Discursos João Paulo II 1981 - Quinta-feira, 30 de abril de 1981

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II


AOS PARTICIPANTES NA REUNIÃO NACIONAL


PARA OS RESPONSÁVEIS DIOCESANOS


PELOS RELIGIOSOS


Quinta-feira, 30 de Abril de 1981



Caríssimos Irmãos e Irmãs

1. Tenho verdadeiro prazer em dar-vos as boas-vindas e certificar-vos da minha cordial complacência por me ser dado encontrar-me hoje convosco, que exprimis distinta parte da vitalidade da Igreja italiana. Saúdo nas vossas pessoas os Bispos e Vigários Episcopais encarregados dos Religiosos e das Religiosas nas várias Dioceses, e saúdo ainda os mesmos Religiosos e Religiosas, numerosos e qualificados, que representam aqui, respectivamente, a Conferência Italiana dos Superiores Maiores e a União das Superioras Maiores da Itália. A vossa presença confirma-me não só o vosso louvável desejo de comunhão com o Sucessor de Pedro, mas também o propósito de tirar deste encontro nova confiança e renovado esforço para os múltiplos encargos de variada responsabilidade, característicos do vosso ministério. E não posso deixar de dizer-vos que esta ocasião oferece também a mim a particular possibilidade de dirigir-vos a minha sentida palavra, que é de aplauso, de ânimo, de exortação, e de modo especial de vivo reconhecimento, por tudo o que fazeis em conjunto pela glória de Deus e para bem da Igreja.

Estais no encerramento de uma reunião nacional, que teve como tema: "Comunhão e co-responsabilidade eclesial nas Mutuae Relationes na Itália", e nas vossas reflexões fostes ajudados por relatos de mestres competentes. Certamente não me pertence a mim, aqui e agora, propor-vos nova lição que se venha juntar àquilo que já ouvistes e depois aprofundastes nos debates da reunião. Mas a importância do tema, escolhido como objecto de estudo e meditação, sugere que vos exponha algumas breves considerações.

2. Primeiro que tudo, é-me agradável recordar ter o carisma da vocação religiosa um lugar seu, plenamente natural na vida da Igreja. E trata-se de uma natureza, que se origina e deriva da vontade mesma de Jesus Cristo. De facto, se aquele primeiro convite evangélico dirigido por Jesus ao jovem rico, "Se queres ser perfeito, vai, vende o que possuis..." (Mt 19,21), ficou infelizmente sem qualquer resultado positivo, pois ele "retirou-se contristado" (Mt 19,22), quantas vezes sem número, pelo contrário, foi o convite acolhido na história da Igreja, com prontidão, com transporte e com alegria grande, por tantas almas de homens e mulheres, que dele fizeram o próprio ponto luminoso de referência e a própria razão de ser! Quantos Religiosos e Religiosas repetiram e, mais ainda, experimentaram a profunda verdade das palavras do apóstolo Paulo: "Tristes, mas sempre alegres; pobres, ainda que tenhamos enriquecido a muitos; como nada tendo, mas possuindo tudo" (2Co 6,10), porque sabiam e sabem que são verdadeiras, referindo-as a Cristo, as palavras do Autor do Livro da Sabedoria: "Com ela me vieram todos os bens" (Sg 7,11).

Trata-se, portanto, de um carisma que merece suma estima por parte de toda a Comunidade eclesial, não só por motivo da peculiar consagração ao Senhor, que o distingue, mas também por ele comportar tal dimensão de serviço e de total dedicação aos irmãos, que o põe ao nível de uma nova e incomparável maternidade e paternidade, à qual todos devem respeito, amor e reconhecimento.

É necessário, porém, que a vida religiosa realize a própria fecundidade mediante profunda inserção no contexto pastoral da Igreja, em harmónico laço com os outros carismas e ministérios, o primeiro dos quais é o carisma e o ministério sacramental-jerárquico.

3. Lemos, de facto, no n. 20 das Mutuae Relationes: "A Igreja não foi instituída para ser organização de actividades, mas antes como Corpo vivo de Cristo para dar testemunho. Ela, todavia, realiza necessariamente um trabalho concreto de projectação e de coordenamento de múltiplos ofícios e serviços, para que juntos convirjam numa acção pastoral unitária, em que se estabelece quais sejam as opções para seguir, e quais os compromissos apostólicos para preferir aos outros". Pois bem, neste conjunto de ideias e directrizes, é necessária estreita colaboração da vida religiosa com a vida e a missão de toda a Igreja, como é interpretada e promovida pelos seus legítimos Pastores. Por outro lado, só em tal enquadramento pode o carisma da consagração religiosa brilhar totalmente no seu sentido e na sua finalidade de sinal e de testemunho, mesmo através dos caminhos diversíssimos com que os membros dos vários Institutos realizam a própria vocação. Se, de facto, o selo manifestativo de se pertencer à Igreja é necessário para cada baptizado, que deve portanto procurar sempre e alimentar a comunhão com os próprios Pastores, muito mais é ele requerido como traço distintivo para quem na Igreja faz explícita profissão de pertencer a Cristo, o que ultrapassa e leva ao remate tudo quanto já é dado no sacramento do Baptismo.

4. Impõe-se, por isso, a necessidade de um estreito entendimento e de colaboração dos Religiosos e das Religiosas com os Bispos. Isto em sentido muito concreto. Em primeiro lugar, para uma distribuição ou redistribuição dos Institutos, das Pessoas consagradas e das Obras, segundo as reais necessidades da Igreja particular no dia de hoje, antepondo a outros, se bem que fundados, motivos, o ideal do mais eficaz serviço à Comunidade eclesial. Em segundo lugar, é sumamente oportuno um acordo, acompanhado de troca de informações, com os Pastores diocesanos, quando os respectivos organismos dos Religiosos e das Religiosas programam, até a nível regional ou nacional, as suas reuniões e os seus cursos de formação ou de actualização, sobretudo quando se projecta tocar problemas pastorais de interesse comum; isto com o fim de não desligar, ou pior, contrapor iniciativas, que devem tender à edificação do povo cristão. Em terceiro lugar, impõe-se a colaboração quanto a meios de comunicação social. Esta exigência mostra-se particularmente viva na Itália, onde é notável o tão providencial florescimento de tais meios. Isto vale especialmente para o sector das casas editoras administradas por Religiosos. Neste campo, muitíssimo do que se faz merece certamente o elogio e o reconhecimento dos Bispos e da Igreja inteira, por motivo dos variados serviços prestados às exigências não só devocionais, mas pedagógicas, culturais ou simplesmente informativas do Povo de Deus. É importante, contudo, que a ampla actividade na matéria se desenvolva segundo critérios de edificação efectiva, isto é, de positiva construção do Povo de Deus, com base nas normas já estabelecidas ou que virão a ser com a Conferência Episcopal. É, de facto, com fins de apostolado que devem sempre ser ordenadas todas as iniciativas dos Institutos Religiosos, procurando o verdadeiro bem das almas e evitando com vigilante cuidado tudo o que pudesse perturbar os fiéis pela condescendência com atitudes de crítica corrosiva e de imoderada busca do novo pelo novo. Sem dúvida, vale sempre na Igreja o voto de Moisés: "Oxalá que todo o povo do Senhor se compusesse de profetas!" (Nb 11,29), voto moderado porém com as palavras do apóstolo Paulo, que dizia que na Igreja "uma manifestação particular do Espírito é dada... para proveito comum" (1Co 12,7).

5. Caríssimos Irmãos e Irmãs, enquanto prossigo agradecendo-vos esta visita de hoje, quero assegurar também a vós e a todos os Irmãos e Irmãs, que representais aqui, não só a minha estima, mas sobretudo o meu afecto e a minha firme confiança no valor dos vossos respectivos ministérios. A minha palavra, portanto, torna-se vivíssimo incentivo a que prossigais com generosidade, inteligência e alegria, nos preciosos encargos que já vos absorvem ou vos esperam, para vantagem da santa Igreja de Deus.

Sabei que o Papa constantemente pensa em vós, pede por vós, e vos recomenda sempre à presença e à graça do Senhor, de quem invoca sobre vós os favores mais abundantes.

Destes é penhor a Bênção Apostólica, que de coração vos concedo a vós aqui presentes, e tenho o prazer de tornar extensiva às vossas Dioceses e às vossas beneméritas Famílias Religiosas.



                                                             Maio de 1981

DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II


À ASSOCIAÇÃO DE SÃO PAULO


PARA OS ORATÓRIOS E OS CÍRCULOS JUVENIS


Sábado, 2 de Maio de 1981



No clima da alegria pascal e do canto da aleluia, que ainda ressoa nas nossas Igrejas e nos nossos corações, nestes dias que seguem o grande Domingo da Ressurreição, fico particularmente satisfeito por acolher nesta sala os Membros do Conselho Nacional e os Dirigentes Nacionais da Associação "São Paulo" para os Oratórios e os Círculos Juvenis, ao mesmo tempo que os participantes no Congresso da Federação das Ordens dos Farmacêuticos Italianos, os peregrinos de várias paróquias e alguns grupos de estudantes que aproveitaram estes dias para vir ver o Papa e visitar Roma.

1. Sede bem-vindos todos e ficai sabendo que vos recebo com grande afecto. Olhando para os vossos rostos, vejo que se estabeleceu, entre vós e eu, uma relação de comunhão espiritual que se exprime na mesma fé, na mesma caridade e na mesma alegria. Tudo isto vos agradeço intensamente.

Mas como a maioria deste encontro é constituída pela Associação para os Oratórios e os Círculos Juvenis, dirijo primeiro que tudo a minha palavra a ela, exprimindo o meu apoio por este movimento, que, renovando o tradicional espírito oratoriano, segundo as exigências dos tempos de hoje, se faz notar pela sua activa presença e oferece uma resposta concreta e global às novas ambições de muitos jovens. No discurso, com que Paulo VI, de sempre venerada memória, aprovou e abençoou a nascente instituição, quis indicar as nobres e nobilitantes finalidades do Oratório, que me apraz recordar aqui: "O Oratório — dizia ele em 1964 — é o campo de treino das forças morais e religiosas, empregadas com directa e esclarecida intencionalidade e com tendência para rendimento no maior grau; é a escola da bondade e da piedade; é laboratório das consciências juvenis; é a aprendizagem dos grandes deveres da vida; é o estreitar das boas amizades, que darão depois ao conjunto social a sua mais pura e sólida coesão; é, com efeito, um viveiro de homens sãos, honestos, inteligentes e activos; é um estupendo fenómeno do povo" (Insegnamenti di Paolo VI, II, 1964, p. 81).

2. Caríssimos sócios animadores, é a esta luz que deve tomar força e direcção toda a vossa obra educadora no meio dos rapazes e dos jovens pertencentes à ANSPI. A exemplo de São Filipe Néri e São João Bosco, preservai os rapazes e os jovens das ocasiões deseducativas, convidando-os a viver nas instituições oratorianas a experiência da oração, da catequese e do jogo, como outros tantos momentos de formação integral. Como é sabido, muitos rapazes e jovens, depois da iniciação nos Sacramentos da Eucaristia e da Crisma, subtraem-se à acção pedagógica da Paróquia e arriscam-se a ficar abandonados a si mesmos, se não intervêm estruturas adequadas, como os Oratórios e os Círculos Juvenis, que oferecem, em medida orgânica e estável, uma solicitação que lhes faça sentir as exigências vitais de uma formação contínua e completa: não só litúrgica e catequética, mas também lúdica e desportiva.

Todos os educadores, religiosos e leigos, são chamados a esta missão pedagógica. Para os jovens, não se deve poupar nenhuma iniciativa capaz de levá-los, mediante uma verdadeira e completa evangelização, a um nível de promoção humana e cristã autêntica.

3. E a vós, caríssimos rapazes e jovens oratorianos, direi com as palavras do Concílio que "a Igreja olha para vós com esperança e amor... Possui o que faz a força e a beleza dos jovens: a capacidade de se alegrar com aquilo que principia, de se dar sem arrependimento, de se renovar e repartir de novo por novas conquistas. Contemplai-a e encontrareis nela o rosto de Cristo, o verdadeiro herói, humilde e prudente, o profeta da verdade e do amor, o companheiro e o amigo dos jovens" (Mensagem do Concílio aos jovens). Sabei procurar o rosto de Cristo no vosso Oratório e no vosso Círculo Juvenil mediante a oração, a frequência dos Sacramentos, o canto sacro, a recreação alegre e fraternal, o desporto e o turismo. Sede rapazes que tomam as coisas a sério, jovens isentos do aborrecimento, do cepticismo e de toda a forma de egoísmo. Continuai a dar prova da vossa generosidade e da vossa solidariedade para com os mais necessitados, como sempre destes exemplar demonstração nos trágicos acontecimentos do terremoto de Novembro último, levando conforto às pessoas vitimadas pelo sinistro e contribuindo para a reconstrução das estruturas recreativas e desportivas dos Círculos e dos Oratórios atingidos pelo sismo, em louvável colaboração com a Caritas e as Comunidades paroquiais dispersas. Mas neste ano, dedicado aos deficientes, exorto-vos também a que façais sentir a vossa presença humana e cristã a tantos da vossa idade menos afortunados que vós. Com a vossa obra eficiente e generosa, fazei que eles não se sintam postos de parte, mas sim ajudados e animados a entrar nos normais lugares de estudo, de oração, de trabalho, de divertimento e participação social, e a sentirem-se interlocutores responsáveis e protagonistas da sua inserção na comunidade social e eclesial. Procedendo assim, tornar-vos-eis verdadeiramente próximos de cada homem, mas com opção preferencial para com os mais débeis e necessitados, e sabereis ver em cada homem, qualquer que seja a sua condição física e psíquica, o filho de Deus, inundado pelos misteriosos dons da graça e o vosso irmão mais necessitado de ser apreciado e valorizado.

Acompanhe-vos o Senhor Jesus — por intercessão do vosso celestial patrono São Paulo Apóstolo e de São Filipe Néri, Pai e Fundador dos Oratórios Italianos — nesta vossa providencial obra de animação cristã nos Oratórios e nos Círculos Juvenis italianos.

4. E agora dirijo uma saudação cordial aos Membros da Federação das Ordens dos Farmacêuticos Italianos, os quais juntamente com as pessoas das suas famílias, estão presentes nesta Audiência.

Ilustres e Caros Senhores, a visita de pessoas empenhadas numa profissão tão alta e tão qualificada, qual é a de Farmacêutico, desperta na minha alma sentimentos não só de estima e admiração, mas também de complacência e interesse pela ocasião que me é dada de me aproximar e falar com pessoas tão distintas e preparadas. Ao acolher-vos, porém, não é minha intenção penetrar no vosso terreno científico: não teria tempo para tal, nem competência necessária; mas desejo simplesmente despertar, seja embora de fugida, o interesse a atenção que a Igreja não cessa de alimentar pela investigação científica, em qualquer campo coloque ela o seu objectivo. E faço-o não só para lhe admirar a bondade e reconhecer os méritos, mas também para lhe indicar as finalidades em ordem ao serviço do homem. De facto, a ciência da Farmácia, como todas as outras ciências, não tem fim por si mesmo, mas encontra razão de ser na promoção do homem. Ela é serva do homem, que, por antiga e portanto aprovada definição, é rei das coisas criadas. A este propósito afirma o Apóstolo Paulo na primeira Carta aos Coríntios: "Tudo é vosso! Mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus" (1Co 3,22).

Deste espírito de serviço deriva o esforço que deve animar todo o agente sanitário, quer a nível da pura investigação, quer no da confecção e distribuição dos produtos farmacêuticos, na promoção do verdadeiro bem do homem, na conservação da sua saúde e da vida. Em particular, o Farmacêutico é e deve ser o profissional da saúde. Estando ele em contacto contínuo com as pessoas, pode e deve fazer de educador, de informador e de promotor de uma consciência sanitária com o oportuno conselho profissional sobre o consumo dos preparados medicinais. E disto concluís como são formidáveis as responsabilidades e imensos os problemas morais que o vosso trabalho comporta, a fim de a Farmácia desempenhar com lealdade e nobreza de intuitos a sua delicada missão.

Ajude-vos o Senhor no vosso benemérito serviço sanitário. Pela minha parte, peço ao Senhor — que se fez remédio para a nossa salvação — ilumine e remunere quantos de vós, cone bons intentos e bons procedimentos, aplicam a inteligência e a actividade a este difícil encargo humanitário, ao mesmo tempo que a todos concedo, de pleno coração, a propiciadora Bênção Apostólica, extensível a todas as pessoas que vos são caras.

Acrescento umas palavras em francês para saudar em particular um grupo do Conselho regional dos Notários da Região de Champagne-Ardennes, e também os dirigentes e responsáveis comerciais do grupo dos Seguros nacionais da França. Sede bem-vindos! Desejo-vos a alegria de descobrir os diversos aspectos de Roma nesta primavera maravilhosa. Deus vos ajude nas vossas responsabilidades familiares e profissionais. E abençoe todos os que vos são queridos.



DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II


AOS PARTICIPANTES NO ENCONTRO


SOBRE FAMÍLIA E O AMOR ORGANIZADO


PELO MOVIMENTO DOS LARES (FOCOLARI)


Domingo, 3 de Maio de 1981



Caríssimos Irmãos e Irmãs
do "Movimento das Famílias Novas"

1. "Veni Creator Spiritus"!

Saúdo-vos com esta invocação que se adequa de modo particular a este tempo pascal, em que, depois da Ressurreição de Cristo, por cinquenta dias nos preparamos para a vinda do Espírito Santo, plenitude do mistério.

Esta invocação muito bem se adapta ao presente ano em que, volvidos 1600 anos a partir do Concílio Constantinopolitano I, comemoramos solenemente o histórico acontecimento e desejamos reavivar de modo particular a nossa fé "no Espírito Santo, que é Senhor e dá a vida", assim como foi recordado na Carta enviada aos Bispos e a toda a Igreja, a 25 de Março último.

"Veni Creator Spiritus"!

Saúdo-vos, Esposos, com esta invocação, que recorda a cada um aquele grande momento da vossa vida, quando vos encontrastes diante do altar, para dar, no Espírito Santo, um ao outro o testemunho recíproco do amor, da fidelidade e da honestidade matrimonial, jurando mantê-lo até à morte: "Eu torno-te como minha esposa — como meu esposo — e prometo ser-te fiel sempre, na alegria e na dor, na saúde e na doença e amar-te e honrar-te todos os dia: da minha vida".

Se a Igreja invocou o Espírito Santo, particularmente para esta circunstância, dizendo "Vem!", quer dizer que é na verdade momento grande, "sacramentum magnum". De facto, o matrimónio traz em si uma analogia com o desposório de Cristo com a Igreja e com o momento em que o Espírito Santo — na rajada do vento e no esplendor das línguas de fogo — desceu sobre os Apóstolos no dia do Pentecostes. O consentimento matrimonial, aquele instante tão decisivo na vossa vida, traz consigo também certa analogia com o episódio único acontecido quando o Espírito Santo desceu sobre a Virgem de Nazaré e "o Verbo se faz carne" (Jn 1,14).

Faço referência a estes momentos particulares e confio-vos — caros Irmãos e Irmãs, casais do Movimento dos "Focolari" — ao Espírito Santo, àquele Espírito com quem está ligada a origem da criação, a origem da Redenção e a origem do vosso matrimónio mesmo em Cristo e na Igreja.

2. Por obra do Espírito Santo, tornastes-vos uma unidade a dois. A força que vos une é o amor. Este vosso amor humano, que maturou nos corações e nas decisões, manifestou-se diante do altar quando, às palavras do Sacerdote que vos convidava a exprimir o vosso consentimento, generoso e definitivo, respondestes com o vosso "sim", recíproco, e vos destes o anel bento, símbolo da vossa perene fidelidade no amor.

O amor forma-se na pessoa humana, abraça o corpo e a alma, matura no coração e na vontade; o amor para ser "humano" deve compreender a pessoa na sua totalidade física, psíquica e espiritual.

Contemporaneamente "o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi concedido" (Rm 5,5).

Desde o dia do vosso matrimónio perdura a recíproca compenetração do amor divino e do amor humano De facto, o amor divino penetra no humano, dando-lhe uma dimensão nova: torna-o profundo, puro e generoso; desenvolve-o no sentido da plenitude, nobilita-o, espiritualiza-o, torna-o pronto também para os sacrifícios e as renúncias, e ao mesmo tempo dá-lhe modo de produzir como fruto a paz e a alegria.

Por meio deste amor vós constituís a unidade em Deus: a "communio personarum". Constituís a unidade dos dois reunidos no Seu nome e Ele está no meio de vós (cf. Mt Mt 18,20).

Esta unidade em Cristo procura em certo sentido, expressar-se espontaneamente na oração. Com efeito o amor é dom e é mandamento é dom de Deus, porque Ele foi o primeiro que nos amou (cf. 1Jn 4,10), e é também o mandamento fundamental de toda a ordenação moral. Como disse na Homilia na Missa para as Famílias, a 12 de Outubro do ano passado, "Cumprir o mandamento do amor quer dizer praticar todos os deveres da família cristã: a fidelidade e a honestidade conjugal a paternidade responsável e a educação. A 'pequena Igreja' — a Igreja doméstica — significa a família a viver no espírito do mandamento do amor; a sua verdade interior, a sua fadiga quotidiana, a sua beleza espiritual e a sua força". Mas, para viver de tal modo este poema de amor e de unidade, tendes necessidade absoluta de orar. Neste sentido a oração torna-se verdadeiramente essencial para o amor e para a unidade: de facto, a oração reforça, alivia, purifica, sublima, ajuda a encontrar a luz e o conselho, aprofunda o respeito que em particular os esposos devem alimentar reciprocamente entre os corações, as consciências e os corpos; mediante estes últimos estão os esposos bem perto um do outro. Justamente a este propósito, o Concílio Vaticano II escreve: "Para cumprir com perseverança os deveres desta vocação cristã requer-se uma virtude notável; por este motivo, hão-de os esposos, fortalecidos pela graça para levarem uma vida de santidade, cultivar assiduamente e impetrar com a oração a fortaleza do próprio amor, a magnanimidade e o espírito de sacrifício" (Gaudium et Spes ).

Desejo-vos hoje que se repita constantemente na vossa vida o facto de Emaús: que reconheçais a Cristo no partir do pão e O reencontreis sempre presente no meio de vós, nos vossos corações, depois deste "partir do pão".

E vós todos, cada casal, recomendo eu a Cristo; Ele deseja acompanhar-vos no vosso caminho, assim como acompanhou os discípulos na estrada de Emaús. Confio-vos a vós todos a Cristo, conhecedor dos corações humanos.

3. Quando Jesus mandou pela primeira vez os discípulos anunciar a Boa Nova, mandou-os "dois a dois" (cf. Mc Mc 6,7). Também vós sois mandados aos pares mediante aquele grande Sacramento que, fazendo de vós marido e mulher, ao mesmo tempo vos faz testemunhas de Cristo Crucificado e Ressurgido.

De facto, no Sacramento recebeis, como cristãos, nova dignidade: a dignidade de marido e mulher, e uma nova missão, isto é, participar na missão que é própria de todo o Povo de Deus e, em diversos modos, se insere na tríplice missão — "tria munera" — do próprio Cristo.

Deveis cumprir esta missão com toda a vossa vida, realizando-a especialmente mediante o testemunho. É ainda o Concílio Vaticano II que a este propósito ilumina com energia sintética e persuasiva: "O autêntico amor conjugal será mais apreciado, e formar-se-á a seu respeito uma sã opinião pública, se os esposos cristãos derem testemunho eminente de fidelidade e harmonia, e de solicitude na educação dos filhos, e participarem na necessária renovação cultural, psicológica e social em favor do casamento e da família" (Gaudium et Spes ).

Quanto é fundamental este vosso testemunho! Quanto deve ele ser humano e, ao mesmo tempo quão profundamente, cristão! Mas precisamente para bem desempenhardes este essencial encargo de testemunho de fé e amor, vós esposos tendes um "carisma" próprio. Assim está escrito pelo Concílio: "O autêntico amor conjugal é assumido no amor divino, e dirigido e enriquecido pela força redentora de Cristo e pela acção salvadora da Igreja; para que, assim, os esposos caminhem eficazmente para Deus, sejam ajudados e fortalecidos na sua missão sublime de pai e mãe. Por este motivo, os esposos cristãos são fortalecidos e, por assim dizer, consagrados, em ordem aos deveres do seu estado, por meio de um sacramento especial; cumprindo, graças à energia deste, a própria missão conjugal e familiar, penetrados do espírito de Cristo, que lhes impregna toda a vida com fé, esperança e caridade, avançam sempre na própria perfeição e mútua santificação, e cooperam assim juntos para a glória de Deus" (idem, n. 48, d).

Com toda a vossa vida, com a convivência e com o estilo da vossa existência, construís a Igreja na sua dimensão mais reduzida mas ao mesmo tempo fundamental: a "Ecclesiola"!

Com efeito, também a pequena "Igreja doméstica" é querida expressamente por Deus e encontra-se fundada por Cristo e sobre Cristo; tem como missão essencial anunciar o Evangelho, transmitir a salvação eterna aos seus membros e possui como força interior a luz e a graça do Espírito Santo.

E eis que hoje, por ocasião deste nosso encontro, como Bispo e como Pastor da Igreja desejo reconfirmar o vosso particular "posto" na grande Comunidade do Povo de Deus; quero dirigir a esta Igreja mais pequena, que vós constituís, a expressão de um particular amor e de unia especial ternura, que se manifesta também no termo mesmo "Ecclesiola". E desejo dar-vos de novo à Igreja, entendida como o grande Mistério Divino, que se completa na história do mundo, e na qual o homem se realiza a si mesmo e cumpre o seu destino e a sua vocação.

Sede portanto a "Igreja"!

Construí a Igreja!

Oh, quanto depende de vós este sagrado construir!

Ajude-vos neste esforço também a vossa típica espiritualidade. O Movimento dos "Focolarini", aprovado pelos meus predecessores João XXIII e Paulo VI, dilatou-se nestes anos e estruturou-se em vários ramos e com diversas actividades: desde os "focolarini" de vida comum aos "focolarini" casados; do movimento sacerdotal até à ligação com Religiosos e Religiosas; desde o Movimento GEN até ao Movimento das Famílias Novas, para cujo início e desenvolvimento contribuiu Igino Giordani, que desejastes oportunamente recordar um ano após a sua morte, neste Dia dedicado à família. Muitas indubitavelmente são as vossas iniciativas e comoventes as vossas muitas experiências; mas a riqueza está e deve estar na ideia-força da vossa espiritualidade, que é a certeza sobre Deus-Amor e sobre a Sua bondade, expressão de amor. Neste sentido a vossa espiritualidade é aberta, positiva, optimista, serena e conquistadora: quereis construir a Igreja nos ânimos, com o amor e no amor, vivendo em Cristo e com Cristo presente na história quotidiana de cada pessoa, especialmente na pessoa abandonada, desiludida, atemorizada, ou no sofrimento e no extravio.

Continuai a realizar este vosso ideal, em união com as iniciativas das Dioceses e dos outros movimentos eclesiais, para ajudarem de modo concreto e eficaz a instituição familiar em todas as suas necessidades espirituais e materiais.

4. No Sacramento do Matrimónio sois chamados a tornar-vos, como marido e mulher, progenitores: pai e mãe.

Que vocação e que dignidade! Mas também que enorme responsabilidade!

Quereria usar as palavras mais expressivas para exprimir a beleza desta dignidade e a grandeza da vocação que vos é comunicada pelo poder do Espírito Santo, quando, como "uma só carne", manifestais a vossa disponibilidade de progenitores e dais assim um lugar na vossa vida à nova criatura. A novas pessoas humanas.

Esse "novo" será o vosso filho: osso dos vossos ossos e carne da vossa carne (cf. Gén Gn 2,23). Deveis transmitir o que tendes de melhor na carne e na alma. Gerar quer dizer ao mesmo tempo educar; e educar significa gerar. Na pessoa humana o que é carnal e o que é espiritual compenetram-se mutuamente e por isso compenetram-se de modo recíproco as duas grandes dimensões da paternidade e da maternidade: procriação e educação.

Educar significa muitas coisas. Vós mesmos sabeis quantos são os encargos deste processo grande, longo e paciente, através do qual ensinais simplesmente o comportamento humano àqueles que nasceram de vós, progenitores. E como no terreno desta humanidade foi enxertada a filiação divina, devemos ensinar a esta pessoa, nascida dos progenitores quanto ao corpo e de Deus quanto ao espírito, a plenitude da vida, essa plenitude que se recebe do Pai no Filho, em Cristo, por meio do Espírito Santo.

A tal propósito convém ler de novo as palavras do Vaticano II: "A verdadeira educação pretende formar a pessoa humana em ordem ao seu fim último e, ao mesmo tempo, ao bem das sociedades de que o homem é membro e em cujas responsabilidades, uma vez adulto, tomará parte. Por isso, é necessário que, tendo em conta os progressos da psicologia, pedagogia e didáctica, as crianças e os adolescentes sejam ajudados em ordem ao desenvolvimento harmónico das qualidades físicas, morais e intelectuais, e em ordem à aquisição gradual de um sentido mais perfeito da responsabilidade da própria vida, rectamente cultivada com esforço contínuo e levada por diante na verdadeira liberdade, vencendo os obstáculos com magnanimidade e constância. Sejam formados numa educação sexual positiva e prudente, à medida que vão crescendo. Além disso, de tal modo se preparem para tomar parte na vida social, que, devidamente munidos dos instrumentos necessários e oportunos, sejam capazes de inserir-se activamente nos vários agrupamentos da comunidade humana, se abram ao diálogo com os outros e se esforcem de boa vontade por cooperar no bem comum" (Gravissimum Educationis GE 1, a, b; cf. 3, a).

Oh, quão ardentemente desejo recomendar esta vossa função de progenitores, esta vossa humana paternidade e maternidade, ao próprio Eterno Pai! Estai unidos a Ele com Cristo. Por obra do Espírito Santo, pronunciai muitas vezes a palavra "Abbà" e rezai o "Pai-Nosso", para aprenderdes incessantemente do próprio Deus o que quer dizer ser pai e ser mãe; que quer dizer substituir o Pai celestial e trazer em si mesmo a Sua autoridade.

Vós, que sois chamados a colaborar na obra do Criador mesmo — pais e mães — recomendo-vos ao Pai.

5. A dignidade de "progenitores" lança luz fundamental sobre aquilo que sois por vós mesmos, reciprocamente, como esposos; ilumina, quer dizer, todo o vosso amor, que se realiza mediante o corpo e a alma. Vós, de facto, sois chamados a um amor especialíssimo

Também sobre este assunto, tão importante e delicado, o Concílio Vaticano II nos serve de guia. "Unindo o humano e o divino — lê-se na Gaudium et Spes —, esse amor leva os esposos ao livre e recíproco dom de si mesmos, que se manifesta com a ternura do afecto e com as obras, e lhes penetra toda a vida; e aperfeiçoa-se e aumenta pela sua própria generosa actuação. Ele transcende, por isso, de longe a mera inclinação erótica, a qual, fomentada egoisticamente, rápida e miseravelmente se desvanece" (n. 49, b).

E sublinha ainda: "Quanto à sexualidade humana e ao poder gerador do homem, eles superam de modo admirável o que se encontra nos graus inferiores da vida; daqui se segue que os mesmos actos específicos da vida conjugal, realizados segundo a autêntica dignidade humana, devem ser objecto de grande respeito. Quando se trata, portanto, de conciliar o amor conjugal com a transmissão responsável da vida... Tudo isto só é possível no caso de se cultivar sinceramente a virtude da castidade conjugal" (n. 51, c).

É necessário aprender com constância este amor. É necessário discernir os seus sinais autênticos. É necessário tutelar a sua verdade interior. Sabeis bem que tudo o que a Igreja ensina no seu, por assim dizer, "Catecismo do amor conjugal", tem, como finalidade própria, a seguinte: aquela interior verdade do amor; à qual sois chamados como esposos.

É necessário aprender constantemente este amor. É necessário aprendê-lo pacientemente, de joelhos. É necessário penetrar pouco a pouco em toda a beleza profunda da união dos dois. Esta beleza é de natureza espiritual, não apenas de natureza sensual. E, ao mesmo tempo, a beleza da unidade conjugal é "a unidade no corpo". Todavia, o que é corporal no homem vai buscar, no fim de contas, ao Espírito a sua beleza, a sua luz e a sua verdade.

Nestes nossos tempos, em que a beleza autêntica do amor conjugal é ameaçada de tantos modos —ameaçada ao mesmo tempo que a dignidade da paternidade e da maternidade — tende coragem! Tende coragem inflexível para procurar este amor, para dar testemunho dele diante de vós mesmos reciprocamente. E diante do mundo. Sede apóstolos da dignidade da paternidade e da maternidade. Sede apóstolos do belo amor. A vós, caros Irmãos e Irmãs, recomendo-vos portanto, à Mãe de Deus — Àquela que a Igreja proclamou como Theotokos, há 1.550 anos, no Concílio de Éfeso, que recordamos também este ano

Recomendo-vos, casais do Movimento dos Lares, à Mãe do belo amor! E concedo com grande afecto a vós todos e aos membros das vossas famílias a propiciadora Bênção Apostólica.




Discursos João Paulo II 1981 - Quinta-feira, 30 de abril de 1981