AUDIÊNCIAS 1998 - AUDIÊNCIA


JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA

Quarta-feira 19 de Agôsto de 1998





1. O apóstolo Paulo, no oitavo capítulo da Carta aos Romanos, explicando a acção do Espírito Santo que nos torna filhos do Pai em Jesus Cristo (cf. 8, 14-16), introduz o tema do caminho do mundo rumo ao seu cumprimento, segundo o desígnio divino. Com efeito, o Espírito Santo, como já explicámos nas catequeses precedentes, está presente e continua a operar na criação e na história da salvação. Poderíamos dizer que Ele envolve o cosmos com amor e misericórdia de Deus e, assim, dirige a história da humanidade para a sua meta definitiva.

O cosmos é criado por Deus como habitação do homem e teatro da sua aventura de liberdade. Em diálogo com a graça, cada ser humano é chamado a aceitar de maneira responsável o dom da filiação divina em Jesus Cristo. Por esta razão, o mundo criado adquire o seu verdadeiro significado no homem e para o homem. Este não pode, certamente, a seu bel prazer dispor do cosmos em que vive, mas com a sua inteligência e a sua vontade deve levar à plena realização a obra do Criador.

«O homem — ensina a Gaudium et spes — criado à imagem de Deus, recebeu o mandamento de dominar a terra com tudo o que ela contém e governar o mundo na justiça e na santidade e, reconhecendo Deus como Criador universal, orientar-se a si e ao universo para Ele; de maneira que, estando todas as coisas sujeitas ao homem, seja glorificado em toda a terra o nome de Deus» (n. 34).

2. Para que se realize o desígnio divino, o homem deve usar a sua liberdade em sintonia com a vontade de Deus e vencer a desordem introduzida pelo pecado na sua vida e no mundo. Este dúplice empreendimento não pode acontecer sem o dom do Espírito Santo. Ressaltam-no com vigor os profetas do Antigo Testamento. Assim o profeta Ezequiel: «Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Dentro de vós porei o Meu espírito, fazendo com que sigais as Minhas leis e obedeçais os Meus preceitos... Sereis o Meu povo e Eu serei o vosso Deus» (36, 26-28).

Esta profunda renovação pessoal e comunitária esperada na «plenitude dos tempos» e realizada pelo Espírito Santo envolverá, em alguma medida, o cosmos inteiro. Escreve Isaías: «Uma vez mais virá sobre nós o espírito do alto. Então o deserto se converterá em vergel... No deserto habitará o direito, e a justiça no vergel. A paz será obra da justiça, e o fruto da justiça será a tranquilidade e a segurança para sempre. O meu povo repousará em abrigos tranquilos» (32, 15-18).

3. Para o apóstolo Paulo esta promessa cumpre-se em Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado. De facto, Cristo redime e santifica, por meio do Espírito, aquele que acolhe na fé a sua Palavra de salvação, transforma-lhe o coração e, por consequência, as relações sociais.

Graças ao dom do Espírito Santo, o mundo dos homens torna-se «spatium verae fraternitatis», espaço de uma verdadeira fraternidade (cf. Gaudium et spes GS 37). Essa transformação do agir do homem e das relações sociais exprime-se na vida eclesial, no empenho nas realidades temporais e no diálogo com todos os homens de boa vontade. Este testemunho torna-se sinal profético e princípio de fermentação da história rumo ao advento do Reino, na superação de tudo aquilo que impede a comunhão entre os homens.

4. Nesta novidade de vida na edificação da paz universal, por meio da justiça e do amor, é chamado a participar, de modo misterioso mas real, também o cosmos. Como ensina o apóstolo Paulo: «Porque a criação aguarda ansiosa a revelação dos filhos de Deus; se ela foi submetida à vaidade — não voluntariamente, mas por causa de quem a submeteu — foi com a esperança de ser, também ela, libertada da servidão da corrupção para participar, livremente, da glória dos filhos de Deus. Sabemos, com efeito, que toda a criação tem gemido e sofrido as dores de parto, até ao presente. E não só ela, mas também nós próprios, que possuímos as primícias do Espírito, gememos igualmente em nós mesmos, aguardando a filiação adoptiva, a libertação do nosso corpo» (Rm 8,19-23).

A criação, vivificada pela presença do Espírito criador, é chamada a tornar-se «morada da paz» para a inteira família humana. A criação realiza esta finalidade através da mediação da liberdade do homem, que Deus pôs como seu guardião. Se o homem se fecha egoisticamente em si mesmo, por uma falsa concepção da liberdade, fatalmente envolve nesta perversão a própria criação.

Ao contrário, através do dom do Espírito Santo que Jesus Cristo efunde em nós do seu lado dilacerado na Cruz, o homem adquire a verdadeira liberdade de filho no Filho. Ele pode, então, compreender o verdadeiro significado da criação e operar para que ela se torne «morada da paz».

Neste sentido, Paulo pode afirmar que a criação geme e aguarda a revelação dos filhos de Deus. Só se o homem com a luz do Espírito Santo se reconhece filho de Deus em Cristo e olha para a criação com sentimento de fraternidade, o cosmos inteiro é libertado e remido segundo o plano divino.

5. A consequência destas reflexões é deveras consoladora: o Espírito Santo é a verdadeira esperança do mundo. Ele não só opera no coração dos homens, no qual introduz aquela estupenda participação na relação filial que Jesus Cristo vive com o Pai, mas eleva e aperfeiçoa as actividades humanas no universo.

Estas — como ensina o Concílio Vaticano II — «devem ser purificadas e levadas à perfeição pela cruz e ressurreição de Cristo. Porque, remido por Cristo e tornado nova criatura no Espírito Santo, o homem pode e deve amar até as coisas criadas por Deus. Pois recebeu-as de Deus e considera-as e respeita-as como vindas da mão do Senhor. Dando por elas graças ao benfeitor e usando e aproveitando as criaturas em pobreza e liberdade de espírito, é introduzido no verdadeiro senhorio do mundo, como quem nada tem e tudo possui. “Todas as coisas são vossas; mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Co 3,22-23)» (Gaudium et spes GS 37).
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Caríssimos Irmãos e Irmãs:

Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus (Rm 8,14). Com estas palavras, o Apóstolo Paulo introduz o tema do caminho da humanidade em direcção ao cumprimento dos planos de Deus. Para que este desígnio divino se realize, o homem deve fazer uso da sua liberdade, conformando-a com a vontade de Deus. Trata-se de uma renovação pessoal e comunitária que, iniciada por Cristo morto e ressuscitado, redime e santifica o coração dos homens e as relações sociais. A criação, vivificada pela presença do Espírito criador, é chamada a tornar-se «morada da paz» (Is 32,18), para a inteira família humana.

Saúdo com muito afecto os peregrinos de língua portuguesa aqui presentes. A todos faço votos de paz e de prosperidades cristãs. De modo particular, desejo saudar um grupo de paranaenses do Brasil, denominado Nova Criação, e outro de jovens empresários provindos do Ceará. Grato pela vossa visita, desejo e peço a Deus que leveis deste encontro a consciência da dignidade da vossa vocação de cristãos, buscando, como filhos de Deus, a santidade no meio dos vossos afazeres diários. Com a minha Bênção Apostólica.



JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA

Quarta-feira 26 de Agôsto de 1998




1. A história da salvação é a progressiva autocomunicação de Deus à humanidade, que alcança o seu vértice em Jesus Cristo. No Verbo feito homem, Deus Pai quer participar a Sua própria vida a todos: em definitivo, quer comunicar-Se. Esta autocomunicação divina acontece no Espírito Santo, vínculo de amor entre a eternidade e o tempo, entre a Trindade e a história.

Se no seu Espírito Deus Se abre ao homem, este, por sua vez, é criado como sujeito capaz de acolher a autocomunicação divina. O homem — como diz a tradição do pensamento cristão — é «capax Dei»: capaz de conhecer a Deus e de acolher o dom que Ele faz de Si mesmo. Com efeito, criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn Gn 1,26), é capaz de viver uma relação pessoal com Ele e de responder com a obediência de amor à relação de aliança que lhe foi proposta pelo seu Criador.

Na base deste ensinamento bíblico, o dom do Espírito, prometido ao homem e concedido «sem medida» por Jesus Cristo, significa então o «chamamento à amizade, na qual as transcendentes «profundezas de Deus» são abertas, de algum modo, à participação por parte do homem» (Dominum et vivificantem DEV 34).

Quanto a isto, o Concílio Vaticano II ensina: «Deus invisível (cf. Cl CL 1,15 CL 1 Tm 1, 17), na riqueza do seu amor, fala aos homens como amigos (cf. Êx Ex 33,11 Jn 15,14 s. ) e convive com eles (Ba 3,38) para os convidar e admitir à comunhão com Ele» (Dei Verbum DV 2).

2. Então, se mediante o seu Espírito Deus Se comunica ao homem, este é continuamente chamado a doar-se a Deus com todo o próprio ser. Esta é a sua vocação mais profunda. A isto ele é solicitado sem cessar pelo Espírito Santo que, iluminando a sua inteligência e sustentando a sua vontade, o introduz no mistério da filiação divina em Jesus Cristo e o convida a vivê-lo com coerência.

Todos os impulsos generosos e sinceros da inteligência e da liberdade do homem para se aproximar, ao longo dos séculos, do mistério inefável e transcendente de Deus, são suscitados pelo Espírito Santo.

Em particular na história da antiga Aliança, estabelecida por Javé com o povo de Israel, testemunhamos a actuação progressiva deste encontro entre Deus e o homem no espaço de comunhão que foi aberto pelo Espírito.

É impressionante, por exemplo, pela sua intensa beleza, a narração do encontro do profeta Elias com Deus no sopro do Espírito: «O Senhor disse-lhe: “Sai e permanece sobre o monte, na presença do Senhor: eis que o Senhor vai passar”. Nesse momento passou adiante dele um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava o rochedo; mas o Senhor não estava naquele vento. Depois do vento, a terra tremeu; mas o Senhor não estava no tremor de terra. Passado o tremor de terra, acendeu-se um fogo; mas o Senhor não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Elias, ouvindo isto, cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da caverna. Uma voz disse-lhe: “Que fazes aqui Elias?”» (1R 19,11-13).

3. Mas o encontro perfeito e definitivo entre Deus e o homem — aguardado e contemplado na esperança pelos patriarcas e profetas — é Jesus Cristo. Ele, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, «na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si próprio e descobre-lhe a sua vocação sublime» (Gaudium et spes GS 22). Jesus Cristo realiza esta revelação com toda a Sua vida. Com efeito Ele, por impulso do Espírito Santo, está sempre propenso a cumprir a vontade do Pai, e no madeiro da Cruz oferece-Se ao Pai «de uma vez para sempre», «com um Espírito eterno» (cf. Hb He 9,14).

Através do evento pascal, Cristo ensina-nos como «o homem, única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma, não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo» (Gaudium et spes GS 24). Ora, precisamente o Espírito Santo, comunicado em plenitude à Igreja por Jesus Cristo, faz com que o homem, ao reconhecer-se n'Ele, sempre melhor «se reconheça através de um dom sincero de si mesmo».

4. Esta verdade eterna sobre o homem, que nos foi revelada por Jesus Cristo, adquire no nosso tempo uma particular actualidade. Apesar das contradições também intensas, hoje o mundo vive um período de intensa «socialização» (cf. Gaudium et spes GS 6) no que se refere quer às relações interpessoais no interior das várias comunidades humanas, quer aos relacionamentos entre os povos, as raças e as diversas sociedades e culturas.

Em todo este processo rumo à comunhão e à unidade, é necessária a acção do Espírito Santo, também para superar os obstáculos e os perigos que insidiam este caminho da humanidade. «Na perspectiva do ano 2000 depois do nascimento de Cristo, importa conseguir que um número cada vez maior de homens “possam encontrar-se plenamente... através do dom sincero de si”. Trata-se pois de fazer com que, sob a acção do Espírito-Paráclito, se realize no nosso mundo um processo de verdadeiro amadurecimento na humanidade, na vida individual e na vida comunitária; foi em ordem a isso que o próprio Jesus, quando pedia ao Pai “que todos sejam um, como Eu e Tu somos um” (Jn 17,21-22)... nos sugeriu que existe uma certa semelhança entre a união das pessoas divinas e a união dos filhos de Deus na verdade e na caridade» (Dominum et vivificantem DEV 59).
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Caríssimos Irmãos e Irmãs de língua portuguesa:

A história da salvação é a progressiva autocomunicação de Deus à humanidade, que alcança seu ápice em Jesus Cristo. Deus-Pai, no Verbo feito Homem, quer participar a todos Sua mesma vida. Por isso, o sentido mais profundo da vocação do homem consiste na sua doação a Deus, com todo o seu ser. E Deus espera do homem, não obstante os tempos em que vivemos, «o dom sincero de si» (GS 24), que aumente a união com os demais homens, de distintas raças e culturas. Para todo este processo, é necessária a acção do Espírito Santo, a fim de superar os obstáculos e perigos que ameaçam este caminho da humanidade.

Saúdo cordialmente os ouvintes que me escutam, de modo especial os peregrinos portugueses das paróquias de Lijó e de Fermentões da Arquidiocese de Braga, da paróquia de Lavra da diocese do Porto e das paróquias de Pedreiras e de S. Pedro do Sul; aos visitantes brasileiros aqui presentes, o meu mais afectuoso abraço. A todos formulo sinceros votos de paz e de harmonia em seus lares, e invoco do Todo-Poderoso abundantes dons de auxílio material e espiritual, abençoando-os de coração, com o amparo da Virgem Santíssima.



                                                                          Setiembro de 1998

JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA

Quarta-feira 2 de Setiembro de 1998



Caríssimos Irmãos e Irmãs:

O Espírito Santo, que «penetra até às profundezas de Deus» (1Co 2,10), é, ao mesmo tempo, a luz que ilumina a consciência do homem e a fonte da sua verdadeira liberdade (cf. Dominum et vivificantem DEV 36). Aderir ao plano de Deus sobre o homem revelado em Jesus Cristo e realizá-lo na própria existência significa descobrir a autêntica vocação da liberdade humana, conforme a promessa de Jesus Cristo aos discípulos: «Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade libertar-vos-á» (Jn 8,31-32).

Saúdo com afecto todos os ouvintes de língua portuguesa, em especial os peregrinos portugueses aqui presentes da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição do Porto, e os da Paróquia de Tomar. Sede bem-vindos! Grato pela vossa visita, desejo e peço a Deus que leveis deste encontro a consciência da dignidade da vocação de cristãos, e da responsabilidade de serem Igreja, de terem uma missão específica, sublime e necessária, já que foi querida por Deus. E, em seu nome, vos abençoo.



JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA

Quarta-feira 9 de Setiembro de 1998



1. Na Declaração Nostra aetate, sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs, o Concílio Ecuménico Vaticano II ensina que «a Igreja católica nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia reflectem não raramente um raio de verdade que ilumina todos os homens» (n. 2).

Retomando o ensinamento conciliar, desde a primeira Carta Encíclica do meu pontificado, eu quis evocar a antiga doutrina formulada pelos Padres da Igreja, segundo a qual é necessário reconhecer as «sementes do Verbo», presentes e operantes nas diversas religiões (cf. Ad gentes AGD 11 Lumen gentium LG 17). Essa doutrina impele-nos a afirmar que, embora por caminhos diferentes, «está contudo voltada para uma mesma direcção a mais profunda aspiração do espírito humano, tal como ela se exprime na busca de Deus; e conjuntamente na busca, mediante a tensão no sentido de Deus, da plena dimensão da humanidade, ou seja, do sentido pleno da vida humana» (Redemptor hominis RH 11).

As «sementes de verdade», presentes e operantes nas diversas tradições religiosas, são um reflexo do único Verbo de Deus, «que a todo o homem ilumina» (cf. Jo Jn 1,9) e que Se fez carne em Cristo Jesus (cf. Jo Jn 1,14). Elas são ao mesmo tempo «efeito do Espírito da verdade, operante para além dos confins visíveis do Corpo Místico», e que «sopra onde quer» (Jn 3,8) (cf. Redemptor hominis RH 6 Redemptor hominis, 6 e 12). Tendo presente esta doutrina, a celebração do Jubileu do Ano 2000 «será uma grande ocasião — como se vê pelos acontecimentos destes últimos decénios — para o diálogo inter-religioso» (Tertio millennio adveniente TMA 53). Já desde agora, neste ano pneumatológico, é oportuno que nos detenhamos para aprofundar em que sentido e por que vias o Espírito Santo está presente na busca religiosa da humanidade e nas diversas experiências e tradições que a exprimem.

2. Antes de tudo, é preciso ter presente que toda a busca do espírito humano em direcção da verdade e do bem e, em última análise, de Deus, é suscitada pelo Espírito Santo. Precisamente desta abertura primordial do homem em relação a Deus nascem as diversas religiões. Não raro na sua origem encontramos fundadores que realizaram, com a ajuda do Espírito de Deus, uma mais profunda experiência religiosa. Transmitida aos outros, essa experiência tomou forma nas doutrinas, nos ritos e nos preceitos das várias religiões.

Em todas as autênticas experiências religiosas, a manifestação mais característica é a oração. Por causa da constitutiva abertura do espírito humano à acção com que Deus o solicita a transcender-se, podemos considerar que «toda a oração autêntica é suscitada pelo Espírito Santo, que está misteriosamente presente no coração de todo o homem» (Alocução aos membros da Cúria Romana, 22/12/1986, n. 11, em Insegnamenti IX/2 [1986], pág. 2028).

Nós vivemos uma manifestação eloquente desta verdade no Dia mundial de Oração pela Paz, no dia 27 de Outubro de 1986 em Assis, e noutras semelhantes ocasiões de grande intensidade espiritual.

3. O Espírito Santo está presente nas outras religiões não só através das autênticas expressões de oração. «A presença e a acção do Espírito — como escrevi na Carta Encíclica Redemptoris missio — não atingem apenas os indivíduos, mas também a sociedade e a história, os povos, as culturas e as religiões» (n. 28).

Normalmente, «é através da prática daquilo que é bom nas suas próprias tradições religiosas e seguindo os ditames da sua consciência, que os membros das outras religiões respondem de maneira positiva ao convite de Deus e recebem a salvação em Jesus Cristo, ainda que não O reconheçam como o seu Salvador (cf. Ad gentes )» (Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso – Congregação para a Evangelização dos Povos, Instrução Diálogo e Anúncio, 19 de Maio de 1991, n. 29, em Enchiridion Vaticanum 13 [1991-1993], pág. 203).

Com efeito, como ensina o Concílio Vaticano II, «já que por todos morreu Cristo e a vocação última de todos os homens é realmente uma só, a saber, a divina, devemos manter que o Espírito Santo a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido» (Gaudium et spes GS 22).

Tal possibilidade realiza-se mediante a adesão íntima e sincera à Verdade, o dom generoso de si ao próximo, a busca do Absoluto suscitada pelo Espírito de Deus. Também através da actuação dos preceitos e das práticas conformes à lei moral e ao autêntico sentido religioso se manifesta um raio da Sabedoria divina. Precisamente em virtude da presença e da acção do Espírito, os elementos de bem, dentro das diversas religiões, dispõem misteriosamente os corações para acolherem a revelação plena de Deus em Cristo.

4. Pelos motivos aqui recordados, a atitude da Igreja e de cada um dos cristãos para com as outras religiões é marcada por respeito sincero, simpatia profunda e também, quando for possível e oportuno, por colaboração cordial. Isto não significa esquecer que Jesus Cristo é o único Mediador e Salvador do género humano. Nem sequer significa atenuar a tensão missionária, à qual estamos obrigados em obediência ao mandato do Senhor ressuscitado: «Ide, pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28,19). Antes, a atitude de respeito e diálogo constitui um imperioso reconhecimento das «sementes do Verbo» e dos «gemidos do Espírito». Neste sentido, longe de se opor ao anúncio do Evangelho, ela prepara-o, à espera dos tempos dispostos pela misericórdia do Senhor. «Através do diálogo, façamos com que Deus esteja presente no meio de nós: pois enquanto nos abrirmos uns aos outros, abrimo-nos também a Deus» (Discurso aos membros das outras religiões, Madras, 5 de Fevereiro de 1986, n. 4, em Insegnamenti IX/1, [1986], PP 322 s.).

O Espírito de verdade e de amor, no horizonte do terceiro milénio já próximo, nos guie pelos caminhos do anúncio de Jesus Cristo e do diálogo de paz e de fraternidade com os seguidores de todas as religiões!
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Queridos Irmãos e Irmãs,

A abertura da pessoa para a verdade e o bem realiza-se no horizonte daquela «Luz verdadeira que ilumina todo o homem» (Jn 1,9), isto é, Jesus Cristo. Como diz São Tomás de Aquino, é a Ele - «Luz que brilha nas trevas» - que se fica a dever toda a verdade conhecida pelo homem; e qualquer parcela da verdade, dita por quem quer que seja, vem do Espírito Santo». Esta certeza na presença e acção do Espírito Santo no seio também da cultura do nosso tempo pode constituir, na aurora do Terceiro Milénio, a premissa para um novo encontro entre a verdade de Cristo e o pensamento humano.

Amados peregrinos de língua portuguesa, a minha saudação afectuosa para todos os presentes, nomeadamente para a paróquia lisboeta de Benfica e para os diversos grupos vindos do Brasil. O Espírito Santo, artista divino do mundo, guie a vossa mente e os vossos passos pelas sendas dum encontro novo e surpreendente com o esplendor da Verdade: Jesus Cristo Senhor. Ele é a suspirada Bênção de Deus para toda a humanidade.



JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA

Quarta-feira 16 de Setiembro de 1998



1. Retomando uma afirmação do Livro da Sabedoria (cf. 1, 7), o Concílio Ecuménico Vaticano II ensina-nos que «o Espírito do Senhor», o qual cumula dos Seus dons o povo de Deus peregrino na história, «replet orbem terrarum», enche todo o universo (cf. Gaudium et spes GS 11). Ele guia incessantemente os homens rumo à plenitude de verdade e de amor, que Deus Pai comunicou em Cristo Jesus.

Esta profunda consciência da presença da acção do Espírito Santo ilumina desde sempre a consciência da Igreja, fazendo com que tudo aquilo que é genuinamente humano encontre eco no coração dos discípulos de Cristo (cf. ibid., n. 1).

Já na primeira metade do século II, o filósofo São Justino podia escrever: «Tudo o que foi afirmado de modo excelente e tudo o que descobriram aqueles que fazem filosofia ou instituem leis, foi realizado por eles através da pesquisa ou da contemplação de uma parte do Verbo» (II Apol., 10, 1-3).

2. A abertura do espírito humano à verdade e ao bem realiza-se sempre no horizonte da «Luz verdadeira que a todo o homem ilumina» (Jn 1,9). Esta luz é o próprio Cristo Senhor, que iluminou desde as origens os passos do homem e entrou no seu «coração». Com a Encarnação, na plenitude dos tempos, a Luz apareceu no mundo com todo o seu fulgor, brilhando aos olhos do homem como esplendor da verdade (cf. Jo Jn 14,6).

Prenunciada já no Antigo Testamento, a manifestação progressiva da plenitude da verdade, que é Cristo Jesus, realiza-se ao longo do curso dos séculos, por obra do Espírito Santo. Essa específica acção do «Espírito da verdade» (cf. Jo Jn 14,17 Jn 15,26 Jn 16,13) refere-se não só aos crentes mas, de modo misterioso, a todos os homens que, embora ignorem sem culpa o Evangelho, sinceramente buscam a verdade e se esforçam por viver rectamente (cf. Lumen gentium LG 16).

Na esteira dos Padres da Igreja, S. Tomás de Aquino pode afirmar que nenhum espírito é «tão tenebroso a ponto de não participar em nada na Luz divina. Com efeito, toda a verdade conhecida por quem quer que seja é devida totalmente a esta “luz que brilha nas trevas”; visto que toda a verdade, seja quem for aquele que a disser, vem do Espírito Santo» (Super Ioannem, 1, 5 lect. 3, n. 103).

3. Por este motivo, a Igreja é amiga de toda a autêntica pesquisa do pensamento humano e estima sinceramente o património de sabedoria, elaborado e transmitido pelas diversas culturas. Nele encontrou expressão a inexaurível criatividade do espírito humano, orientado pelo Espírito de Deus para a plenitude da verdade.

O encontro entre a palavra da verdade anunciada pela Igreja e a sabedoria expressa pelas culturas, e elaborada pelas filosofias, solicita estas últimas a abrirem-se e a encontrarem o próprio cumprimento na revelação que vem de Deus. Como sublinha o Concílio Vaticano II, esse encontro enriquece a Igreja, tornando-a capaz de penetrar sempre mais profundamente na verdade, de a exprimir através das linguagens das diversas tradições culturais e de a apresentar — imutável na substância — na forma mais adaptada ao mudar dos tempos (cf. Gaudium et spes GS 44).

A confiança na presença e na acção do Espírito Santo, também na agitação da cultura do nosso tempo, pode constituir, no alvorecer do Terceiro Milénio, a premissa para um novo encontro entre a verdade de Cristo e o pensamento humano.

4. Na perspectiva do Grande Jubileu do Ano 2000, é preciso aprofundar o ensinamento do Concílio a respeito deste encontro, sempre renovado e fecundo, entre a verdade revelada, conservada e transmitida pela Igreja, e as múltiplas formas do pensamento e da cultura humana. Infelizmente, ainda hoje é válida a constatação de Paulo VI na Carta Encíclica Evangelii nuntiandi, segundo a qual «a ruptura entre Evangelho e cultura é, sem dúvida, o drama da nossa época» (n. 20).

Para remediar esta ruptura, que incide com graves consequências sobre as consciências e os comportamentos, é necessário despertar nos discípulos de Jesus Cristo aquele olhar de fé, capaz de descobrir as «sementes de verdade» difundidas pelo Espírito Santo nos nossos contemporâneos. Poder-se-á contribuir também para a sua purificação e maturação através da paciente arte do diálogo, que tem particularmente em vista a apresentação do rosto de Cristo com todo o seu esplendor.

Em particular, é necessário ter bem presente o grande princípio formulado pelo último Concílio, que eu quis recordar na Encíclica Dives in misericordia: «Enquanto as várias correntes do pensamento humano, do passado e do presente, têm sido e continuam a ser marcadas pela tendência para separar e até mesmo para contrapor o teocentrismo e o antropocentrismo, a Igreja, seguindo a Cristo, procura ao contrário uni-los conjuntamente na história do homem, de maneira orgânica e profunda» (n. 1).

5. Esse princípio mostra-se fecundo não só para a filosofia e a cultura humanista, mas também para os sectores da investigação científica e da arte. Com efeito, o homem de ciência que «se esforça com humildade e constância por perscrutar os segredos da natureza é, mesmo quando disso não tem consciência, como que conduzido pela mão de Deus, o qual sustenta as coisas e as faz ser o que são» (GS 36).

Por outro lado, o verdadeiro artista tem o dom de intuir e exprimir o horizonte luminoso e infinito em que está imersa a existência do homem e do mundo. Se for fiel à inspiração que o habita e o transcende, ele adquire uma secreta conaturalidade com a beleza de que o Espírito Santo reveste a criação.

O Espírito Santo, Luz que ilumina as mentes e divino «artista do mundo» (S. Bulgakov, Il Paraclito, Bolonha 1971, pág. 311), guie a Igreja e a humanidade do nosso tempo ao longo das sendas de um novo e surpreendente encontro com o esplendor da Verdade!



JOÃO PAULO II

AUDIÊNCIA

Quarta-feira 23 de Setembro de 1998



1. Na Carta Apostólica Tertio millennio adveniente, referindo-me ao ano dedicado ao Espírito Santo, eu exortava a Igreja inteira a «redescobrir o Espírito como Aquele que constrói o Reino de Deus no curso da história e prepara a sua plena manifestação em Jesus Cristo, animando os homens no mais íntimo deles mesmos e fazendo germinar dentro da existência humana os gérmens da salvação definitiva que acontecerá no fim dos tempos» (n. 45).

Se nos colocarmos na perspectiva da fé, veremos a história, sobretudo depois da vinda de Jesus Cristo, como inteiramente envolvida e penetrada pela presença do Espírito de Deus. Compreende-se facilmente por que hoje a Igreja se sente mais do que nunca chamada a discernir os sinais dessa presença na história dos homens, à qual ela – imitando o seu Senhor – «se sente real e intimamente ligada» (Gaudium et spes GS 1).

2. Para cumprir este seu «dever permanente» (cf. GS GS 4), a Igreja é convidada a redescobrir de modo sempre mais profundo e vital que Jesus Cristo, o Senhor crucificado e ressuscitado, é «a chave, o centro e o fim de toda a história humana» (GS 10). Ele constitui «o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização, o centro do género humano, a alegria de todos os corações e a plenitude das suas aspirações» (GS 45). E ao mesmo tempo a Igreja reconhece que só o Espírito Santo, imprimindo nos corações dos crentes a imagem viva do Filho de Deus que Se fez homem, os pode tornar capazes de perscrutar a história, captando nela os sinais da presença e da acção de Deus.

O apóstolo Paulo escreve: «Quem dentre os homens conhece as coisas do homem, a não ser o espírito do homem que nele reside? Assim também as que são de Deus, ninguém as conhece, a não ser o Espírito de Deus. Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, que nos faz conhecer as graças que por Ele nos foram concedidas» (1Co 2,11-12). Sustentada por este dom incessante do Espírito, a Igreja experimenta com íntima gratidão que «a fé ilumina todas as coisas com uma luz nova, e faz conhecer o desígnio divino acerca da vocação integral do homem e, dessa forma, orienta o espírito para soluções plenamente humanas» (GS 11).

3. O Concílio Vaticano II, com uma expressão retomada da linguagem do próprio Jesus, designa como «sinais dos tempos» (GS 4) os indícios significativos da presença e da acção do Espírito de Deus na história.

Hoje, a advertência dirigida por Jesus aos Seus contemporâneos ressoa forte e salutar também para nós: «Sabeis interpretar o aspecto do céu mas, quanto aos sinais dos tempos, não sois capazes de os interpretar? Esta geração má e adúltera exige um sinal. Mas sinal algum lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas» (Mt 16,3-4).

Na perspectiva da fé cristã, o convite a discernir os sinais dos tempos corresponde à novidade escatológica, introduzida na história pela vinda do Verbo entre nós (cf. Jo Jn 1,14).

4. Com efeito, Jesus convida ao discernimento em relação às palavras e obras, que testemunham o iminente advento do Reino do Pai. Antes, Ele orienta e concentra todos os sinais no enigmático «sinal de Jonas». E com isto altera a lógica mundana que tende a procurar sinais que confirmem o desejo de auto-afirmação e de poder do homem. Como ressalta o apóstolo Paulo, «enquanto os judeus pedem sinais e os gregos buscam a sabedoria, nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios» (1Co 1,22-23).

Como primogénito entre muitos irmãos (cf. Rm Rm 8,29), Cristo é o primeiro a vencer em Si mesmo a «tentação» diabólica de Se servir de meios mundanos, para realizar a vinda do Reino de Deus. Isto ocorreu desde o momento das provas messiânicas no deserto até ao sarcástico desafio que Lhe foi dirigido, enquanto estava pregado na cruz: «Se és Filho de Deus, desce da cruz!» (Mt 27,40). Em Jesus crucificado acontece como que uma transformação e concentração dos sinais: Ele mesmo é o «sinal de Deus», sobretudo no mistério da Sua morte e ressurreição. Para discernir os sinais da Sua presença na história, é preciso libertar-se de toda a pretensão mundana e acolher o Espírito que «tudo penetra, até às profundezas de Deus» (1Co 2,10).

5. Se nos perguntássemos quando se cumprirá a realização do Reino de Deus, Jesus responder-nos-ia como fez com os Apóstolos, que não nos compete «conhecer os tempos (chrónoi) e os momentos (kairói) que o Pai dispôs com a Sua autoridade (exousía)». Jesus pede também a nós que acolhamos a força do Espírito, para sermos Suas testemunhas «em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e até aos confins do mundo» (Ac 1,7-8).

Antes a disposição providencial dos sinais dos tempos estava escondida no segredo do desígnio do Pai (cf. Rm Rm 16,25 Ep 3,9), irrompeu na história e nela prosseguiu, no sinal paradoxal do Filho crucificado e ressuscitado (cf. 1P 1,19-21). Ela é acolhida e interpretada pelos discípulos de Cristo na luz e no poder do Espírito, à espera vigilante e operosa do advento definitivo que levará a cabo a história para além de si mesma, no seio do Pai.

6. Deste modo o tempo, por disposição do Pai, estende-se como um convite a «conhecer o amor de Cristo que supera todo o conhecimento», para sermos «repletos de toda a plenitude de Deus» (Ep 3,18-19). O segredo deste caminho é o Espírito Santo, que nos guia «para a verdade total» (Jn 16,13).

Com o coração confiadamente aberto a esta perspectiva de esperança, invoco ao Senhor a abundância dos dons do Espírito para a Igreja inteira, «a fim que a “Primavera” do Concílio Vaticano II possa encontrar no novo milénio o seu “Verão”, isto é, o seu amadurecido desenvolvimento» (Homilia durante o Consistório Público Ordinário, 21 de Fevereiro de 1998, n. 4; em L’Osservatore Romano, ed. port. de 28/2/98, pág. 2).



AUDIÊNCIAS 1998 - AUDIÊNCIA