criador da
adoração perpétua do Santíssimo Sacramento
(1811 – 1868 La
Mure)
São Pedro Julião Eymard: criador da adoração perpétua
do Santíssimo Sacramento
De humilde fabricante de azeite, transformou-se em pregador com palavras de
fogo, em profeta, operou milagres e conheceu com antecedência o trono que
ocuparia na corte celeste
Por Roberto Alves Leite
Em 1804, apareceu no vilarejo de La Mure um amolador
de objetos, acompanhado de sua filha de cinco anos de idade, órfã de mãe, que
perguntava de casa em casa se havia utensílios para serem afiados por seu pai.
Este tinha por nome Julião Eymard, originário de
outra localidade, Auris, onde se casara e tivera seis filhos desse casamento.
Perseguido pelos “patriotas” da Revolução Francesa, perdeu boa parte de
seu patrimônio. Com a morte da esposa, em 1804, resolveu tentar a sorte noutro
lugar.
Deixou então cinco filhos com pessoas amigas e saiu à
procura de sustento, levando apenas a caçula. O espírito de solidariedade
católica, que ainda havia em La Mure, facilitou o estabelecimento de Julião
naquele local, onde prosperou e contraiu novas núpcias.
De seu segundo casamento, nasceu Pedro Julião Eymard
em 4 de fevereiro de 1811.
Com o correr dos anos, o menino mostrou-se
inteligente e jeitoso, tornando-se a grande esperança do pai para fazer
prosperar o negócio que havia montado naquela localidade: uma usina de azeite.
O conquistador de almas para Deus
O menino, porém, sentia que era chamado para algo de
bem mais elevado do que ser fabricante de azeite. Após várias dificuldades
postas pelo pai, conseguiu entrar no seminário para seguir o que sua vocação
lhe pedia: tornar-se sacerdote.
Após ordenar-se, celebrou sua primeira Missa em 26 de
outubro de 1834.
O novo sacerdote cativava as almas. Após o ofício
divino, saía com os fiéis e ficava em frente à igreja, conversando com eles e
os instruindo. Operavam-se então conversões impressionantes.
Em 1839 decidiu entrar na Sociedade de Maria para desenvolver cada vez mais sua
devoção à Sagrada Eucaristia, a paixão de sua vida. Sua irmã — aquela menininha
que percorria as casas pedindo trabalhos — insistiu com ele para que ficasse
mais um dia em casa, antes de partir para seu novo destino. “Um dia bastará
para perder minha vocação” foi a resposta. E seguiu em frente.
Nessa época a todos impressionava sua piedade
profunda e terna, enquanto no seu caminhar havia algo de harmonioso que lhe
conferia um aspecto militar.
Pregava a Eucaristia e somente a Eucaristia. Porém o
fazia de maneira pessoal, concreta e viva, sem muitas especulações meramente
teóricas e abstratas. Sua pregação tocava de modo especial as necessidades
espirituais de seus ouvintes. Sua palavra de fogo esclarecia, abrasava e
ganhava as almas. Seus sermões eram verdadeiras meditações íntimas que lhe
saíam pelos lábios, expressão de sua intensa vida interior.
Sua alma era de tal maneira luminosa, que pessoas das mais diversas condições
sociais e econômicas, bem como das mais distintas profissões, vinham lhe pedir
luzes fora e dentro do confessionário.“Fogo”
eucarístico nos quatro cantos da França
Certo dia, em 1853, durante a ação de graças, por
solicitação de Nosso Senhor, ele se ofereceu por inteiro a Deus, recebendo
então muitas graças, consolações e forças para realizar a tarefa que lhe estava
destinada.
Seis anos mais tarde, confidenciou que naquela
ocasião prometera a Deus que nada o reteria, mesmo que precisasse comer pedras
e morrer em um hospital, trabalhando em Sua obra sem consolações humanas.
Era o primeiro passo para a fundação de seu
Instituto, dedicado à adoração perpétua do Santíssimo Sacramento. As
dificuldades fizeram-no soltar essa exclamação: “Chego como um soldado do
campo de batalha, não se achando vitorioso, mas cansado e esgotado pelo combate“.
E anunciou ao Arcebispo de Paris que queria pôr fogo
nos quatro cantos da França, e especialmente em Paris, com a comunhão dos
adultos.
Santo Cura d’Ars profetiza sobre São Pedro
Julião!
O Pe. Eymard e o Cura d’Ars se conheciam e se
tornaram verdadeiros amigos em Nosso Senhor Jesus Cristo, cada um procurando
estar a par das atividades do outro.
O Cura d’Ars teria mesmo profetizado que o Pe. Eymard
sofreria muito, inclusive perseguições de seus melhores amigos. Mas que a
congregação por ele fundada seria próspera e se espalharia por todos os países,
apesar de tudo e contra todos…
De fato, na obra recém-fundada continuava faltando
quase tudo e as deserções começavam. O fundador tornou-se objeto de críticas e
perseguições. Escreveram-lhe cartas extremamente mortificantes, profetizando
quedas e catástrofes. Como se isso não bastasse apareceu uma ameaça de despejo.
Obrigado a se afastar por cinco semanas para tratar da saúde, encontrou a casa
com menos gente e com traidores.
Em Roma: êxtase e aprovação de sua obra
Tinha um culto entusiasmado pelo Papado. E não foi
sem emoção que se dirigiu a Roma para pedir a aprovação de sua obra, o
Instituto do Santíssimo Sacramento.
Uma feliz coincidência facilitou as coisas. Estava
orando no altar da Confissão, na Basílica de São Pedro, quando entrou em êxtase
e não percebeu um cortejo que se aproximava. Era Pio IX, que ia rezar ali
também. Os numerosos fiéis que se encontravam no local, se afastaram para dar
passagem ao Papa, ficando somente um padre austero ajoelhado. Quando voltou a
si, todo confuso, refugiou-se em um canto; o Papa acabara de se retirar.
No dia seguinte recebeu o Breve Laudatório, assinado
na véspera pelo Sumo Pontífice!
Desejava ter a voz do trovão
Sua palavra era um fogo de caridade e de fé. Havia um
tal brilho de santidade em seu olhar, que se pensava em Nosso Senhor. Mesmo
antes de começar a falar, já tocava as almas pela sua simples presença. Mais do
que a fé, era quase a visão real do Divino Mestre que ele imprimia nas almas.
Parecia ver o que falava.
Quanta vida, quanta luz! Seus ouvintes mantinham o
olhar fixo na sua pessoa durante toda a pregação. Diz-se que ele desejava ter a
voz do trovão para ser entendido por toda parte e por todos.
Traçava, para cada sermão, os limites, as divisões e
o encaminhamento do raciocínio, mas… na hora entrava a palavra e a inspiração
do coração. Preparava suas homilias diante do Sacrário pois, segundo ele, uma
hora na presença do Santíssimo Sacramento valia mais do que uma manhã de
estudos nos livros.
Lia os corações, via à distância, profetizava…
Não era raro dizer a uma pessoa os pensamentos que
tivera; e aconselhá-la de acordo com tal discernimento.
Certo dia, uma moça da sociedade foi procurá-lo, sem
que os pais soubessem, para pedir-lhe um conselho sobre sua vocação. Ao chegar,
soube que ele se encontrava em sua hora de adoração ao Santíssimo, durante a
qual não costumava atender absolutamente ninguém. Resignada, dirigiu-se à
igreja e o viu de costas, ajoelhado, em oração. Nesse mesmo instante Eymard
levantou-se, indicando à moça o caminho do confessionário. Comentou depois que
sentira que uma pessoa o procurava e tinha necessidade de ajuda.
Entre 1860 e 1868 previu várias vezes os desastres da
guerra franco-prussiana e o movimento revolucionário da Comuna de Paris.
Em Saint-Julien de Tours, o Pe. Eymard deu provas de
ser santo, vidente e profeta diante de um auditório que o ouvia pela tarde e
pela manhã, sempre recolhido e sempre entusiasta.
Certo dia, duas horas antes da procissão de São
Julião, o céu escureceu e se armou uma tempestade. O Pe. Eymard, calmo, ordenou
que a procissão saísse e… surpresa! Em lugar dos raios e da chuva que já haviam
começado, aparece céu azul e um grande sol! “Milagre“! Foi a palavra que
aflorou a todos os lábios.
Exorcista, era perseguido pelo demônio
Muitas vezes passava as noites lutando contra o
demônio. Pela manhã, no seu quarto havia móveis quebrados ou avariados e sinais
em sua face. Comentava que os golpes do demônio são secos como se bate em
mármore, mas a dor desaparecia com a pancada.
Em 1861, após comer parte de uma maçã oferecida por
uma mulher tida como mágica, uma menina ficou possessa. A mãe, ouvindo falar de
Eymard, foi procurá-lo. Este enviou uma camisa e um gorro com a medalha de São
Bento, mas a menina os destroçou com seus dentes. O Padre então benzeu um
pedaço de pão e o enviou à casa da menina, para que o engulisse na hora em que
estaria celebrando uma missa por ela.
Quatro homens forçaram-na a engulir e ela começou a
vomitar um liquido preto, cheirando a enxofre, em tal quantidade que escorreu
até o chão, ficando então curada. O demônio foi derrotado duplamente, pois o
pai de menina, que se encontrava afastado da religião, impressionado,
confessou-se, comungou e voltou à prática religiosa.
Incompreendido pelos próprios filhos espirituais
No final de 1867 repreende os seus por não irem vê-lo
com mais freqüência e mais confiança, a fim de pedir uma comunicação mais
abundante do espírito da sua vocação. “Nada me perguntais. Quando eu não
estiver mais aqui, ninguém terá a graça da fundação. Interrogai-me, usai mais
de mim”.
Em 1868 escreveu em suas notas que iria fazer parte
da corte celeste, participar da bondade de Deus. Um trono lhe estava assegurado
no Céu e seu nome estava inscrito no livro da vida; os Anjos e os Santos o
esperavam no lugar dos Bem-aventurados e o chamavam de irmão.
Porém, para alcançar um tal píncaro é preciso não só
sofrer, mas saber sofrer. Assim, seus últimos anos de vida foram repletos de
sofrimentos, ocasionados estes em boa parte por seus próprios religiosos que já
não tinham confiança em seu Santo Fundador. Disse ele nessa penosa conjuntura:
“Eis-me aqui, Senhor, no Jardim das Oliveiras; humilhai-me, despojai-me;
dai-me a cruz, contanto que me deis também o vosso amor e a vossa graça“.
No dia 1º de agosto de 1868, às 14:30 hs, exalou seu
último suspiro. Tinha 57 anos e meio. Morreu em sua cidade natal, La Mure, na
mesma casa onde nascera. Sua congregação tinha então cinco casas na França e
duas na Bélgica, com cinqüenta religiosos.
“Nosso santo morreu!” foi o grito que se ouviu
nas ruas e nas casas daquela pequena localidade. A população inteira desfilou
diante de seus restos mortais. As pessoas iam com as duas mãos cheias de
objetos para serem tocados no corpo do Santo. Seus olhos, que não foram
fechados por respeito, guardavam uma expressão extraordinária de vida a ponto
de dar a falsa impressão de que não morrera.
Foi beatificado solenemente por Pio XI no dia 12 de julho de 1925 e canonizado
por João XXIII em 9 de dezembro de 1962.
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Fonte de referência:
Mgr. Francis Trochu, Le Bienhereux
Pierre-Julien Eymard, d’après ses écrits, son Procès de béatification et de
nombreux documents inédits, Librairie Catholique Emmanuel
Vitte, Paris, 1949.
Posted on Novembro 9, 2007 by Feri
http://ocatolicismo.wordpress.com/2007/11/09/sao-pedro-juliao-eymard-criador-da-adoracao-perpetua-do-santissimo-sacramento/