FRANCISCO
FAUS
A INVEJA
QUADRANTE
São Paulo
1996
Copyright © 2000
QUADRANTE, Sociedade de Publicações Culturais
Capa
José C. Prado
Ilustração da
capa
Coroação de
Espinhos,
de Hieronymus Bosch (1450-1516).
National
Gallery, Londres.
Distribuidor
exclusivo em Portugal: REI DOS LIVROS,
Rua dos
Fanqueiros, 77-79, 1100 – Lisboa
Todos os
direitos reservados a
QUADRANTE,
Sociedade de Publicações Culturais
Rua Iperoig,
604 – Tel. 3873-2270 – Fax: 3673-0750
CEP 05016-000
– São Paulo – SP
PÓRTICO
A inveja é triste. O invejoso é infeliz. Se deixamos esse vício tomar
conta de nós, o coração perde a capacidade de alegria. A pessoa invejosa anda
triste, vive amargurada. O seu coração é como um buraco negro, que engole e
anula todas as alegrias que lhe batem à porta, todas as luzes de felicidade
possível que o convidam a sorrir.
Não há ninguém que, voluntariamente, queira ser invejoso ou deseje passar
pelos sofrimentos que a inveja traz consigo, mas infelizmente são muitos, muitíssimos,
os que padecem desse mal – mesmo que não o reconheçam de modo algum – e sofrem
as suas conseqüências demolidoras.
Se conseguíssemos extirpar da nossa alma a inveja, seríamos muito mais
felizes, os nossos olhos se abririam, e passaríamos a descobrir inúmeras
riquezas da vida, do mundo e dos outros que, agora, a inveja nos impede de
perceber e desfrutar.
Tendo isso em conta, estas páginas sobre a inveja pretendem ser, antes de
mais nada, um convite à alegria. Foram escritas com o fito de ajudar pelo menos
alguns – Deus queira que o consigam! – a libertar a alma desse vício nefasto,
que é como uma cerca de arame farpado a aprisionar a alma, ou como um câncer a
devorar o coração.
Para isso, precisaremos, primeiro, iluminar o terreno da vida, a fim de localizar
a cerca da inveja e as suas farpas; a fim de detectar as características desse
tumor maligno. Disso vai tratar a primeira parte desta obra: nela, procuraremos
mostrar o verdadeiro rosto da inveja, as raízes de onde nasce e os males que
provoca.
A partir desses esclarecimentos, poderemos entrar numa segunda parte, que
constitui o objetivo fundamental e como que o miolo destas páginas: perceber
que, se formos simples, humildes e generosos, e nos deixarmos guiar por Deus,
nas mesmas situações em que achamos motivos de inveja, poderemos achar motivos
de agradecimento; lá onde nos sentimos desvalorizados, poderemos descobrir
valores e meios de realização muito grandes; em vez de nos compararmos com os
outros, aprenderemos a confrontar-nos com o nosso ideal pessoal; e, assim,
deixando de andar angustiadamente atrás de uma felicidade ilusória, poderemos
achar a felicidade verdadeira e compartilhá-la com os outros.
Primeira parte: O vício da inveja
VERDADEIRAS E FALSAS INVEJAS
QUE É A INVEJA?
Há uma definição de inveja que já é clássica: A
inveja é a tristeza sentida diante do bem do outro1. Definição curta e simples, que começa por
afirmar que a inveja é um tipo de tristeza.
Mas não é uma tristeza qualquer. De modo geral, as nossas tristezas são causadas
por um mal (pelo menos, por algo que
nós consideramos um mal): pode ser um
acidente, um fracasso, uma doença, a perda de uma pessoa querida, etc. A
inveja, pelo contrário, é causada por um bem,
um bem alheio, que nós consideramos
como um mal, simplesmente porque não o temos.
Quase todos os bens alheios podem ser motivo de inveja.
Podemos ficar tristes pelo que os outros são:
alegres, simpáticos, inteligentes, fortes, hábeis, etc. A moça feia inveja a
moça bonita, o baixo inveja o alto, o curto de inteligência inveja o
intelectual brilhante, o desajeitado inveja o habilidoso, a solteirona inveja
as casadas.
Podemos ficar tristes pelo que os outros têm:
dinheiro, prestígio, cargos, casas, fazendas, carros, viagens, diversões.
Podemos ficar tristes por verificar – ou imaginar – que os outros são
mais queridos: que recebem mais carinho, mais atenções, mais mimo, mais dedicação do que nós. É o grande
capítulo dos ciúmes.
E podemos ficar tristes por causa da felicidade
que os outros demonstram e que nós não experimentamos. “É uma desgraça sem
remédio odiar a felicidade alheia”, dizia São Cipriano2.
Mas, será que todas as formas de tristeza diante de um bem alheio são
inveja? Não. Há tristezas motivadas pelo bem dos outros, que embora sejam
chamadas de inveja, nada ou pouco têm a ver com ela. Para ficarmos com uma
idéia mais precisa, vamos considerar os traços próprios das invejas
“verdadeiras” e os das “falsas”.
INVEJAS VERDADEIRAS
A inveja verdadeira sempre tem como característica o fato
de que o bem
alheio é considerado um mal próprio, como diz São Tomás de Aquino3. Ficamos tristes porque esse bem não
possuído nos rebaixa: diminui o nosso conceito íntimo – a imagem que fazemos de
nós mesmos – ou a nossa consideração social, diminui a nossa glória, em suma,
humilha-nos aos nossos olhos e aos olhos dos demais. O invejoso não suporta que
os outros estejam acima dele ou sejam mais felizes ou mais queridos, e, por
causa disso, dedica-lhes antipatia e até mesmo aversão.
Essa inveja verdadeira é quase sempre uma tristeza inconformada –
queixumenta, soturna ou irada –, que umas vezes leva ao pessimismo e acaba,
doentiamente, na depressão e no complexo de inferioridade; outras, conduz à
revolta: contra Deus e contra o mundo, contra a vida e a sociedade, contra tudo
e contra todos; ou ainda precipita numa psicose alucinada de competitividade,
que faz a pessoa viver só em função dos outros – das outras –, com comparações
contínuas e esforços desesperados para não ficar por baixo desse colega,
daquela amiga, dos parentes da mulher, do vizinho de apartamento, do amigo do
clube; e, por fim, pode descambar em raiva contra a pessoa invejada: chega-se a
odiá-la até ao ponto de lhe desejar ou inclusive de lhe provocar o mal, de ter
satisfação ao vê-la em dificuldades, e decepção ao vê-la prosperar4.
INVEJAS DISFARÇADAS
Esses são, ordinariamente, os rasgos principais da inveja verdadeira.
Mas são traços que, às vezes, ficam mascarados, porque existem formas disfarçadas de inveja, que se escondem por trás
de sorrisos afetuosos e palavras amáveis: simpáticas manifestações que não
passam da cobertura hipócrita de uma tristeza e uma raiva escondida, como brasa
na cinza, que só quer prejudicar, por inveja, a quem finge estimar e até
proteger.
Um colega invejoso, por exemplo, pode desencorajar afetuosamente um companheiro de aceitar uma
proposta da empresa – vantajosa em todos os sentidos –, alegando que é uma
armadilha para pô-lo para fora uns meses depois; ou tentando convencê-lo de que
os horários do novo trabalho serão estafantes e lhe impedirão prosseguir os
estudos de pós-graduação que está realizando.
Todos conhecemos um tipo de comentários, carinhosos
e afavelmente condescendentes, que não passam de farpadas venenosas de inveja:
– “Fulana é muito boa, mas, coitada, é tão curtinha de cabeça! Faria otimamente
outra coisa, outro trabalho; mas, para isso,
apesar da sua boa vontade, acho que não tem jeito mesmo”; ou, então: – “Olhe,
querida, não é por mal – é pensando no seu bem –, mas esse rapaz não lhe
convém. É uma pena, sendo tão bom e tão bem situado na vida, mas andam falando
umas coisas dele por aí, que não sei, não sei..., acho melhor ir com cautela,
não se envolver...”
Mais dolorosos são certos comentários negativos de alguns que, com
pretensas razões espirituais, visam afastar pessoas boas de participar de
entidades cristãs ou de atividades apostólicas – abençoadas por Deus e louvadas
pela Igreja –, simplesmente porque lhes provocam inveja: uns ciúmes que os
levam a ter e a divulgar preconceitos contra essas entidades ou atividades, a
aceitar por vezes calúnias infames contra elas como se fossem verdades, e a
denegrir – sem ter-se dado ao trabalho de as conhecer melhor, de informar-se
objetivamente – obras e pessoas que deveriam olhar com afeto cristão.
Desse teor, exatamente, era a inveja dos “piedosos” fariseus em relação a
Jesus: Dá glória a Deus!, diziam eles
ao cego de nascença que Cristo acabava de curar (cf. Jo 9). Nós sabemos que esse homem – Jesus – é um pecador. Cheios de aparente bondade,
queriam “livrar” o pobre cego da “má companhia” de Cristo: Sabemos bem que Deus falou a Moisés, mas este – Jesus
– não sabemos de onde é... Não faltam,
hoje em dia, infelizmente, bons católicos que experimentam dolorosamente na
carne a queimadura dos falatórios invejosos dos “piedosos caluniadores”.
FALSAS INVEJAS
Mas existem também invejas falsas,
que convém distinguir das verdadeiras, justamente para entender melhor estas
últimas.
Há uma forma dessas pseudo-invejas que poderia confundir-se com a inveja
pessimista e deprimida acima mencionada. No entanto, é diferente. Poderíamos
chamá-la inveja melancólica. São Tomás,
sem lhe dar esse nome, descreve-a bem: “Pode-se ter tristeza diante do bem
alheio não porque o outro possua esse bem, mas apenas porque o bem que ele tem
nos falta a nós”5. Quer dizer, não
temos pena de que o outro esteja bem ou seja feliz; estamos até contentes de
que possua tais bens e qualidades, e não lhe desejamos mal nenhum; só ficamos
tristes por nós não termos as mesmas coisas que admiramos nele.
Essa tristeza poderia tornar-se maligna se descambasse para o desânimo, a
falta de fé e de esperança, o complexo de fracasso; mas, em si mesma, pode ser
até louvável – na expressão de São
Tomás –, se for uma aspiração, mais do
que uma tristeza amarga.
É interessante lembrar que São Paulo, falando de diversos bens
espirituais de que gozavam alguns fiéis da primitiva comunidade de Corinto,
espicaçava a todos com estas palavras: Aspirai aos
dons espirituais (1 Cor 14, 1), aspirai
aos dons superiores (1 Cor 12, 31). É evidente que não recomendava a
inveja. Recomendava, sim, a virtude da emulação,
que é a qualidade dos que se deixam incentivar pelos bons exemplos dos outros e
aspiram honestamente a imitá-los.
MAIS FALSAS INVEJAS
Há ainda uma outra pseudo-inveja – além da melancolia e da emulação – que
não é pecado, mesmo que o pareça. É a sacudida de dor, tristeza e indignação
que nos causa contemplar pessoas que enriqueceram ou galgaram cargos e posições
por meios imorais: injustiças, mentiras, fraudes, roubos, suborno, tráfico,
apadrinhamentos desonestos.
Trata-se, como na inveja verdadeira, de uma tristeza diante do bem
alheio: ficamos tristes porque alguém conseguiu determinados bens. Mas, na sua
essência, essa tristeza nada mais é do que a justa
indignação contra o mal e a injustiça. Se ficássemos tristes só porque os outros triunfaram e subiram mais do
que nós, seríamos invejosos; mas se nos entristece – e nos indigna – constatar
que os corruptos, os falsários, os mentirosos e os exploradores vencem,
prosperam e sobressaem – com prejuízo dos honestos e dos justos –, então
estamos praticando a virtude do zelo,
que nasce do amor à verdade e ao bem.
Assim era a indignação de Cristo contra a prepotência dos escribas e
fariseus hipócritas, que se serviam da sua posição de mestres da Lei de Deus
para enganar o povo e aproveitar-se dele (cfr. Mt 23, 2 e segs.).
Neste caso da justa indignação, só pecaríamos se, além de indignar-nos
movidos pelo amor à verdade e ao bem, nos deixássemos arrastar pelo ódio contra
a pessoa que cometeu a injustiça. O
espírito cristão que devemos praticar está bem claro: detestar e combater o
erro, mas amar a pessoa que erra, desejando que se converta e se salve.
Em suma, as pseudo-invejas que acabamos de examinar têm como denominador
comum um autêntico amor do bem: do bem que nos anima ver, em uns, como exemplo;
e que nos dói ver, em outros, aviltado.
Nada disso se dá com a inveja ruim, a verdadeira.
Em vez do amor ao bem e à perfeição, o invejoso tem o amor à glória e à
exaltação pessoal; em vez da benevolência para com os outros, tem ânsias de
derrubar aquele que lhe faz sombra; e em vez de arder no zelo contra o mal,
consome-se em ódio contra o bem.
RAIZES E FRUTOS DA INVEJA
RAÍZES DA INVEJA
A inveja é como uma árvore, que tem raízes e frutos. Já dizia
Aristóteles, com muito acerto, que a inveja procede da vanglória6. São Gregório Magno, por sua vez, lembrava
que a vanglória é a filha principal do orgulho7.
Aí, no orgulho e na vanglória, temos as raízes da inveja.
Convém entender que a vanglória, ou seja a glória
vã, é o vício que têm aqueles que, acima de tudo, desejam brilhar,
destacar-se, salientar-se, ser mais do
que os outros. Gente que não procura o bem, mas o brilho.
As pessoas boas, simples e honestas, têm aspirações legítimas de progredir
– e lutam nobremente para isso –, sentem a justa satisfação de ganhar posições
mais altas, conquistadas por sua competência e empenho perseverante, estão
felizes de poder proporcionar aos filhos um futuro melhor.
Mas – e esse mas é
importantíssimo –, para elas, subir, conquistar o apreço e a confiança, obter
cargos, não é uma meta, não é o objetivo da vida; é apenas uma conseqüência natural, justa por certo, do seu
amor ao trabalho bem feito, ao dever bem cumprido, quer seja o dever familiar,
o profissional ou o social. As glórias
coroam nelas o mérito, florescem naturalmente, mas não são questão de vida ou
morte. Essas pessoas continuariam a trabalhar, a cumprir o dever, a realizar
com amor a sua missão, mesmo que não houvesse glória humana nenhuma nem
agradecimento nesta terra. Basta-lhes o prêmio da boa consciência e a aprovação
e o sorriso de Deus.
Para os orgulhosos, para os vaidosos, pelo contrário, a glória é uma meta que
está acima de tudo. Têm que vencer, têm que subir, têm que sentir-se superiores
aos outros... Por isso, se não podem subir por mérito próprio, caem na tentação
de subir por meio de trapaças, aparências e fingimentos; ou pelo sistema de
ficar por cima à base de afundar o outro.
FRUTOS DA INVEJA: A
MALEDICÊNCIA
Sendo isso assim, não estranha nada que os filósofos e os santos sejam
unânimes em apontar, como um dos principais frutos da inveja, a maledicência.
O Bem-aventurado Josemaría Escrivá, fazendo-se eco dessa apreciação,
dizia: “A maledicência é filha da inveja; e a inveja, o refúgio dos infecundos”8.
A experiência nos mostra que muitos daqueles que não conseguem subir e
brilhar, se dedicam a demolir prestígios alheios, a rebaixar famas e méritos,
para assim se sentirem situados mais alto. O infecundo, aquele que não se esforçou
nem teve méritos para conquistar os bens a que aspirava, sente a necessidade de
destruir com a língua e – se pode – com os atos aqueles que o superam.
Fala mal, lança suspeitas, semeia insinuações, espalha acusações falsas,
despreza ou ridiculariza – com os seus comentários – o que merece louvor. O
invejoso focaliza sempre o lado negativo, a pequena sombra escura que há mesmo
nas honestidades mais íntegras e nos prestígios mais sólidos; e com isso tenta
– e às vezes consegue – abalar a boa fama que outros possuem merecidamente,
para assim, sobre a tinta negra das suas maledicências, brilhar ele mais
intensamente.
Com palavras fortes, mas justas, o Pe. Bernardes, há quase quatro
séculos, escrevia a respeito desses pobres invejosos: “Os miseráveis em cujo
coração se embrenha a serpente da inveja..., o bem alheio têm por mal próprio,
e não podem conter-se que não falem mal da pessoa invejada, vomitando contra
ela detrações e calúnias”9.
OUTRO FRUTO DA INVEJA: A
COMPETIÇÃO VAIDOSA
Ao lado da maledicência, podemos apontar como fruto da inveja a má competição ou competição
vaidosa. Dizemos má e vaidosa, porque há uma competitividade boa – no
trabalho, no esporte, no comércio, na indústria, na arte, etc. –, que é uma
força positiva de aprimoramento e de progresso material, cultural e espiritual;
essa boa competitividade, lealmente praticada, não é outra coisa senão aquela
virtude a que chamávamos antes emulação.
Ninguém ignora, porém, que há uma competitividade ruim, e é provável que
– uns mais, outros menos – já tenhamos tido que padecê-la. É, por exemplo, a
competitividade vaidosa da mulher que sempre está a comparar-se com a mulher de
Fulano, com a esposa de Sicrano; e, se não pode comprar o mesmo tipo de roupa,
de sapatos, de perfume, de carro que a outra tem, fica desvairada, deixa louco
o marido com gastos e exigências desorbitadas, ou resolve amontoar mais
dinheiro seu, dedicando sem necessidade
horas e horas a um trabalho voltado para a satisfação da “vaidade comparada”,
com grave abandono do lar.
A mesma coisa poderia dizer-se de muitos filhos, dominados pela
frivolidade e pela vanglória, que tornam impossível a vida dos pais, exigindo –
com lágrimas, com ira, com gemidos de vítima ou comentários humilhantes – que
lhes comprem o que outros colegas consumistas têm e os pais deles não podem
comprar.
E no ambiente profissional? Não vamos ser radicais e dizer, como afirmava
um meu amigo, que os ambientes de trabalho – oficina, escritório, departamento
de faculdade ou de colégio, redação de jornal, etc, etc. – são ringues da inveja, onde se desenrola uma
contínua luta de boxe, ou melhor, de artes marciais com a regra do vale-tudo.
Mas é verdade que não raro grassam nesses ambientes, como erva daninha, as
maquinações da inveja: além da maledicência, os mexericos, os conchavos, as
rasteiras, a ocultação de informações ou de decisões, a manipulação de dados,
os “esquecimentos” propositados (“esqueceu-se” de convocar, de avisar uma
reunião, de comunicar a chegada do presidente, etc.), para, desse modo, ir
deixando à margem as pessoas que, por inveja, se desejaria apagar.
Uma expressão corrosiva dessa inveja entre colegas são as seguintes
frases de Gore Vidal, citadas em artigo de Sérgio Augusto: “Toda vez que um
amigo meu faz sucesso, eu morro um pouco”, e “Não basta ser bem-sucedido; os
outros também precisam fracassar”10.
Contemplando essas invejas, o psicólogo Moacyr Castellani fazia um lúcido
diagnóstico, que transcrevemos, e que convida a meditar:
“Em vez de competir como forma de desenvolvimento, as pessoas se tornam
rivais. Em vez de realizarem o melhor de si, desejam ser as melhores. Em vez de
superarem seus limites, enfatizam suas próprias qualidades. Não buscam um
resultado em comum, tornam-se demasiadamente egoístas. Num ciclo infinito rumo
ao sucesso e ao reconhecimento, fecham-se para os próprios princípios,
isolam-se em um ambiente frio e hostil [...]. O verdadeiro compromisso é com a
construção de uma vida coerente com aquilo que somos. A competição é interna. O
desafio está na superação dos próprios limites”11.
O PIOR FRUTO DA INVEJA:
O ÓDIO À BONDADE
Após contemplarmos dois frutos da inveja – a maledicência e a competição
vaidosa e ambiciosa –, chegamos ao terceiro, o mais perverso de todos: o ódio à
bondade.
Vão-me desculpar se trago à tona o comentário sobre esse mau fruto, que
fazia, com expressões um tanto chocantes, um jornalista velho, rude e curtido
nas lides profissionais.
Dizia-me esse amigo: “O porco, para não se sentir humilhado, precisa de
transformar o mundo num chiqueiro, porque, se «provar» que todos são porcos...,
então ser porco é o normal”.
Com essas frases cruas, referia-se a um fenômeno atual e crescente: à
campanha, atiçada sobretudo pela mídia – jornais, revistas, televisão, cinema,
internet –, de exaltação de atitudes e comportamentos objetivamente imorais,
depravados, perversos, que se teima em apresentar como normais, modernos,
positivos e desejáveis: desde o marketing pornográfico e o lenocínio
eletrônico, até a iniciação sexual prematuríssima de crianças e adolescentes em
programas e consultórios de famosas da
tv; e aborto por atacado, e infidelidade conjugal – basta passar ocasionalmente
os olhos e os ouvidos por qualquer telenovela –, e “casamento” de
homossexuais...; enfim, uma libertinagem sem nenhum freio de valores, já não
apenas religiosos ou morais, mas de respeito mínimo à dignidade do ser humano.
E, paralelamente a essa campanha de exaltação insensata do perverso, do
anormal e do podre, fazia notar o meu bom amigo que avançam os vagalhões de uma
outra campanha, empenhada em conspurcar, seja como for, figuras íntegras do
passado e do presente, que gozam de justa fama de honestos, de bons e até de
santos.
Procurando derrubar esses referenciais de bondade, procurando provar que
a pureza e a santidade não existem na vida real, os devassos, os malignos e os
infames sentem-se melhor. Eles trazem espetado na alma o espinho da inveja, em
forma de tristeza raivosa do bem alheio, da
bondade dos outros, porque esta os
acusa, os repreende silenciosamente. Para livrar-se desse mal-estar, decretam
então que a bondade moral e a santidade não existem, e que se alguns parecem
íntegros e santos, na realidade são uns hipócritas, e cá estão eles – os
caluniadores – para prová-lo.
Um atrás do outro, vêm aparecendo livros, artigos, programas televisivos,
entrevistas, ensaios “históricos”, etc., cujo único objetivo é denegrir,
“provando” mediante a manipulação de
dados e de testemunhas – ou com a calúnia pura e simples – que quem parecia bom
não o é, quem parecia puro é o mais sujo, e quem parecia santo é um falso.
Baste citar dois fatos recentes.
A SANTIDADE AGREDIDA
Uma conhecida e poderosa emissora de televisão britânica lançou ao ar há
alguns anos um programa destinado a desacreditar a Madre Teresa de Calcutá. A
abnegada e humilde servidora de Deus nos mais
pobres entre os pobres aparecia no tal programa como uma “demagoga,
obscurantista, escrava dos poderes terrenos, propagandista de causas
reacionárias...” É confortador constatar que o jornal laico Times de Londres reagiu com o seguinte comentário:
“Uma das provas da santidade é a magnitude da ira que provoca entre os que a
rejeitam”12.
Um segundo exemplo de aversão à santidade é o recente livro de um
badalado escritor escandinavo que, a pretexto de fazer um “romance histórico”,
põe na boca da antiga amante de Santo Agostinho críticas dilacerantes contra o
santo, que a teria abandonado com frio e repulsivo egoísmo. Um dado
interessante deve ser salientado: sabe-se, por outras obras do mesmo escritor,
que ele, pessoalmente, é fervoroso defensor do divórcio. Sendo assim, impõe-se
uma conclusão: para esse autor, é coisa boa e louvável um marido largar a
mulher, sempre que seja para trocá-la por outra mulher; mas é um crime
inaceitável um amante largar a concubina e trocá-la por Deus, pelo amor e a
fidelidade a Deus. Não parecem precisos muitos comentários.
Estamos aqui perante um tipo de inveja “destilada e envelhecida em
corações degenerados”, que se transformou em ódio puro. Os invejosos comuns
ficam tristes porque desejariam eles possuir as coisas boas dos outros, pois
acham mesmo que são boas. Os odientos de que estamos a falar, não. “Sentem”, no
fundo da alma, que os valores morais são “coisas boas”, mas não querem
retificar, converter-se e mudar. Por isso os valores morais os deixam tristes e
revoltados: intranqüilizam-lhes a consciência. Daí o ódio contra esses valores
e contra os que se esforçam por vivê-los. No fundo, o ódio contra a Verdade e o
Bem.
Com razão se tem qualificado essa inveja como “o pecado diabólico por
excelência”13, porque é a inveja
própria de Satanás. É por inveja do demônio que a
morte entrou no mundo, diz o Livro da Sabedoria (Sab 2, 24). Com
efeito, foi por inveja da felicidade dos nossos primeiros pais que o diabo os
incitou a afastar-se do Senhor – sereis como deuses
–, desobedecendo aos seus preceitos e precipitando-se no pecado, na dor e na
morte (Gên 3, 1-7). Esse afundamento é o júbilo de Satanás.
Não nos esqueçamos de que foi Satanás também quem fez de tudo para tentar
desviar Cristo da sua missão salvadora (Mt 4, 1 e segs.), foi ele quem instilou
o ódio contra Jesus no coração dos que o levaram à morte na Cruz. Bem percebeu
Pilatos, desde o início do processo, que – como diz o Evangelho – tinham entregue Jesus por inveja (Mt 27, 18).
Assim fazem os invejosos odiadores da santidade. E, a essa aversão ao bem
e aos bons, ainda acrescentam, com a sua consciência deformada, mais um tipo de
inveja, que é característica dos que detestam a honradez e a bondade: a inveja do mal, da esperteza maligna e dos
vícios dos que são piores do que eles. Trata-se da “competividade no mal”,
daquela espécie mórbida de inveja, que tão ironicamente fustigava o poeta
Antonio Machado:
A inveja da virtude
fez de Caim criminoso.
Glória a Caim!
Hoje é o vício
o que inveja o invejoso[NOTA
DE RODAPÉ: La envidia de la virtud / hizo a Caín
criminal. / Gloria a Caín! Hoy el vicio / es lo que se envidia más, em Poesias completas,
Ed. Espasa-Calpe, Madrid, 1946, pág. 207.].
ÉRAMOS INSENSATOS...
Escrevendo a Tito, São Paulo lembra-se de como eram, ele e outros muitos,
antes de abraçarem a fé de Cristo: Éramos
insensatos..., vivendo na malícia e na inveja (Tit 3, 3). Insensatos: eis a palavra exata para qualificar
os que vivem na inveja.
A insensatez dos invejosos – pensamos agora nos invejosos comuns – consiste em que se atolam num engano
fatal: achar que a felicidade está, por assim dizer, na casa dos outros. A lógica do invejoso é esta: “Se eu
tivesse o que Fulano tem, seria feliz”. Será?
Vamos supor que o conseguisse. Podemos estar certos de que ficaria
sofrendo por não possuir os bens de que desfruta Sicrano, e, supondo que também
os conquistasse, se consumiria por dentro por carecer dos bens que amealhou
Beltrano, e assim por diante...
Já um século antes de Cristo, o poeta latino Horácio, na sua primeira
sátira, dedicada ao seu protetor Mecenas, dizia: “Por
que, Mecenas, não há ninguém que esteja contente com a sua sorte, quer a tenha
conquistado por seus méritos, quer lhe tenha vindo fortuitamente, e julga
felizes os que têm vida diferente?... Raramente acharemos um homem que diga ter
vivido feliz e que, ao terminar o tempo de vida, parta satisfeito ut conviva
satur, como um convidado saciado”.
Enquanto ficarmos olhando para os outros e nos deixarmos morder pelo
vício da comparação, pelo verme da inveja, perderemos a felicidade, tal como um
balde furado deixa escapar a água. É preciso achar o nosso modo de ser felizes, é preciso encontrar a felicidade
que Deus preparou para nós. É preciso,
diria, achar caminhos de vida que avancem em sentido contrário ao da inveja. Se
o da inveja conduz à tristeza, deve haver outros que encaminhem para a
felicidade. É precisamente isso o que procuraremos descobrir na segunda parte –
a mais ampla – desta obra.
Segunda parte: Luz do outro lado da inveja
PORTAS DA FELICIDADE
Encontrava-me certa vez numa casa de campo cuja ampla sala se abria para
o jardim através de três grandes portas envidraçadas. Só uma delas estava
fechada. De repente, entrou na sala, como um relâmpago verde, um beija-flor. Ao
ver-se preso, lançou-se para a luz e tentou voltar ao ar livre. Infelizmente,
escolheu para isso a porta errada, a única fechada, e teimou em atirar-se
contra os vidros com tal obstinação que, poucos minutos depois, caía no chão
meio morto.
Agora, ao lembrar-me dele, esse pobre pássaro parece-me o símbolo do
invejoso, que se empenha a vida inteira em procurar a felicidade pela porta
errada, a que dá para a vida dos outros; bate, teima, investe e cai aturdido,
como o beija-flor.
Na sala da vida, se o invejoso se desgrudasse dessa porta fechada e
olhasse para os lados, descobriria, surpreendido, que há outras quatro portas,
grandes e ensolaradas, que estão abertas e o convidam a sair, para percorrer
caminhos onde se encontrará a si mesmo, onde encontrará a vida e a alegria.
Para facilitar a nossa reflexão, podemos imaginar que cada uma dessas
portas tem um nome, gravado numa tabuleta; e que, debaixo dela, há uma placa
com uns dizeres explicativos.
A primeira porta ostenta na
tabuleta a seguinte inscrição: Porta da
gratidão; e na placa lê-se: Na vida, em vez
de motivos de inveja, temos motivos de gratidão.
A segunda porta tem uma tabuleta
que diz: Porta da fidelidade à “nossa”
vida, e a placa esclarece: Em vez de
invejar o campo do vizinho, valorizemos e cultivemos o nosso.
A terceira porta reza, na
tabuleta: Porta do amor generoso,
e explica em baixo, na placa: Em vez de fazer dos
outros fonte de tristeza para nós, façamos deles fonte de alegria e sejamos nós
também fonte de alegria para eles.
E a quarta porta traz, na tabuleta, a inscrição: Porta das bem-aventuranças. Também tem um cartaz: Em vez de perder-nos em felicidades ilusórias, descubramos
o segredo da felicidade verdadeira, que Cristo nos ensinou.
Vale a pena tentarmos abrir cada uma dessas portas para olhar através
delas. Deus faça que, além de olhar, nos decidamos a enveredar pelos caminhos
que elas nos mostram.
PRIMEIRA PORTA: A GRATIDÃO
QUEBRANDO UMA OBSESSÃO
Quando, movidos pela inveja, pensamos muito nas coisas que não temos,
acabamos esquecendo-nos das muitas coisas boas que temos. E isso é péssimo:
além de ser injusto, faz-nos mal.
Seria muito positivo que, de vez em quando, parássemos para meditar e,
pegando num papel, escrevêssemos duas listas.
Poderíamos começar fazendo a lista das coisas boas que Deus nos deu.
Anotaríamos de início, por exemplo, as maravilhas da criação material – as
árvores, os rios, o mar, o céu, os animais, as plantas... –, das quais
desfrutamos a toda a hora quase sem reparar. Prosseguiríamos anotando o grande
bem da vida – podíamos não existir –, com todos os dons naturais e
sobrenaturais (a fé, a graça, etc.) que Deus derramou sobre nós. A seguir,
faríamos o elenco de todas as pessoas boas e dignas de amor e gratidão que
estão perto de nós. Não deixaríamos de registrar os acontecimentos da vida em
que a proteção de Deus, de Nossa Senhora, dos Anjos, dos Santos, foi clara,
palpável. Acrescentaríamos a isso tantas ocupações, trabalhos e atividades que
amamos; e mais os nobres prazeres da música, da arte, dos esportes... Quantas
coisas não temos para agradecer a Deus e àqueles que nos amam!
Na outra lista – por contraste –, anotaríamos os sofrimentos, doenças,
limitações, deficiências físicas e psíquicas, fome, sede, solidão, pavores...,
que observamos na vida de muitas outras pessoas, e que nem tocaram na nossa.
Esse elenco também seria interminável. Se porventura não o “vemos” tão grande,
basta que façamos uma visita ao pronto-socorro e às enfermarias dos grandes
hospitais públicos; outra a um hospital ou pavilhão do câncer, começando pelo
setor infantil; outra a uma clínica psiquiátrica ou ao manicômio judiciário; e,
além disso, demos uma volta pelas ruas de qualquer grande cidade, registrando
toda a pobreza, miséria e abandono que detectarmos nelas. É bem provável que
então “vejamos”.
E, além de “ver”, começaremos a sentir vergonha quando nos surpreendermos
a gemer, a olhar para a casa do vizinho, e a reclamar: – “Eu não tenho o carro
que ele tem! Eu nunca fui a Cancún! Eu não tenho aquela posição na firma! Sou
um infeliz!”
As antigas avós – e algumas das modernas –, quando os netos ficam muito reclamões, dizem-lhes: – “Não reclames, menino!
Olha que Deus vai-te castigar!”
Deus não costuma castigar assim os meninos que reclamam, mas as avós
fazem bem em alertá-los, porque é penoso resmungar de inveja quando há milhões
de coisas que agradecer.
Voltando às listas, ainda estaria faltando um elenco paradoxal de motivos
de ação de graças. Essa lista é aparentemente absurda, a não ser que se tenham
os olhos da fé e do amor cristão. Porque consiste em anotar, como motivos de
gozoso agradecimento a Deus, todas as cruzes, contrariedades e sofrimentos com
que Ele nos abençoou. O bom filho de Deus, que confia no seu Pai, sabe que
essas dores nos elevam, nos limpam, nos purificam, tornam maduro o nosso amor e
fazem crescer as nossas virtudes. Por isso São Paulo afirma, com grande
alegria: Todas as coisas concorrem para o bem dos
que amam a Deus (Rom 8, 28). Mas haveremos de voltar a isto um pouco
mais adiante.
Quem começa a habituar-se a entrar pela porta da gratidão e se torna agradecido – Sede
agradecidos!, instava São Paulo (Col 3, 15) – experimenta uma
fantástica iluminação na alma. Acontece-lhe como se tivesse apertado um botão
no escuro e, de repente, inúmeras luzes se tivessem acendido sobre a noite das
antigas invejas, até formarem a bela constelação das graças, das pessoas e das
coisas que nos fazem bem, que nos trazem amor, alegria, consolo e estímulo para
viver, para lutar, para melhorar.
Se enxergássemos essa noite iluminada, passaríamos a vida a cantar sine fine, sem fim, com a liturgia da Igreja: Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação
dar-Vos graças sempre e em todo lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e
todo-poderoso.
ACHO O MUNDO MUITO BOM
As pessoas que têm olhos puros para ver e coração generoso para agradecer
são muito mais felizes do que as que nada percebem porque padecem de torcicolo moral, aquele torcicolo da inveja, que
consiste em ter sempre a cabeça virada de lado – doendo! – a olhar para a vida
dos outros.
Lembro-me de que, em maio de 1974, durante a estadia do Beato Josemaría
Escrivá em São Paulo, chegou à casa onde se hospedava – e onde eu tive a
felicidade de residir também – um grande buquê de rosas. Vinha acompanhado de
uma carta de Dona Leopoldina, uma afável anciã de 84 anos, que acabava de
participar de um encontro com o Bem-aventurado Josemaría. A carta dizia assim:
“Estou a ditar estas palavras, porque não tenho condições de saúde para
escrever pela minha própria mão, para lhe dizer que hoje foi um dia de grande
alegria. Poder vê-lo e ouvi-lo pessoalmente, e além disso beijar-lhe a mão, foi
um motivo de enorme felicidade e dou graças a Deus por isso.
“Antes da sua vinda ao Brasil e ao longo destes dias tenho pedido muito a
Deus que esta viagem produza os frutos que o Padre deseja.
“Sou portuguesa de nascimento, mas brasileira de coração; amo muito o
Brasil, e todos os meus filhos, netos e bisnetos são brasileiros. Tenho 84 anos
e agradeço a Deus ter chegado até esta idade e tudo o mais que me concedeu.
“Estou alegre com a vida, e muito feliz. Acho o mundo muito bom, creio
muito em Deus e na Virgem Maria, e sei que nada somos sem Ela. Rezo muito pelo
Opus Dei. Tenho-lhe muito carinho e vibro por ele. Todos os dias rezo
particularmente pelo Padre. Entendo que a Obra é uma coisa muito boa e estou
muito feliz de que a minha filha siga esse caminho. Juntamente com estas
flores, envio-lhe o meu agradecimento e peço-lhe uma Ave-Maria; será muito
valiosa”.
Almas como a de Dona Leopoldina fazem-nos dar graças a Deus. E que lição
nos dão! Uma imigrante portuguesa, que experimentou, muito provavelmente, a
dureza das lutas, das incertezas e sacrifícios de quem abre caminho num novo
país, e que, já no final da jornada terrena, só vê motivos para dar graças a
Deus e sentir-se feliz!
TAMBÉM PELOS BENEFÍCIOS
QUE NÃO CONHEÇO
Não sei se Dona Leopoldina, à sua idade, estava em condições de ler os
escritos do Fundador do Opus Dei, a quem dedicava tanto carinho. Se o fazia,
tenho a certeza de que terá acrescentado às suas felicidades mais esta: a de
sentir-se em plena sintonia com um santo.
Porque o Bem-aventurado Josemaría era uma alma que viveu agradecendo tudo
a Deus; eu diria que viveu mergulhado numa perpétua ação de graças. Com o
fulgor da fé, reconhecia a mão de Deus em todas as coisas – nas que parecem
boas e nas que parecem más – e dizia, sereno e feliz: “De Deus não me pode vir
mal algum”.
Por isso, não se cansava de agradecer: “Se as coisas correm bem –
escrevia –, alegremo-nos, bendizendo a Deus que dá o incremento. – Correm mal?
– Alegremo-nos, bendizendo a Deus que nos faz participar da sua doce Cruz”14. Nunca encontrava motivos para se queixar
ou para se sentir infeliz, e assim o dizia, com a maior simplicidade: “Eu não
me tenho sentido infeliz nunca”.
Era costume de Mons. Escrivá rezar diariamente uma oração, agradecendo a
Deus “todos os vossos benefícios, «etiam ignotis» – também os que não conheço”.
Por isso era feliz. “Que estejam tristes – costumava repetir – os que não sabem
que são filhos de Deus”, os que não se sabem amados por Deus.
Porta da gratidão! Uma magnífica porta de acesso à felicidade. A pessoa
agradecida, quando olha de relance para a vida do vizinho e sente, talvez, um
frêmito de inveja percorrer-lhe a alma, corta-o logo pela raiz e comenta em seu
íntimo com um sorriso: “Tenho tanto que agradecer, que não tenho tempo para
invejar”.
SEGUNDA PORTA: A FIDELIDADE À “NOSSA” VIDA
A BALANÇA E O ALTÍMETRO
Acabamos de considerar que todos nós recebemos muitas coisas boas, que
são motivo de ação de graças. Mas esse pensamento não é completo. Na realidade,
deveríamos dizer que recebemos de Deus todas
as coisas que são necessárias para a nossa realização.
Esta afirmação, que parece ser apenas uma frase de efeito, encerra uma grande
verdade. Vale a pena pensarmos um pouco nela, pois aí se abre outra porta para
a felicidade.
Para começar, convém lembrar mais uma vez que a inveja não só ataca o
coração com sentimentos de tristeza, mas também prejudica o pensamento, o modo
de ver a vida. O invejoso vê a sua realização de uma maneira errada,
porque mede o valor da vida e das coisas – para dizê-lo graficamente – usando a
balança e o altímetro.
Mede com a balança, porque avalia
a sua realização pela quantidade de
coisas que consegue acumular, ganhar, conquistar, e as compara – como quem pesa
numa balança – com as que os outros têm. – “Se eu conseguisse – pensa – o que
Fulano tem, se eu ganhasse tanto como Sicrano ganha, se eu tivesse a saúde, a
simpatia, a capacidade de comunicação de Beltrano, se eu tivesse a namorada de
X, se eu tivesse o marido de Y; se eu fosse magro, forte, atlético, alto,
hábil, engraçado, bom de voz, etc, etc, como tais e tais outros, ah!, então
seria feliz, eu me sentiria realizado”.
O invejoso também tem o defeito de medir com o altímetro: calibra a sua realização pelo metro de estar ou
não por cima dos outros; e sente-se amargurado porque não alcançou a altura
social, o nível profissional, a posição elevada, a categoria, os píncaros da
glória que outros escalaram.
A sua mentalidade é a do déficit:
somente pensa no que lhe falta. Por isso, a vida lhe parece sempre devedora,
incompleta, falha. E assim, de tristeza em tristeza, de amargura em amargura,
acaba por menosprezar essa sua vida que
considera frustrada.
Com isso, deixa de contemplar o mais importante: os valores e
possibilidades – verdadeiros tesouros – que Deus colocou na sua vida real, como sementes que podem germinar,
crescer, multiplicar-se e dar uma esplêndida colheita.
A HORTA DE MENDEL
Uma comparação poderá ajudar-nos a aprofundar nestas reflexões.
Qualquer pessoa medianamente culta ouviu falar da genética de Mendel.
Poucos, porém, conhecem a vida desse famoso cientista.
Nascido em 1822, fez-se monge agostiniano e foi ordenado sacerdote em
1847. Biólogo apaixonado pela pesquisa, tentou ser admitido para trabalhar na
universidade alemã, mas foi em vão: fecharam-lhe todas as portas.
Que poderia ter feito? Ao achar-se sem campo de trabalho, sem meios, sem
instrumentos adequados, podia ter desanimado, resignar-se e renunciar à
pesquisa, enquanto olhava com inveja os que haviam tido mais sorte que ele e
podiam desenvolver as suas capacidades num ambiente propício: as universidades,
os grandes laboratórios, as fazendas experimentais.
Ele, porém, não reagiu assim. Pelo contrário, pacientemente, alegremente,
discretamente, escolheu um cantinho do jardim do mosteiro agostiniano de Brünn,
e lá – numa pequenina horta – começou a fazer as suas experiências com
ervilhas. Dessas experiências, que duraram anos, nasceram as famosas leis de Mendel, que fazem com que o humilde
monge Gregor Johann Mendel seja universalmente reconhecido como o pai da
genética contemporânea, e que o seu nome brilhe no firmamento da ciência na
mesma altura que os nomes de Kepler, Copérnico ou Newton.
Que nos ensina este exemplo? A não lamentar-nos do que não temos na vida,
e a valorizar ao máximo o que temos, certos de que, ainda que pareça pouco, daí
podemos tirar muito. Isto é sermos fiéis à nossa
vida.
Acabamos de falar de Mendel. Podemos pensar num exemplo análogo.
Imaginemos um grande jardineiro japonês, daqueles que são capazes de criar um
jardim admirável em cima de três pedras. Pois bem, demos a esse artista um
canteirinho de dois metros quadrados para que lá faça um jardim. Nos dois
metros quadrados, ele não verá uma limitação,
mas uma definição. Dirá: “Bem. É aqui, neste recinto, que eu devo organizar um
jardim? Ótimo, mãos à obra”. Pensará, sonhará, deixará voar a sua alma de
artista. Passado um tempo, aquele espaço reduzido deixará embasbacados todos os
que o virem, e não faltará quem diga: – “Este micro-jardim tem tanta categoria
como os jardins de Versailles”.
Deixemo-nos, pois, de invejas, acabemos com o torcicolo
de olhar, lacrimosos, para o campo do vizinho. Amemos o nosso campo: a nossa
vida. Não digamos que temos limites,
mas divisas, como os municípios, as
divisas que demarcam um território ótimo em que há muito trabalho a fazer, onde
se podem realizar muitas coisas belas e grandes.
QUATRO CANTEIROS
Aproveitando essas imagens, pensemos que, na horta
da vida, pequena ou grande, todos nós temos pelo menos quatro canteiros que devem ser cultivados e podem
produzir muitos frutos. Em cada um deles, Deus e o próximo estão à nossa
espera. Os canteiros são, simplesmente, os campos dos quatro grandes deveres: o
dos deveres religiosos; o dos deveres familiares; o dos deveres profissionais; e o dos deveres sociais.
Deveres religiosos.
Perguntemo-nos se cultivamos seriamente a nossa formação religiosa e o trato
pessoal com Deus. Podemos dizer que seguimos o ideal de Cristo? Há os frutos de
bondade e de virtudes que poderia haver, para o nosso bem e para o bem dos que
nos cercam? Muitas vezes há aí um vazio, que talvez nos pareça sem importância,
mas que pode ser a raiz de muitos dos nossos erros, equívocos e males. Não nos
esqueçamos de que Deus, na vida, é como a chuva na terra. Terras que parecem
mortas, estéreis, quando ficam impregnadas pela chuva, transformam-se num
vergel. Assim aconteceu com muitas vidas, e pode acontecer com a nossa.
Um segundo canteiro é o dos deveres familiares.
Não vamos entrar em detalhes. Mas, achamos que na família já demos todo o fruto
que poderíamos dar? Não é difícil descobrir que possivelmente estamos
acomodados, passivos, adormecidos na rotina. Pobre horta
meio abandonada! E, no entanto, poderíamos dar frutos generosos que
não estamos dando: no relacionamento marido-mulher, pais-filhos; nas virtudes
do lar (compreensão, paciência, espírito de serviço, abnegação, bom humor,
diálogo...); nos cuidados materiais da casa; na formação dos filhos. Toda a
família está sempre em processo de construção. É muito cômodo invejar outras
“belas famílias” e deixar a nossa como um edifício inacabado (cfr. Lc 14, 30).
Se, dos deveres familiares, passarmos para os profissionais
– campo propício para a inveja –, deveremos lembrar que a altura de
um trabalho não se mede pela importância externa
do mesmo, mas pela categoria humana e espiritual da pessoa que o realiza. Um
trabalho pequeno – como o de Mendel –
pode ser fantástico, se se faz com amor: com capricho, bem feito e
primorosamente acabado. “Diante de Deus – dizia o Beato Escrivá –, nenhuma
ocupação é em si mesma grande ou pequena. Tudo adquire o valor do Amor com que
se realiza”. E ainda: “Uma missão sempre atual e heróica para um cristão comum:
realizar de maneira santa os mais diversos afazeres, mesmo aqueles que parecem
mais indiferentes”15.
O quarto canteiro é o dos deveres sociais,
que vão desde os deveres de amizade até o serviço ao bem comum, passando pelas
obras de misericórdia em favor dos necessitados. Sem entrar também aqui em
detalhes, limitemo-nos a perguntar: “Aí, não posso crescer? Será possível que
não possa fazer mais nada a serviço do próximo e da coletividade?” Talvez
objetemos que temos limitações, que não
temos muito campo de ação, nem muito tempo. Certo, mas sempre há uma horta possível. Reflitamos.
PESSOAS QUE ADMIRAMOS
SEM INVEJAR
Geralmente, as coisas que admiramos nos outros também nos despertam
inveja ou então emulação. No entanto, há pessoas que admiramos muito, mas não
invejamos de maneira nenhuma; por nada do mundo desejaríamos ser como elas.
Por exemplo, admiramos a moça órfã de pai que, sem queixar-se nunca,
realiza sacrifícios grandes para sustentar a mãe e os outros irmãos menores:
trabalha o dia inteiro a grande distância da sua casa, estuda à noite, faz
tarefas extra no fim de semana, cuida da saúde da mãe, e, no meio disso, está
alegre, bem disposta e não reclama da vida, acha tudo muito bom. Admiramos
igualmente o homem que perdeu tudo, numa crise econômica, e está apertando o
cinto, fazendo biscates, carecendo às vezes até do necessário, e, no entanto,
mantém uma imensa confiança em Deus, transmite otimismo à família e vive
preocupando-se de ajudar os outros. Admiramos ainda o doente incurável que, no
meio de dores intensas, em vez de gemer, sorri; e em vez de revoltar-se,
oferece os seus sofrimentos a Deus, pedindo que dê a graça e a paz aos que se
desesperam.
Admiramos, sim, essas pessoas, mas não temos inveja nenhuma da sua
situação.
Vale a pena, por isso, pensar: o que é que nelas nos causa admiração? Sem
dúvida, as qualidades morais, a
grandeza espiritual. Em
situações-limite, em circunstâncias penosas e até trágicas, tiveram uma
elevação espiritual e moral fantástica, uma realização humana altíssima:
desenvolveram ao máximo a sua fé, o amor, a esperança, a generosidade, a
fortaleza, o otimismo..., tudo o que dá plenitude a um ser humano. Os limites
que a vida lhes impôs não só não lhes abafaram a alma, como foram a mola que a
projetou até as alturas.
Não percebemos? Essas pessoas provam-nos que não há nada, por tremendo
que seja, que possa impedir a realização mais importante do ser humano: a
interior, a espiritual, a moral. Assim foram os santos. E por isso dizíamos no
começo deste capítulo que Deus nos deu todas
as coisas necessárias para a nossa realização. Ele no-las dá a cada instante da
nossa vida.
AVANÇANDO SOBRE RODAS
Como ilustração viva do que acabamos de considerar, vamos contemplar
brevemente uma história tocante de grande realização na máxima limitação.
O Pe. Luís de Moya tinha 38 anos quando sofreu um grave acidente de
automóvel. No dia 2 de abril de 1991, acharam-no desacordado entre as ferragens
de um carro arrebentado contra uma árvore. Levado urgentemente à clínica da
Universidade de Navarra, em Pamplona – o acidente ocorrera a 50 quilômetros
dessa cidade, onde o Pe. Luís residia –, constatou-se uma lesão medular grave,
que trouxe como conseqüência a perda total da sensibilidade e da motricidade
praticamente do corpo inteiro: do pescoço aos pés.
Humanamente, era o fim de uma vida intensa como capelão da Escola de
Arquitetura e de um Colégio universitário, como professor de Teologia moral,
orientador de numerosos retiros e cursos de formação para estudantes e
professores, etc. Paralítico, imobilizado no leito do hospital, apenas podia
mexer levemente a cabeça; o resto do corpo estava como um tronco inerte.
A história da fé e da coragem com que enfrentou a sua situação foi
escrita por ele, a pedido do seu diretor espiritual, usando um computador
acionado por impulsos – sopros – feitos com a boca16.
Movido pela fé em Deus e o amor à sua vocação, o Pe. Luís – sem nunca
recuperar movimento algum, pois isso era impossível – aprendeu a manobrar –
também com movimentos da cabeça e da boca – uma cadeira de rodas; sobrepôs-se
às suas limitações e, em 1995, já tinha reassumido todas
as suas antigas tarefas: professor, capelão, diretor espiritual, confessor...
Melhor dizendo, não só reassumiu as tarefas anteriores, como Deus se
serviu da sua limitação para que desse ainda mais frutos, realizando um fecundo
apostolado com outros deficientes como ele. De palavra, por carta, por meio do
livro, o Pe. Luís levou muitos homens e mulheres do desespero à alegria de
viver e de serem úteis. Há uma coleção de testemunhos, neste sentido, que
comovem até às lágrimas. Basta transcrever as palavras agradecidas de uma
tetraplégica como ele: “Pe. Luís, o senhor vai pela vida na sua cadeira de
rodas puxando atrás de si muitíssima gente”17.
Para descobrir o segredo dessa admirável virada, nada melhor do que ler
alguns trechos do depoimento do sacerdote:
“Parecia-me – diz no seu relato – que, tendo a cabeça boa e querendo-o
assim, eu podia continuar a ser, no que é fundamental, o mesmo de antes, se
pusesse da minha parte todo o empenho possível em cada momento [...].
“Eu não podia, não devia procurar apenas sentir-me cômodo ou o menos
contrariado possível entre as minhas quatro paredes, como se não pudesse fazer
mais nada, como se já ninguém esperasse nada de mim. Se eu tivesse caído nesse
raciocínio, teria condenado a minha vida ao perpétuo lamento. Mas consentir
nessa visão tão negativa da minha situação significaria – além de compactuar
com uma falsidade – autocondenar-me ao vitimismo. Ir pelo mundo com complexo de
vítima, como que a provocar pena, afigurava-se-me pouco galhardo e um tanto
falso, porque via com clareza que, tendo a cabeça sã, não havia razão para não
a utilizar com proveito.
“De modo que o horizonte da minha vida continuou a estar onde sempre
tinha estado porque, no que é fundamental, eu não tinha mudado”18.
Eis o segredo do Pe. Luís: a convicção, fruto da fé, de que, no que é fundamental – na alma, no amor, no
ideal, na alegria de servir a Deus e ao próximo –, nada
tinha mudado. Está tudo dito. E é um convite a largar tantas
preocupações e invejas, tantos desgastes inúteis com o que é acidental e a voltar-nos com todas as nossas
forças para o que é essencial, fundamental.
Em suma, o Pe. Luís, como outros muitos que tiveram atitudes semelhantes
à dele, dá-nos uma lição de fidelidade à vida,
ou seja, de fidelidade à Vontade de Deus, ao que Deus espera de cada um na
vida, que é a única coisa que importa.
TERCEIRA PORTA: O AMOR GENEROSO
CONTRA INVEJA, CARIDADE
No pequeno catecismo da primeira Comunhão, ao lado de cada pecado capital
indicava-se o antídoto, ou seja, a virtude contrária: contra soberba, humildade; ...contra gula, temperança;
...contra inveja, caridade.
Contra inveja, caridade! O
contraste entre inveja e caridade expressa-o bem São Tomás de Aquino com estas
palavras: “A inveja, por razão do seu objeto, é contrária à caridade – ao amor
–, que é a fonte da vida espiritual da alma, conforme lemos na primeira
epístola de São João, cap. 3, vers. 14: Nós
sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos. A
caridade, com efeito, tal como a inveja, tem por objeto o bem do próximo, mas
move-se em sentido inverso ao da inveja, pois a caridade alegra-se com o bem do
próximo; a inveja, pelo contrário, se entristece”19.
A caridade, antídoto da inveja,
de que aqui fala o santo Doutor, é o amor cristão, aquele que o Catecismo da Igreja Católica descreve como a
virtude “pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, por si mesmo, e ao
nosso próximo como a nós, por amor de Deus”20.
Como é evidente, quanto maior amor a Deus e ao próximo houver no nosso coração,
menos espaço haverá nele para a inveja.
Mas o âmbito da caridade é muito vasto, tem múltiplas manifestações e
agora não é o caso de vê-las todas. Nestas próximas páginas vamos restringir-nos
a considerar alguns dos aspectos fundamentais da caridade que são mais diretamente contrários à inveja, e que, portanto, quando praticados, são a melhor
cura da inveja: os relacionados com a alegria que
nos causa o bem do próximo.
RECONHECER COM ALEGRIA
O verdadeiro amor – a caridade – faz com que, em vez de vermos as coisas
boas dos outros como uma sombra que nos entristece, as vejamos como uma luz que
nos alegra. Quando vivemos a caridade, ficamos felizes ao olhar para o bem dos
outros (como é bom que tenham coisas boas, sejam bons, sejam queridos, vivam
bem e estejam alegres!). E, além disso, em bastantes casos nos sentimos também
intimamente agradecidos, por reconhecer com
alegria que essas qualidades boas dos que convivem e trabalham
conosco nos fazem um grande bem, nos ajudam, nos facilitam a vida e nos trazem
felicidade.
Acontece, porém, que reconhecer não
é fácil. Há pessoas que, durante anos e anos, vivem sem se dar conta dos
grandes benefícios que recebem, diariamente, daqueles que têm mais perto. Não
são capazes de valorizar, por exemplo, a bênção que é para eles o carinho e a
dedicação dos pais, ou – no caso dos esposos – o sacrifício constante, até
mesmo heróico, da esposa ou do marido. Vivem como toupeiras cegas, usufruindo
da bondade e da generosidade dos que os cercam sem se aperceberem disso; e, o
que é pior, tratando-os asperamente, sem manifestar quase nunca o seu
agradecimento, esquecendo-se de retribuir-lhes o carinho e, pelo contrário,
reclamando a toda a hora.
Enquanto nós estamos respirando, nem pensamos no valor que tem o
oxigênio; só quando nos falta o ar é que tomamos consciência da sua necessidade
vital. Da mesma maneira, há muitos e muitas que só percebem o valor do carinho,
das atenções, da abnegação, da paciência dos outros quando estes lhes faltam,
quando morrem. Só então se lhes acende a luz: um clarão impregnado de tristeza,
de remorsos e de lágrimas: – “Como fui cego!” – dizem. – “Como não percebia
quanto a minha mulher, o meu marido, o meu irmão, significava para mim? Como é
possível que não valorizasse a colaboração daquele colega, ou o exemplo de
categoria espiritual e moral que me dava a minha filha, que eu tratei tão mal?”
Deus poderia dizer-lhes, com toda a justiça: – “Por ter sido egoísta, por
ter ficado tão fechado em si, não foi capaz de desfrutar dos tesouros de
alegria que lhe proporcionavam os que Eu pus a seu lado”.
APRENDER COM ALEGRIA
Acabamos de mencionar de passagem o bom
exemplo de uma filha, que o pai, infelizmente, não soube apreciar
enquanto ela vivia. Vamos refletir brevemente, a propósito disso, sobre um
outro aspecto do amor que se alegra com o bem
alheio, daquela caridade que está nos antípodas da inveja: a alegria de aprender dos outros.
Quem aprecia os bons exemplos não tem olhos de inveja, mas de admiração
afetuosa. Contempla o bem dos outros,
concretamente as suas qualidades e virtudes, não como um contraste humilhante
para si, mas como um ideal amável a imitar.
Não posso deixar de lembrar-me, a este respeito, de como me impressionou
sempre a alegria refrescante com que o Bem-aventurado Josemaría Escrivá olhava
para as coisas boas dos outros. Ao longo de alguns anos, nos contatos que tive
a graça de manter com ele enquanto fazia, em Roma, estudos de pós-graduação,
vi-o sempre com sede de aprender dos outros: não só dos que eram considerados
bons ou excepcionais, mas de todos, inclusive de pessoas de vida bastante pouco
perfeita. Em todos achava algo de bom que aprender. E recomendava que se
procedesse do mesmo modo: “Aprenderemos a descobrir – escrevia – muitas
virtudes naqueles que nos rodeiam – dão-nos lições de trabalho, de abnegação,
de alegria... –, e não nos deteremos demasiado nos seus defeitos, a não ser
quando for imprescindível para os ajudarmos com a correção fraterna”21.
Essa atitude do Bem-aventurado Josemaría fazia-me recordar um conhecido
relato dos primeiros séculos do Cristianismo, que não pertence aos Evangelhos
autênticos, mas que, sem dúvida, lhes reflete o espírito. Conta-se que certa
vez ia Jesus com os seus discípulos por uma estrada e, num dado momento, os que
caminhavam à frente tentaram desviá-lo de um espetáculo repugnante: o corpo já
em decomposição de um cachorro morto. Diz a lenda que Cristo fez questão de se
aproximar e, parando junto do cão, comentou apenas: – “Vejam como são brancos
os seus dentes! Parecem pérolas!”
Nunca vi Mons. Escrivá desprezar ninguém, nem desclassificar pessoa
alguma, mesmo que lhe tivesse causado um mal. “Cada alma – repetia sem cessar –
vale todo o sangue de Cristo!”
Logo que chegou ao Brasil, em maio de 1974, para uma curta estadia de
quinze dias, desceu do avião dizendo-nos: “Vim ao Brasil para aprender”. E, ao
longo daquelas duas semanas, repetiu palavras semelhantes a essas com uma
sinceridade comovente e um entusiasmo contagiante. Lembro-me bem de que, num
dos seus primeiros encontros com grupos numerosos de pessoas, começou dizendo:
“Vim ao Brasil para aprender. Alguns vêm do Velho Mundo e dizem que vêm
ensinar. Não! Eu vim aprender. Cheguei há quarenta e oito horas e já aprendi
muitas coisas”. E era assim mesmo. Todos os dias achava, naqueles que ia
conhecendo, coisas boas, simpáticas, exemplares, sugestivas, de que tirava
lições encantadoras para a sua vida e para a sua pregação.
SABER APRENDER
Será que nós reconhecemos assim as coisas boas, os bens, dos outros? Alegramo-nos assim? Aprendemos
assim?
Seria muito útil aprofundarmos nisto, fazendo uma reflexão pessoal.
Comecemos pensando nas coisas boas
daqueles que vivem e trabalham conosco, que nos saltam mais aos olhos, e
perguntemo-nos quantas vezes temos pensado nelas com alegria, com admiração,
com desejos de imitá-las; e quantas vezes temos agradecido a essas pessoas o
bem que nos fazem os seus bons exemplos.
A seguir, recordemos as coisas dos outros que nos incomodam, que nos aborrecem,
que nos despertam críticas. Talvez fiquemos estarrecidos se pusermos diante dos
olhos a lista – nada pequena – das nossas queixas e reclamações; faltariam
dedos nas duas mãos, mesmo fazendo várias “rodadas”, para contá-las todas.
Que desproporção entre o que admiramos e o que criticamos! Não há aí uma
injustiça? Não nos envergonha sermos assim?
Muitas vezes, infelizmente, pode aplicar-se a nós aquela comparação do
carro que, deixando a pista bela e limpa, se mete pelas poças da beira da
estrada e fica sem visibilidade, com o pára-brisa coberto pelos salpicões de
lama. Coisa parecida é a que fazemos quando chafurdamos nas poças do nosso
egoísmo, do nosso mau humor, das nossas exigências rabugentas, das nossas
críticas monótonas: os olhos nos ficam cheios de lama,
e o valor dos outros, o seu exemplo, as alegrias que podem dar-nos e
ensinar-nos permanecem encobertas.
Aprendamos mais e agradeçamos mais. Seria ótimo que nos propuséssemos
retribuir aos que convivem conosco, todos os dias, as coisas boas que nos proporcionam, com um sorriso
expressivo, com umas palavras amáveis, com um serviço discreto, com uma atenção
delicada, com uma mudança de atitude que mostrasse que aprendemos as belas
lições que nos dão com os seus bons exemplos. Eles merecem isso.
NÃO COMPARAR-NOS, SERVIR
Continuemos as nossas reflexões sobre a caridade que, ao contrário da
inveja, se alegra com as coisas boas dos outros.
Focalizemos agora – para extrair daí outra lição – um caso de inveja triste que
se deu entre os Apóstolos de Cristo. É um consolo para nós, cheios de defeitos,
que eles também tenham sentido a tentação da inveja, tenham fraquejado e tenham
tido que lutar; e, ao mesmo tempo, é algo que nos oferece um grande ensinamento
sobre o amor generoso.
Aconteceu que, indo Jesus a caminho de Jerusalém com os seus discípulos,
chegaram-se a Ele dois irmãos, Tiago e João, acompanhados pela mãe, Salomé, uma
das mulheres que seguiam e serviam o Senhor (cfr. Mc 15, 40). A mãe adotou um
ar solene, um olhar suplicante: Prostrou-se diante
de Jesus, para lhe fazer um pedido. E que pediu? O melhor para os
filhos, como é próprio de uma mãe: Ordena que
estes meus dois filhos se sentem no teu Reino, um à tua direita e outro à tua
esquerda. Nada menos! Pedia os dois primeiros lugares naquele Reino
que tanto ela como os filhos ainda imaginavam como um reino terreno.
Jesus olhou-a, imagino que carinhosamente divertido. Sorrindo, dirigiu-se
aos dois que tinham vindo conchavados com a mãe, e disse-lhes: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu
devo beber? Cristo ia ser, certamente, Rei, mas o seu Reino seria
conquistado pela Cruz, por meio da sua entrega redentora. Eles não sabiam ainda
o que isso significava, saberiam mais tarde; mas, mesmo assim, com simplicidade
inconsciente, respondem sem hesitar: Podemos!
Como que a dizer: “Estamos dispostos a tudo, contanto que nos tenhas, no Reino,
como homens de confiança, bem perto de ti”.
E é aí que aparece a inveja. E irrompe de modo feio. Os dez outros [Apóstolos],
que haviam ouvido tudo, indignaram-se contra os
dois irmãos. Pronto, já estava armada a briga. O Evangelho não a
descreve com detalhes, mas todos sabemos as caras que fazemos, as palavras que
dizemos e o tom com que falamos quando estamos morrendo de raiva. No caso,
morrendo de inveja: “Quem pensam que são esses
dois, que querem passar à frente de todos nós, e ainda por cima com
artimanhas de politicagem materna?”
Jesus, calmo e entristecido pelo espetáculo, chamou-os. E disse-lhes: Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os
grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que
quiser tornar-se grande entre vós faça-se vosso servo. E o que quiser tornar-se
entre vós o primeiro faça-se vosso escravo. Assim como o Filho do homem – o
próprio Jesus – veio, não para ser servido, mas
para servir e dar a sua vida em resgate por uma multidão (Mt 20,
20-28).
A ambição dos dois irmãos, e a explosão de inveja dos outros dez, deram
ensejo ao Senhor para expor uma das lições mais belas do Evangelho: o espírito
de serviço. Por outras palavras, diz-lhes: “Não se comparem, para ver se um é
mais do que o outro; não se deixem arrastar pela inveja; pelo contrário, a sua
ambição deve ser dar-se totalmente e servir, por amor, como Eu faço. Aí
encontrarão a felicidade: servindo e dando alegrias, e não procurando a alegria
vaidosa de ser mais que todos”.
PARA SERVIR, SERVIR
Nos meus anos romanos, inúmeras vezes estive numa sala de estar onde
havia um abajur decorado, na cúpula, com a seguinte inscrição italiana: Per servire, servire – “Para servir, servir”. A mensagem era clara: para termos o espírito de
serviço que é próprio do cristão, devemos pôr-nos em condições de ser úteis, e
estar dispostos a servir realmente: duas coisas que se expressam com a mesma
palavra servir.
Com efeito, servir significa, em
primeiro lugar, que alguém é útil, serve, presta; da mesma maneira que dizemos
das coisas materiais: “esta ferramenta serve; esse tecido não presta, não tem
serventia”. Para servir, é preciso ter
qualificação, preparo, condições pessoais para poder prestar determinados
serviços.
Numa segunda acepção, o verbo servir
indica o ato e o espírito de serviço: a atitude da pessoa prestativa, serviçal,
dedicada, sacrificada. Para servir..., o único jeito
é dedicar-se, servir mesmo.
Em ambos os sentidos, servir é caminhar na contramão do egocentrismo e da
inveja; é esforçar-se com generosidade em colaborar com o bem e a alegria dos
outros.
EXAME DE CONSCIÊNCIA
Tendo presente o que acabamos de ver, talvez nos sirva de ajuda fazer um
exame de consciência – mais um, sim – sobre como vivemos os dois sentidos desse
verbo servir.
Primeiro: por que são tantas as ocasiões em que dizemos: “Não sei fazer,
não tenho jeito, não tenho condições”? É lógico que não saibamos fazer tudo nem
sejamos aptos para todas as tarefas. Mas há muitas coisas que deveríamos saber fazer. Por exemplo, um pai e
uma mãe deveriam saber educar os filhos
e, se não sabem, é porque não se deram ao trabalho de aprender, de formar-se,
de preparar-se (o que é, para eles, um dever grave). Outro exemplo: uma mãe de
família, por mais que tenha que trabalhar fora de casa, deveria saber cuidar com primor de todas as
coisas que tornam um lar agradável, aconchegante e bem cuidado. Que pena ver
mães com os filhos desleixados, mães que não sabem nem proporcionar uma comida
variada e gostosa, nem frigir um ovo, nem meter a roupa na máquina de lavar sem
que saia desfiada e desbotada. Se a mãe não sabe, é porque não foi responsável:
deveria ter-se preparado. A sua inaptidão e despreparo rouba alegrias que deveria dar à família.
Segundo: assim como é muito cômodo não saber
fazer as coisas, também é muito cômodo saber fazê-las, mas “ficar na
moita”, esconder-se, mascarar-se, omitir-se. Estamos no segundo sentido da
palavra servir.
Será que já percebemos a enorme capacidade
inativa de ajudar (portanto, de servir), que todos nós temos? Que
acha se pegássemos mais uma vez (para não ficarmos na teoria) um papel e um
lápis e fizéssemos uma lista – em várias colunas – com as nossas possibilidades?
Por exemplo, as seguintes:
– Primeira coluna: Pequenos serviços que eu poderia prestar, se fosse
generoso, às pessoas da minha casa (pensando em todas elas, uma por uma).
Serviços materiais (ordem, tarefas, compras, limpeza, atendimento da porta, do
telefone, etc.) que posso fazer. Ajuda no estudo dos filhos. Auxílios mais
profundos, de orientação, de aconselhamento moral e espiritual, de formação nas
virtudes, que poderia dar e não dou...
– Segunda coluna: Pequenos serviços que poderia prestar – além dos
“grandes” serviços do próprio trabalho – no meu ambiente profissional. Modos
possíveis de auxiliar, facilitar e tornar mais amável o trabalho a colegas e
subordinados. Será que podem contar comigo, se estão atribulados? Sabem que
estou disposto a ouvir, e por isso me confidenciam as suas dificuldades?
– Terceira coluna: E no clube, no time de futebol, na turma de
pescadores, na do mountain-bike, na dos
integrantes da banda, será que não poderia ser mais prestativo, ter mais
iniciativas, ser um apoio maior, dar o couro
quando é preciso preparar festas, churrascos e outros bons momentos?
– Quarta coluna: E com os necessitados, com os que sofrem? Que faço? Digo
que não posso fazer nada, a não ser dar
esmolas de vez em quando, uma contribuição para o orfanato e o dízimo na
igreja? Digo que não sei falar,
ensinar, dar aula e, por isso, não posso prestar serviços? Mas... posso visitar
doentes. Posso fazer visitas a algum hospital ou asilo. Posso prestar algum
serviço social (uma vez por semana, uma vez por mês...), baseado nos meus
conhecimentos profissionais (assessoria jurídica gratuita, assistência médica
ou dentária, assistência técnica para a construção de casinhas populares, aulas
de complementação, etc, etc).
Há, sem dúvida, outras colunas, que cada qual pode descobrir sozinho e
preencher; mas sejam quantas forem, o que importa é tirar delas propósitos
concretos de servir mais, muito mais, conscientes de que assim daremos as
alegrias que devemos aos outros, e ao
mesmo tempo, nesse nosso coração que irá ficando mais cheio da alegria de
servir, a inveja não achará espaço para lançar as suas raízes.
A ALEGRIA DE PERDOAR
Há ainda uma manifestação de amor generoso
que devemos considerar com atenção, porque talvez seja o cume mais alto e puro
da alegria causada pelo bem dos outros. É
a de saber perdoar.
Cristo, na parábola do filho pródigo, apresenta-nos a figura de um
invejoso, tomado de ira e rancor porque não sabe perdoar: o irmão do filho
pródigo.
Um pai tinha dois filhos... (Lc 15,
11-32). A parábola – lembramo-nos bem dela – focaliza principalmente os sonhos
egoístas, o afundamento moral e o arrependimento do mais novo, do filho pródigo. Poucas páginas da Sagrada
Escritura tocam tão profundamente o coração como as que descrevem o regresso
desse moço perdido e a efusão de ternura amorosa com que o pai o acolhe, o
perdoa e o restitui à plena dignidade de filho: Façamos
uma festa; este meu filho estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi
achado.
O pai da parábola simboliza Deus. Antes de falar-nos dele, Cristo tinha
contado outras duas parábolas – a da ovelha extraviada e a da moeda perdida (Lc
15, 1-10) –, ambas sobre a maravilha inefável do perdão divino. E essas duas
parábolas terminam, respectivamente, com os seguintes comentários: – Digo-vos que haverá maior alegria no céu por um só pecador
que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de
arrependimento. – Digo-vos que haverá
alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrependa.
Jesus Cristo faz questão de repisar que a maior
alegria que há no céu – a que faz os
anjos estremecer de júbilo – é a conversão de um pecador: é a alegria de ver
que o infeliz que tinha ofendido gravemente a Deus, separando-se dEle e
atirando-se ao abismo da morte espiritual, se arrepende, é recuperado, pode ser
abraçado como filho por Deus Pai e tornar-se feliz para sempre com Ele.
Deus não guarda ressentimento
pelas nossas ofensas. Quando nos arrependemos sinceramente, a sua maior alegria
é poder dar-nos os bens verdadeiros que
tínhamos perdido – a graça, a vida da alma, a paz – e fazer-nos eternamente
felizes. Deus é a suprema antítese da inveja.
A COMPARAÇÃO DO INVEJOSO
Mas, enquanto o pai estava comemorando com uma grande festa a recuperação
do filho perdido, o outro chega do trabalho : O
filho mais velho estava no campo. Ao voltar e aproximar-se da casa, ouviu a
música e as danças. Estranhou aquela celebração insólita e perguntou
a um empregado o que era aquilo. Quando ficou sabendo, encolerizou-se e não queria entrar. O modo
amoroso como o pai acolheu o filho infiel atingiu-o como um soco na cara.
Não só não se alegrou com a volta do irmão, como se enfureceu e se
recusou a entrar. Saiu então o pai para rogar-lhe que o acompanhasse, que
participasse da sua imensa alegria. Mas o rapaz retrucou, pondo a nu a inveja
que o dominava: Há tantos anos que te sirvo, sem
jamais transgredir ordem alguma tua, e nunca me deste um cabrito para festejar
com os meus amigos. E agora que voltou este teu filho, que gastou os teus bens
com as prostitutas, logo lhe mandaste matar um novilho gordo.
Aqui temos a inveja, com os seus traços mais característicos: a
comparação com os outros, a raiva de que eles recebam carinho e bens que a nós
não nos foram dados; no caso da parábola, achar injusto o que não era injustiça,
mas efusão de amor generoso de um pai que amava por igual ambos os filhos.
O pai, com carinho e paciência, tenta recuperar também o invejoso: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu.
Convinha, porém, fazermos uma festa, pois este teu irmão estava morto e
reviveu; tinha-se perdido e foi achado.
Dentre as muitas luzes que brilham nesta bela passagem do Evangelho,
vamos destacar agora apenas duas, mais relacionadas com o tema destas páginas.
A MAIOR ALEGRIA NA TERRA
Em primeiro lugar, Cristo nos ensina que a nossa maior alegria na terra
deveria ser semelhante à alegria do céu:
o júbilo de ver que alguém que estava perdido
se recupera e volta ao caminho do bem.
Alegria também no caso de que essa pessoa nos tenha ofendido e feito sofrer:
justamente, na parábola, o pai que perdoa é aquele a quem o filho abandonou,
desprezou, ofendeu.
Uma alegria como essa só pode brotar de um coração generoso e bom (Lc 8, 15), que saiba perdoar.
Manter o ressentimento e não querer entrar na
festa do perdão, como fez o irmão do pródigo, equivale a manter um
foco de infecção que destrói a caridade.
Pensemos agora em certos problemas familiares, infelizmente não raros.
Concretamente, no caso da esposa que não é capaz de perdoar o marido infiel que
está desejando retornar sinceramente
arrependido. Ou no caso contrário da esposa que traiu e, caindo em si – como o
filho pródigo –, pediu sinceramente perdão
e quer reparar o mal feito. Por que não há perdão? Porque o ofendido, ao
contrário do pai do pródigo, pensa acima de tudo nas suas mágoas, nas alegrias
que o outro lhe roubou, nas humilhações a que o submeteu, e guarda um atroz
ressentimento; com isso, torna-se incapaz de participar da alegria do perdão,
que exulta colaborando para que aquele que estava
morto, reviva (cfr. Lc 15, 24).
No bojo dessa amargura, há também uma forma especialmente dolorosa de inveja: a queimadura do ciúme. A mulher
preterida por outra, é natural que sinta a humilhação e o ciúme como um ferro
em brasa na alma. Tem razão: foi injustamente enganada, vilmente traída. Mas –
é preciso insistir – Cristo escolhe como modelo de coração que perdoa o pai do
filho pródigo, esse pai que foi traído. Ele é quem abre ao infiel o coração e o
lar, ele é quem faz tudo para ajudá-lo a iniciar uma vida nova, ele é o modelo
da alegria de perdoar.
A ALEGRIA DOS BENS
ESPIRITUAIS
Ainda podemos vislumbrar na parábola uma segunda luz, relacionada com o
amor generoso.
O pai do filho pródigo tem, dentro do coração, um amor impaciente por
dar-se. Antes de que o filho dê sinais de regresso, já está à sua espera com as
portas e o coração abertos (Lc 15, 20). Quando, finalmente, pode extravasar
esse amor em forma de perdão, não só não perde esse seu amor ao dá-lo, como,
pelo contrário, se lhe torna ainda maior.
Com uma atitude oposta, o filho mais velho tem, dentro do coração, a
mágoa daquilo que não recebeu – o famoso “cabrito”! – e o compara com a festa e
o “novilho gordo” que foi dado ao irmão vagabundo (cfr. Lc 15, 29-30).
Indo ao miolo desses dois corações, percebemos que o pai tem as suas
alegrias ligadas aos bens espirituais,
como são o amor, o bem, a salvação espiritual do filho. E o irmão mais velho,
pelo contrário, parece ter as suas alegrias presas aos bens materiais.
Sobre esses dois tipos de bens, São Tomas de Aquino comenta, com a sua
habitual lucidez, que os materiais dividem os homens e são motivo de inveja
porque não podem pertencer a dois íntegra e
simultaneamente. A mesma fruta que eu como, você não come. A mesma
roupa que eu uso, você não usa. Pelo contrário, os bens espirituais podem ser
participados por muitos simultaneamente sem que se gastem, antes aumentando.
Por exemplo, o professor que transmite o seu saber, não o perde ao fazer os
outros participarem do mesmo. Igualmente o bom cristão tem suma alegria em que
haja quem participe dos bens da sua fé e do seu amor, que, quanto mais
transmite aos outros, mais aumentam também nele22.
Por isso, a pessoa voltada para bens espirituais
(no seu amplo sentido de ideais, valores e bens religiosos, culturais,
patrióticos, educativos, sociais...) é menos
propensa à inveja, porque está preparada para compartilhar os seus
bens e alegrias.
É uma grande verdade que, quanto mais os ideais e aspirações da vida
estão voltados para os bens espirituais puros – não egoístas –, há mais
alegrias e menos inveja. O santo não inveja ninguém, só quer levar a todos a
graça e as bênçãos de Deus. O idealista social só quer que todos conheçam e
partilhem os seus projetos de justiça e paz. O formador de educadores alegra-se
de entregar a sua experiência a muitos. O amante da música clássica vibra de
alegria quando pode repartir o seu gosto pela boa música entre muitos. E todos
eles, dando do que é seu, se enriquecem.
Como é diferente o quadro dos que estão voltados para os bens materiais!
Basta lembrar o lamentável espetáculo de irmãos brigando, com ódios
irreconciliáveis, na hora da partilha da herança paterna: cada um reivindicando
o que coube a outro. A cupidez de bens materiais acende fogueiras destrutoras
de inveja. Estamos no extremo contrário do amor generoso.
Pois, então, com a ajuda destas luzes que acabamos de captar, valerá a
pena que, se notarmos por dentro o verme roedor da inveja, nos perguntemos: –
“Não será que estou preso demais aos bens e vaidades materiais? Não é a minha
inveja a sombra do meu egoísmo e da minha cupidez? Não sou vítima da inveja
justamente pelo vazio de bens espirituais? Não está na hora de uma reviravolta
significativa dos valores da minha vida?
Dessa reviravolta libertadora vamos ocupar-nos no capítulo que vem a
seguir.
QUARTA PORTA: AS BEM-AVENTURANÇAS
ONDE ESTÁ A FELICIDADE?
“Todos certamente queremos ser felizes – escrevia Santo Agostinho – e não
existe no gênero humano pessoa que não concorde com esta proposição, mesmo
antes de ser formulada por inteiro”23.
Todos buscamos a felicidade, mas poucos a encontram. É que a maioria a
procura no lugar errado e de modo errado.
Isso é o que – como estivemos vendo – acontece com o invejoso. Erra
duplamente: primeiro, porque procura a felicidade na horta do vizinho; segundo,
porque vai atrás de uma felicidade fantasma, que o mundo não pode dar. Algo
disso apontávamos no fim do capítulo anterior e meditaremos a seguir.
No invejoso, cumpre-se ao pé da letra o que afirma o Livro da Sabedoria: A fascinação das bagatelas obscurece as coisas boas
(Sab 4, 12). Hipnotizado pelas aparências, julga que será feliz com os prazeres
e as vaidades mundanas. Sofre por não tê-los, e quando os obtém, sofre porque o
decepcionam e não duram.
Essa é a curva de Gauss da atual
sociedade hedonista e consumista. Começa por atirar-se sofregamente ao dinheiro
– obtido por meios honestos ou excusos –, aos prazeres e às vaidades, mas essa
fogueira crepitante não demora em transformar-se nas cinzas do desencanto, da
depressão ou da fuga (drogas, bebida, suicídio).
Fazendo um retrato moral da sociedade hedonista, Mons. Escrivá dizia em
São Paulo, em 1974: “O Senhor deseja que permaneçamos neste mundo – que agora
está tão agitado, onde se ouvem clamores de luxúria, de desobediência, de
rebeldia que não levam a parte nenhuma –, para ensinarmos as pessoas a viver
com alegria. A gente está triste. Fazem muito barulho, cantam, dançam, gritam,
mas soluçam. No fundo do coração, só têm lágrimas: não são felizes, são
desgraçados. E o Senhor, a vocês e a mim, nos quer felizes”24.
Cristo quer que os filhos de Deus sejamos felizes e semeemos pelo mundo a
alegria e a paz. E, além disso, nos mostra o caminho para o conseguirmos.
O SENHOR NOS QUER
FELIZES
O início da pregação de Jesus Cristo é o Sermão da Montanha (Mt 5, 1 e
segs.), que constitui como que a carta magna
do Evangelho, a formulação das bases da mensagem cristã.
Abramos o texto de São Mateus pelo capítulo quinto e leiamos: Vendo aquelas multidões, Jesus subiu à montanha. Sentou-se
e seus discípulos aproximaram-se dele. Então abriu a boca e lhes ensinava
dizendo: Bem-aventurados...
Bem-aventurados... Felizes!...
Não é difícil imaginar os olhos ansiosos, o ouvido atento, o silêncio
tenso com que a multidão o escutava. O Mestre estava falando da felicidade, ia
mostrar os caminhos da felicidade!
Essa sôfrega expectativa, segundos depois se transformou em estupor.
Porque os caminhos de felicidade que Jesus anunciava, que Jesus prometia como
dom de Deus, estavam exatamente na contramão dos rumos por onde os homens
costumam procurá-la. Vejamos.
Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles
é o reino dos céus. Jesus ensina que a felicidade
está em ser desprendido das coisas materiais, em ser pobre em espírito; o mundo
diz que a felicidade está na riqueza.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Jesus ensina que serão felizes os que choram com as lágrimas amorosas do
sacrifício, da compaixão pelos que sofrem e do arrependimento; e o mundo diz
que serão felizes os que riem e bebem e fogem da dor e da cruz.
Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. Jesus ensina que serão felizes os que têm humildade e, com grandeza de
alma, sabem suportar pacientemente os defeitos dos outros. O mundo diz: Felizes
os dominadores, os orgulhosos, os prepotentes.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça – palavra que no Evangelho significa retidão, santidade –, porque serão saciados. Assim ensina Jesus. E o
mundo? O mundo diz: Felizes os que têm fome e sede de sexo, dos prazeres da
gula, das drogas, e da satisfação de todos os egoísmos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão
misericórdia. Jesus ensina: Felizes os que compreendem,
desculpam e perdoam. O mundo diz: Perdoar é de fracos; se você andar perdoando,
vão-lhe pisar em cima.
Bem-aventurados os corações puros, porque verão a Deus. Jesus ensina que a pureza de desejos e de conduta é fonte de
felicidade. O mundo diz: Seja esperto e ria-se da pureza sexual, da fidelidade
conjugal, da honestidade profissional e de todos os moralismos.
Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de
Deus. Jesus traz a paz ao mundo. O mundo, ansioso de prazer e
afastado dos ensinamentos de Cristo, gera cada vez mais violência no lar,
violência nas ruas, violência nas diversões, violência entre as nações;
violência de crianças, violência de adolescentes, violência de velhos...
Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça –
da retidão, da fidelidade a Deus –, porque deles é o reino dos céus. Jesus ensina:
Felizes os que são fiéis à Fé, à Verdade de Deus, aos Mandamentos de Deus, à
autêntica doutrina cristã, sem se deixarem torcer pelo ambiente; e que estão
dispostos a dar a vida antes que dizer que o erro é verdade, ou que o mal – o
aborto, por exemplo – é um bem. O mundo diz: Felizes os que são aplaudidos,
porque são “abertos” e tolerantes, porque são “avançados” e, por isso,
compactuam com todas as mentiras, todas as crendices e todos os crimes e
bandalheiras que a “sociedade” e a mídia hedonistas louvam e impõem. O mundo
diz que ser fiel a Deus, ser coerente com a fé e levar a sério os princípios da
moral, é estar fora da realidade e atrasar o progresso.
OS TRAÇOS DO ROSTO DO
AMOR
Quem tem razão? O mundo ou Cristo? O mundo da violência, do sexo enlouquecido,
da família despedaçada e da droga, ou Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, Caminho, Verdade e Vida (Jo 14, 6)?
Abramos os olhos. Será que houve, nos nossos dias, alguma cantora de
rock, alguma atriz de cinema ou alguma apresentadora de televisão que fosse
mais feliz do que a Irmã Dulce da
Bahia? A freira humilde e pobre, toda dedicada aos necessitados, era feliz no
dia-a-dia – simples e sempre igual – daquele seu orfanato, que flutuava com a
força do amor sobre os vaivéns da falta de dinheiro. A monotonia desses dias
sacrificados ficava a cada instante transfigurada em radiante novidade pelo
amor dessa mulher a Deus, às crianças pobres e aos doentes, um amor que se destilava em desprendimento e abnegação, e que
florescia numa imensa paz e uma inalterável alegria. Ela foi, mais que todas as
famosas que sorriem nas capas das revistas, uma mulher feliz, bem-aventurada!
Amor que transborda em alegria: este é o segredo dos santos.
As Bem-aventuranças – que só os santos entendem bem porque as praticam –
ensinam-nos as verdadeiras alegrias, que o mundo não vê nem conhece. Por quê?
Porque o mundo só conhece o prazer, o egoísmo e a ambição; e, em contraste com
isso, as oito Bem-aventuranças são as pinceladas espirituais que desenham o
retrato do Amor total, abnegado,
generoso e desprendido: o retrato de Cristo manso e humilde de coração, de
Cristo que chora pelos pecados, que são o único mal
do mundo, de Cristo voluntariamente pobre, de Cristo castíssimo e
misericordioso, de Cristo que dá com o seu sangue testemunho da verdade...
Numa síntese profunda e feliz, o Catecismo
da Igreja Católica ensina: “As Bem-aventuranças traçam a imagem de
Cristo e descrevem a sua caridade; exprimem a vocação dos fiéis associados à
glória da sua Paixão e Ressurreição; iluminam as ações e atitudes
características da vida cristã; são promessas paradoxais que sustentam a
esperança nas tribulações...”25
É um texto cheio de substância. Seria muito bom que cada um de nós, na
soledade do seu diálogo íntimo com Deus, meditasse devagar cada uma das suas
frases.
Com a graça do Espírito Santo, não duvidemos de que podemos abrir os
olhos e entender por que as Bem-aventuranças – tão contrárias ao pensamento e
aos desejos do mundo – são as sinalizações certas para alcançar a felicidade
sem engano nem fim.
A QUEM TEM DEUS, NADA
LHE FALTA
Por que estamos insistindo assim nas Bem-aventuranças? Não é difícil de
adivinhar: porque têm muito a ver com a inveja; na realidade, têm tudo a ver.
Se bem nos lembramos, estas páginas começaram dizendo: “A inveja é
triste, o invejoso é infeliz”. Começamos falando da tristeza e terminamos
falando da alegria, que está “do outro lado da inveja”.
E, nesse “outro lado”, a mensagem cristã das Bem-aventuranças proclama
com força que o que faz feliz o homem, “criado por Deus e para Deus”26, é atingir o seu fim: Deus, que é o Amor (1 Jo 4, 9). Por um paradoxo divino,
nós, os filhos de Deus, só nos realizamos em plenitude quando nos esquecemos de
nós mesmos, quando nos damos, quando trocamos o “eu” por Deus e o prazer pelo
Amor. Aquele que perder a sua vida encontrá-la-á
(Mt 16, 25). Quem se esquecer do seu “eu” egoísta, quem for desprendido e
souber amar a Cristo e aos homens como Cristo, esse se encontrará a si mesmo e
será feliz.
Com a sabedoria dos místicos, que acharam o tesouro escondido de Deus (Mt
13, 44), Santa Teresa de Ávila resumia: “A quem tem Deus, nada lhe falta”. Por
quê? Porque tem tudo, porque tudo é nada se faltar a única riqueza autêntica
para o ser humano: o Amor com maiúscula, aquele Amor que vem de Deus (1 Jo 4, 7) e que – como Cristo –
tem a alegria de dar a vida pelos irmãos (1
Jo 3, 16).
Então, se “nada lhe falta”, é lógico que nada inveje. Nada tem a invejar,
só tem muito a agradecer e a dar.
Eis o fulgor da sabedoria dos santos, a única luz capaz de orientar a
nossa vida para a verdadeira alegria.
Fiquemos com essa luz, guardemo-la e meditemo-la devagar no nosso
coração, como fazia Nossa Senhora (Lc 2, 19). E terminemos pedindo a Deus, com
palavras de uma antiga e bela oração litúrgica: Senhor,
que unis os corações dos vossos fiéis num único desejo, fazei que o vosso povo
ame o que mandais e espere o que prometeis, para que, no meio da instabilidade
deste mundo, fixemos os nossos corações lá onde se encontram as verdadeiras
alegrias27.
APÊNDICE
A título de apêndice, e como pequeno resumo das páginas anteriores,
talvez nos ajude fazer um breve paralelismo, contrastando a inveja com as
características da caridade, tal como São Paulo no-las descreve (1 Cor 13,
4-7):
A caridade é paciente, ao
passo que a inveja é irritada, revoltada e impaciente.
A caridade é benigna,
deseja o bem a todos, enquanto a inveja deseja e busca ativamente o mal para os
outros.
A caridade não é jactanciosa, não
se ensoberbece; a inveja nasce da soberba, de uma exaltação orgulhosa do
próprio “eu”.
A caridade não é descortês; a
inveja pode simular a cortesia, mas falta-lhe o âmago dessa virtude, que é o
desejo de servir e tornar amável a vida aos outros.
A caridade não é interesseira; a
inveja só procura tirar vantagem de tudo e de todos.
A caridade não se irrita nem guarda rancor, ao passo que a inveja cultiva o ressentimento e chega a convertê-lo em
ódio.
A caridade não se alegra na injustiça, mas compraz-se na
verdade; a inveja compraz-se no infortúnio alheio e lança mão do
fingimento e da calúnia.
A caridade tudo desculpa, a
inveja tudo critica, tudo julga e condena.
A caridade tudo crê, o
invejoso de tudo desconfia.
A caridade tudo espera, a
inveja tudo combate e despreza.
A caridade tudo tolera, o
invejoso não suporta nem aos outros nem a si mesmo; não sabe aceitar e amar a
Vontade de Deus.
Contrastes entre inveja e caridade! Com que clareza nos mostram que, na
vida, a inveja é morte, e a caridade, vida.
Não nos esqueçamos nunca de que, enquanto estivermos nesta terra, a
caridade será sempre o caminho mais excelente de
todos (1 Cor 12, 31), aquele que nos fará sintonizar com os
sentimentos de Cristo e seguir os seus passos. Caminho amabilíssimo, que o
Espírito Santo nos convida a seguir todos os dias, marcando-nos o rumo com
palavras muito claras, como estas de São Paulo: Nada
façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a
considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada um tenha em vista não os
seus próprios interesses, e sim os dos outros (Fil 2, 3-4). E ainda:
Que a vossa caridade não seja fingida. Aborrecei o
mal, apegai-vos solidamente ao bem. Amai-vos mutuamente com afeição terna e
fraternal. Adiantai-vos em honrar uns aos outros [...]. Alegrai-vos com os que
se alegram; chorai com os que choram (cfr. Rom, 9-15).
NOTAS
(1) Catecismo da Igreja Católica,
n. 2539; (2) São Cipriano, De zelo et livore,
n. 9; (3) São Tomás de Aquino, Suma Teológica,
II-II, q. 36, a. 1; (4) cfr. São Gregório Magno, Moralia,
31, 45; (5) Suma Teológica, II-II, q.
36, a. 2; (6) Aristóteles, Retórica, 2,
c. 9, n. 5; (7) São Gregório Magno, Moralia in Job, c. 45; (8) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Sulco,
Quadrante, São Paulo, 1987, n. 912; (9) pe. Bernardes, Nova Floresta, verbete “Inveja”; (10) cfr. O Estado de S. Paulo, 19.02.2000, pág. D7; (11) A batalha em busca do poder, em Estado de Minas, 19.03.2000, pág. 14; (12) cfr.
M.A.Velasco, Madre Teresa de Calcutá,
Quadrante, São Paulo, 1996, págs. 10-12; (13) Santo Agostinho, De catechizandis rudibus, 4, 8; (14)
Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho,
9ª ed., Quadrante, São Paulo, 1999, n. 658; (15) Bem-aventurado Josemaría
Escrivá, Sulco, ns. 487 e 496; (16)
Luís de Moya, Sobre la marcha, Edibesa,
Madrid, 1996; (17) ibid., pág. 205;
(18) ibid., págs. 53 e 55; (19) Suma Teológica, II-II,
q. 36, art. 3; (20) Catecismo,
n. 1822; (21) Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos
de Deus, Quadrante, São Paulo, 1979, n. 20; (22) cfr. Suma Teológica, I-II, q. 28, a. 4; (23) Santo
Agostinho, De moribus ecclesiae catholicae,
1, 3, 4; (24) Salvador Bernal, Perfil do Fundador
do Opus Dei, Quadrante, São Paulo, 1978, pág. 264; (25) Catecismo, n. 1717; (26) Catecismo, n. 27; (27)
Oração do Domingo 21 do Tempo Comum.
ÍNDICE
PÓRTICO................. ....................... 3
Primeira parte: O vício da inveja
VERDADEIRAS E FALSAS INVEJAS....... ....................... 5
Que é a inveja?..... ................ 5
Invejas verdadeiras.............. ................ 6
Invejas disfarçadas................ ................ 7
Falsas invejas...... ................ 9
Mais falsas invejas...... ................ 10
RAÍZES E FRUTOS DA INVEJA... ....................... 12
Raízes da inveja....... ................ 12
Frutos da inveja: a maledicência............. ................ 13
Outro fruto da inveja: a competição vaidosa. ................ 14
O pior fruto da inveja: o ódio à bondade... ................ 16
A santidade agredida... ................ 18
Éramos insensatos................. ................ 20
Segunda parte: Luz do outro lado da inveja
PORTAS DA FELICIDADE ....................... 22
PRIMEIRA PORTA: A GRATIDÃO....................... ....................... 24
Quebrando uma obsessão.. ................ 24
Acho o mundo muito bom ................ 26
Também pelos benefícios que não conheço... ................ 28
SEGUNDA PORTA: A FIDELIDADE À “NOSSA” VIDA............. ....................... 30
A balança e o altímetro ................ 30
A horta de Mendel.... ................ 31
Quatro canteiros.. ................ 33
Pessoas que admiramos sem invejar................ ................ 35
Avançando sobre rodas....... ................ 36
TERCEIRA PORTA: O AMOR GENEROSO.. ....................... 40
Contra inveja, caridade... ................ 40
Reconhecer com alegria...... ................ 41
Aprender com alegria...... ................ 42
Saber aprender.. ................ 44
Não comparar-nos, servir ................ 46
Para servir, servir........ ................ 48
Exame de consciência.............. ................ 48
A alegria de perdoar.... ................ 51
A comparação do invejoso... ................ 52
A maior alegria na terra......... ................ 53
A alegria dos bens espirituais. ................ 54
QUARTA PORTA: AS BEM-AVENTURANÇAS............... ....................... 57
Onde está a felicidade? ................ 57
O Senhor nos quer felizes....... ................ 58
Os traços do rosto do Amor....... ................ 61
A quem tem Deus, nada lhe falta.... ................ 62
APÊNDICE.............. ....................... 64
Outras obras do autor nesta coleção
AUTENTICIDADE & CIA.
Formato 11 x 16,7 cm, 64 páginas
“Ser autêntico”, repetem-nos hoje de maneira massacrante na mídia, nas
escolas e até em alguns lares, “é o máximo valor. Faça o que fizer, contanto
que seja autêntico, será válido; o importante é que esteja de acordo com o que
você é, pensa e sente”. Mas... e Deus? Que pensa disso?
O HOMEM BOM
Formato 11 x 16,7 cm, 48 páginas
O que distingue a bondade verdadeira da falsa bondade sentimental? Ser
bom não é apenas ter boas intenções, mas fazer o
bem às outras pessoas, empregando para isso todas as nossas forças.
LÁGRIMAS DE CRISTO, LÁGRIMAS DOS HOMENS
Formato 11 x 16,7 cm, 72 páginas
À luz das passagens evangélicas, entendemos o porquê do sofrimento de
Cristo e aprendemos como orientar para o bem as nossas próprias lágrimas.
A LÍNGUA
Formato 11 x 16,7 cm, 72 páginas
A língua “é um fogo que incendeia e, ao mesmo tempo, é água profunda;
sendo uma espada, é também instrumento do hábil escritor que transmite
sabedoria”. Estas páginas mostram-nos como são realistas essas comparações
inspiradas no texto sagrado, aplicando-as luminosamente à nossa própria vida.
MARIA, A MÃE DE JESUS
Formato 11 x 16,7 cm, 52 páginas
O autor mostra-nos quem é Maria aos olhos de Deus e o lugar insubstituível
que deve ocupar na fé e na vida dos cristãos.
A PACIÊNCIA
Formato 11 x 16,7 cm, 64 páginas
Mostrando-nos que, no fundo, a impaciência é filha do egoísmo, o autor
ensina-nos, por meio de imagens expressivas, que só da caridade, do amor a Deus,
pode nascer a paciência, esse “amor que sabe sofrer”.
A PAZ NA FAMÍLIA
Formato 11 x 16,7 cm, 64 páginas
– “Quanta reclamação, quantas brigas lá em casa! Quando vamos ter um
pouco de paz?” O Autor aponta aqui as raízes da discórdia que pode surgir nas
famílias e sugere, com conselhos práticos, os remédios para fazer do nosso lar
um recanto de alegria e tranqüilidade..., ou seja, de paz.
A PREGUIÇA
Formato 11 x 16,7 cm, 48 páginas
Vidas preguiçosas são vidas egocêntricas, muitas vezes disfarçadas
de ativismo. Identificando as armadilhas em que se enreda o preguiçoso, este
ensaio ensina-nos a vencer esse “inofensivo” defeito.
O VALOR DAS DIFICULDADES
Formato 11 x 16,7 cm, 48 páginas
Mais do que um obstáculo para o bem, as dificuldades cotidianas são as
inseparáveis companheiras do nosso caminho e ocasião de crescer e de viver a
esperança que leva a Deus.
A VOZ DA CONSCIÊNCIA
Formato 11 x 16,7 cm, 64 páginas
Quem é a consciência, esse juiz
interior que julga sobre o bem e o mal na minha vida? Que lei é essa que devo seguir? Quais são as qualidades necessárias para que a voz da consciência
seja uma “boa voz”, eco da verdade e do bem?