Bento XVI Homilias 23510


Quinta-feira, 3 de Junho de 2010: SANTA MISSA NA SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO

30610
Basílica de São João de Latrão



Prezados irmãos e irmãs!

O sacerdócio do Novo Testamento está estreitamente vinculado à Eucaristia. Por isso hoje, na solenidade do Corpus Christi e quase no encerramento do Ano sacerdotal, somos convidados a meditar sobre a relação entre a Eucaristia e o Sacerdócio de Cristo. É neste rumo que nos orientam também a primeira leitura e o salmo responsorial, que apresentam a figura de Melquisedec. O breve trecho do Livro do Génesis (cf.
Gn 14,18-10) afirma que Melquisedec, rei de Salé, era "sacerdote do Deus altíssimo", e por isso "ofereceu pão e vinho" e "abençoou Abrão", que acaba de conquistar a vitória numa batalha; o próprio Abraão ofereceu-lhe o dízimo de tudo. Por sua vez, o salmo contém na última estrofe uma expressão solene, um juramento do próprio Deus, que declara ao Rei Messias: "Tu és sacerdote para sempre / segundo a ordem de Melquisedec" (Ps 110,4 [109], 4); assim o Messias é proclamado não apenas Rei, mas inclusive Sacerdote. É neste trecho que o autor da Carta aos Hebreus se inspira para a sua exposição, ampla e pormenorizada. Quanto a nós, fizemos ressoá-lo no estribilho: "Tu és sacerdote para sempre, Cristo Senhor": quase uma profissão de fé, que adquire um significado particular na solenidade hodierna. É a alegria da comunidade, o júbilo da Igreja inteira que, contemplando e adorando o Santíssimo Sacramento, reconhece nele a presença real e permanente de Jesus, sumo e eterno Sacerdote.

A segunda leitura e o Evangelho chamam, ao contrário, a atenção para o mistério eucarístico. Da Primeira Carta aos Coríntios (cf. 1Co 11,23-26) é tirado o trecho fundamental em que São Paulo evoca àquela comunidade o significado e o valor da "Ceia do Senhor", que o Apóstolo tinha transmitido e ensinado, mas que corriam o risco de se perder. No entanto, o Evangelho é a narração do milagre dos pães e dos peixes, na redacção de São Lucas: um sinal testificado por todos os Evangelistas e que prenuncia o dom que Cristo fará de si mesmo, para oferecer a vida eterna à humanidade. Ambos estes textos põem em evidência a prece de Cristo, no acto de partir o pão. Naturalmente, existe uma clara diferença entre os dois momentos: quando distribui os pães e os peixes à multidão, Jesus dá graças ao Pai celestial pela sua Providência, persuadido de que Ele não permitirá que falte o alimento a toda aquela multidão. Na última Ceia, ao contrário, Jesus transforma o pão e o vinho no seu próprio Corpo e Sangue, a fim de que os discípulos possam alimentar-se dele e viver em comunhão íntima e real com Ele.

A primeira coisa que é necessário recordar sempre é que Jesus não era um sacerdote segundo a tradição judaica. A sua família não era sacerdotal. Ele não pertencia à descendência de Araão, mas sim à de Judas, e portanto era-lhe legalmente impedido o caminho do sacerdócio. A pessoa e a actividade de Jesus de nazaré não se inserem no sulco dos sacerdotes antigos, mas sobretudo na esteira dos profetas. E nesta linha, Jesus afastou-se de uma concepção ritual da religião, criticando a imposição que dava valor aos preceitos humanos vinculados à pureza ritual antes do que à observância dos mandamentos de Deus, ou seja, ao amor a Deus e ao próximo que, como diz o Senhor, "vale mais do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios" (Mc 12,33). Até no interior do Templo de Jerusalém, lugar sagrado por excelência, Jesus realiza um gesto puramente profético, quando expulsa os cambistas e os vendedores de animais, todas as coisas que serviam para a oferta dos sacrifícios tradicionais. Portanto, Jesus não é reconhecido como um Messias sacerdotal, mas profético e real. Até a sua morte, que nós cristãos justamente denominamos "sacrifício", nada tinha dos holocaustos antigos, aliás era totalmente o oposto: a execução de uma condenação à morte por crucifixão, a mais infamadora, ocorrida fora dos muros de Jerusalém.

Então, em que sentido Jesus é sacerdote? É precisamente a Eucaristia que no-lo diz. Podemos recomeçar a partir daquelas simples palavras que descrevem Mesquisedec: "ofereceu pão e vinho" (Gn 14,18). Foi o que fez Jesus na última Ceia: ofereceu pão e vinho, e nesse gesto resumiu-se a si mesmo e toda a sua própria missão. Naquele acto que o precede e nas palavras que o acompanham está todo o sentido do mistério de Cristo, assim como o exprime a Carta aos Hebreus, num trecho decisivo, que é necessário citar: "Quando vivia na carne – escreve o autor, referindo-se a Jesus – Ele ofereceu com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas Àquele que O podia salvar da morte, e foi atendido pela sua piedade. Apesar de ser Filho de Deus, aprendeu a obedecer sofrendo e, uma vez atingida a perfeição, tornou-se para todos os que lhe obedecem, fonte de salvação eterna, tendo sido proclamado por Deus Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec" (He 5,7-10). Neste texto, que claramente alude à agonia espiritual do Getsémani, a paixão de Cristo é apresentada como uma oração e como uma oferenda. Jesus enfrenta a sua "hora", que o conduz à morte de cruz, mergulhado numa oração profunda, que consiste na união da sua própria vontade à do Pai. Esta vontade dúplice e única é uma vontade de amor. Vivida nesta oração, a trágica provação que Jesus enfrenta é transformada em oferenda, em sacrifício vivo.

A Carta aos Hebreus diz que Jesus "foi atendido". Em que sentido? No sentido de que Deus Pai O libertou da morte e O ressuscitou. Foi atendido precisamente pelo seu pleno abandono à vontade do Pai: o desígnio de amor de Deus pôde realizar-se perfeitamente em Jesus que, tendo obedecido até ao extremo da morte na cruz, tornou-se "causa de salvação" para todos aqueles que lhe obedecem. Ou seja, tornou-se Sumo Sacerdote porque Ele mesmo assumiu sobre si todo o pecado do mundo, como "Cordeiro de Deus". É o Pai que lhe confere este sacerdócio no preciso momento em que Jesus atravessa a passagem da sua morte e ressurreição. Não se trata de um sacerdócio segundo o ordenamento da lei de Moisés (cf. Lv 8-9), mas "segundo a ordem de Melquisedec", em conformidade com uma ordem profética, que depende unicamente da sua relação singular com Deus.

Voltemos à expressão da Carta aos Hebreus, que reza assim: "Apesar de ser Filho de Deus, aprendeu a obedecer sofrendo". O sacerdócio de Cristo comporta o sofrimento. Jesus sofreu verdadeiramente, e fê-lo por nós. Ele era o Filho e não tinha necessidade de aprender a obediência, mas nós sim, tínhamos e temos sempre esta necessidade. Por isso, o Filho assumiu a nossa humanidade e por nós se deixou "educar" no crisol do sofrimento, deixou-se transformar por ele, como grão de trigo que, para dar fruto, deve morrer na terra. Através deste processo, Jesus "tornou-se perfeito", em grego, teleiotheis. Temos que reflectir sobre este termo, porque é muito significativo. Ele indica o cumprimento de um caminho, ou seja, precisamente o caminho de educação e transformação do Filho de Deus mediante o sofrimento, através da paixão dolorosa. É graças a esta transformação que Jesus Cristo se tornou "Sumo Sacerdote" e pode salvar todos aqueles que se confiam a Ele. O termo teleiotheis, traduzido justamente como "tornou-se perfeito", pertence a uma raiz verbal que, na versão grega do Pentateuco, isto é os primeiros cinco livros da Bíblia, é sempre utilizada para indicar a consagração dos antigos sacerdotes. Esta descoberta é muito preciosa, porque nos diz que a paixão foi para Jesus como uma consagração sacerdotal. Ele não era sacerdote segundo a Lei, mas tornou-se tal de maneira existencial na sua Páscoa de paixão, morte e ressurreição: ofereceu-se a si mesmo em expiação e o Pai, exaltando-O acima de todas as criaturas, constituiu-O Medianeiro universal de salvação.

Voltemos nesta nossa meditação à Eucaristia, que daqui a pouco estará no centro da nossa assembleia litúrgica. Nela, Jesus antecipou o seu Sacrifício, um Sacrifício não ritual, mas pessoal. Na última Ceia, Ele age impelido por aquele "espírito eterno" com o qual depois se oferecerá na Cruz (cf. He 9,14). Dando graças e bendizendo, Jesus transforma o pão e o vinho. É o amor divino que transforma: o amor com que Jesus aceita, por antecipação, entregar-se a si mesmo por nós. Este amor não é senão o Espírito do Pai e do Filho, que consagra o pão e o vinho, e muda a sua substância no Corpo e no Sangue do Senhor, tornando presente no Sacramento o mesmo Sacrifício que sucessivamente se realiza de modo cruento na Cruz. Portanto, podemos concluir que Cristo é sacerdote verdadeiro e eficaz, porque estava repleto da força do Espírito Santo, cumulado de toda a plenitude do amor de Deus, e isto precisamente "na noite em que foi traído", mesmo na "hora das trevas" (cf. Lc 22,53). É esta força divina, a mesma que realizou a Encarnação do Verbo, que transformou a extrema violência e a extrema injustiça em gesto supremo de amor e de justiça. Esta é a obra do sacerdócio de Cristo, que a Igreja herdou e prolonga na história, na dúplice forma do sacerdócio comum dos baptizados e daquele ordenado dos ministros, para transformar o mundo com o amor de Deus. Todos, sacerdotes e fiéis, nos nutrimos da mesma Eucaristia, todos nos prostramos para a adorar, porque nela está presente o nosso Mestre e Senhor, está presente o verdadeiro Corpo de Jesus, Vítima e Sacerdote, salvação do mundo. Vinde, exultemos com cânticos de júbilo! Vinde, adoremos! Amém.





VIAGEM APOSTÓLICA A CHIPRE (4-6 DE JUNHO DE 2010)


Sábado, 5 de Junho de 2010: SANTA MISSA COM OS SACERDOTES, RELIGIOSOS, RELIGIOSAS, DIÁCONOS, CATEQUISTAS E MOVIMENTOS ECLESIAIS DE RITO LATINO

50610

Igreja paroquial latina de Santa Cruz - Nicosia




Estimados irmãos e irmãs em Cristo!

O Filho do Homem deve ser elevado, a fim de que todo aquele que nele crer tenha a vida eterna (cf.
Jn 3,14-15). Nesta Missa votiva, adoremos e louvemos nosso Senhor Jesus Cristo porque, com a sua Santa Cruz, redimiu o mundo. Mediante a sua morte e ressurreição, abriu de par em par as portas do Céu e preparou-nos um lugar, a fim de que nos seja concedido, a nós seus seguidores, participar na sua glória.

Na alegria da vitória redentora de Cristo, saúdo todos vós reunidos na igreja da Santa Cruz e agradeço-vos a vossa presença. Aprecio muito o afecto com que me recebestes. Estou particularmente grato a Sua Beatitude o Patriarca latino de Jerusalém pelas suas palavras de boas-vindas, proferidas no início da Missa, e pela presença do Padre Guardião da Terra Santa. Aqui em Chipre, terra que foi o primeiro porto de chegada das viagens missionárias de São Paulo através do Mediterrâneo, chego hoje entre vós, nas pegadas daquele grande Apóstolo, para vos confirmar na vossa fé cristã e para pregar o Evangelho que oferece vida e esperança ao mundo.

O âmago da celebração hodierna é a Cruz de Cristo. Muitos poderiam ser tentados a interrogar-se por que motivo nós, cristãos, celebramos um instrumento de tortura, um sinal de sofrimento, de derrota e de falência. É verdade que a cruz exprime todos estes significados. E todavia, por causa daquele que foi elevado sobre a cruz para a nossa salvação, ela representa também o triunfo definitivo do amor de Deus sobre todos os males do mundo.

Existe uma antiga tradição segundo a qual o madeiro da cruz foi tirado de uma árvore plantada por Set, filho de Adão, no lugar onde Adão foi sepultado. Nesse mesmo lugar, conhecido como Gólgota, o lugar do crânio, Set plantou uma semente da árvore do conhecimento do bem e do mal, a árvore que se encontrava no centro do jardim do Éden. Através da providência de Deus, a obra do Maligno teria sido derrotada, fazendo voltar contra ele as suas próprias armas.

Enganado pela serpente, Adão abandonou a confiança filial em Deus e pecou, comendo os frutos da única árvore do jardim que lhe tinha sido proibida. Como consequência daquele pecado, o sofrimento e a morte entraram no mundo. Os efeitos trágicos do pecado, ou seja, o sofrimento e a morte, tornaram-se totalmente evidentes na história dos descendentes de Adão. Vemo-lo a partir da primeira leitura de hoje, que faz ressoar a queda e prefigura a redenção de Cristo.

Como punição dos próprios pecados, enquanto definhava no deserto, o povo de Israel foi mordido pela serpente e só teria podido salvar-se da morte, dirigindo o olhar para o símbolo que Moisés levantara, prefigurando a cruz que poria fim ao pecado e à morte, de uma vez por todas. Vemos claramente que o homem não pode salvar-se sozinho das consequências do próprio pecado. Não pode salvar-se sozinho da morte. Só Deus pode libertá-lo da sua escravidão moral e física. E dado que Deus amou de tal modo o mundo, enviou o seu Filho unigénito não para condenar o mundo – como teria exigido a justiça – mas a fim de que através dele o mundo pudesse ser salvo. O Filho unigénito de Deus deveria ser elevado como Moisés ergueu a serpente no deserto, de tal forma que quantos lhe tivessem dirigido o olhar com fé, pudessem ter vida.

O madeiro da cruz tornou-se o instrumento para a nossa redenção, precisamente como a árvore da qual tinha sido tirado dera origem à queda dos nossos antepassados. O sofrimento e a morte, que eram consequências do pecado, tornaram-se o próprio instrumento através do qual o pecado foi derrotado. O Cordeiro inocente foi sacrificado no altar da cruz e, no entanto, da imolação da vítima nasceu uma vida nova: o poder do maligno foi destruído pelo poder do amor que se sacrifica a si mesmo.

Portanto, a cruz é algo maior e mais misterioso do que, à primeira vista, possa parecer. Indubitavelmente, é um instrumento de tortura, de sofrimento e de derrota, mas ao mesmo tempo manifesta a transformação completa, a desforra sobre estes malefícios, e isto faz dele o símbolo mais eloquente da esperança que o mundo jamais viu. Ele fala a todos aqueles que sofrem – os oprimidos, os doentes, os pobres, os marginalizados e as vítimas da violência – e oferece-lhes a esperança que Deus pode transformar o seu sofrimento em alegria, o seu isolamento em comunhão, a sua morte em vida. Oferece esperança ilimitada ao nosso mundo decrépito.

Eis por que motivo o mundo tem necessidade da cruz. Ela não é simplesmente um símbolo particular de devoção, não é um distintivo de pertença a qualquer grupo no interior da sociedade, e o seu significado mais profundo nada tem a ver com a imposição forçada de um credo ou de uma filosofia. Fala de esperança, fala de amor, fala da vitória da não-violência sobre a opressão, fala de Deus que eleva os humildes, dá força aos frágeis, faz superar as divisões e vencer o ódio com o amor. Um mundo sem cruz seria um mundo sem esperança, um mundo em que a tortura e a brutalidade seriam desenfreadas, o fraco seria explorado e a avidez teria a última palavra. A desumanidade do homem em relação ao seu próximo manifestar-se-ia de maneiras ainda mais horríveis, e não haveria a palavra fim no círculo maléfico da violência. Só a cruz põe fim a isto. Enquanto nenhum poder terreno pode salvar-nos das consequências do nosso pecado, e nenhuma potência terrestre pode derrotar a injustiça desde a sua nascente, todavia a intervenção salvífica do nosso Deus misericordioso transformou a realidade do pecado e da morte no seu oposto. É isto que celebramos, quando glorificamos a cruz do Redentor. Justamente, Santo André de Creta descreve a cruz como "a mais nobre e preciosa de qualquer outra coisa sobre a terra [...] porque nela, mediante ela e através dela, toda a riqueza da nossa salvação foi acumulada, e a nós devolvida" (Oratio X, PG 97,1018-1019).

Estimados irmãos sacerdotes, queridos religiosos, caros catequistas, a mensagem da cruz foi-nos confiada para que possamos oferecer esperança ao mundo. Quando proclamamos Cristo crucificado, não nos proclamamos a nós mesmos, mas a Ele. Não oferecemos a nossa sabedoria ao mundo, não falamos dos nossos próprios méritos, mas servimos de canais da sua sabedoria, do seu amor e dos seus méritos salvíficos. Sabemos que somos simplesmente vasos feitos de barro e, todavia, surpreendentemente fomos escolhidos para ser arautos da verdade salvífica que o mundo tem necessidade de ouvir. Nunca nos cansemos de nos admirar diante da graça extraordinária que nos foi concedida, jamais cessemos de reconhecer a nossa indignidade, mas ao mesmo tempo esforcemo-nos sempre por ser menos indignos do que a nossa nobre vocação, de maneira a não debilitarmos, mediante os nossos erros e as nossas quedas, a credibilidade do nosso testemunho.

Neste Ano sacerdotal, permiti-me dirigir uma palavra especial aos presbíteros hoje aqui presentes e a quantos se preparam para a ordenação. Meditai sobre as palavras dirigidas ao neo-sacerdote pelo Bispo, no momento em que lhe apresenta o cálice e a pátena: "Dá-te conta do que farás, imita aquilo que celebrarás, conforma a tua vida com o mistério da cruz de Cristo Senhor".

Enquanto proclamamos a cruz de Cristo, procuramos sempre imitar o amor abnegado daquele que se ofereceu a si mesmo por nós no altar da cruz, daquele que é sacerdote e ao mesmo tempo vítima, daquele em cuja pessoa falamos e agimos quando exercemos o ministério recebido. Ao meditarmos sobre as nossas faltas, quer individual quer colectivamente, reconhecemos com humildade que merecemos o castigo que Ele, o Cordeiro inocente, padeceu por nós. E se, de acordo com quanto merecemos, participarmos de algum modo nos padecimentos de Cristo, alegremo-nos porque alcançaremos uma felicidade muito maior, quando for revelada a sua glória.

Nos primeiros pensamentos e nas minhas orações, recordo-me de maneira especial dos numerosos sacerdotes e religiosos do Médio Oriente que estão a experimentar nestes momentos uma chamada particular a conformar as suas próprias vidas com o mistério da cruz do Senhor. Onde os cristãos representam uma minoria, onde sofrem privações por causa das tensões étnicas e religiosas, muitas famílias tomam a decisão de partir, e também os pastores se sentem tentados a fazer o mesmo. No entanto, em situações como estas um sacerdote, uma comunidade religiosa, uma paróquia que permanece firme e continua a dar testemunho de Cristo é um sinal extraordinário de esperança não só para os cristãos, mas inclusive para quantos vivem nesta Região. A sua presença, por si mesma, é já uma expressão eloquente do Evangelho da paz, da decisão do Bom Pastor de cuidar de todas as ovelhas, do compromisso inabalável da Igreja a favor do diálogo, da reconciliação e da aceitação amorosa do outro. Abraçando a cruz que lhes é oferecida, os sacerdotes e os religiosos do Médio Oriente podem realmente irradiar a esperança que se encontra no cerne do mistério que celebramos na liturgia hodierna.

Animemo-nos com as palavras da segunda leitura de hoje, que fala muito bem do triunfo reservado a Cristo depois da morte na cruz, um triunfo que somos convidados a compartilhar. "Foi por isso que Deus O exaltou e lhe deu um nome que está acima de todo o nome, para que ao nome de Jesus todo o joelho se dobre nos Céus, na terra e debaixo da terra" (Ph 2,9-10).

Sim, amados irmãos e irmãs em Cristo, longe de nós uma glória que não seja a da cruz de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Ga 6,14). Ele é a nossa vida, a nossa salvação e a nossa ressurreição. Foi Ele quem nos salvou e tornou livres!





Domingo, 6 de Junho de 2010: SANTA MISSA - PUBLICAÇÃO DO INSTRUMENTUM LABORIS DA ASSEMBLEIA ESPECIAL PARA O MÉDIO ORIENTE DO SÍNODO DOS BISPOS

60610
Palácio de Desportos Elefteria - Nicosia



Amados irmãos e irmãs em Cristo!

Saúdo com alegria os Patriarcas e os Bispos das várias comunidades eclesiais do Médio Oriente que vieram a Chipre para esta ocasião e agradeço especialmente a Sua Excelência Reverendíssima D. Youssef Soueif, Arcebispo de Chipre dos Maronitas, as palavras que me dirigiu no início da Missa. Dirijo também uma saudação calorosa a Sua Beatitude Crisóstomo II.

Permiti-me dizer como me sinto feliz por ter esta oportunidade de celebrar a Eucaristia juntamente com um número tão elevado de fiéis de Chipre, uma terra abençoada pelo trabalho apostólico de São Paulo e São Barnabé. Saúdo todos vós com grande afecto e agradeço-vos a hospitalidade e o generoso acolhimento que me reservastes. Estendo a minha saudação particular aos imigrantes filipinos e cingaleses, bem como às demais comunidades de imigrantes que formam um significativo grupo na população católica desta ilha. Rezo a fim de que a vossa presença aqui possa enriquecer a actividade e o culto das paróquias às quais pertenceis e que, por vossa vez, possais obter a assistência espiritual da antiga herança cristã da terra que escolhestes como vossa casa.

Hoje celebramos a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo. Corpus Christi, o nome dado a esta festividade no Ocidente, é utilizado na tradição da Igreja para indicar três realidades distintas: o corpo físico de Jesus, nascido da Virgem Maria, o seu corpo eucarístico, o pão do Céu que nos alimenta neste grandioso Sacramento, e o seu corpo eclesial, a Igreja. Reflectindo sobre estes diversos aspectos do Corpus Christi, chegamos a uma compreensão mais profunda do mistério da comunhão, que une todos aqueles que pertencem à Igreja. Quantos se nutrem do Corpo e Sangue de Cristo na Eucaristia estão reunidos pelo Espírito Santo num único corpo (cf. Oração Eucarística II), para formar o único povo santo de Deus. Assim como o Espírito Santo desceu sobre os Apóstolos no Cenáculo em Jerusalém, o próprio Espírito Santo entra em acção em cada celebração da Missa, para uma dupla finalidade: santificar os dons do pão e do vinho, a fim de que se tornem o Corpo e o Sangue de Cristo, e cumular aqueles que são alimentados por estes santos dons, para que possam tornar-se um só corpo e um só espírito em Cristo.

Santo Agostinho explica magnificamente este processo (cf. Sermão 272). Ele recorda-nos que o pão não é preparado a partir de um só grão, mas de numerosos grãos. Antes que estes grãos se tornem pão, devem ser moídos. Aqui, ele faz alusão ao exorcismo, ao qual os catecúmenos deviam submeter-se antes do seu baptismo. Cada um de nós, que pertencemos à Igreja, tem necessidade de sair do mundo fechado da própria individualidade e aceitar a companhia daqueles que compartilham o pão com ele. Já não devo pensar a partir de "mim mesmo", mas sim de "nós". É por isso que diariamente nós pedimos que o Pai "nosso" nos dê o pão "nosso" de cada dia. Derrubar as barreiras entre nós e os nossos vizinhos é a primeira premissa para entrar na vida divina à qual somos chamados. Temos necessidade de ser libertados de tudo aquilo que nos impede e isola: temor e desconfiança de uns em relação aos outros, avidez e egoísmo, falta de vontade de aceitar o risco da vulnerabilidade à qual nos expomos quando nos abrimos ao amor.

Depois de serem moídos, os grãos de trigo são misturados na massa e cozidos. Aqui, Santo Agostinho faz referência à imersão nas águas baptismais, seguida do dom sacramental do Espírito Santo, que inflama o coração dos fiéis como fogo do amor de Deus. Este processo que une e transforma os grãos isolados num único pão apresenta-nos uma imagem sugestiva da acção unificadora do Espírito Santo nos membros da Igreja, realizada de maneira eminente através da celebração da Eucaristia. Aqueles que participam neste grande sacramento tornam-se o Corpo eclesial de Cristo, quando se alimentam do seu Corpo eucarístico. "Sê aquilo que tu podes ver – diz Santo Agostinho, encorajando-os – e recebe o que és".

Estas palavras fortes convidam-nos a responder generosamente ao convite a "ser Cristo" para aqueles que nos circundam. Nós somos o seu corpo agora na terra. Parafraseando uma célebre expressão atribuída a Santa Teresa de Ávila, nós somos os olhos com os quais a sua compaixão olha para aqueles que se encontram em necessidade, somos as mãos que Ele estende para abençoar e para curar, somos os pés dos quais Ele se serve para ir fazer o bem e somos os lábios com os quais o seu Evangelho é proclamado. Por conseguinte, é importante saber que quando nós participamos na sua obra de salvação, não fazemos memória de um herói morto, prolongando o que Ele realizou: pelo contrário, Cristo está vivo em nós, seu corpo, a Igreja, seu povo sacerdotal. Nutrindo-nos dele na Eucaristia e acolhendo o Espírito Santo nos nossos corações, tornamo-nos verdadeiramente o corpo de Cristo que recebemos, entramos verdadeiramente em comunhão com Ele, e uns com os outros, e tornamo-nos autenticamente seus instrumentos, dando testemunho dele perante o mundo.

"A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma" (
Ac 4,32). Na primeira comunidade cristã, alimentada à mesa do Senhor, nós vemos os efeitos da acção unificadora do Espírito Santo. Compartilhavam os seus bens em comum, desapegando-se de todos os bens materiais por amor aos irmãos. Encontraram soluções equitativas para as suas diferenças, como vemos por exemplo na resolução da disputa entre helénicos e judeus sobre a distribuição quotidiana (cf. Ac 6,1-6). Como mais tarde um comentador disse: "Vê como estes cristãos se amam entre si, e como estão prontos a morrer uns pelos outros" (Tertualiano, Apologia, 39). Todavia, o seu amor não se limitava de modo algum aos seus amigos crentes. Eles nunca se consideraram a si próprios como beneficiários exclusivos e privilegiados do favor divino mas, ao contrário, como mensageiros enviados para difundir a boa notícia da salvação em Cristo, até aos confins da terra. E foi assim que a mensagem confiada aos Apóstolos pelo Senhor ressuscitado se propagou em todo o Médio Oriente e daqui para o mundo inteiro.

Caros irmãos e irmãs em Cristo, hoje somos chamados como eles a ser um só coração e uma só alma, aprofundando a nossa comunhão com o Senhor e entre nós, e a ser suas testemunhas diante do mundo.

Somos interpelados a superar as nossas diferenças, a levar paz e reconciliação aonde existem conflitos e a oferecer ao mundo uma mensagem de esperança. Somos chamados a estender a nossa atenção aos necessitados, dividindo generosamente os nossos bens terrenos com aqueles que são menos afortunados do que nós. E somos chamados a proclamar de maneira incessante a morte e a ressurreição do Senhor, até que Ele venha. Por Ele, com Ele e n' Ele, na unidade que o Espírito Santo confere à Igreja, demos honra e glória a Deus, nosso Pai celestial, juntamente com todos os anjos e santos que cantam os seus louvores para sempre. Amém!





Sexta-feira, 11 de Junho de 2010ENCERRAMENTO DO ANO SACERDOTAL, SANTA MISSA

11610

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Praça de São Pedro




Prezados irmãos no ministério sacerdotal,
Amados irmãos e irmãs,

O Ano Sacerdotal que celebrámos 150 anos depois da morte do Santo Cura d’Ars, modelo do ministério sacerdotal no nosso mundo, está para terminar. Deixámo-nos guiar pelo Cura d’Ars, para voltarmos a compreender a grandeza e a beleza do ministério sacerdotal. O sacerdote não é simplesmente o detentor de um ofício, como aqueles de que toda a sociedade tem necessidade para nela se realizarem certas funções. É que o sacerdote faz algo que nenhum ser humano, por si mesmo, pode fazer: pronuncia em nome de Cristo a palavra da absolvição dos nossos pecados e assim, a partir de Deus, muda a situação da nossa vida. Pronuncia sobre as ofertas do pão e do vinho as palavras de agradecimento de Cristo que são palavras de transubstanciação – palavras que O tornam presente a Ele mesmo, o Ressuscitado, o seu Corpo e o seu Sangue, e assim transformam os elementos do mundo: palavras que abrem de par em par o mundo a Deus e o unem a Ele. Por conseguinte, o sacerdócio não é simplesmente «ofício», mas sacramento: Deus serve-Se de um pobre homem a fim de, através dele, estar presente para os homens e agir em seu favor. Esta audácia de Deus – que a Si mesmo Se confia a seres humanos; que, apesar de conhecer as nossas fraquezas, considera os homens capazes de agir e estar presentes em seu nome – esta audácia de Deus é o que de verdadeiramente grande se esconde na palavra «sacerdócio». Que Deus nos considere capazes disto; que deste modo Ele chame homens para o seu serviço e Se prenda assim, a partir de dentro, a eles: isto é o que, neste ano, queríamos voltar a considerar e compreender. Queríamos despertar a alegria por termos Deus assim tão perto, e a gratidão pelo facto de Ele Se confiar à nossa fraqueza, de Ele nos conduzir e sustentar dia após dia. E queríamos assim voltar a mostrar aos jovens que esta vocação, esta comunhão de serviço a Deus e com Deus, existe; antes, Deus está à espera do nosso «sim». Juntos com a Igreja, queríamos novamente assinalar que esta vocação devemos pedi-la a Deus. Pedimos operários para a messe de Deus, mas este pedido a Deus é simultaneamente Deus que bate à porta do coração de jovens que se considerem capazes daquilo de que Deus os considera capazes. Era de esperar que este novo resplendor do sacerdócio não fosse visto com agrado pelo «inimigo»; este teria preferido vê-lo desaparecer, para que em definitivo Deus fosse posto fora do mundo. E assim aconteceu que, precisamente neste ano de alegria pelo sacramento do sacerdócio, vieram à luz os pecados dos sacerdotes – sobretudo o abuso contra crianças, no qual o sacerdócio enquanto serviço da solicitude de Deus em benefício do homem se transforma no contrário. Também nós pedimos insistentemente perdão a Deus e às pessoas envolvidas, enquanto pretendemos e prometemos fazer tudo o possível para que um tal abuso nunca mais possa suceder; prometemos que, na admissão ao ministério sacerdotal e na formação ao longo do caminho de preparação para o mesmo, faremos tudo o que pudermos para avaliar a autenticidade da vocação, e que queremos acompanhar ainda mais os sacerdotes no seu caminho, para que o Senhor os proteja e guarde em situações penosas e nos perigos da vida. Se o Ano Sacerdotal devesse ser uma glorificação do nosso serviço humano pessoal, teria ficado arruinado com estas vicissitudes. Mas, para nós, tratava-se precisamente do contrário: sentir-se agradecidos pelo dom de Deus, dom que se esconde em «vasos de argila» e que sem cessar, através de toda a fraqueza humana, concretiza neste mundo o seu amor. Assim consideramos tudo o que sucedeu como um serviço de purificação, um serviço que nos lança para o futuro e faz agradecer e amar muito mais o grande dom de Deus. Deste modo, o dom torna-se o compromisso de responder à coragem e à humildade de Deus com a nossa coragem e a nossa humildade. Nesta hora, a palavra de Cristo, que proclamámos no cântico de entrada desta liturgia, pode dizer-nos o que significa tornar-se e ser sacerdotes: «Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de Mim, que Eu sou manso e humilde de Coração» (
Mt 11,29).

Celebramos a festa do Sagrado Coração de Jesus e, com a liturgia, por assim dizer lançamos um olhar dentro do Coração de Jesus que, na morte, foi aberto pela lança do soldado romano. Sim, o seu Coração está aberto por nós e aos nossos olhos; e deste modo está aberto o Coração do próprio Deus. A liturgia dá-nos a interpretação da linguagem do Coração de Jesus, que fala sobretudo de Deus como pastor dos homens e, deste modo, manifesta-nos o sacerdócio de Jesus, que está radicado no íntimo do seu Coração; indica-nos assim o perene fundamento e também o critério válido de todo o ministério sacerdotal, que deve estar sempre ancorado no Coração de Jesus e ser vivido a partir dele. Hoje queria meditar principalmente sobre os textos com que a Igreja em oração responde à Palavra de Deus apresentada nas leituras. Nestes cânticos, compenetram-se palavra e resposta; por um lado, são tirados da Palavra de Deus, mas, por outro e simultaneamente, são já a resposta do homem à referida Palavra, resposta na qual a própria Palavra se comunica e entra na nossa vida. O mais importante destes textos na liturgia de hoje é o Salmo 22 (23) – «O Senhor é meu pastor» –; nele Israel acolheu em oração a auto-revelação de Deus como pastor e dela fez a orientação para a sua própria vida. «O Senhor é meu pastor, nada me falta»: neste primeiro versículo, exprimem-se alegria e gratidão pelo facto de Deus estar presente e Se ocupar de nós. A leitura tirada do Livro de Ezequiel começa com o mesmo tema: «Eu próprio tomarei cuidado das minhas ovelhas, Eu é que hei-de olhar por elas» (Ez 34,11). Deus, pessoalmente, cuida de mim, de nós, da humanidade. Não fui deixado sozinho, perdido no universo e numa sociedade onde se fica cada vez mais desorientado. Ele cuida de mim. Não é um Deus distante, para Quem contaria muito pouco a minha vida. As religiões da Terra, por aquilo que nos é dado ver, sempre souberam que, em última análise, só há um Deus; mas este Deus era distante. Aparentemente, Ele deixava o mundo abandonado às outras potestades e forças, às outras divindades. Com estas, era preciso encontrar um acordo. O Deus único era bom, mas distante. Não constituía um perigo, mas tampouco oferecia uma ajuda. Assim, não era necessário ocupar-se d’Ele. Não era Ele que dominava. Por estranho que pareça, este pensamento ressurgiu no Iluminismo. Que o mundo pressupõe um Criador, ainda se compreendia. Este Deus teria construído o mundo, mas depois, evidentemente, retirou-se dele. Agora o mundo tinha um conjunto próprio de leis, segundo as quais se desenvolvia e nas quais Deus não intervinha, nem podia intervir. Deus era apenas uma origem remota. Muitos talvez não desejassem sequer que Deus cuidasse deles. Não queriam ser incomodados por Deus. Mas, sempre que a solicitude e o amor de Deus são sentidos como incómodo, o ser humano acaba subvertido. É bom e consolador saber que há uma pessoa que me ama e cuida de mim; mas muito mais decisivo é que exista um Deus que me conhece, me ama e Se preocupa comigo. «Conheço as minhas ovelhas, e elas conhecem-Me» (Jn 10,14): diz a Igreja, antes do Evangelho, tomando uma palavra do Senhor. Deus conhece-me, preocupa-Se comigo: este pensamento deveria fazer-nos verdadeiramente felizes; deixemo-lo penetrar profundamente no nosso íntimo. Então compreenderemos também o que significa isto: Deus quer que nós, como sacerdotes, num pequenino ponto da história, compartilhemos as suas preocupações pelos homens. Como sacerdotes, queremos ser pessoas que, em comunhão com a sua solicitude pelos homens, cuidamos deles e lhes fazemos experimentar concretamente esta solicitude de Deus. E o sacerdote, no âmbito que lhe está confiado, deveria poder dizer juntamente com o Senhor: «Conheço as minhas ovelhas, e elas conhecem-me». O sentido deste «conhecer», na Sagrada Escritura, nunca é simplesmente o de um saber exterior, como quando se conhece o número do telefone de uma pessoa; mas «conhecer» significa estar interiormente próximo do outro, amá-lo. Nós havemos de procurar «conhecer» os homens por parte de Deus e em ordem a Deus; havemos de procurar caminhar com eles pela estrada da amizade de Deus.

Voltemos ao nosso Salmo. Lá se diz: «Ele me guia pelo caminho mais seguro para glória do seu nome. Passarei ravinas tenebrosas e não temo; Vós estais comigo, o vosso cajado me sossega» (Ps 22,3-4). O pastor indica a estrada certa àqueles que lhe estão confiados. Vai à sua frente e guia-os. Por outras palavras: o Senhor mostra-nos como se realiza de modo justo o ser homens. Ensina-nos a arte de ser pessoa. Que devo fazer para não me afundar, para não desperdiçar a minha vida com o que não tem sentido? Esta é precisamente a pergunta que cada homem se deve colocar a si mesmo, válida em cada período da vida. E como é grande a escuridão à volta de tal pergunta, no nosso tempo! Vem-nos sempre de novo à mente aquela atitude de Jesus, que Se enchera de compaixão pelos homens, porque eram como ovelhas sem pastor. Senhor, tende piedade também de nós! Indicai-nos a estrada! A partir do Evangelho, sabemos isto: Ele mesmo é o caminho. Viver com Cristo, segui-Lo: isto significa encontrar o caminho certo, para que a nossa vida ganhe sentido e possamos dizer um dia: «Sim, foi bom viver». O povo de Israel sentia-se, e sente-se, agradecido a Deus, porque lhe indicou, nos Mandamentos, o caminho da vida. O longo Salmo 118 (119) é todo ele uma expressão de alegria por este facto: não titubeamos na escuridão. Deus mostrou-nos qual é o caminho, como podemos caminhar de modo certo. O que dizem os Mandamentos foi sintetizado na vida de Jesus e tornou-se um modelo vivo. Compreendemos assim que estas directrizes de Deus não são algemas, mas o caminho que Ele nos indica. Podemos alegrar-nos por elas, e exultar porque em Cristo nos aparecem como realidade vivida. Ele mesmo nos tornou felizes. Caminhando juntamente com Cristo, fazemos a experiência da alegria da Revelação, e, como sacerdotes, devemos comunicar às pessoas a alegria pelo facto de nos ter sido indicado o caminho certo da vida.

Aparece depois a palavra que nos fala de «ravinas tenebrosas», através das quais o homem é guiado pelo Senhor. O caminho de cada um de nós conduzir-nos-á um dia às ravinas tenebrosas da morte, onde ninguém pode acompanhar-nos. Mas Ele estará lá. O próprio Cristo desceu à noite escura da morte. Mesmo lá, Ele não nos abandona. Mesmo lá, Ele nos guia. «Se descer aos abismos, ali Vos encontrais»: diz o Salmo 138 (139). Sim, Vós estais presente mesmo no último transe; e assim o nosso Salmo Responsorial pode dizer: mesmo lá, nas ravinas tenebrosas, não temo mal algum. Mas, ao falar de ravinas tenebrosas, podemos pensar também nas ravinas tenebrosas da tentação, do desânimo, da provação, que cada pessoa humana tem de atravessar. Mesmo nestas ravinas tenebrosas da vida, Ele está presente. Sim, Senhor, nas trevas da tentação, nas horas de ofuscamento quando todas as luzes parecem apagar-se, mostrai-me que estais presente. Ajudai-nos, a nós sacerdotes, para podermos nessas noites escuras estar ao lado das pessoas que nos foram confiadas, para podermos mostrar-lhes a vossa luz.

«O vosso cajado me sossega»: o pastor precisa de usar o cajado como um bastão contra os animais selvagens que querem irromper no meio do rebanho; contra os salteadores que procuram o seu botim. A par de bastão, o cajado serve também de apoio e ajuda para atravessar sítios difíceis. As duas coisas fazem parte também do ministério da Igreja, do ministério do sacerdote. Também a Igreja deve usar o bastão do pastor, o bastão com que protege a fé contra os falsificadores, contra as orientações que, na realidade, são desorientações. Por isso mesmo este uso do bastão pode ser um serviço de amor. Hoje vemos que não se trata de amor, quando se toleram comportamentos indignos da vida sacerdotal. E também não se trata de amor, se se deixa proliferar a heresia, a deturpação e o descalabro da fé, como se tivéssemos nós autonomamente inventado a fé; como se já não fosse dom de Deus, a pedra preciosa que não deixaremos arrebatar. Ao mesmo tempo, porém, o bastão deve continuar a ser o cajado do pastor, cajado que ajude os homens a poderem caminhar por sendas difíceis e a seguirem o Senhor.

A parte final do Salmo fala da mesa preparada, do óleo com que se unge a cabeça, do cálice transbordante, de poder habitar junto do Senhor. No Salmo, tudo isto exprime, antes de mais nada, a dimensão da alegria pela festa de estar com Deus no templo, ser hospedados e servidos por Ele mesmo, poder habitar junto d’Ele. Para nós, que rezamos este Salmo com Cristo e com o seu Corpo que é a Igreja, esta dimensão de esperança adquiriu uma amplidão e profundidade ainda maiores. Por assim dizer, vemos nestas palavras uma antecipação profética do mistério da Eucaristia, no qual Deus mesmo nos acolhe como seus comensais oferecendo-Se-nos a Si mesmo como alimento, como aquele pão e aquele vinho refinados que são os únicos capazes de constituir a derradeira resposta à fome e sede íntima do homem. Como não sentir-se feliz por poder cada dia ser hóspede à própria mesa de Deus, por habitar junto d’Ele? Como não sentir-se feliz pelo facto de Ele nos ter mandado: «Fazei isto em memória de Mim»? Felizes porque Ele nos concedeu preparar a mesa de Deus para os homens, dar-lhes o seu Corpo e o seu Sangue, oferecer-lhes o dom precioso da sua própria presença. Sim, com todo o coração podemos rezar juntos as palavras do Salmo: «A vossa bondade e misericórdia me acompanham no caminhar da minha vida» (Ps 22,6).

Por último lancemos, ainda que brevemente, um olhar sobre os dois cânticos da comunhão propostos pela Igreja na sua liturgia de hoje. Em primeiro lugar, temos as palavras com que São João conclui a narração da crucifixão de Jesus: «Um dos soldados abriu o seu lado com uma lança e dele brotou sangue e água» (Jn 19,34). O Coração de Jesus é trespassado pela lança. Aberto, torna-se uma fonte; a água e o sangue que saem remetem para os dois Sacramentos fundamentais de que vive a Igreja: o Baptismo e a Eucaristia. Do lado trespassado do Senhor, do seu Coração aberto brota a fonte viva que corre através dos séculos e faz a Igreja. O Coração aberto é fonte de um novo rio de vida; neste contexto, João certamente pensou também na profecia de Ezequiel que vê brotar do novo templo um rio que dá fecundidade e vida (cf. Ez 47): o próprio Jesus é o novo templo, e o seu Coração aberto a fonte da qual jorra um rio de vida nova, que se nos comunica no Baptismo e na Eucaristia.

Mas a liturgia da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus prevê como cântico de comunhão ainda outra frase, ligada à primeira, tirada do Evangelho de João: «Se alguém tem sede, venha a Mim e beba, diz o Senhor. Se alguém acredita em Mim, do seu coração brotará uma fonte de água viva» (cf. Jn 7,37-38). Na fé, por assim dizer bebemos da água viva da Palavra de Deus. Deste modo o próprio fiel torna-se uma fonte, dá à terra sequiosa da história água viva. Vemo-lo nos Santos. Vemo-lo em Maria que, como grande mulher de fé e de amor, se tornou ao longo dos séculos fonte de fé, amor e vida. Cada cristão e cada sacerdote deveriam, a partir de Cristo, tornar-se fonte que comunica vida aos outros. Devemos dar água da vida a um mundo sedento. Senhor, nós Vos agradecemos porque nos abristes o vosso Coração; porque, na vossa morte e na vossa ressurreição, Vos tornastes fonte de vida. Fazei que sejamos pessoas que vivem, que vivem da vossa fonte, e concedei-nos a possibilidade de sermos também nós fontes capazes de dar a este nosso tempo água da vida. Nós Vos agradecemos pela graça do ministério sacerdotal. Senhor, abençoai-nos a nós e abençoai todos os homens deste tempo que estão sedentos e andam à procura. Amen.

Saudações no final da Santa Missa

Queridos sacerdotes dos países de língua oficial portuguesa, dou graças a Deus pelo que sois e pelo que fazeis, recordando a todos que nada jamais substituirá o ministério dos sacerdotes na vida da Igreja. A exemplo e sob o patrocínio do Santo Cura d’Ars, perseverai na amizade de Deus e deixai que as vossas mãos e os vossos lábios continuem a ser as mãos e os lábios de Cristo, único Redentor da humanidade. Bem hajam!

Al termine di questa straordinaria concelebrazione, desidero esprimere la mia viva gratitudine alla Congregazione per il Clero, per l’opera svolta durante l’Anno Sacerdotale e per aver organizzato queste giornate conclusive. Un pensiero di speciale riconoscenza va ai Signori Cardinali ed ai Vescovi che hanno voluto essere presenti, in particolare a quanti sono venuti da lontano.

Chers prêtres francophones, vous avez une proximité particulière avec saint Jean-Marie Vianney. Je souhaite qu’elle devienne une véritable complicité spirituelle. Puisse son exemple sûr, vous inspirez afin que le don que vous avez fait de vous-même au Seigneur porte du bon fruit! Je vous renouvelle ma confiance et je vous encourage à progresser sur les chemins de la sainteté. Que le Seigneur vous garde tous en son Coeur très-aimant!

I now wish to greet all the English-speaking priests present at today’s celebration! My dear brothers, as I thank you for your love of Christ and of his bride the Church, I ask you again solemnly to be faithful to your promises. Serve God and your people with holiness and courage, and always conform your lives to the mystery of the Lord’s cross. May God bless your apostolic labours abundantly!

Von ganzem Herzen grüße ich die Bischöfe, Priester und Ordensleute wie auch alle Pilger, die aus den Diözesen des deutschen Sprachraums zum Abschluß des Priesterjahres nach Rom gekommen sind, um ihre Einheit mit dem Nachfolger Petri zu zeigen. Liebe Mitbrüder, wo kein Zusammenhalt ist, da gibt es keinen Fortschritt. Wenn wir miteinander verbunden bleiben, wenn wir in Christus, dem wahren Weinstock, bleiben, dann können wir starke und lebendige Zeugen der Liebe und der Wahrheit sein, können uns die Winde des Augenblicks nicht verbiegen oder brechen. Christus ist die Wurzel, die uns trägt und uns Leben gibt. Danken wir dem Herrn für die Gnade des Priestertums; dafür, daß er uns jeden Tag neu Gelegenheit gibt, in seiner Nachfolge gute Hirten zu sein. Der Heilige Geist stärke euch bei all eurem Wirken!

Saludo cordialmente a los presbíteros de lengua española, y pido a Dios que esta celebración se convierta en un vigoroso impulso para seguir viviendo con gozo, humildad y esperanza su sacerdocio, siendo mensajeros audaces del Evangelio, ministros fieles de los Sacramentos y testigos elocuentes de la caridad. Con los sentimientos de Cristo, Buen Pastor, os invito a continuar aspirando cada día a la santidad, sabiendo que no hay mayor felicidad en este mundo que gastar la vida por la gloria de Dios y el bien de las almas.

“Dobroc i laska pójda w slad za mna przez wszystkie dni mego zycia” (Ps 23,6). Tymi slowami Psalmu pozdrawiam polskich kaplanów. Drodzy Bracia, Chrystus Was wybral, wezwal, napelnil dobrocia i laska. Szczerym sercem podejmujcie kazdego dnia ten dar i niescie go z miloscia tym, do których zostaliscie poslani. Swietymi badzcie i prowadzcie innych do swietosci w Chrystusie. Niech Bóg wam blogoslawi!

Rivolgo infine il mio cordiale saluto ai sacerdoti di Roma e d’Italia; come pure ai Presuli, ai sacerdoti e ai seminaristi di tutti i Riti delle Chiese Orientali cattoliche. So, infine, che in tutte le parti del mondo si sono tenuti moltissimi incontri celebrativi e spirituali con grande e fruttuosa partecipazione. Pertanto, desidero ringraziare Vescovi, sacerdoti e organizzatori ed auguro a tutti di proseguire con rinnovato slancio il cammino di santificazione in questo sacro ministero che il Signore vi ha affidato. Vi benedico di cuore!





Bento XVI Homilias 23510