AUDIÊNCIAS 1980 - AUDIÊNCIA GERAL


JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 18 de Junho de 1980




O domínio «sobre» o outro na relação interpessoal

1. Em Génesis 3 é descrito com suspreendente precisão o fenómeno da vergonha, aparecida no primeiro homem juntamente com o pecado original. Uma atenta reflexão sobre este texto consente-nos deduzir que a vergonha, sucedida à absoluta confiança relacionada com o anterior estado de inocência original na recíproca relação entre o homem e a mulher, tem dimensão mais profunda. E preciso a este propósito reler até ao fim o capítulo 3.° do Génesis, e não limitar a leitura ao versículo 7.° nem ao texto dos versículos 10-11, que encerram o testemunho acerca da primeira experiência da vergonha. Eis que, em seguida a esta narrativa, se rompe o diálogo de Deus-Javé com o homem e a mulher, e inicia-se um monólogo. Javé dirige-se à mulher e fala primeiro das dores do parto, que doravante acompanharão este: «Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, os teus filhos hão-de nascer entre dores...» (Gn 3,1).

A isto segue-se a expressão característica da futura relação entre ambos, do homem e da mulher: «Para com o teu marido será o teu instinto, mas ele dominar-te-á» (Gn 3,16)

2. Estas palavras, do mesmo modo que as do Génesis 2, 24, têm carácter de perspectiva. A vigorosa formulação de 3, 16 parece dizer respeito ao conjunto dos factos, que em certo modo parecem ter surgido já na original experiência da vergonha, e sucessivamente se manifestaram em toda a experiência interior do homem «histórico». A história das consciências e dos corações humanos terá em si a contínua confirmação das palavras contidas em Génesis 3, 16. As palavras pronunciadas ao princípio parecem referir-se a uma particular «diminuição» da mulher a respeito do homem. Mas não há motivo para entendê-la como diminuição ou desigualdade social. Imediatamente porém a expressão «para com o teu marido será o teu instinto, mas ele dominar-te-á», indica outra forma de desigualdade, que a mulher sentirá como falta de plena unidade precisamente no vasto contexto da união com o homem, união a que ambos foram chamados segundo Génesis 2, 24.

3. As palavras de Deus-Javé «para com o teu marido será o teu instinto, mas ele dominar-te-á» (Gn 3,1) não dizem respeito exclusivamente ao momento da união do homem e da mulher, quando ambos se unem a ponto de se tornarem uma só carne (cfr. Gén Gn 2,24), mas referem-se ao amplo contexto das relações mesmo indirectas da união conjugal no seu conjunto. Pela primeira vez o homem é aqui definido como «marido». Em todo o contexto da narrativa javista tais palavras têm em vista sobretudo uma infracção, uma fundamental perda da primitiva comunidade-comunhão de pessoas. Esta deveria tornar reciprocamente felizes o homem e a mulher mediante a busca de uma simples e pura união recíproca oferta de si mesmos, isto é, a experiência do dom da pessoa expresso com a alma e com o corpo, com a masculinidade e a feminilidade («carne da minha carne»: Gn 2,23), e por fim mediante a subordinação de tal união à bênção da fecundidade com a «procriação».

4. Parece portanto que, nas palavras dirigidas por Deus-Javé à mulher, se encontra uma ressonância mais profunda da vergonha, que ambos começaram a sentir depois da ruptura da Aliança original com Deus. Nelas encontramos, além disso, mais plena motivação de tal vergonha. De modo mais discreto, e apesar disso bastante decifrável e expressivo, Génesis 3, 16 atesta como aquela original e beatificante união conjugal das pessoas será deformada no coração do homem pela concupiscência.Estas palavras são directamente dirigidas à mulher, mas referem-se ao homem, ou antes aos dois juntos.

5. Já a análise de Génesis 3, 7, feita precedentemente, demonstrou que na nova situação, depois da ruptura da Aliança original com Deus, o homem e a mulher se encontram entre si, em vez de unidos, mais divididos ou mesmo contrapostos por causa da masculinidade ou feminilidade de cada um. A narrativa bíblica, pondo em relevo o impulso instintivo que impelira ambos a cobrirem os corpos, descreve ao mesmo tempo a situação em que o homem, como varão ou mulher — primeiro era perfeitamente varão mulher — se sente mais apartado do corpo, como da fonte da original união na humanidade («carne da minha carne»), e mais contraposto ao outro precisamente com base no corpo e no sexo. Tal contraposição não destrói nem exclui a união conjugal, querida pelo Criador (cfr. Gén Gn 2,24), nem os seus efeitos procriativos; mas confere à prática desta união outra direcção, que será própria do homem da concupiscência. Disto precisamente fala Génesis 3, 16.

A mulher cujo «instinto será para com o (próprio) marido» (Gn 3,16), e o homem que responde a tal instinto, como lemos «dominar-te-á», formam indubitavelmente o mesmo par humano, o mesmo matrimónio de Génesis 2, 24, mais, a própria comunidade de pessoas: todavia, são agora alguma coisa de diverso. Já não são apenas chamados à união e unidade, mas também ameaçados pela insaciabilidade daquela união e unidade, que não cessa de atrair o homem e a mulher exactamente porque são pessoas, chamadas desde a eternidade a existir «em comunhão». À luz da narrativa bíblica, o pudor sexual tem o seu profundo significado, que está em relação precisamente com a não saciada aspiração a realizar, na «união conjugal do corpo» (Gn 2,24), a comunhão recíproca de pessoas.

6. Tudo isto parece confirmar, sob vários aspectos, que na base da vergonha, de que o homem «histórico» se tornou participante, está a tríplice concupiscência de que trata a primeira Carta de João 2, 16: não só a concuspicência da carne, mas também «a concupiscência dos olhos e a soberba da vida». A expressão relativa ao «domínio» («ele dominar-te-á») de que nos fala Génesis 3, 16 não indica porventura esta última forma de concuspicência? O domínio «sobre» o outro — do homem sobre a mulher — não muda acaso essencialmente a estrutura de comunhão na relação interpessoal? Não transpõe para a dimensão de tal estrutura alguma coisa que faz do ser humano um objecto, em certo sentido concupiscível para os olhos?

Eis as interrogações que nascem da reflexão sobre as palavras de Deus-Javé segundo Génesis 3, 16. Essas palavras, pronunciadas quase no limiar da história humana depois do pecado original, desvelam-nos não só a situação exterior do homem e da mulher, mas consentem-nos também penetrar no interior dos profundos mistérios do coração de ambos.

Saudações

Aos peregrinos de lingua inglesa

Entre as numerosas Religiosas que hoje se encontram aqui presentes, estão as Irmãs Irlandesas do Instituto da Bem-aventurada Virgem Maria. Viestes a Roma para o início do vosso Capítulo Geral e para renovar a própria fidelidade a Jesus Cristo e à sua Esposa, a Igreja.

Como a vossa Fundadora, Mary Ward, também vós fostes chamadas a dar exemplo de coragem e generosidade, que são componentes da verdadeira fidelidade — a coragem para enfrentar os sacrifícios necessários, aptos a suster o seu carisma religioso, que passou a ser vosso, a defesa e propagação da fé, e a promoção da vida e da doutrina cristãs; e a generosidade para prosseguir estes objectivos com perseverança sob a bandeira da Cruz de Cristo, juntamente com a sua Mãe Maria.

A Igreja garante-vos hoje que estes objectivos são efectivamente realizados mediante esforços sustidos em autêntica educação católica. E a Igreja pede-vos que continueis a ter uma vida de consagração alegre, expressa na oração. Os fiéis crentes olham para vós e pedem-vos que repercutais, como Maria, aquela feminilidade consagrada, que é sempre espiritualmente frutuosa quando leva a salvação de Jesus ao mundo.

E a paz de Cristo, queridas Irmãs de Loreto, esteja sempre convosco!

A dois grupos corais

As minhas especiais boas-vindas são também para outros grupos presentes: para os visitantes da Suécia que organizaram o distinto Coro da Igreja no Lycksele. Estou-vos grato pela honra da vossa presença, e pelo prazer que nos proporcionastes a todos com as vossas canções.

Com particular afecto saúdo o Coro da Africa do Sul da "Township of Soweto. Soweto é-me querida como o era a Paulo VI. Peço-vos que leveis a minha bênção às vossas famílias e a todos os que vos são queridos. E Deus abençoe a África inteira!

Aos neo-sacerdotes

Desejo dirigir uma palavra de afectuosa saudação e felicitações sinceras aos neo-Sacerdotes presentes nesta Audiência e pertencentes a várias Nações.

Menciono de modo particular os neo-sacerdotes da diocese de Brescia, acompanhados dos seus Superiores e das suas famílias.

Caríssimos, oxalá a vossa vida seja sempre conforme à de Jesus Cristo, que vos tornou partícipes do dom admirável do Sacerdócio ministerial. A Igreja inteira olha para vós com expectativa trepidante e esperança serena, e eleva a Deus a sua fervorosa oração para que sejais sempre dignos e zelosos dispensadores dos mistérios de Deus. Para vós, para os vossos pais e para as pessoas que vos são queridas a minha Bênção Apostólica.

A uma peregrinação de Senigallia (Itália)

Saúdo também o grupo de sacerdotes da diocese de Senigallia que, juntamente com o seu Bispo, D. Odo Fusi-Pecci, vem concluir nos túmulos dos Apóstolos uma significativa peregrinação de fé e de comunhão. Caríssimos filhos, ao manifestar-vos a minha gratidão por este testemunho de adesão à Cátedra de Pedro, que o Pontífice Pio IX, filho ilustre da vossa Terra, ocupou dignamente em tempos atormentados, desejo exortar-vos a que imiteis as suas virtudes, esforçando-vos, de modo particular, por serdes também vós, como Ele, pastores segundo o coração de Cristo.

Uma saudação e parabéns, por fim, aos sacerdotes da diocese de Como que celebram o 38° aniversário de ordenação. A eles e a cada sacerdote aqui presente concedo, com particular afecto, a minha Bênção.

Aos vários grupos de Seminaristas

Não posso deixar de dirigir, nesta circunstância, a minha palavra de cordial saudação e de paterno encorajamento também aos Seminaristas que participam neste encontro.

Preparai-vos, caríssimos filhos, com grande empenho para alcançar o altíssimo ideal da vossa juventude e de toda a vossa vida. O Sacerdócio, para o qual fostes chamados, exige oração, meditação, estudo e sacrifício. Mas a alegria de servir o Senhor e de contribuir, de modo particular, para a edificação do Povo de Deus, cumulará em abundância os vossos corações, abertos e disponíveis ao convite de Jesus.

A todos vós a minha Bênção Apostólica

Aos Jovens

Dirijo agora uma cordialíssima saudação a todos os jovens, aos rapazes e às meninas que participam nesta Audiência. Caríssimos, as vossas fadigas escolares acabaram ou estão para acabar e as férias atendem-vos. É justo que descanseis e vos divirtais; mas o Papa recomenda-vos também que não esqueçais nunca os vossos compromissos religiosos. O cristão é sempre e em toda a parte cristão: em casa, na escola, no trabalho, no descanso, no divertimento. São Luís de Gonzaga, cuja festa celebraremos daqui a poucos dias, vos ajude a ser fiéis à vocação cristã. Com estes votos abençoo-vos de todo o coração.

Aos Doentes

A vós, Doentes, presentes neste encontro, e a todos aqueles que sofrem na corpo e na alma, gostaria de recordar, com profundo afecto, quanto era grande e comovente a predilecção de Jesus pelos que sofriam. Sabei levar com coragem a vossa cruz, juntamente com Jesus paciente, apoiados pela vossa fé e pelo vosso amor a Cristo. A minha Bênção, que concedo, a vós e aos vossos familiares e amigos, vos acompanhe.

Aos jovens Casais

Uma especial saudação também aos jovens Casais. Caríssimos, desejo ardentemente que o vosso amor recíproco, fortificado pelo Sacramento do Matrimónio, seja imperecível e que a vossa família nunca conheça a desconfiança, a impaciência e o egoísmo, mas seja sempre caracterizada por um compromisso generoso e uma harmonia serena.

O Senhor Jesus e Maria Santíssima tenham sempre o lugar de honra não só na vossa casa, mas também na vossa vida. Com este fim rezo por vós e abençoo-vos cordialmente.



JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 25 de Junho de 1980




A tríplice concupiscência limita o significado esponsal do corpo

1. A análise que fizemos durante a precedente reflexão estava centrada nas seguintes palavras de Génesis 3, 16, dirigidas por Deus-Javé à primeira mulher depois do pecado original: «Para com o teu marido será o teu instinto, mas ele dominar-te-á» (Gn 3,16). Chegámos a concluir que estas palavras contêm um adequado esclarecimento e uma profunda interpretação da vergonha original (cfr. Gén Gn 3,7), tornada parte do homem e da mulher juntamente com a concupiscência. A explicação desta vergonha não se há-de procurar no corpo mesmo, na sexualidade somática de ambos, mas remonta às transformações mais profundas sofridas pelo espírito humano. Precisamente este espírito está de modo particular consciente de quão insaciável ele é da mútua unidade entre o homem e a ,mulher. E tal consciência, por assim dizer, torna as culpas ao corpo, tira-lhes a simplicidade e a pureza do significado conexo com a inocência original do ser humano. Em relação com essa consciência, a vergonha é experiência secundária: se por um lado revela o momento da concupiscência, ao mesmo tempo pode premunir das consequências do tríplice elemento da concupiscência. Pode-se mesmo dizer que o homem e a mulher, por meio da vergonha, quase permanecem no estado da inocência original. Imediatamente, de facto, tomam consciência do significado esponsal do corpo e tendem a resguardá-lo, por assim dizer, da concupiscência, como também procuram manter o valor da comunhão, ou seja da união das pessoas na «unidade do corpo».

2. Génesis 2, 24 fala com discrição mas também com clareza da «união dos corpos» no sentido da autêntica união das pessoas: «O homem... unir-se-á à sua mulher e os dois serão uma só carne»; e do contexto conclui-se que esta união provém de uma escolha, dado que o homem «abandona» pai e mãe para unir-se à sua mulher. Tal união das pessoas comporta que elas se tornam «uma só carne». Partindo desta expressão «sacramental», correspondente à comunhão das pessoas — do homem e da mulher — na original chamada de ambos à união conjugal, podemos compreender melhor a mensagem própria do Génesis 3, 16; isto é, podemos estabelecer e quase reconstruir em que está o desequilíbrio, mesmo a peculiar deformação da relação original interpessoal de comunhão, a que aludem as palavras «sacramentais» de Génesis 2, 24.

3. Pode-se portanto dizer — aprofundando Génesis 3, 16 — que enquanto por um lado o «corpo», constituído na unidade do sujeito pessoal, não cessa de estimular os desejos da união pessoal, precisamente por causa da masculinidade e feminilidade («para com o teu marido será o teu instinto»), por outro lado e ao mesmo tempo a concupiscência dirige a seu modo estes desejos; isto é confirmado pela expressão «Ele te dominará». A concupiscência da carne orienta porém tais desejos para a satisfação do corpo, muitas vezes a preço de uma autêntica e plena comunhão das pessoas. Em tal sentido, dever-se-ia prestar atenção à maneira como são distribuídas as acentuações semânticas nos versículos de Génesis 3; de facto, embora estejam dispersas, revelam coerência interna. O homem é aquele que parece sentir vergonha do próprio corpo com particular intensidade: «cheio de medo, porque estou nu, escondi-me» (Gn 3,10); estas palavras põem em relevo o carácter verdadeiramente metafísico da vergonha. Ao mesmo tempo, o homem é aquele pelo qual a vergonha, unida à concupiscência, se tornará impulso para «dominar a mulher («ele te dominará»). Em seguida, a experiência de tal domínio manifesta-se mais directamente na mulher como o desejo insaciável de uma união diversa. Desde o momento em que o homem a «domina», à comunhão das pessoas — feita de plena unidade espiritual dos dois sujeitos que se dão reciprocamente — sucede uma diversa relação mútua, isto é, uma relação de posse do outro à maneira de objecto do próprio desejo. Se tal impulso prevalece por parte do homem, os instintos que a mulher dirige para ele, segundo a expressão de Génesis 3, 16, podem assumir — e assumem — carácter análogo. E talvez por vezes se antecipem ao «desejo» do homem, ou tendam até a despertá-lo e a dar-lhe impulso.

4. O texto de Génesis 3, 16 parece indicar sobretudo o homem como aquele que «deseja», analogamente ao texto de Mateus 5, 27-28, que forma o ponto de partida para as presentes meditações; apesar disso, quer o homem quer a mulher tornaram-se um «ser humano» sujeito à concupiscência. E por isso ambos têm como sorte a vergonha, que com a sua profunda ressonância toca o íntimo quer da personalidade masculina quer da feminina, ainda que de maneira diversa. O que aprendemos de Génesis 3 consente-nos apenas desenhar esta duplicidade, mas já só esses traços são muito significativos. Acrescentemos que, tratando-se de um texto tão arcaico, ele é surpreendentemente eloquente e agudo.

5. Uma adequada análise de Génesis 3 leva portanto à conclusão, segundo a qual a tríplice concupiscência, incluída a do corpo, traz consigo uma limitação do significado esponsal do corpo mesmo, de que o homem e a mulher eram participantes no estado da inocência original. Quando falamos do significado do corpo, fazemos antes de tudo referência à plena consciência do ser humano, mas incluímos também toda a efectiva experiência do corpo na sua masculinidade e feminilidade, e, em qualquer caso, a constante predisposição para tal experiência. O «significado» do corpo não é só alguma coisa de conceptual. Sobre isto já chamamos suficientemente a atenção nas precedentes análises. O «significado do corpo» é ao mesmo tempo o que determina a atitude: é o modo de viver o corpo. E a medida, que o homem interior, isto é, aquele «coração», ao qual se refere Cristo no Sermão da Montanha, aplica ao corpo humano quanto à sua masculinidade-feminilidade (portanto quanto à sua sexualidade).

Esse «significado» não modifica a realidade em si mesma, o que o corpo humano é e não deixa de ser na sexualidade que lhe é própria, independentemente dos estados da nossa consciência e das nossas experiências. Todavia, esse significado puramente objectivo do corpo e do sexo, fora do sistema das reais e concretas relações interpessoais entre o homem e a mulher, é em certo sentido «não histórico». Nós, pelo contrário, na presente análise — em conformidade com as fontes bíblicas — temos sempre em conta a historicidade do homem (também pelo facto de partirmos da sua pré-história teológica). Trata-se aqui, obviamente, de uma dimensão interior, que foge aos critérios externos da historicidade, mas que todavia pode ser considerada «histórica». Mais, ela está precisamente na base de todos os factos que formam a história do homem — também a história do pecado e da salvação — e assim revelam a profundidade e a raiz mesma da sua historicidade.

6. Quando, neste vasto contexto, falamos da concupiscência como de limitação, infracção ou mesmo deformação do significado esponsal do corpo, referimo-nos sobretudo às precedentes análises, que tratavam do estado da inocência original, isto é, da pré-história teológica do homem. Ao mesmo tempo, temos na mente a medida que o homem «histórico», com o seu «coração», aplica ao próprio corpo a respeito da sexualidade masculina-feminina. Esta medida não é alguma coisa de exclusivamente conceptual: é o que determina as atitudes e decide em linha de princípio sobre o modo de viver o corpo.

Certamente, a isto se refere Cristo no Sermão da Montanha. Procuramos aqui aproximar-nos das palavras tiradas de Mateus 5, 27-28 no limiar mesmo da história teológica do homem, tomando-as portanto em consideração já no contexto de Génesis 3. A concupiscência como limitação, infracção ou mesmo deformação do significado esponsal do corpo, pode ser verificada de maneira especialmente clara (não obstante a concisão da narrativa bíblica) nos dois progenitores, Adão e Eva; graças a eles pudemos encontrar o significado esponsal do corpo e tornar a descobrir em que consiste ele como medida do «coração» humano, de maneira que plasme a forma original da comunhão das pessoas. Se na experiência pessoal delas (que o texto bíblico nos permite seguir), aquela forma original sofreu desequilíbrio e deformação — como procurámos demonstrar por meio da análise da vergonha — devia sofrer uma deformação também o significado esponsal do corpo, que na situação da inocência original constituía a medida do coração de ambos, do homem e da mulher. Se conseguirmos reconstruir em que consiste esta deformação, teremos também a resposta à nossa pergunta: ou seja, em que coisa consiste a concupiscência da carne e que coisa constitui a sua especificidade teológica e ao mesmo tempo antropológica. Parece que uma resposta, teológica e antropologicamente adequada, importante por aquilo que diz respeito ao significado das palavras de Cristo no Sermão da Montanha (Mt 5,27-28), pode já tirada do contexto de Génesis 3 e de toda a narrativa javista, que precedentemente nos permitiu clarificar o significado esponsal do corpo humano.

Saudações

A vários grupos de língua inglesa

Desejo saudar de modo particular o Capitão e a tripulação do navio americano Saratoga. Estou contente por terdes vindo neste grupo a Roma para assistir a esta audiência, e espero que a vossa visita aqui enriqueça as vossas vidas e intensifique a vossa fé. Que Deus vos abençoe!

Aos membros do coro "Boy Choir" de Atlanta (E.U.A.)

Desejo também dar as boas-vindas aos membros do "Atlanta Boy Choir" e da "Atlanta Chamber Opera Society". Faço votos por que, mediante o vosso talento musical, possais dar aos outros satisfação e alegria aos seus corações.

Aos Professores e Alunos do Instituto "Pons d'Icart" de Tarrogona (Espanha)

Uma cordial saudação de boas-vindas aos Professores e Alunos do Instituto de Ensino Médio "Pons d'Icart" de Tarrogona, na Espanha.

Caríssimos todos: Quisestes prolongar, este ano, a vossa comunidade escolar com uns dias de ampliação cultural e de convivência religiosa, vindo até Roma. Oxalá esta peregrinação, sem dúvida de tantas e tão gratas recordações, seja um novo e forte estímulo para manter viva a presença benéfica de Deus, e operante, nos vossos corações, o amor a Cristo e aos irmãos.

A vós, às vossas famílias e aos vossos companheiros e amigos, a minha mais cordial Bênção Apostólica.

Aos Responsáveis regionais e diocesanos da pastoral do trabalho na Itália

Saúdo agora com sincero afecto os participantes no Congresso anual dos Responsáveis regionais e diocesanos da pastoral do trabalho na Itália. Filhos caríssimos, interrogar-vos-eis nestes dias, à luz das experiências recolhidas nas várias sedes, sobre os caminhos a seguir para actuar uma presença pastoral eficaz no mundo do trabalho. É uma reflexão que o momento crítico actual torna particularmente delicada e difícil. A vossa preocupação constante deve ser permanecerdes fiéis, para além dos modelos correntes de pensamento, aos valores imperecíveis da mensagem cristã e às exigências que o respeito coerente pela dignidade do homem comporta. Encontrareis nisso o critério seguro para alcançar uma proposta pastoral original e incisiva.

Estou junto de vós com a oração e com a minha Bênção Apostólica.

A várias peregrinações italianas

Desejo agora dirigir uma palavra de louvor e de encorajamento aos participantes no curso anual de Pastoral da Migração, para Sacerdotes, Religiosos e Leigos. Caríssimos, de coração faço votos por que a vossa obra produza abundantes frutos de bem entre as pessoas que foram obrigadas a abandonar a sua terra natal. A minha particular Bênção vos encoraje e acompanhe.

A minha cordial saudação é também para os Superiores e Alunos do Instituto Catequético Missionário "Mater Ecclesiae" da Sagrada Congregação "de Propaganda Fide", com votos por que este curso contribua para uma evangelização missionária sempre mais intensa.

Saúdo, a seguir, os participantes no congresso promovido pela Associação da Imprensa Médica Italiana e os vencedores do prémio de jornalismo médico.

Dou também as boas-vindas particularmente sentidas à numerosa peregrinação das Enfermeiras Voluntárias da Cruz Vermelha Italiana, às quais desejo de coração que prossigam sempre com entusiasmo o seu precioso serviço de assistência aos que sofrem.

E agora um particular pensamento ao grupo do Centro Desportivo de Caseina Elisa, da Diocese de Milão, cujo facho, que deve ser levado para a sua Paróquia, dedicada aos Santos Pedro e Paulo, abençoo.

Por fim, reservo uma saudação ao grupo de casais "focolarinos" aqui presentes e provenientes de várias nações, aos quais desejo uma vida matrimonial serena, baseada na fé e que irradie um eficaz testemunho cristão.

Aos Jovens

Uma saudação especial dirijo agora a vós, crianças, rapazes, meninas e jovens, que com tanto entusiasmo e exuberância quisestes vir a esta Audiência para ver o Papa e manifestar assim a vossa fé em Jesus Cristo, aqui representado pelo seu Vigário. Saúdo de modo particular os meninos e meninas de entre vós que há pouco tempo se aproximaram do Sacramento da Eucaristia, na Primeira Comunhão, e trazem ainda consigo o perfume do pão eucarístico e a fragância do amor de Jesus por nós. Desejo que possais todos conservar sempre a graça, a luz e o sorriso que vos provêm da inocência e da amizade com Jesus.

Aos Doentes

Um pensamento muito particular vai agora para os Doentes e para os que sofrem, os quais, como em todas as Audiências, ocupam um lugar privilegiado junto do Papa. Caríssimos doentes, agradeço a vossa preciosa presença e os incómodos que tivestes de enfrentar para vir a este encontro. Estou-vos grato sobretudo pelas orações e pelos sacrifícios que em silêncio ofereceis ao Senhor pela Igreja e pelo Papa. O Senhor vos pague. Da minha parte exorto-vos a nunca desanimar, nem sequer nos momentos mais difíceis a que a doença vos submete; e a ser sempre conscientes de que os vossos sofrimentos são tantos outros tesouros que frutificam para o bem da sociedade em que vivemos e para o alcance da vida eterna. A minha especial bênção vos conforte.

Aos jovens casais

E agora uma palavra de felicitações aos jovens casais. Queridos casais, dou-vos, antes de tudo, os meus parabéns pelo passo tão belo e empenhador que há pouco realizastes com a celebração do Sacramento do matrimónio, o qual consagrou o vosso amor, tornando-o estável e irrevogável. Faço também votos por que possais viver sempre neste autêntico amor conjugal com entusiástica doação recíproca, com amor sincero e com crescente fidelidade. O Senhor abençoe o vosso amor e o conserve para sempre na alegria cristã.



                                                                          Julho de 1980

 JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA GERAL

Quarta-feira, 16 de Julho de 1980




A Igreja no Brasil e os problemas do homem

1. «Para onde vais?». Esta pergunta constitui o tema do X Congresso Eucarístico Nacional do Brasil, que tive a alegria de inaugurar, precisamente há uma semana, em Fortaleza, no termo da minha viagem-peregrinação através daquele gigantesco País. País que é um Continente. O convite referia-se também a outras circunstâncias e compreendia uma série de etapas. Entre as circunstâncias particularmente importantes, é necessário recordar a consagração da nova basílica no principal Santuário mariano no Brasil: Aparecida; e o 25° aniversário da instituição do Conselho Episcopal da América Latina (CELAM), que se realizou em 1955 no Rio de Janeiro. Exactamente nesta cidade foi celebrado o aniversário: as bodas de prata de instituição tão benemérita.

Pelo que diz respeito às etapas de tal viagem-peregrinação (a mais longa de todas as que me foi dado fazer até agora), de 30 de Junho até 11 de Julho, sucederam-se elas na ordem seguinte:

Brasília, actual capital do País; Belo Horizonte; Rio de Janeiro; São Paulo; Aparecida; Porto Alegre; Curitiba; São Salvador da Bahia; Recife; Teresina; Belém do Pará; Fortaleza — e por fim, já depois da abertura do Congresso Eucarístico e antes de voltar a Roma: Manaus, no centro da maior, talvez, reserva da natureza na Terra, ao confluírem o Rio Amazonas e o Rio Negro. 13 etapas no decurso de 12 dias. Com tudo isto só conseguiu visitar parte das províncias daquele País imenso, quer em sentido eclesiástico, quer administrativo e estatal.

2. A pergunta «para onde vais?», — ou melhor: para onde vamos? — acompanhou-me por todas as etapas deste caminho brasileiro, de maneira que elas entraram todas, em certo sentido, no contexto do Congresso Eucarístico deste ano e formaram quase um alargamento e engrandecimento do seu programa em todo o País. Esta pergunta, na intenção dos Organizadores do Congresso, tem a sua ressonância evangélica e, ao mesmo tempo, contemporânea e social no pleno sentido da palavra. A ressonância evangélico-eucarística foi posta em evidência, da melhor das maneiras, pelas palavras uma vez dirigidas por Pedro a Cristo nas vizinhanças de Cafarnaúm: «Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna» (Jn 6,68). Talvez por isso precisamente fosse necessário que em tal Congresso estivesse presente o sucessor de Pedro, para que ele e não outro pronunciasse de novo estas palavras, assim como, há muito tempo, as tinha pronunciado o mesmo Pedro nas vizinhanças de Cafarnaúm.

Ao mesmo tempo estas palavras, escolhidas como mote e fio condutor do grande acontecimento religioso na Igreja brasileira, atestam quão profundamente a Igreja daquele País e, em particular, os seus Pastores relacionam a Eucaristia e o Evangelho com o conjunto dos problemas sociais contemporâneos, de que está carregada a vida dos homens no vasto território do «Continente» brasileiro.

De facto, esta vida, precisamente no seu perfil social mais amplo, relaciona-se com esta pergunta: «Para onde vais?». A Igreja sabe que milhões de homens se põem tal pergunta e estes milhões de homens encontram-se diante do problema da «migração»; portanto tira-a, em certo sentido, da boca deles, dos seus corações, muitas vezes inquietos, das suas consciências, de toda a existência contemporânea deles. Tira-a e, em certo modo, formula-a juntamente com eles e em lugar deles, como expressão da sua presença no mundo brasileiro e da solicitude por cada homem que vive neste mundo e o constrói; como expressão da solicitude pastoral e da solidariedade fraterna com cada homem. Porque este homem, como escrevia na Encíclica «Redemptor Hominis», é em certo modo o «caminho da Igreja».

3. A pergunta «Para onde vais?» tem, no contexto brasileiro, também a sua dimensão histórica. É necessário andar para trás quase cinco séculos, para remontar àquele momento em que ela começou a ser actual. Os primeiros chegados do continente europeu, sobretudo os Portugueses, encontraram naqueles imensos territórios os Índios, até então habitantes e senhores daquela terra; as suas ocupações eram, e mantiveram-se até hoje, a caça e a pesca. O Continente criava por isso vastas possibilidades. Para prestar, durante a minha viagem ao Brasil, a homenagem devida aos primeiros habitantes e senhores daquela terra, senti especial necessidade de chegar até ao centro da Amazónia, onde eles vivem ainda, procurando conservar o seu estilo tradicional de vida. A justiça exige que aqueles que não foram na direcção da nova civilização, enxertada pelos estrangeiros, possam plenamente manter a sua tradicional identidade.

Os homens que vinham gradualmente do Velho Mundo para o território do Continente brasileiro deram, ao desenvolvimento deste, nova orientação, enxertaram nele nova cultura, inseriram aquela parte da América no âmbito da civilização ocidental, povoando-a com grupos étnicos sempre novos.

O que deve impressionar, neste processo plurissecular de se fundirem grupos tão diferenciados numa grande sociedade brasileira, é — não obstante todos os lados obscuros deste processo — uma prática gradual da comunidade e mesmo da fraternidade, que uniu e une cada vez mais aqueles homens, embora haja tantos factores que poderiam dividi-los e mesmo contrapô-los uns aos outros numa luta recíproca. O elemento histórico talvez mais escuro de tal processo, isto é o mandar vir escravos negros da África, no fim de contas, desapareceu também; bastante tarde, para dizer a verdade, mas desapareceu. Os negros uniram-se com os antigos indígenas e com os brancos, criando, mesmo no sentido antropológico, o tipo contemporâneo do homem brasileiro. É o homem dos sentimentos ardentes e do coração aberto.

Em tudo isto não se pode deixar de notar o trabalho plurissecular da Igreja: os frutos da evangelização. E se pensarmos com humildade em todas as suas faltas e imperfeições, ao mesmo tempo não podemos deixar de pensar, com veneração e reconhecimento, em todos aqueles «ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus» (1Co 4,1) que ajudaram à cristianização e à humanização da terra brasileira. A elevação aos altares, a 22 de Junho passado, de um deles, o beato José de Anchieta, tem a sua eloquência simbólica.

4. Se a Igreja brasileira reunida no Congresso em Fortaleza, à volta da Eucaristia, põe aos homens contemporâneos em todo o Brasil a pergunta «Para onde vais?», tal pergunta atesta que ela deseja realizar a sua missão: que o mistério de Cristo está, naquela Igreja, autenticamente orientado para os problemas reais do homem. E esses problemas — em certo sentido comuns a todos os países da América Latina têm a sua particular dimensão brasileira, dada a grandeza daquele País e daquela sociedade, a enorme diferenciação, não só no sentido geográfico, mas também cultural e económico-social. A imensa vitalidade das multidões de gente amontoada cada vez mais — setenta por cento — nas cidades (algumas delas são verdadeiramente cidades gigantes, como em particular São Paulo ou o Rio de Janeiro) exige que se procurem tais soluções, tais caminhos para o futuro, que permitam vencer os agudos contrastes e levem a maior igualdade, no que se refere à divisão dos bens, ao sistema das condições de existência quotidiana das famílias e dos inteiros ambientes. Cada sociedade pode construir o seu futuro só na medida em que se torna mais justa, em que a vida humana se torna nela cada vez mais digna do homem.

E por isso juntamente com os Pastores da Igreja brasileira, apresentei esta pergunta fundamental «Para onde vais?» às diversas pessoas, às comunidades e aos ambientes. Apresentei-a, em certo sentido, a toda a sociedade já durante o primeiro encontro em Brasília, a capital do País. Apresentei-a à juventude durante o encontro em Belo Horizonte. Diriji esta pergunta às famílias no Rio de Janeiro e, na mesma cidade maravilhosamente bela, tanto aos homens da ciência e da cultura como aos habitantes das favelas suburbanas. Em São Paulo constituiu o tema do encontro com o mundo operário e no Recife com os agricultores brasileiros.

Esta pergunta foi actual para os ambientes dos imigrados brasileiros, vindos dos diversos Países da Europa ou da Ásia, em Porto Alegre e em Curitiba. Não foi menos actual para os construtores da sociedade pluralista contemporânea em Salvador da Bahia, onde mais é sentida a presença dos homens de proveniência africana. Era necessário fazer mesma pergunta na região mais pobre do Brasil durante a paragem em Teresina, como também na bacia da Amazónia: em Belém e em Manaus

Esta pergunta constituiu o tema dos encontros com os sacerdotes com o meio dos religiosos e das religiosas, e com os missionários beneméritos. À volta do mesmo tema se concentraram as nossas reflexões comuns com todo o grande Episcopado Brasileiro, reunido em diversos lugares segundo as regiões, e sobretudo em Fortaleza na sessão plenária.

Também diante dos representantes das autoridades procurei realçar a importância desta pergunta, que diz respeito tanto a cada Brasileiro como ao Brasil inteiro, tanto à Igreja como ao Estado.

5. Nesta pergunta «Para onde vais?» está contido, ao mesmo tempo, o fervoroso augúrio de aquela grande Nação, que possui o maior número de católicos no mundo, se encaminhar para o seu futuro m direcção justa sob todos os aspectos. Que se realize nela justiça cada vez mais plena no caminho da paz e também das reformas indispensáveis e sistemáticas. Que a essa sociedade, a esses homens, a esses dilectos filho; e filhas do Brasil, que mostram tanta serenidade, optimismo e simplicidade, sejam poupadas as dolorosas provas e experiências que nos último: tempos feriram já algumas sociedades daquela região do mundo: subversões, revoluções, derramamento de sangue, ameaça aos direitos do homem.

Eis os augúrios que da grande peregrinação brasileira trago para o coração da Igreja, para esta Sé de Pedro, que, unindo a todos, deseja pulsar com a vida de cada uma das Igrejas e das Nações que olham para ela com amor e confiança.

Deus abençoe o Brasil.

Confio-o a Cristo e à Sua Mãe: Maria «Aparecida».

Saudações

A dois grupos de Religiosas

Tenho o prazer de saudar grupos de Religiosas, pertencentes respectivamente à Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, reunidas nestes dias em Roma para o seu Capítulo Geral Especial, e à Congregação das Irmãs da Imaculada de Santa Clara, que celebram este ano o bicentenário de fundação do próprio Instituto.

Caríssimas Irmãs, agradeço que tenhais vindo exprimir a vossa fé em Deus e a vossa fidelidade aos compromissos tomados por meio da consagração à vida religiosa e, ao mesmo tempo, testemunhar a vossa devota união ao Sucessor de Pedro. Digo-vos simplesmente: oxalá saibais tirar proveito desta ocasião para realizar, na prece e na meditação, uma verificação e, se necessário, uma rectificação da vossa vida espiritual e das actividades próprias das vossas Congregações, mediante nova leitura, atenta e fiel, dos vossos Estatutos e das vossas Regras, à luz do Evangelho e dos principais documentos do Magistério da Igreja. De tal modo certamente cada membro das vossas Comunidades sentirá a alegria de tornar a descobrir, como disse recentemente no Brasil, "o dever de manter a fidelidade à vida comunitária e contribuir para que ela seja lugar de encontro fraterno, ambiente de ajuda recíproca e de conforto espiritual" (Discurso às Religiosas em São Paulo).

Como confirmação destes votos invoco sobre vós todas, por intercessão de Santa Catarina de Sena e de Santa Clara, abundantes graças celestiais e concedo-vos a propiciadora Bênção Apostólica.

Aos participantes no Curso para a educação dos surdos

Dirijo uma especial saudação aos participantes no curso para a educação dos surdos com o método "Verbo-Tonal" e aos caros meninos de audição lesada presentes coro eles.

O Senhor que, segundo o Evangelho, fez ouvir os surdos e falar os mudos (cf. Mc Mc 7,37), vos acompanhe e torne fecundo o vosso trabalho, assim come eu de coração vos animo a cultivardes cada vez melhor este precioso encargo, dando-vos a minha Bênção.

Aos Oficiais da Escola de aplicação da Arma de Turim

Quero também saudar o grupo de Oficiais da Escola de aplicação da Arma de Turim.

Ao mesmo tempo que vos agradeço a vossa presença que traz à minha memória a recordação mais viva da visita realizada em Abril, a essa cidade — faço votos por que a vossa preparação técnica, para a qual frequentais nestes dias um curso especial, venha a ser sempre empregada para fins pacíficos e para o progresso civil da sociedade. Com este auspício cordial abençoo-vos do coração a vós e a quantos vos são caros.

Aos jovens

Dirijo-me agora aos jovens presentes nesta Audiência e, em particular, aos 450 jovens do "Movimento GEN 2", provenientes de toda a Europa e de outros Continentes para um encontro no Centro Mariápoli, de Rocca di Papa, sobre o tema "A caridade como ideal"

Caros jovens, aproveitai o período das férias para retemperar as vossas energias, para viver em contacto com a natureza e explorar e admirar os magníficos espectáculos que ela, criatura de Deus, oferece aos olhos de quem a sabe perscrutar segundo este prisma. Mas oxalá saibais também aproveitar deste tempo para rever a vossa vida, para meditar, sobretudo nos encontros e nas reuniões estivas, sobre os grandes ideais que inspiram a nossa vida cristã, e para viver em harmonia com vós mesmos e com a natureza que vos circunda e vos eleva a Deus; e n'Ele sabei amar-vos verdadeiramente e competir na estima mútua (Rm 12,10): assim vós, focolarinos em particular, fareis deveras da caridade o vosso ideal para a vida presente e para a futura.

Acompanhe-vos neste esforço a minha especial Bênção.

Aos Doentes

E agora o meu pensamento vai para vós, caros doentes, sobre cujos membros foi colocada uma Cruz mais pesada que a dos outros.

Por vós recorrerei a Jesus, nosso Mestre. Quando Ele se aproxima dos doentes; ou faz por eles os Seus milagres, apela sempre para o elemento fundamental que determina as relações dos homens com Deus: a fé. Procura-a, reaviva-a e cria-a; porque sem ela a Sua omnipotência fica embargada.

Mediante a fé, portanto — a verdadeira, a que se fia em Deus, a que crê na Sua bondade e Lhe adora os desígnios — Cristo salva-nos deveras e cria a tranquilidade no mar sempre agitado do espírito.

Deus vos conceda, caros Irmãos, a Sua benevolência, e, se isto está de acordo com os Seus planos de amor, também a saúde dos membros.

As Irmãs da Sagrada Família de Nazaré

Gostaria de dizer uma palavra especial de saudação às participantes no Capítulo Geral das Irmãs da Sagrada Família de Nazaré. Fostes chamadas para considerar o melhor modo de promover a santidade dos membros e o serviço efectivo dos outros, em plena fidelidade ao espírito e dentro da finalidade para a qual o vosso Instituto foi fundado. Deus vos acompanhe na vossa tarefa, e vos conserve fiéis, decididas e alegres.



AUDIÊNCIAS 1980 - AUDIÊNCIA GERAL