Dominum et vivificantem PT 33

3. O testemunho do princípio: a realidade original do pecado




33 A dimensão do pecado a que acabamos de aludir é a mesma que encontramos no testemunho do «princípio» anotado no Livro do Génesis: 125 no pecado que, segundo a Palavra de Deus revelada, constitui o princípio e a raiz de todos os outros. Encontramos-nos perante a realidade original do pecado na história do homem, ao mesmo tempo que na globalidade da economia da salvação. Pode dizer-se que nesse pecado tem início o «mistério da iniquidade»; mas que o mesmo é também o pecado em relação ao qual o poder redentor do «mistério da piedade» se torna particularmente transparente e eficaz. É o que exprime São Paulo, quando contrapõe à «desobediência» do primeiro Adão a «obediência» de Cristo, o segundo Adão: «a obediência até à morte». 126

Atendo-nos ao testemunho do princípio, o pecado na sua realidade original verifica-se na vontade — e na consciência — do homem, primeiro que tudo como «desobediência»; isto é, como oposição da vontade do homem à vontade de Deus. Esta desobediência original pressupõe a rejeição ou, pelo menos, o afastamento da verdade contida na Palavra de Deus, que cria o mundo. Esta Palavra é o próprio Verbo, que estava «no princípio junto de Deus», que «era Deus» e sem o qual «coisa alguma foi feita de tudo o que existe», porque o «mundo foi feito por meio d'Ele». 127 É o Verbo, que é também Lei eterna, fonte de toda a lei, que regula o mundo e especialmente os actos humanos. Portanto, quando Jesus Cristo, na véspera da sua Paixão, fala do pecado daqueles que «não acreditam n'Ele», nestas suas palavras, repassadas de sofrimento, há como que uma alusão longínqua àquele pecado que, na sua forma original, se iriscreve obscuramente no próprio mistério da criação. Aquele que fala é, de facto, não só o Filho do homem, mas também Aquele que é «o Primogénito de toda a criatura», «porque n'Ele foram criadas todas as coisas: ... criadas por Ele, para Ele estão orientadas todas as coisas». 128 À luz desta verdade, compreende-se que a «desobediência», no mistério do princípio, pressupõe, em certo sentido, a mesma «não-fé», aquele mesmo «não acreditaram», que se repetirá em relação ao mistério pascal. Como dizíamos, trata-se da rejeição ou, pelo menos, do afastamento da verdade contida na Palavra do Pai. Esta rejeição exprime-se, na prática, como «desobediência», por um acto realizado como efeito da tentação, que provém do «pai da mentira». 129 Na raiz do pecado humano está, portanto, a mentira como radical rejeição da verdade contida no Verbo do Pai, mediante o qual se exprime a omnipotência amorosa do Criador: a omnipotencia e conjuntamente o amor «de Deus Pai, Criador do céu e da terra».




34 «O Espírito de Deus», que segundo a descrição bíblica da criação, «adejava sobre as águas», 130 indica o mesmo «Espírito que perscruta as profundezas de Deus»: perscruta as profundezas do Pai e do Verbo-Filho no mistério da criação. Não é somente a testemunha directa do seu recíproco amor, do qual deriva a criação, mas Ele próprio é esse Amor. Ele mesmo, como Amor, é o eterno Dom incriado. N'Ele está a fonte e o início de toda a boa dádiva para as criaturas.O testemunho do princípio, que encontramos em toda a Revelação, começando pelo Livro do Génesis, é unânime quanto a este ponto. Criar quer dizer chamar do nada à existência; portanto, criar quer dizer doar a existência. E se o mundo visível foi criado para o homem, é ao homem, portanto, que o mundo é doado. 131 E, simultaneamente, o mesmo homem recebe na sua própria humanidade, como dom, uma especial «imagem e semelhança» de Deus. Isto significa estar dotado não só de racionalidade e liberdade, como propriedade constitutiva da natureza humana, mas também de capacidade, desde o princípio, para uma relação pessoal com Deus, como «eu» e «tu» e, por conseguinte, capacidade de aliança, que se verificará com a comunicação salvífica de Deus ao homem. Com este pano de fundo da «imagem e semelhança de Deus», «o dom do Espírito» significa, afinal, chamamento à amizade, na qual as transcendentes «profundezas de Deus», são abertas, de algum modo, à participação por parte do homem. O Concílio Vaticano II ensina: «Deus invisível (cf. Col Col 1,15 1Tm 1,17), na riqueza do seu amor, fala aos homens como a amigos (cf. Ex Ex 33,11 Jn 15,14-15) e conversa com eles (cf. Bar Ba 3,38), para os convidar e os admitir à comunhão com Ele». 132




35 Por conseguinte, o Espírito, que «perscruta todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus», conhece desde o princípio «os segredos do homem». 133 Exactamente por isto, só Ele pode plenamente «convencer quanto ao pecado» que se verificou no princípio, aquele pecado que é raiz de todos os outros e o foco de irradiação da pecaminosidade do homem na terra, que jamais se extingue. O Espírito da verdade conhece a realidade originária do pecado, causado na vontade do homem por obra do «pai da mentira» — daquele que já «está julgado». 134 O Espírito Santo convence, pois, o mundo quanto ao pecado em relação com este «juízo»; mas constantemente orientando no sentido da «justiça», que foi revelada ao homem juntamente com a Cruz de Cristo: mediante a «obediência até à morte». 135

Somente o Espírito Santo pode convencer do pecado dos primórdios do ser humano, exactamente Ele que é o Amor do Pai e do Filho, Ele que é Dom, enquanto o pecado do princípio humano consiste na mentira e na recusa do Dom e do Amor, os quais decidem do princípio do mundo e do homem.




36 Segundo o testemunho do princípio — que encontramos na Escritura e na Tradição, em continuidade com a primeira (e também mais completa) descrição no Livro do Génesis — o pecado na sua forma originária é entendido como «desobediência», o que significa simples e directamente transgressão de uma proibição feita por Deus. 136 Mas, à luz de todo o contexto, é também evidente que as raízes desta desobediência devem ser procuradas em profundidade na real situação do homem, globalmente considerada. Chamado à existência, o ser humano — homem e mulher — é uma criatura. A «imagem de Deus», que consiste na racionalidade e na liberdade, denota a grandeza e a dignidade do sujeito humano, que é pessoa. Mas este sujeito pessoal, não obstante isso, é sempre uma criatura: na sua existência e essência depende do Criador. Segundo o Livro do Génesis, «a árvore do conhecimento do bem e do mal» devia exprimir e lembrar constantemente ao homem o «limite» intransponível para um ser criado. É neste sentido que deve ser entendida a proibição da parte de Deus: o Criador proíbe ao homem e à mulher comerem os frutos da árvore do conhecimento do bem e do mal. As palavras da instigação, ou seja da tentação, como está formulada no texto sagrado, induzem a transgredir essa proibição — isto é, a superar o «limite»: «Quando o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e tornar-vos-eis como Deus ("como deuses"), conhecendo o bem e o mal». 137

A «desobediência» significa precisamente «passar além» daquele «limite», que permanece intransponível para a vontade e liberdade do homem, como ser criado. O Deus Criador é, de facto, a única e definitiva fonte da ordem moral no mundo por Ele criado. O homem não pode por si mesmo decidir o que é bom e o que é mau — não pode «conhecer o bem e o mal, como Deus». Sim, no mundo criado, Deus permanece a primeira e soberana fonte para decidir sobre o bem e o mal, mediante a íntima verdade do ser, a qual é reflexo do Verbo, eterno Filho, consubstancial ao Pai. Ao homem, criado à imagem de Deus, o Espírito Santo concede como dom a consciência, a fim de que nela a imagem possa reflectir fielmente o seu modelo, que é, a um tempo, a própria Sabedoria e a Lei eterna, fonte da ordem moral no homem e no mundo. A «desobediência», como dimensão originária do pecado, significa recusa desta fonte, pela pretensão da parte do homem de se tornar fonte autónoma e exclusiva para decidir sobre o bem e o mal. O Espírito que «perscruta as profundezas de Deus» e que, ao mesmo tempo, é para o homem a luz da consciência e a fonte da ordem moral, conhece em toda a sua amplitude esta dimensão do pecado, que se inscreve no mistério do princípio humano. E não cessa de «convencer o mundo» disso mesmo em relação com a Cruz de Cristo no Gólgota.




37 Segundo o testemunho do princípio, Deus na criação revelou-se a si mesmo como omnipotência, que é Amor. Simultaneamente, revelou ao homem que, como «imagem e semelhança» do seu Criador, ele é chamado a participar na verdade e no amor. Esta participação significa uma vida em união com Deus, que é a «vida eterna». 138 Mas o homem, sob a influência do «pai da mentira» afastou-se desta participação. Em que medida? Não, certamente, na medida do pecado de um espírito puro, na medida do pecado de Satanás. O espírito humano é incapaz de atingir uma tal medida. 139 Na própria descrição do Génesis, é fácil notar a diferença de grau entre o sopro do mal por parte daquele que é pecador (ou seja, permanece no pecado) «desde o princípio» 140 e que já «está julgado», 141 e o mal da desobediência da parte do homem.

Esta desobediência, todavia, significa sempre um voltar as costas a Deus e, num certo sentido, o fechar-se da liberdade humana em relação a Ele. Significa também certa abertura desta liberdade — da consciência e da vontade humanas — para com aquele que é o «pai da mentira». Este acto de opção consciente não é só «desobediência», mas traz consigo também uma certa adesão à motivação contida na primeira instigação ao pecado e incessantemente renovada ao longo de toda a história do homem sobre a face da terra: «Deus sabe que no dia, em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e vos tornareis como Deus, conhecendo o bem e o mal».

Encontramo-nos aqui exactamente no centro do que poderia chamar-se o «anti-Verbo», isto é, «a antiverdade». Com efeito, é falseada a verdade do homem: de quem é o homem e de quais são oslimites intransponíveis do seu ser e da sua liberdade. Esta «antiverdade» é possível porque é ao mesmo tempo «falseada» completamente a verdade sobre quem é Deus. Deus criador passa a ser colocado em estado de suspeição, ou, melhor dito, em estado de acusação directamente, na consciência da criatura. Pela primeira vez na história do homem, aparece o perverso «génio da suspeição». Ele procura «falsear» o próprio Bem, o Bem absoluto, que exactamente na obra da criação se manifestou como o Bem que se doa de modo inéfavel: como «bonum diffusivum sui», como Amor criador. Quem poderia «convercer» plenamente «do pecado» isto é, dessa motivação da desobediência originária do homem, se não Aquele único que é o Dom e a fonte de toda a dádiva, se não o Espírito, que «perscruta as profundezas de Deus» e é o Amor do Pai e do Filho?




38 Realmente, apesar de tudo o que testemunha a criação e a economia salvífica a ela inerente, o espírito das trevas 142 é capaz de mostrar Deus como inimigo da própria criatura; e, primeiro que tudo, como inimigo do homem, como fonte de perigo e de ameaça para o homem. Deste modo, é enxertado por Satanás na psicologia do homem o gérmen da oposição relativamente Aquele que, «desde o princípio», há-de ser considerado como inimigo do homem — e não como Pai. O homem é desafiado para se tornar adversário de Deus!

A análise do pecado na sua dimensão originária indica que, da parte do «pai da mentira», ao longo da história da humanidade irá dar-se uma constante pressão para a rejeição de Deus por parte do homem, até ao ódio: «amor sui usque ad contemptum Dei» [amor de si mesmo até ao desprezo de Deus] como se exprime Santo Agostinho. 143 O homem será propenso a ver em Deus, antes de mais nada, uma limitação para si próprio e não a fonte da sua libertação e a plenitude do bem. Vemos isto confirmado na época moderna, quando as ideologias ateias tendem a desarraigar a religião, baseando-se no pressuposto de que ela determinaria a «alienação» radical do homem, como se este fosse expropriado da sua humanidade quando, ao aceitar a ideia de Deus, lhe atribui a Ele aquilo que pertence ao homem e exclusivamente ao homem! Daqui nasce um processo de pensamento e de práxis histórico-sociológica, em que a rejeição de Deus chegou até à declaração da sua «morte», o que é um absurdo: conceitual e verbal! Mas a ideologia da «morte de Deus» ameaça sobretudo o homem, como indica o Concílio Vaticano II, quando, ao analisar a questão da «autonomia das coisas temporais», escreve: «A criatura sem o Criador perde o sentido... Mais ainda, o esquecimento de Deus faz com que a própria criatura se obscureça». 144 A ideologia da «morte de Deus», pelos seus efeitos, facilmente demonstra ser, tanto no plano da teoria como no de prática, a ideologia da «morte do homem».


125 Cf.
Gn 1-3.
126 Cf. Rm 5,19 Ph 2,8.
127 Cf. Jn 1,1 Jn 1,2 Jn 1,3 Jn 1,10.
128 Cf. Col 1,15-18.
129 Cf. Jn 8,44.
130 Cf. Gn 1,2.
131 Cf. Gn 1,26 Gn 1,28-29
132 Const. dogm. sobre a Divina Revelação Dei Verbum, DV 2.
133 Cf. 1Co 2,10 s.
134 Cf. Jn 16,11.
135 Cf. Ph 2,8
136 Cf Gn 2,16 s.
137 Gn 3,5.
138 Cf. Gn 3,22: sobre a « árvore da Vida »; Cf. também Jn 3,36-4,14 Jn 5,24 Jn 6,40 Jn 6,47 Jn 10,28 Jn 12,50 Jn 14,6; Ac 13,48, Rm 6,23; Ga 6,8 1Tm 1,16 Tt 1,2 Tt 3,7 1P 3,22; 1Jn 1,2 1Jn 2,25 1Jn 5,11 1Jn 5,13; Ap 2,7.
139 Cf. S. TOMÁS DE AQUINO, Summa Theol. I-II 80,4 ad 3.
140 1Jn 3,8.
141 Jn 16,11.
142 Cf. Ep 6,12 Lc 22,53.
143 Cf. De Civitate Dei, XIV, 28: CCL 48, 451.
144 Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, GS 36.




4. O Espírito que transforma o sofrimento em amor salvífico




39 «O Espírito, que perscruta as profundezas de Deus», foi chamado por Jesus, no discurso do Cenáculo, o Paráclito.Ele, de facto, desde o princípio «é invocado» 145 para «convencer o mundo quanto ao pecado».É invocado, de modo definitivo, por meio da Cruz de Cristo. Convencer do pecado quer dizer demonstrar o mal nele contido. Isto equivale a desvendar o «mysterium iniquitatis» [mistério da iniquidade]. Não é possível atingir o mal do pecado em toda a sua dolorosa realidade sem «perscrutar as profundezas de Deus». O obscuro mistério do pecado apareceu no mundo, desde o princípio, no quadro da referência ao Criador da liberdade humana. E apareceu como um acto da vontade da criatura-homem contrário à vontade de Deus: contrário a vontade salvífica de Deus; ou melhor, manifestou-se em oposição à verdade, com base na mentira já definitivamente «julgada» — mentira que colocou em estado de acusação, em estado de permanente suspeição o próprio Amor criador e salvífico. O homem seguiu o «pai da mentira», pondo-se contra o Pai da vida e o Espírito da verdade.

O «convencer quanto ao pecado», portanto, não deveria significar também revelar o sofrimento, revelar a dor, inconcebível e inexprimível, que, por causa do pecado, o Livro Sagrado, na sua visão antropomórfica, parece entrever nas «profundezas de Deus» e, em certo sentido, no próprio coração da inefável Trindade? A Igreja, inspirando-se na Revelação, crê e professa que o pecado é of ensa a Deus.O que é que, na imperscrutável intimidade do Pai, do Verbo e do Espírito Santo, corresponde a esta «ofensa», a esta recusa do Espírito que é Amor e Dom? A concepção de Deus, como ser necessariamente perfeitíssimo, exclui, por certo, em Deus, qualquer espécie de sofrimento, derivante de carências ou feridas; mas nas «profundezas de Deus» há um amor de Pai que, diante do pecado do homem, reage, segundo a linguagem bíblica, até ao ponto de dizer: «Estou arrependido de ter criado o homem». 146 «o Senhor viu que a maldade dos homens era grande sobre a terra ... E o Senhor arrependeu-se de ter criado o homem sobre a terra ... O Senhor disse: "Estou arrependido de os ter feito"». 147 Mas o Livro Sagrado, mais frequentemente, fala-nos de um Pai que experimenta compaixão pelo homem, como que compartilhando a sua dor. Esta imperscrutável e indizível «dor» de Pai, em definitivo, gerará sobretudo a admirável economia do amor redentor em Jesus Cristo, para que, através do «mistério da piedade», o amor possa revelar-se mais forte do que o pecado, na história do homem. Para que prevaleça o«Dom»!

O Espírito Santo, que, segundo as palavras de Jesus, «convence quanto ao pecado», é o Amor do Pai e do Filho; e, como tal, é o Dom trinitário e, simultaneamente, a eterna fonte de toda a dádiva divina às criaturas. N'Ele, precisamente, nós podemos conceber como que personificada e actuada de uma maneira transcendente a virtude da misericórdia, que a tradição patrística e teológica, na linha do Antigo e do Novo Testamento, atribui a Deus. No homem, a misericórdia inclui a dor e a compaixão pelas misérias do próximo. Em Deus, o Espírito que é Amor faz com que a consideração do pecado humano se traduza em novas dádivas do amor salvífico. D'Ele, na unidade com o Pai e o Filho, nasce a economia da salvação, que enche a história do homem com os dons da Redenção. Se o pecado, rejeitando o amor, gerou o «sofrimento» do homem que, de algum modo, se estendeu a toda a criação, 148 o Espírito Santo entrará no sofrimento humano e cósmico com uma nova efusão de amor, que redimirá o mundo. E nos lábios de Jesus Redentor, em cuja humanidade se concretiza o «sofrimento de Deus», ressoará com frequência uma palavra em que se manifesta o Amor eterno e cheio de misericórdia: «Misereor» (tenho compaixão). 149 Assim, «o convencer quanto ao pecado», por parte do Espírito Santo, torna-se um manifestar diante da criação «submetida à caducidade» e, sobretudo, no mais íntimo das conciências humanas, que o pecado é vencido pelo sacrifício do Cordeiro de Deus: este tornou-se «até à morte» o servo obediente que, reparando a desobediência do homem, opera a redenção do mundo. É deste modo, que o Espírito da verdade, o Paráclito, «convence quanto ao pecado».




40 O valor redentor do sacrifício de Cristo é expresso com palavras muito significativas pelo autor da Epístola aos Hebreus, o qual, depois de ter recordado os sacrifícios da Antiga Aliança, em que «o sangue dos cordeiros e dos touros ... santifica quanto à pureza da carne», acrescenta: «Quanto mais o sangue de Cristo, em virtude de um Espírito eterno se ofereceu a si mesmo sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas, para servir o Deus vivo!». 150 Embora conscientes de que outras interpretações são possíveis, as nossas considerações sobre a presença do Espírito Santo em toda a vida de Cristo levam-nos a reconhecer neste texto como que um convite a reflectir sobre a presença do mesmo Espírito também no sacrifício redentor do Verbo Incarnado.

Reflictamos primeiro sobre as palavras iniciais que tratam deste sacrifício; depois, separadamente, sobre a «purificação da consciência» que ele opera. Trata-se de facto, de um sacrifício oferecido «em virtude de» (=por obra de) um Espírito eterno», que dele «recebe» a força do «convencer quanto ao pecado» em ordem à salvação. É o mesmo Espírito Santo de que Jesus Cristo será «portador» para os Apóstolos no dia da sua ressurreição, segundo a promesa do Cenáculo, apresentando-se a eles com as feridas da crucifixão, e que lhes «dará» «para a remissão dos pecados»: «Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados». 151

Nós sabemos que «Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré», como dizia Simão Pedro em casa do centurião Cornélio. 152 Conhecemos o mistério pascal da sua «partida», segundo o Evangelho de Sao João. As palavras da Epístola aos Hebreus explicam-nos, agora, de que maneira Cristo «se ofereceu a si mesmo sem mácula a Deus», e como fez isto «em virtude de um Espírito eterno». No sacrifício do Filho do homem, o Espírito Santo está presente e age tal como agia na sua concepção, na sua vinda ao mundo, na sua vida oculta e no seu ministério público. Segundo a Epístola aos Hebreus, na caminhada para a sua «partida», através do Getsémani e do Gólgota, o próprio Jesus Cristo se abriu totalmente na sua humanidade à acção do Espírito-Paráclito que, do sofrimento, faz emergir o eterno amor salvífico. Ele, portanto, foi «atendido pela sua piedade. Apesar de ser Filho de Deus, aprendeu a obedecer pelos sofrimentos suportados». 153 Deste modo, a Epístola demonstra como a humanidade, submetida ao pecado nos descendentes do primeiro Adão, se tornou em Jesus Cristo perfeitamente submetida a Deus e a ele unida, e, ao mesmo tempo, cheia de misericórdia para com os homens. Aparece assim uma nova humanidade que, em Jesus Cristo, mediante o sofrimento da Cruz, retornou ao amor, traído por Adão com o pecado. Esta nova humanidade reencontra-se na mesma fonte divina do dom original: no Espírito que «perscruta ... as profundezas de Deus» e que é ele próprio Amor e Dom.

O Filho de Deus, Jesus Cristo — como homem — , na oração ardente da Sua paixão, permitiu ao Espírito Santo, que já tinha penetrado até ao mais profundo a sua humanidade, transformá-la num sacrifício perfeito mediante o acto da sua morte, como vítima de amor na Cruz. Foi Ele, sozinho, quem fez esta oblação. Como único Sacerdote, «ofereceu-se a si mesmo sem mácula a Deus». 154 Na sua humanidade Ele era digno de se tornar um tal sacrifício, porque Ele só era «sem mácula». Mas ofereceu-o «em virtude de um Espírito eterno»: o que equivale a dizer que o Espírito Santo agiu de um modo especial nesta autodoação absoluta do Filho do homem, para transformar o sofrimento em amor redentor.




41 No antigo Testamento, por mais de uma vez se fala do «fogo do céu», que queimava as oferendas apresentadas pelos homens. 155 Por analogia, pode dizer-se que o Espírito Santo é «fogo do céu» que age no mais profundo do mistério da Cruz. Provindo do Pai, Ele encaminha para o Pai o sacrifício do Filho, introduzindo-o na divina realidade da comunhão trinitária. Se o pecado gerou o sofrimento, agora o sofrimento de Deus em Cristo crucificado adquire, pelo Espírito Santo, a sua plena expressão humana. Encontramo-nos assim diante de um mistério paradoxal de amor: em Cristo, sofre um Deus rejeitado pela sua própria criatura: «Não crêem em mim!»; mas, ao mesmo tempo, à profundeza deste sofrimento — e indirectamente à profundeza do próprio pecado «de não ter acreditado» — o Espírito Santo vai buscar uma nova medida do dom feito ao homem e à criação desde o princípio. Nas profundezas do mistério da Cruz está operante o Amor, que reconduz o homem a participar novamente na vida, que está no próprio Deus.

O Espírito Santo como Amor e Dom desce, em certo sentido, ao próprio coração do sacrifício que é oferecido na Cruz. Referindo-nos à tradição bíblica podemos dizer: Ele consuma este sacrifício com o fogo do Amor, que une o Filho ao Pai na comunhão trinitária. E dado que o sacrifício da Cruz é um acto próprio de Cristo, também neste sacrifício Ele «recebe» o Espírito Santo. E recebe-o de tal modo, que depois Ele mesmo — e Ele somente com Deus Pai — o pode «dar» aos Apóstolos, à Igreja e à humanidade. Ele só o «envia» de junto do Pai. 156 Ele só se apresenta diante dos Apóstolos reunidos no Cenáculo, «sopra sobre eles» e diz: «Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados», 157 como tinha preanunciado João Baptista: «Ele baptizar-vos-á com o Espírito Santo e com O fogo». 158 Com estas palavras de Jesus o Espírito Santo é revelado e ao mesmo tempo é tornado presente como Amor que está operante no mais profundo do mistério pascal, como fonte do poder salvífico da Cruz de Cristo, como Dom da vida nova e eterna.

Esta verdade sobre o Espírito Santo é expressa quotidianamente na Liturgia romana, quando o Sacerdote, antes da comunhão, profere estas palavras significativas: «Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus vivo, que, por vontade do Pai, cooperando o Espírito Santo, destes vida ao mundo pela vossa morte ...». E na Oração Eucarística III, referindo-se à mesma economia salvífica, o Sacerdote pede a Deus que o Espírito Santo «faça de nós uma of erenda permanente» que lhe seja agradável.


145 Em grego o verbo é parakaleiu = invocar, chamar a si.
146 Cf.
Gn 6,7.
147 Gn 6,5-7.
148 Cf. Rm 8,20-22.
149 Cf. Mt 15,32 Mc 8,2.
150 He 9,13 s.
151 Jn 20,22 s.
152 Ac 10,38.
153 He 5,7 s.
154 He 9,14
155 Cf. Lv 9,24 1R 18,38 2Ch 7,1.
156 Cf. Jn 15,26.
157 Jn 20,22 s.
158 Mt 3,11.




5. «O sangue que purifica a consciência»




42 Dissémos que, no ponto culminante do mistério pascal, o Espírito Santo é definitivamente revelado e tornado presente de uma maneira nova. Cristo ressuscitado diz aos Apóstolos: «Recebei o Espírito Santo». Deste modo, é revelado o Espírito Santo, porque as palavras de Cristo constituem a confirmação das promessas e dos anúncios do discurso do Cenáculo. E por isso mesmo o Paráclito é tornado presente de uma maneira nova. Ele, na realidade, actuava já desde o início no mistério da criação e ao longo de toda a história da Antiga Aliança de Deus com o homem. A sua acção foi plenamente confirmada pela missão do Filho do homem como Messias, que veio pelo poder do Espírito Santo. No ápice da missão messiânica de Jesus, o Espírito Santo torna-Se presente no mistério pascal em toda a sua subjectividade divina: como Aquele que deve continuar agora a obra salvífica radicada no sacrifício da Cruz. Esta obra, sem dúvida, foi confiada por Jesus a homens: aos Apóstolos e à Igreja. No entanto, nestes homens e por meio deles, o Espírito Santo permanece o transcendente sujeito protagonista da realização desta obra, no espírito do homem e na história do mundo: Ele, o Paráclito invisível e, simultaneamente, omnipresente! O Espírito que «sopra onde quer». 159

As palavras pronunciadas por Cristo ressuscitado, no «primeiro dia depois do sábado», dão particular relevo à presença do Paráclito-Consolador, como Aquele que «convence o mundo quanto ao pecado, quanto à justiça e quanto ao juízo». Só com esta referência se explicam, efectivamente, as palavras que Jesus põe em relação directa com o «dom» do Espírito Santo aos Apóstolos. Ele diz: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos». 160 Jesus assim confere aos Apóstolos o poder de perdoar os pecados, para que eles o transmitam aos seus sucessores na Igreja. Todavia, este poder, concedido aos homens, pressupõe e inclui a acção salvífica do Espírito Santo. Tornando-Se «luz dos corações» 161 — isto é, das consciências — o Espírito Santo «convence quanto ao pecado», ou seja, leva o homem a conhecer o seu mal e, ao mesmo tempo, orienta-o para o bem. Graças à multiplicidade dos seus dons — pelo que Ele é invocado como o «septiforme» — o poder salvífico de Deus pode atingir toda a espécie de pecados do homem. Na realidade, como diz São Boaventura, «todos os males são destruídos, ao mesmo tempo que são proporcionados todos os bens». 162

Sob o influxo do Consolador, realiza-se, portanto, a conversão do coração humano, que é a condição indispensável para o perdão dos pecados. Sem uma verdadeira conversão, que implica uma contrição interior, e sem um sincero e firme propósito de mudança, os pecados permanecem «não-perdoados» (retidos), como diz Jesus e, com Ele, toda a Tradição da Antiga e da Nova Aliança. Com efeito, as primeiras palavras pronunciadas por Jesus no início do Seu ministério, segundo o Evangelho de São Marcos, são as seguintes: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho». 163 Temos uma confirmação desta exortação no «convencer quanto ao pecado» que o Espírito Santo empreende, de uma maneira nova, em virtude da Redenção operada pelo Sangue do Filho do homem. Por esta razão a Epístola aos Hebreus afirma que este «sangue purifica a consciência». 164 Portanto, este sangue abre ao Espírito Santo, em certo sentido, o caminho para o íntimo do homem, isto é, para o santuário das consciências humanas.




43 O Concílio Vaticano II recordou a doutrina católica sobre a consciência, ao falar da vocação do homem e, em particular, da dignidade da pessoa humana. É a consciência, precisamente, que determina de modo específico essa dignidade. Ela, efectivamente, é «o centro mais secreto do homem, o santuário onde ele se encontra a sós com Deus, cuja voz ressoa no seu íntimo». Voz que, claramente ... «ressoa aos ouvidos do coração: faz isto, evita aquilo». Tal capacidade de ordenar o bem e proibir o mal, inserida pelo Criador no homem é a propriedade principal do sujeito pessoal. Mas, ao mesmo tempo, «no fundo da sua consciência o homem descobre a presença de uma lei, que ele não impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer». 165 A consciência, portanto, não é uma fonte autónoma e exclusiva para decidir o que é bom e o que é mau; pelo contrário, nela está inscrito profundamente um princípio de obediência relacionado com a norma objectiva, que fundamenta e condiciona a conformidade das suas decisões com os mandamentos e as proibições que estão na base do comportamento humano, como já transparece naquela página do Livro do Génesis, a que fizemos referência. 166 Precisamente neste sentido, a consciência é o «santuário íntimo» onde «a voz de Deus se faz ouvir». E é a «voz de Deus» sempre, mesmo quando o homem reconhece exclusivamente nela o princípio da ordem moral de que humanamente não se pode duvidar, eventualmente sem referência directa ao Criador: a consciência encontra sempre o seu fundamento e a sua justificação nesta referência.

O «convencer quanto ao pecado», sob o influxo do Espírito da verdade, de que fala o Evangelho, não pode realizar-se no homem por outro meio que não seja o da consciência. Se a consciência for recta, ela servirá «para resolver segundo a verdade os problemas morais, que se apresentam tanto na vida individual, como na vida social». Então, «as pessoas e os grupos sociais estarão longe da arbitrariedade cega e procurarão conformar-se com as normas objectivas da moralidade». 167

O fruto da consciência recta é, primeiro que tudo, o chamar pelo seu nome o bem e a mal, como faz, por exemplo, a mesma Constituição pastoral a que acabámos de aludir: «Tudo aquilo que se opõe à própria vida, como sejam os homicídios de qualquer espécie, os genocídios, os abortos, a eutanásia e mesmo o suicídio voluntário; tudo aquilo que constitui uma violação da integridade da pessoa humana, como sejam as mutilações, as torturas morais ou físicas, as pressões psicológicas; tudo aquilo que ofende a dignidade do homem, como sejam as condições infra-humanas de vida, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravatura, a prostituição, o comércio de mulheres e de jovens, ou ainda as condições de trabalho degradantes, que reduzem os operários a meros instrumentos de lucro, sem ter em conta a sua personalidade livre e responsável». E, depois de ter chamado pelo seu nome os múltiplos pecados tão frequentes e difundidos no nosso tempo, acrescenta: «Todas estas coisas e outras semelhantes são, na verdade, uma infâmia; ao mesmo tempo que corrompem a civilização humana, desonram mais os que a elas se entregam do que aqueles que sofrem a injúria; e ofendem gravemente a honra devida ao Criador». 168

Ao chamar pelo nome os pecados que mais desonram o homem, e demonstrando que eles são um mal moral que influi negativamente sobre qualquer balanço do progresso da humanidade, o Concílio apresenta tudo isso como uma etapa «de uma luta dramática entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas», que caracteriza «toda a vida humana, quer individual quer colectiva». 169 A Assembleia do Sínodo dos Bispos de 1983, sobre a reconciliação e a penitência, apresentou ainda em termos mais precisos o significado pessoal e social do pecado do homem. 170




44 No Cenáculo, na véspera da sua Paixão, e depois na tarde da Páscoa, Jesus Cristo apelou para o Espírito Santo como para Aquele que testemunha que na história da humanidade o pecado continua a existir. Todavia, o pecado está submetido ao poder salvífico da Redenção. O «convencer o mundo quanto ao pecado» é algo que não pára pelo facto de ele ser chamado com o seu nome e identificado por aquilo que é, em toda extensão da sua natureza. Ao convencer o mundo quanto ao pecado, o Espírito da verdade encontra-se com a voz das consciências humanas.

Dessa maneira se chega a por à mostra as raízes do pecado, que se encontram no íntimo do homem, como também evidencia a Constituição pastoral já citada: «Na verdade, os desequilíbrios de que sofre o mundo contemporâneo estão ligados com un desequilíbrio mais fundamental, que se enraíza no coração do homem. São muitos os elementos que se combatem no próprio homem. Por um lado, como criatura, ele experimenta as suas múltiplas limitações; por outro lado, sente-se ilimitado nos seus desejos e chamado a uma vida superior. Atraído por muitas solicitações, ele vê-se a todo o momento constrangido a escolher entre elas e a renunciar a algumas. Mais ainda, fraco e pecador, faz muitas vezes o que não quer e não faz o que desejaria fazer». 171 O texto conciliar faz aqui referência às palavras de São Paulo que são bem conhecidas. 172

O «convencer quanto ao pecado», que acompanha a consciência humana todas as vezes que ela reflecte em profundidade sobre si mesma , leva, pois, à descoberta das raízes do mesmo pecado no homem, como também dos condicionamentos da própria consciência no curso da história. Reencontramos assim a realidade originária do pecado, da qual já falamos. O Espírito Santo «convence quanto ao pecado» em relação ao mistério do princípio, indicando o facto de que o homem é um ser-criado e que, portanto, está em total dependência ontológica e ética do Criador, e recordando, ao mesmo tempo, a condição pecadora hereditária da natureza humana. Mas o Espírito Santo-Consolador «convence quanto ao pecado» sempre em relação com a Cruz de Cristo. Nesta relação, o cristianismo rejeita toda a «fatalidade» do pecado. «Um duro combate contra os poderes das trevas atravessa, com efeito, toda a história humana; começado nas origens do mundo, durará, como diz o Senhor, até ao último dia», conforme ensina o Concílio. 173 «Mas o Senhor em pessoa veio para libertar o homem e dar-lhe a força». 174 O homem, portanto, longe de se deixar «enredar» na sua condição de pecador, apoiando-se na voz da própria consciência, «deve combater sem tréguas para aderir ao bem; nem pode conseguir a sua unidade interior se não a preço de grandes esforços e com a ajuda da graça de Deus». 175 O Concílio justamente encara o pecado como factor da ruptura, que pesa tanto sobre a vida pessoal como sobre a vida social do homem; mas, ao mesmo tempo, recorda vigorosamente a possibilidade da vitória.




45 O Espírito da verdade, que «convence o mundo quanto ao pecado», encontra-se com os esforços da consciência humana, de que falam os textos conciliares de maneira muito sugestiva. Estes esforços da consciência determinam também os caminhos das conversões humanas: voltar as costas ao pecado, para reconstruir a verdade e o amor no próprio coração do homem. Sabe-se que a consciência não só manda ou proíbe, mas julga à luz das ordens e proibições interiores. Ela é também a fonte dos remorsos: o homem sofre interiormente por causa do mal cometido. Não será este sofrimento como que um eco longínquo daquele «arrependimento por ter criado o homem», que o Livro Sagrado, com uma linguagem antropomórfica, atribui a Deus? Um eco daquela «reprovação» que, inscrevendo-se no «coração» da Santíssima Trindade, se traduz na dor da Cruz, na obediência de Cristo até à morte, em virtude do amor eterno? Quando o Espírito da verdade, que «convence o mundo quanto ao pecado», permite à consciência humana participar naquela dor, então a dor da consciência torna-se particularmente profunda, mas também particularmente salvífica. E assim, mediante um acto de contrição perfeita, opera-se a conversão autêntica do coração: é a «metánoia» evangélica.

Os esforços do coração humano, os esforços da consciência, graças aos quais se opera esta «metánoia» ou conversão, são o reflexo do processo pelo qual a reprovação é transformada em amor salvífico, que sabe sofrer. O dispensador escondido desta força de salvação é o Espírito Santo: Ele, que é chamado pela Igreja «luz das consciências», penetra e enche as «profundezas dos corações» humanos. 176 Mediante esta conversão no Espírito Santo, o homem abre-se ao perdão e à remissão dos pecados, como testemunham as palavras pronunciadas por Jesus na tarde da Páscoa. E em todo este admirável dinamismo da conversão-remissão, é comSrmada a verdade daquilo que escreve Santo Agostinho sobre o mistério do homem, ao comentar as palavras do Salmo: «Um abismo chama outro abismo». 177 É exactamente em relação a esta «profundidade abissal» do homem, da consciência humana, que se cumpre a missão do Filho e do Espírito Santo. O Espírito Santo «vem» em virtude da «partida» de Cristo no mistério pascal; vem em cada caso concreto de conversão-remissão, em virtude do sacrifício da Cruz: nele, realmente, «o sangue de Cristo... purifica a nossa consciência das obras mortas, para servir o Deus vivo». 178 Cumprem-se assim, continuamente, as palavras sobre o Espírito Santo apresentado como «um outro Consolador», as palavras dirigidas no Cenáculo aos Apóstolos e indirectamente a todos: «Vós o conheceis porque Ele habita entre vós e em vós estará». 179

159 Cf
Jn 3,8
160 Jn 20,22 5.
161 Cf. Sequêcia Veni, Sancte Spiritus.
162 S. BOAVENTURA, De septem donis Spiritus Sancti, Collatio II, 3: Ad Claras Aquas, V, 463.
163 Mc 1,15.
164 Cf. He 9,14.
165 Cf. Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, GS 16.
166 Cf. Gn 2,9 Gn 2,17.
167 CONC. ECUM. VAT. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, GS 16.
168 Ibid., GS 27.
169 Cf. Ibid., GS 13.
170 Cf. JOÃO PAULO II, Exort. Apost. pós-sinodal Reconciliatio et Paenitentia (2 de Dezembro de 1984), RP 16: AAS 77 (1985), PP. 213-217.
171 Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, GS 10.
172 Cf. Rm 7,14-15 Rm 7,19.
173 Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, GS 37.
174 Ibid., GS 13.
175 Ibid., GS 37.
176 Cf. Sequência do Pentecostes: « Reple cordis intima ».
177 Cf. S. AGOSTINHO, Enarr. in Ps. XLI, 13: CCL 38, 470: « Que espécie de abismo é este e qual é o abismo que invoca? Se abismo quer dizer profundidade, não pensamos nós, porventura, que o coração do homem é um abismo? O que há, efectivamente, que seja mais profundo do que este abismo? Os homens podem falar, podem ser vistos através das acções que fazem com os seus membros, podem ser ouvidos quando falam; e, no entanto, de quem poderemos nós penetrar o pensamento, ou de quem poderemos nós sondar o coração? ».
178 Cf. He 9,14.
179 Jn 14,17.



Dominum et vivificantem PT 33