Ecclesia in Africa PT 103

Universidades e Institutos Superiores


103 « As Universidades e os Institutos Superiores Católicos em África desempenham um papel importante na proclamação da Palavra salvífica de Deus. Eles são sinal do crescimento da Igreja, enquanto, nas suas investigações, integram as verdades e as experiências da fé, e ajudam a interiorizá-las. Assim, estes centros de estudo servem a Igreja, fornecendo-lhe pessoal bem preparado; estudando importantes questões teológicas e sociais; desenvolvendo a teologia africana; promovendo o trabalho de inculturação, especialmente na celebração litúrgica; publicando livros e divulgando o pensamento católico; realizando as pesquisas que lhes são confiadas pelos Bispos; contribuindo para o estudo científico das culturas ».204

Nestes tempos de perturbações sociais generalizadas sobre o Continente, a fé cristã pode iluminar eficazmente a sociedade africana. « Os centros culturais católicos oferecem à Igreja singulares possibilidades de presença e acção no campo das mutações culturais. Eles constituem, com efeito, uma espécie de fórum público que permite fazer conhecer largamente, num diálogo criativo, as convicções cristãs sobre o homem, a mulher, a família, o trabalho, a economia, a sociedade, a política, a vida internacional, o meio ambiente ».205 Tornam-se assim um lugar de escuta, respeito e tolerância.

Meios materiais


104 Precisamente nesta perspectiva, os Padres Sinodais puseram em relevo a exigência de que cada comunidade cristã seja posta em condições de prover por si só, na medida do possível, às suas necessidades.206 Além de pessoal qualificado, a evangelização requer também meios materiais e financeiros notáveis, e as dioceses, não raro, estão bem longe de poder dispor deles em medida suficiente. É, portanto, urgente que as Igrejas particulares de África se proponham o objectivo de chegar quanto antes a prover elas mesmas às suas necessidades, assegurando desse modo a sua auto-suficiência. Por conseguinte, convido encarecidamente as Conferências Episcopais, as dioceses e todas as comunidades cristãs das Igrejas do Continente, a empenharem-se, no que for da sua competência, para que esta auto-suficiência se torne cada vez mais uma realidade. Ao mesmo tempo, faço apelo às Igrejas irmãs de todo o mundo, para que sustentem mais generosamente as Obras Missionárias Pontifícias de tal forma que, através dos seus organismos de ajuda, possam oferecer às dioceses carenciadas auxílios económicos destinados a projectos de investimento, capazes de produzir recursos que conduzam ao seu progressivo auto-financiamento.207 Além disso, não se deve esquecer que uma Igreja só pode chegar à auto-suficiência material e financeira, se o povo que lhe está confiado não sofrer condições de miséria extrema.

CAPÍTULO VI


EDIFICAR O REINO DE DEUS


Reino de justiça e de paz


105 O mandato, que Jesus conferiu aos discípulos ao subir ao céu, é dirigido à Igreja de Deus de todos os tempos e lugares. A Igreja Família de Deus em África deve testemunhar Cristo, também pela promoção da justiça e da paz no Continente e no mundo inteiro. « Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus » (Mt 5,9-10) — diz o Senhor. O testemunho da Igreja deve ser acompanhado pelo empenho convicto de cada um dos membros do Povo de Deus a favor da justiça e da solidariedade. Isto é particularmente importante no caso dos leigos que desempenham funções públicas, já que tal testemunho exige um estado de espírito constante e um estilo de vida de harmonia com a fé cristã.

A dimensão eclesial do testemunho


106 Os Padres Sinodais, ao sublinharem a dimensão eclesial do testemunho, declararam solenemente: « A Igreja deve continuar a cumprir a sua missão profética, e ser a voz dos sem voz ».208

Mas, para o actuar de modo eficaz, a Igreja, enquanto comunidade de fé, deve ser uma vigorosa testemunha da justiça e da paz nas suas próprias estruturas e nas relações entre os seus membros. Corajosamente afirma a Mensagem do Sínodo: « As Igrejas de África reconheceram também que, no seu próprio seio, a justiça nem sempre foi respeitada no confronto daqueles que estão ao seu serviço. Se a Igreja deve testemunhar a justiça, ela reconhece que todo aquele que ouse falar de justiça aos homens, deve esforçar-se ele mesmo por ser justo aos seus olhos. É preciso, pois, examinar com atenção os procedimentos, os bens e o estilo de vida da Igreja ».209

O seu apostolado, no referente à promoção da justiça e, de modo particular, à defesa dos direitos humanos fundamentais, não pode ser deixado à improvisação. Consciente do facto de que, em numerosos países da África, são perpetradas flagrantes violações da dignidade e dos direitos do homem, peço às Conferências Episcopais que estabeleçam, onde ainda não existirem, Comissões « Justiça e Paz », aos vários níveis da vida eclesial. Elas deverão sensibilizar as comunidades cristãs para as suas responsabilidades evangélicas na defesa dos direitos humanos.210


107 Se o anúncio da justiça e da paz é parte integrante da tarefa de evangelização, consequentemente a promoção desses valores deverá fazer parte também do programa pastoral de cada comunidade cristã. É por isso que insisto sobre a necessidade de formar adequadamente todos os obreiros pastorais para tal apostolado: « A formação do clero, dos religiosos e dos leigos, dada nos próprios campos do seu apostolado, acentuará a doutrina social da Igreja. Cada um, segundo o seu estado de vida, tomará consciência dos seus direitos e dos seus deveres, aprenderá o sentido e o serviço do bem comum, e ainda os critérios de uma gestão honesta dos bens públicos e de uma correcta presença na vida política, para que possam intervir, com credibilidade, diante das injustiças sociais ».211

Como corpo organizado no seio da comunidade e da nação, a Igreja tem o direito e o dever de participar plenamente, com todos os meios à sua disposição, na edificação de uma sociedade justa e pacífica. Impõe-se recordar aqui o seu apostolado nos campos da educação, da saúde, da sensibilização social e de outros programas de assistência. Na medida em que contribui, com estas suas actividades, para diminuir a ignorância, melhorar a saúde pública e favorecer maior participação de todos nos problemas da sociedade, em espírito de liberdade e corresponsabilidade, a Igreja cria as condições para o progresso da justiça e da paz.

O sal da terra


108 Na época actual, no contexto de uma sociedade pluralista, é sobretudo através do empenhamento dos católicos na vida pública que a Igreja pode exercer uma influência eficaz. Da parte dos católicos, sejam eles de profissão liberal ou professores, empresários ou funcionários, das forças de segurança ou políticos, espera-se que dêem testemunho de bondade, verdade, justiça e amor de Deus nas suas actividades quotidianas. « O dever do fiel leigo (...) é ser sal e luz do mundo (...), particularmente, lá onde ele é o único a poder intervir ».212

Colaborar com os outros crentes


109 A obrigação de se empenhar a favor do desenvolvimento dos povos não é um dever apenasindividual, e menos ainda individualista, como se fosse possível consegui-lo com os esforços isolados de cada um. Trata-se de um imperativo tanto para cada homem e cada mulher, como paraas sociedades e as nações; de modo particular, é um imperativo para a Igreja Católica e para as outras Igrejas e Comunidades eclesiais, com as quais os católicos estão dispostos a colaborar neste campo.213 Nesse sentido, como os católicos convidam os irmãos cristãos a participarem nas suas iniciativas, assim, acolhendo os convites que lhes são feitos, se declaram prontos a colaborar nas iniciativas por eles promovidas. Com o fim de favorecer o desenvolvimento integral do homem, muito podem conseguir os católicos unidos com os crentes das outras religiões, como, aliás, já sucede em diversos lugares.214

Uma boa gestão da vida pública


110 Os Padres do Sínodo foram unânimes em reconhecer que o maior desafio para realizar a justiça e a paz, na África, consiste em administrar bem a vida pública, nos campos mutuamente conexos da política e da economia. Certos problemas têm origem fora do Continente e, por isso mesmo, não estão totalmente sob o controlo dos governantes e responsáveis nacionais. Mas a Assembleia Sinodal reconheceu que muitos problemas do Continente são consequência de um modo de governar frequentemente viciado pela corrupção. É necessária uma consciência bem desperta, junto com uma firme determinação da vontade, para pôr em acto aquelas soluções que já não é possível adiar mais.

Construir a nação


111 Na vertente política, o árduo processo da construção de unidades nacionais encontra particulares obstáculos, no Continente Africano, dado que a maior parte dos Estados são entidades políticas relativamente recentes. Conciliar profundas diferenças, superar antigos ressentimentos de natureza étnica e integrar-se numa ordem mundial complexa: tudo isto exige grande habilidade na arte de governar. Por esta razão, a Assembleia Sinodal elevou ao Senhor fervorosa prece a fim de que surjam, em África, políticos — homens e mulheres — santos; para que hajam santos Chefes de Estado, que amem profundamente o seu próprio povo e desejem mais servir que servir-se.215

A senda do direito


112 Os alicerces de um bom governo devem estar assentes sobre a base sólida das leis, que protegem os direitos e definem os deveres dos cidadãos.216 Com grande tristeza, tenho de constatar que várias nações africanas sofrem ainda sob regimes autoritários e opressivos que negam aos súbditos a liberdade pessoal e os direitos humanos fundamentais, de modo particular a liberdade de associação e de expressão política, e o direito de escolher os próprios governantes por meio de eleições livres e imparciais. Tais injustiças políticas provocam tensões que frequentemente degeneram em conflitos armados e guerras internas, trazendo consigo graves consequências como carestias, epidemias, destruições, para não falar dos extermínios, do escândalo e da tragédia dos refugiados. Por este motivo, o Sínodo justamente defendeu que uma autêntica democracia, no respeito do pluralismo, é « uma das principais estradas pelas quais a Igreja caminha com o povo. (...) O leigo cristão, comprometido nas lutas democráticas segundo o espírito do Evangelho, é o sinal duma Igreja que se quer presente na construção de um Estado de direito, por toda a parte da África ».217

Gerir o património comum


113 Além disso, o Sínodo faz apelo aos Governos africanos para que adoptem políticas capazes de favorecer o crescimento económico e os investimentos, em ordem à criação de novos postos de trabalho.218 Isto comporta o empenho de prosseguir sãs políticas económicas, estabelecendo correctas prioridades na exploração e distribuição dos recursos por vezes escassos, de forma a prover às carências fundamentais das pessoas e assegurar uma repartição honesta e equitativa dos benefícios e dos encargos. Os Governos têm, em particular, o indeclinável dever de proteger opatrimónio comum contra todas as formas de delapidação e apropriação indevida por parte de cidadãos carentes de sentido patriótico ou de estrangeiros sem escrúpulos. Compete ainda aos Governos empreender adequadas iniciativas para melhorar as condições do comércio internacional.

Os problemas económicos da África são agravados ainda pela desonestidade de alguns governantes corruptos, que, coniventes com interesses privados locais ou estrangeiros, desviam para proveito próprio os recursos nacionais, transferindo dinheiro público para contas privadas em Bancos no estrangeiro. Trata-se de verdadeiros e próprios furtos, qualquer que seja a sua cobertura legal. Faço ardentes votos de que os Organismos Internacionais e pessoas íntegras dos países africanos ou de outros países do mundo saibam preparar os meios jurídicos adequados para fazer regressar os capitais indevidamente subtraídos. Também na concessão de empréstimos é importante informar-se sobre a responsabilidade e transparência dos destinatários.219

A dimensão internacional


114 Enquanto Assembleia de Bispos da Igreja Universal presidida pelo Sucessor de Pedro, o Sínodo foi uma ocasião providencial para avaliar, de forma positiva, o lugar e o papel da África no contexto da Igreja Universal e da comunidade mundial. Tornando-se este mundo em que vivemos cada vez mais interdependente, os destinos e os problemas das diversas regiões vão aparecendo sempre mais interligados. A Igreja, enquanto família de Deus sobre a terra, deve ser o sinal vivo e o instrumento eficaz da solidariedade universal, tendo em vista a edificação de uma comunidade de justiça e paz de dimensões cósmicas. Só surgirá um mundo melhor, se for construído sobre os alicerces sólidos de sãos princípios éticos e espirituais.

Na situação mundial actual, as nações africanas contam-se entre as mais desfavorecidas. É necessário que os países ricos tomem clara consciência do seu dever de sustentar os esforços dos países que lutam para sair da pobreza e da miséria. Aliás, é do próprio interesse das nações ricas optarem pelo caminho da solidariedade, porque só assim será possível garantir à humanidade paz e harmonia duradouras. Consequentemente, a Igreja que vive em países desenvolvidos, não pode ignorar a sua responsabilidade acrescida que deriva do compromisso cristão em prol da justiça e da caridade: visto que todos, homens e mulheres, trazem em si mesmos a imagem de Deus e são chamados a fazer parte da mesma família, redimida pelo Sangue de Cristo, deve ser garantido a cada um o justo acesso aos recursos da terra, que Deus pôs à disposição de todos.220

Não é difícil entrever as numerosas implicações práticas, que tal impostação comporta. Em primeiro lugar, há que trabalhar por melhores relações sócio-políticas entre as nações, assegurando condições de maior justiça e dignidade àquelas que há menos tempo alcançaram a independência e entraram na comunidade internacional. Depois, é preciso prestar ouvidos, com profunda sintonia, ao grito angustiado das nações pobres, que pedem ajuda em âmbitos de particular importância: a desnutrição, a deterioração generalizada da qualidade de vida, a insuficiência dos meios para a formação dos jovens, a carência dos serviços previdenciais e sociais elementares com a consequente persistência de doenças endémicas, a difusão do terrível flagelo da SIDA, o peso gravoso e às vezes insuportável da dívida internacional, o horror das guerras fratricidas alimentadas por um tráfico de armas sem escrúpulos, o espectáculo vergonhoso e lastimável dos deslocados e refugiados. Eis alguns campos onde são necessárias intervenções imediatas, que permanecem oportunas, mesmo se se prevêem insuficientes no quadro global dos problemas.

I. Motivos de preocupação

Devolver a esperança aos jovens


115 A situação económica de pobreza tem um impacto especialmente negativo sobre os jovens. Entram na vida dos adultos com escasso entusiasmo, devido a um presente marcado por não poucas frustrações, e, com esperança ainda menor, olham para o futuro que a seus olhos se desenha negro e triste. Por isso, tendem a fugir das zonas rurais transcuradas e concentram-se nas cidades, que, no fundo, pouco de melhor têm para lhes oferecer. Muitos deles saem para o estrangeiro como se fossem para um exílio, e vivem lá uma existência precária de refugiados económicos. Unido aos Padres do Sínodo, sinto o dever de defender a sua causa: é necessário e urgente encontrar uma solução para a sua impaciência de participar na vida da nação e da Igreja.221

Ao mesmo tempo, porém, desejo dirigir aos próprios jovens um apelo: Queridos jovens, o Sínodo pede-vos para assumirdes o desenvolvimento das vossas nações, amardes a cultura do vosso povo e trabalhardes para a sua revitalização, através da fidelidade à vossa herança cultural, com o aperfeiçoamento do espírito científico e técnico e, sobretudo, pelo testemunho da fé cristã.222

O flagelo da SIDA


116 Neste horizonte de pobreza geral e serviços de saúde inadequados, o Sínodo tomou em consideração o trágico flagelo da SIDA, que semeia sofrimento e morte em numerosas zonas da África. Constatando o papel que comportamentos sexuais irresponsáveis desempenham na difusão dessa doença, formulou esta firme recomendação: « A amizade, a alegria, a felicidade, a paz que o matrimónio cristão e a fidelidade proporcionam, bem como a segurança que a castidade oferece, devem ser continuamente apresentados aos fiéis, particularmente aos jovens ».223

A luta contra a SIDA deve ser assumida por todos. Dando eco à voz dos Padres Sinodais, também eu peço aos obreiros pastorais que levem aos irmãos e irmãs atingidos pela SIDA todo o conforto possível, tanto material como moral e espiritual. Aos cientistas e aos responsáveis políticos de todo o mundo peço, com grande insistência, que, movidos pelo amor e pelo respeito devido a cada pessoa humana, não olhem a despesas na busca dos meios capazes de pôr fim a este flagelo.

« Das espadas, forjai relhas de arado » (cf. Is @IS 2,4@): nunca mais a guerra!


117 A tragédia das guerras que dilaceram a África, foi descrita pelos Padres Sinodais com palavras incisivas: « Há alguns decénios que a África é teatro de guerras fratricidas que dizimam as populações e destroem as suas riquezas naturais e culturais ».224 Tão tormentoso fenómeno, além de causas exteriores à África, tem também causas internas como « o tribalismo, o nepotismo, o racismo, a intolerância religiosa, a sede de poder, levada ao extremo nos regimes totalitários que calcam impunemente os direitos e a dignidade do homem. As populações oprimidas e reduzidas ao silêncio suportam, como vítimas inocentes e resignadas, todas estas situações de injustiça ».225

Não posso deixar de unir a minha voz à dos membros da Assembleia Sinodal para deplorar as situações de indescritível sofrimento, provocadas por tantos conflitos em acto ou latentes, e para pedir a quantos tenham possibilidades de o fazer que se empenhem plenamente em pôr termo a semelhantes tragédias.

Além disso, exorto, unido aos Padres Sinodais, a um efectivo empenho por promover condições de maior justiça social e de exercício mais equitativo do poder, no Continente, para preparar assim o terreno para a paz. « Se queres a paz, trabalha pela justiça ».226 É preferível — e inclusive mais fácil — prevenir as guerras que tentar pará-las depois de terem sido desencadeadas. É tempo que os povos quebrem as suas espadas para delas forjarem relhas de arado, e as suas lanças para com elas fazerem foices (cf. Is
Is 2,4).


118 A Igreja em África — particularmente através de alguns dos seus responsáveis — esteve na primeira linha da busca de soluções negociadas para conflitos armados, surgidos em numerosas zonas do Continente. Esta missão de pacificação deverá continuar, estimulada por aquilo que o Senhor promete nas Bem-aventuranças: « Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus » (Mt 5,9).

Aqueles que alimentam as guerras em África, por meio do tráfico de armas, são cúmplices de odiosos crimes contra a humanidade. A este propósito, faço minhas as recomendações do Sínodo que, depois de ter declarado que « o comércio de armas que semeia a morte é um escândalo », fez apelo a todos os países que vendem armas à África implorando-lhes que « acabem com este comércio », e pediu aos Governos africanos que « renunciem aos excessivos gastos militares, a fim de consagrarem maiores recursos à educação, à saúde e ao bem-estar dos seus povos ».227

A África deve continuar a procurar meios pacíficos e eficazes para que os regimes militares passem o poder aos civis. Contudo, é verdade igualmente que os militares estão chamados a desempenhar a sua função peculiar no país. Por isso, o Sínodo ao mesmo tempo que elogia « os irmãos militares pelo serviço que prestam em nome dos respectivos povos »,228 logo os adverte seriamente de que « deverão responder diante de Deus por todo o acto de violência contra a vida dos inocentes ».229

Refugiados e deslocados


119 Um dos frutos mais amargos das guerras e das dificuldades económicas é o triste fenómeno dos refugiados e deslocados, fenómeno que atingiu, como recorda o Sínodo, dimensões trágicas. A solução ideal acha-se no restabelecimento de uma paz justa, na reconciliação e no desenvolvimento económico. É urgente, pois, que as organizações nacionais, regionais e internacionais resolvam, de forma equitativa e duradoura, os problemas dos refugiados e deslocados.230 Entretanto, porém, dado que o Continente continua a sofrer migrações de refugiados em massa, lanço um premente apelo a fim de que lhes seja levado auxílio material e oferecido apoio pastoral nos lugares onde se encontram, em África ou noutros continentes.

O peso da dívida internacional


120 A questão da dívida das nações pobres às ricas é objecto de grande preocupação para a Igreja, como resulta de numerosos documentos oficiais e de várias intervenções da Santa Sé em diversas ocasiões.231

Retomando agora as palavras dos Padres Sinodais, sinto, em primeiro lugar, o dever de exortar « os Chefes de Estado e os seus Governos, em África, a que não oprimam o povo com dívidas internas e externas ».232 Em seguida, dirijo um premente apelo « ao Fundo Monetário Internacional, ao Banco Mundial, bem como a todos os credores, para que amortizem as dívidas que sufocam os países africanos ».233 Peço, enfim, com insistência « às Conferências Episcopais dos países industrializados para se fazerem advogados desta causa junto dos seus Governos e dos organismos envolvidos ».234 A situação de numerosos países africanos é tão dramática que não consente atitudes de indiferença ou desinteresse.

Dignidade da mulher africana


121 Um dos sinais típicos da nossa época é a crescente tomada de consciência da dignidade da mulher e do seu papel específico na Igreja e na sociedade em geral. « Deus criou o homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou varão e mulher » (Gn 1,27).

Eu mesmo afirmei, em várias ocasiões, a igualdade fundamental e a complementaridade enriquecedora, que existe entre o homem e a mulher.235 O Sínodo aplicou estes princípios à condição das mulheres em África. Os seus direitos e deveres relativamente à edificação da família e à plena participação no desenvolvimento da Igreja e da sociedade foram vigorosamente salientados. Concretamente no que se refere ao âmbito eclesial, é oportuno que as mulheres, uma vez adequadamente formadas, se tornem participantes, segundo níveis apropriados, da actividade apostólica da Igreja.

Na medida em que estejam ainda presentes nas sociedades africanas, a Igreja deplora e condena todos « os costumes e práticas que privam as mulheres dos seus direitos e do respeito que lhes é devido ».236 Muito desejável é que as Conferências Episcopais instituam comissões especiais para aprofundar o estudo dos problemas da mulher, em colaboração com as agências governamentais interessadas, onde seja possível.237

II. Comunicar a boa nova

Seguir Cristo, Comunicador por excelência


122 O Sínodo teve muito a dizer sobre o tema da comunicação social no campo da evangelização da África, à luz das actuais circunstâncias. O ponto teológico de partida é Cristo, o Comunicador por excelência, que participa àqueles que crêem n'Ele a verdade, a vida e o amor partilhado com o Pai celeste e o Espírito Santo. Por isso, « a Igreja toma consciência do dever de promover a comunicação social ad intra e ad extra. É sua intenção favorecer a comunicação no seu seio, por uma melhor difusão da informação entre os seus membros ».238 Isto facilitar-lhe-á a comunicação ao mundo da Boa Nova do amor de Deus, revelado em Jesus Cristo.

Formas tradicionais de comunicação


123 As formas tradicionais de comunicação social não devem, em caso algum, ser subestimadas. Em numerosos ambientes africanos, revelam-se ainda muito úteis e eficazes. Além disso, são « menos caras e mais acessíveis ».239 Nelas se incluem os cânticos e a música, as mímicas e o teatro, os provérbios e os contos. Enquanto veículos da sabedoria e do espírito popular, constituem uma fonte preciosa de conteúdos e de inspiração, inclusive para os meios modernos.

Evangelização do mundo dos meios de comunicação


124 Os modernos mass-media não constituem apenas instrumentos de comunicação; são também um mundo a evangelizar. Quanto às mensagens por eles transmitidas, é preciso certificar-se de que sejam propostas no respeito do bem, do verdadeiro e do belo. Dando eco à preocupação dos Padres do Sínodo, exprimo a minha inquietude quanto ao conteúdo moral de muitíssimos programas que os meios de comunicação social difundem no Continente Africano; de modo particular, acautelo contra a pornografia e a violência, com que se procura invadir as nações pobres. Por outro lado, justamente o Sínodo deplorou « o retrato tão negativo que os mass-media fazem do africano e pede a sua imediata cessação ».240

Todo o cristão se deve preocupar por que os meios de comunicação sejam veículo de evangelização. Mas o cristão que actua como profissional neste sector, tem um papel especial a desempenhar. De facto, é sua obrigação fazer com que os princípios cristãos influam no exer- cício da profissão, inclusive no sector técnico e administrativo. Para que possam desempenhar adequadamente tal missão, é preciso proporcionar-lhes uma sã formação humana, religiosa e espiritual.

Uso dos meios de comunicação social


125 A Igreja de hoje pode dispor de uma certa variedade de meios de comunicação social, tanto tradicionais como modernos. É seu dever fazer o melhor uso deles para difundir a mensagem da salvação. Pelo que diz respeito à Igreja em África, numerosos obstáculos lhe dificultam o acesso a esses meios, não sendo o último o seu elevado preço. Em muitas partes, além disso, existem normas governamentais que impõem, a tal respeito, um controle indevido. É necessário realizar todos os esforços para remover esses obstáculos: os meios de comunicação, privados ou públicos que sejam, devem estar ao serviço de todas as pessoas, sem excepção. Convido, pois, as Igrejas particulares de África a realizarem tudo o que esteja ao seu alcance para conseguir tal objectivo.241

Colaboração e coordenação dos mass-media


126 Os meios de comunicação, sobretudo nas suas formas mais modernas, exercem uma influência que supera qualquer fronteira; neste âmbito, torna-se, pois, necessária uma estreita coordenação que consinta uma colaboração mais eficaz a todos os níveis: diocesano, nacional, continental e universal. Na África, a Igreja tem muita necessidade da solidariedade das Igrejas irmãs dos países mais ricos e avançados do ponto de vista tecnológico. Sempre neste Continente, alguns programas de colaboração continental já em acção, como por exemplo o « Comité Episcopal Pan-Africano de Comunicações Sociais », deveriam ser encorajados e revitalizados. E, como sugeriu o Sínodo, será preciso estabelecer uma colaboração mais estreita noutros sectores como a formação profissional, as estruturas produtoras da rádio e da televisão, e as emissoras de alcance continental.242

CAPÍTULO VII


« VÓS SEREIS MINHAS TESTEMUNHAS ATÉ AOS CONFINS DO MUNDO »



127 Durante a Assembleia Especial, os Padres Sinodais examinaram profundamente a situação africana no seu conjunto, para encorajar a um testemunho de Cristo cada vez mais concreto e credível, no seio de cada Igreja local, de cada nação, de cada região, e no Continente Africano inteiro. Em todas as reflexões e recomendações feitas pela Assembleia Especial, transparece preponderante o desejo de testemunhar Cristo. Nisto, vi presente o espírito do que disse a um grupo de Bispos, em África: « Respeitando, preservando e favorecendo os valores próprios e as riquezas da herança cultural do vosso povo, vós sereis capazes de guiá-lo para uma melhor compreensão do mistério de Cristo, que deve ser vivido nas nobres, concretas e quotidianas experiências da vida africana. Não se trata de adulterar a Palavra de Deus ou de esvaziar a Cruz do seu poder (cf. 1Co 1,17), mas antes de levar Cristo precisamente ao coração da vida africana e de erguer até Cristo a vida africana inteira. Assim, não só o cristianismo aparece importante para a África, mas o próprio Cristo, nos membros do seu Corpo, é africano ».243

Abertos à missão


128 A Igreja em África não está chamada a testemunhar Cristo apenas no continente; de facto, também a ela é dirigida a palavra do Senhor ressuscitado: « Vós sereis minhas testemunhas (...) até aos confins do mundo » (Ac 1,8). Por isso mesmo, durante os debates sobre o tema do Sínodo, os Padres evitaram cuidadosamente toda a tendência de isolamento por parte da Igreja em África. A Assembleia Especial sempre permaneceu na perspectiva do mandato missionário, que a Igreja recebeu de Cristo para O testemunhar pelo mundo inteiro.244 Os Padres Sinodais reconheceram o chamamento que Deus dirige à África para que exerça cabalmente, à escala mundial, o seu papel no plano da salvação do género humano (cf. 1Tm 2,4).


129 Precisamente em função deste compromisso pela catolicidade da Igreja, já os Lineamenta da Assembleia Especial para a África declaravam: « Nenhuma Igreja particular, nem mesmo a mais pobre, poderá ser dispensada da obrigação de partilhar os seus recursos espirituais, temporais e humanos com outras Igreja particulares e com a Igreja Universal (cf. Act Ac 2,44-45) ».245 Por seu lado, a Assembleia Especial sublinhou intensamente a responsabilidade da África pela missão « até aos confins do mundo », nos seguintes termos: « A frase profética de Paulo VI — "vós, Africanos, sois chamados a ser missionários de vós mesmos" — há-de ser entendida deste modo: "sois missionários pelo mundo inteiro" (...). Às Igrejas particulares da África, foi lançado um apelo para a missão fora dos limites das próprias dioceses ».246


130 Aprovando com alegria e gratidão esta declaração da Assembleia Especial, desejo repetir a todos os meus irmãos Bispos da África as palavras que disse, há alguns anos: « A obrigação que a Igreja de África tem de ser missionária no seu próprio interior e de evangelizar o continente, requer a cooperação entre as Igrejas particulares no contexto de cada país africano, no contexto das diferentes nações do continente e também de outros continentes. É assim que a África se integrará plenamente na actividade missionária ».247 E num apelo dirigido anteriormente a todas as Igrejas particulares, de fundação recente ou antiga, eu dizia que « o mundo vai-se unificando cada vez mais, o espírito evangélico deve levar à supressão de barreiras culturais e nacionalistas, evitando qualquer isolamento ».248

A corajosa determinação, manifestada pela Assembleia Especial, de comprometer as jovens Igrejas de África na missão « até aos confins do mundo », reflecte o desejo de seguir, o mais generosamente possível, uma das importantes directrizes do Concílio Vaticano II: « Para que este zelo missionário comece a florescer entre os naturais do país, convém absolutamente que as Igrejas jovens participem efectivamente na missão universal da Igreja, enviando elas também missionários a anunciar o Evangelho por toda a terra, ainda que elas sofram de falta de clero. A comunhão com a Igreja inteira estará, de certo modo, consumada quando, também elas, tomarem parte activa na acção missionária junto de outros povos ».249

Solidariedade pastoral orgânica


131 No início desta Exortação, frisei que, ao anunciar a convocação da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, tinha em vista a promoção de « uma solidariedade pastoral orgânica no âmbito de todo o continente africano e das ilhas contíguas ».250 Tenho a satisfação de constatar que a Assembleia demandou corajosamente tal objectivo. Os debates no Sínodo revelaram a atenção e generosidade dos Bispos por esta solidariedade pastoral e pela partilha dos seus recursos com outros, mesmo quando eles próprios tinham falta de missionários.


132 A propósito disto e precisamente aos meus irmãos Bispos que « são directamente responsáveis comigo pela evangelização do mundo, quer como membros do Colégio Episcopal, quer como Pastores das Igrejas particulares »,251 desejo dirigir uma palavra especial. Na dedicação quotidiana ao rebanho que lhes está confiado, não devem nunca perder de vista as necessidades da Igreja no seu conjunto. Enquanto Bispos católicos, eles não podem deixar de sentir aquela solicitude por todas as Igrejas, que ardia no coração do Apóstolo (cf. 2Co 11,28). Não podem deixar de a sentir, sobretudo quando reflectem e decidem juntos como membros das respectivas Conferências Episcopais, que, através dos organismos de interligação a nível regional e continental, são capazes de perceber e avaliar melhor as urgências pastorais que se levantam noutras partes do mundo. Os Bispos realizam, depois, uma sublime expressão de solidariedade apostólica no Sínodo: este, « entre os assuntos de importância geral, deve atender de modo especial à actividade missionária, que é o principal e o mais sagrado dever da Igreja ».252


133 Além disso, a Assembleia Especial fez justamente notar que, para preparar uma solidariedade pastoral de conjunto em África, é necessário promover a renovação da formação dos sacerdotes. Nunca será demais meditar estas palavras do Concílio Vaticano II: « O dom espiritual, recebido pelos presbíteros na ordenação, não os prepara para uma missão limitada e determinada, mas sim para a missão imensa e universal da salvação, "até aos confins do mundo" (Ac 1,8) ».253

Por este motivo, eu próprio exortei os sacerdotes a « estarem concretamente disponíveis ao Espírito Santo e ao Bispo, para serem enviados a pregar o Evangelho para além das fronteiras do seu país. Isto exigir-lhes-á não apenas maturidade na vocação, mas também uma capacidade fora do comum para se afastarem da própria pátria, etnia e família, bem como uma particular idoneidade para se inserirem, com inteligência e respeito, nas outras culturas ».254

Sinto-me profundamente grato a Deus por saber que sacerdotes africanos, em número sempre maior, têm respondido ao apelo de ser testemunhas « até aos confins do mundo ». Espero ardentemente que esta tendência seja estimulada e consolidada em todas as Igrejas particulares da África.


134 Outro motivo de grande conforto é saber que os Institutos Missionários, presentes em África há muito tempo, « acolhem hoje, numa medida sempre maior, candidatos provenientes das jovens Igrejas que eles fundaram »,255 permitindo, assim, a estas mesmas Igrejas participarem na actividade missionária da Igreja Universal. Igualmente exprimo a minha grata complacência aos novos Institutos Missionários que surgiram no Continente e que hoje enviam os seus membros ad gentes. É um desenvolvimento providencial e maravilhoso, que manifesta a maturidade e o dinamismo da Igreja que está em África.


135 De modo particular, desejo fazer minha a recomendação explícita dos Padres Sinodais a que se estabeleçam as quatro Obras Missionárias Pontifícias em cada Igreja particular e em cada país, como meio para realizar uma solidariedade pastoral orgânica em prol da missão « até aos confins do mundo ». Obras do Papa e do Colégio Episcopal, elas ocupam, com todo o direito, o primeiro lugar, « uma vez que são meios quer para dar aos católicos um sentido verdadeiramente universal e missionário logo desde a infância, quer para promover colectas eficazes de subsídios para bem de todas as missões, segundo as necessidades de cada uma ».256 Um fruto significativo da sua actividade é o « suscitar vocações ad gentes por toda a vida, tanto nas Igrejas antigas com nas mais jovens. Recomendo que orientem cada vez mais para esse fim, o seu serviço de animação ».257


Ecclesia in Africa PT 103