ajude a viver plenamente esta missão.
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Festa da Conversão de São Paulo Apóstolo
Basílica de São Paulo fora dos Muros
Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010
(Vídeo)
Queridos irmãos e irmãs!
Reunidos em fraterna assembleia litúrgica, na festa da conversão do apóstolo Paulo, concluímos hoje a anual Semana de oração pela unidade dos cristãos. Gostaria de saudar todos vós com afecto e, em particular, o Cardeal Walter Kasper, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, e o Arcipreste desta Basílica, D. Francesco Monterisi, com o Abade e com a Comunidade dos monges, que nos hospedam. Dirijo de igual modo o meu cordial pensamento aos Senhores Cardeais presentes, aos Bispos e a todos os representantes das Igrejas e das Comunidades eclesiais da Cidade, aqui reunidos.
Não passaram muitos meses desde quando se concluiu o Ano dedicado a São Paulo, que nos ofereceu a possibilidade de aprofundar a sua extraordinária obra de pregador do Evangelho e, como nos recordou o tema da Semana de oração pela unidade dos cristãos – "Disto vós sois testemunhas" (Lc 24,48) – a nossa chamada a ser missionários do Evangelho. Paulo, mesmo guardando uma memória viva e intensa do próprio passado de perseguidor dos cristãos, não hesita em chamar-se Apóstolo. O fundamento deste título, é para ele o encontro com o Ressuscitado no caminho de Damasco, que se torna também o início de uma incansável actividade missionária, na qual empregara toda a sua energia para anunciar a todas as nações aquele Cristo que tinha encontrado pessoalmente. Assim Paulo, de perseguidor da Igreja, tornar-se-á ele mesmo vítima de perseguição por causa do Evangelho do qual dava testemunho: "Cinco vezes recebi dos judeus os quarenta açoites menos um; três vezes fui açoitado com varas, uma vez apedrejado... Viagens sem conta, exposto a perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte dos meus concidadãos, perigos dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos entre os falsos irmãos. Trabalhos e fadigas, repetidas vigílias, com fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez! E, além de tudo isto, a minha obsessão de cada dia: cuidado de todas as Igrejas" (2Co 11,24-25 2Co 11,26-28). O testemunho de Paulo alcançará o ápice no seu martírio quando, precisamente perto deste lugar, dará provas da sua fé em Cristo que vence a morte.
A dinâmica presente na experiência de Paulo é a mesma que encontramos na página do Evangelho que acabámos de ouvir. Os discípulos de Emaús, depois de terem reconhecido o Senhor ressuscitado, voltam para Jerusalém e encontram os Onze reunidos juntamente com os outros. Cristo ressuscitado aparece-lhes, conforta-os, vence o seu temor, e as suas dúvidas, senta-se com eles à mesa e abre o seu coração à inteligência das Escrituras, recordando quanto devia acontecer e que constituirá o núcleo central do anúncio cristão. Jesus afirma: "Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos ao terceiro dia, que havia de ser pregado, em Seu nome, o arrependimento e a remissão dos pecados de todas as nações, começando por Jerusalém" (Lc 24,46-47). Estes são os acontecimentos dos quais darão testemunho antes de tudo os discípulos da primeira hora e, em seguida, os crentes em Cristo de todos os tempos e lugares. Por isso, é importante ressaltar que este testemunho, então como hoje, nasce do encontro com o Ressuscitado, alimenta-se da relação constante com Ele, é animada do amor profundo para com Ele. Só quem fez experiência de sentir Cristo presente e vivo – "Vede as Minhas mãos e os Meus pés; sou Eu mesmo" (Lc 24,39) – de sentar-se à mesa com Ele, ouvi-lo para que faça arder o coração, pode ser Sua testemunha! Por isso, Jesus promete aos discípulos e a cada um de nós uma assistência poderosa do alto, uma nova presença, a do Espírito Santo, dom de Cristo ressuscitado, que nos guia para a verdade total: "E eu vou mandar sobre vós O que Meu Pai prometeu" (Lc 24,49). Os Onze empregarão toda a sua vida no anúncio da boa nova da morte e ressurreição do Senhor e quase todos selarão o seu testemunho com o sangue do martírio, semente fecunda que produziu uma colheita abundante.
A escolha do tema da Semana de oração pela unidade dos cristãos deste ano, ou seja, o convite a dar um testemunho comum de Cristo ressuscitado segundo o mandamento que Ele confiou aos discípulos, está relacionada com a recordação do centésimo aniversário da Conferência missionária de Edimburgo na Escócia, que é considerado por muitos como um acontecimento determinante para o nascimento do movimento ecuménico moderno. No Verão de 1910, na capital escocesa encontraram-se mais de mil missionários, pertencentes a diversos ramos do Pentecostalismo e do Anglicanismo, aos quais se uniu um hóspede ortodoxo, para reflectir juntos sobre a necessidade de alcançar a unidade para anunciar credivelmente o Evangelho de Jesus Cristo. De facto, é precisamente o desejo de anunciar Cristo aos outros e de levar ao mundo a sua mensagem de reconciliação que faz experimentar a contradição da divisão dos cristãos. De facto, como poderão os incrédulos acolher o anúncio do Evangelho se os cristãos, mesmo se todos se referem ao mesmo Cristo, estão em desacordo entre eles? De resto, como sabemos, o próprio Mestre, no final da Última Ceia, tinha rezado ao Pai pelos seus discípulos: "Para que todos sejam um só... para que o mundo creia" (Jn 17,21). A comunhão e a unidade dos discípulos de Cristo é, por conseguinte, condição particularmente importante para uma maior credibilidade e eficácia do seu testemunho.
Um século após o acontecimento de Edimburgo, a intuição destes corajosos precursores ainda é muito actual. Num mundo marcado pela indiferença religiosa, e até por uma crescente aversão em relação à fé cristã, é necessária uma nova e intensa actividade de evangelização, não só entre os povos que nunca conheceram o Evangelho, mas também entre os quais o Cristianismo se difundiu e faz parte da sua história. Não faltam, infelizmente, questões que nos separam uns dos outros e que desejamos possam ser superadas através da oração e do diálogo, mas há um conteúdo central da mensagem de Cristo que podemos anunciar juntos: a paternidade de Deus, a vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a morte com a sua cruz e ressurreição, a confiança na acção transformadora do Espírito. Enquanto estamos a caminho rumo à plena comunhão, somos chamados a oferecer um testemunho comum face aos desafios cada vez mais complexos do nosso tempo, como a secularização e a indiferença, o relativismo e o hedonismo, os delicados temas éticos relativos ao princípio e ao fim da vida, os limites da ciência e da tecnologia, o diálogo com as outras tradições religiosas. Existem depois ulteriores âmbitos nos quais devemos desde já dar um testemunho comum: a salvaguarda da Criação, a promoção do bem comum e da paz, a defesa da centralidade da pessoa humana, o compromisso para pôr fim às misérias do nosso tempo, como a fome, a indigência, o analfabetismo, a desigualdade na distribuição dos bens.
O compromisso pela unidade dos cristãos não é tarefa só de alguns, nem actividade acessória para a vida da Igreja. Todos são chamados a contribuir para dar aqueles passos que conduzam rumo à comunhão plena entre todos os discípulos de Cristo, sem jamais esquecer que ela é antes de tudo dom de Deus que deve ser invocado constantemente. De facto, a força que promove a unidade e a missão brota do encontro fecundo e apaixonante com o Ressuscitado, como aconteceu com São Paulo no caminho de Damasco e com os Onze e os outros discípulos reunidos em Jerusalém. A Virgem Maria, Mãe da Igreja, faça com que se possa realizar quanto antes o desejo do Seu Filho: "Para que todos sejam um só... para que o mundo creia" (Jn 17,21).
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Basília de Santa Sabina
Quarta-feira de Cinzas, 17 de Fevereiro de 2010
"Tendes compaixão de todos, Senhor...
Não aborreceis nada do que fizestes...
não olhais para os pecados dos homens a fim de os trazer à penitência...
Mas perdoais a todos, porque todos são vossos,
ó Senhor nosso Deus" (Antífona da entrada).
Venerados Irmãos no Episcopado
Queridos irmãos e irmãs
Com esta comovedora invocação, tirada do Livro da Sabedoria (cf. Sg 11,23-26), a liturgia introduz a celebração eucarística da Quarta-Feira de Cinzas. São palavras que, de certa forma, abrem todo o itinerário quaresmal, pondo como seu fundamento a omnipotência do amor de Deus, o seu absoluto senhorio sobre todas as criaturas, que se traduz em indulgência infinita, animada por constante e universal vontade de vida. De facto, perdoar alguém equivale a dizer-lhe: não quero que tu morras, mas que vivas; desejo sempre e só o teu bem.
Esta certeza absoluta apoiou Jesus durante os quarenta dias transcorridos no deserto da Judeia, depois do baptismo recebido de João no Jordão. Aquele longo tempo de silêncio e de jejum foi para Ele um abandonar-se completamente ao Pai e ao seu desígnio de amor; foi ele mesmo um "baptismo", isto é, uma "imersão" na sua vontade, e neste sentido uma antecipação da Paixão e da Cruz. Adentrar-se no deserto e permanecer nele por muito tempo, sozinho, significava expor-se voluntariamente aos assaltos do inimigo, o tentador que fez cair Adão e por cuja inveja a morte entrou no mundo (cf. Sg 2,24); significava travar com ele a batalha em campo aberto, desafiá-lo sem outras armas a não ser a confiança ilimitada no amor omnipotente do Pai. Basta-me o teu amor, alimento-me com a tua vontade (cf. Jn 4,34): esta convicção habitava na mente e no coração de Jesus durante aquela sua "quaresma". Não foi um acto de orgulho, um empreendimento titânico, mas uma escolha de humildade, coerente com a Encarnação e com o baptismo no Jordão, em continuidade com a obediência ao amor misericordioso do Pai, que "amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu Filho único" (Jn 3,16).
O Senhor Jesus fez tudo isto por nós. Fê-lo para nos salvar, e ao mesmo tempo para nos mostrar o caminho para o seguir. De facto, a salvação é dom, é graça de Deus, mas para fazer efeito na minha existência exige o meu consentimento, um acolhimento demonstrado nos factos, ou seja, na vontade de viver como Jesus, de caminhar atrás d'Ele. Seguir Jesus no deserto quaresmal é por conseguinte condição necessária para participar na sua Páscoa, no seu "êxodo". Adão foi afastado do Paraíso terrestre, símbolo da comunhão com Deus; agora, para voltar a esta comunhão e portanto à verdadeira vida, a vida eterna, é preciso atravessar o deserto, a prova da fé. Não sozinhos, mas com Jesus! Ele – como sempre – precedeu-nos e já venceu o combate contra o espírito do mal. Eis o sentido da Quaresma, tempo litúrgico que todos os anos nos convida a renovar a opção de seguir Cristo pelo caminho da humildade para participar na sua vitória sobreo pecado e sobre a morte.
Nesta perspectiva, compreende-se também o sinal penitencial das Cinzas, que são impostas sobre a cabeça de quantos iniciam com boa vontade o itinerário quaresmal. Essencialmente é um gesto de humildade, que significa: reconheço-me por aquilo que sou, uma criatura frágil, feita de terra e destinada à terra, mas também feita à imagem de Deus e destinada a Ele. Pó, sim, mas amado, plasmado pelo seu amor, animado pelo seu sopro vital, capaz de reconhecer a sua voz e de lhe responder; livre e, por isto, também capaz de lhe desobedecer, cedendo à tentação do orgulho e da auto-suficiência. Eis o pecado, doença mortal que muito depressa começou a poluir a terra abençoada que é o ser humano. Criado à imagem do Santo e do Justo, o homem perdeu a própria inocência e agora só pode voltar a ser justo graças à justiça de Deus, a justiça do amor que – como escreve São Paulo – "se manifesta por meio da fé em Cristo" (Rm 3,22). Inspirei-me nestas palavras do Apóstolo para a minha Mensagem, dirigida a todos os fiéis por ocasião desta Quaresma: uma reflexão sobre o tema da justiça à luz das Sagradas Escrituras e do seu cumprimento em Cristo.
Também nas leituras bíblicas da Quarta-Feira de Cinzas está muito presente o tema da justiça. Em primeiro lugar, a página do profeta Joel e o Salmo responsorial – o Miserere – formam um díptico penitencial, que evidencia como na origem de cada injustiça material e social existe aquilo que a Bíblia denomina "iniquidade", ou seja o pecado, que consiste fundamentalmente numa desobediência a Deus, quer dizer, numa falta de amor. "Reconheço – confessa o Salmista – de verdade as minhas culpas / o meu pecado está sempre diante de mim. / Contra Vós apenas é que eu pequei / pratiquei o mal perante os vossos olhos" (Ps 50,5-6 [51] 5-6). Portanto, o primeiro acto de justiça consiste em reconhecer a própria iniquidade e admitir que ela está arraigada no "coração", no próprio cerne da pessoa humana. Os "jejuns", os "prantos" e as "lamentações" (cf. Jl 2,12) e cada expressão penitencial tem valor aos olhos de Deus, só se for sinal de corações sinceramente arrependidos. Também o Evangelho, tirado do "sermão da montanha", insiste sobre a exigência de praticar a própria "justiça" – esmola, oração e jejum – não diante dos homens, mas unicamente aos olhos de Deus, que "vê o segredo" (cf. Mt 6,1-6 Mt 6,16-18). A verdadeira "recompensa" não é a admiração dos outros, mas a amizade com Deus e a graça que dela deriva, uma graça que confere paz e força de realizar o bem, de amar até quem não merece, de perdoar quem nos ofendeu.
A segunda leitura, o apelo de Paulo a deixar-se reconciliar com Deus (cf. 2Co 5,20), contém um dos célebres paradoxos paulinos, que remete toda a reflexão sobre a justiça ao mistério de Cristo. São Paulo escreve: "Aquele que não havia conhecido o pecado – ou seja, o seu Filho que se fez homem – Deus O fez pecado por nós, para que nele nos tornássemos justiça de Deus" (2Co 5,21). No Coração de Cristo, isto é, no âmago da sua Pessoa divino-humana, desenrolou-se de maneira decisiva e definitiva todo o drama da liberdade. Deus levou às extremas consequências o seu desígnio de salvação, permanecendo fiel ao seu amor, mesmo à custa de entregar o seu Filho unigénito à morte, e morte de Cruz. Como escrevi na Mensagem quaresmal, "é aqui que se descerra a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana... Graças à acção de Cristo, podemos entrar na justiça "maior", que é a do amor (cf. Rm 13,8-10)".
Estimados irmãos e irmãs, a Quaresma amplia o nosso horizonte, orienta-nos para a vida eterna. Estamos em peregrinação nesta terra, "não temos aqui uma cidade permanente, mas vamos em busca da futura" (He 13,14). A Quaresma faz compreender a relatividade dos bens desta terra e assim torna-nos capazes de fazer as renúncias necessárias, livres para realizar o bem. Abramos a terra à luz do Céu, à presença de Deus no meio de nós.
Amém!
Bento XVI Homilias 152